Contato de Emergência ♥ Mary H. K. Choi

Retipatia
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.

Você sabe a definição de Contato de Emergência? Para a maioria das pessoas, é aquele contato que será o primeiro a receber uma ligação se algo acontecer a você. Mas para Penny e Sam o conceito é um tanto quanto mais amplo, e inclui ser um salvaguarda para todo e qualquer problema da vida. Uma combinação irresistível que Mary H. K. Choi trouxe em seu livro de estreia.

Contato de Emergência (Emergency Contact)
Mary H. K. Choi
Tradução de Ana Rodrigues
2019 | 336 páginas
Editora Intrínseca

Disponível em Amazon

“O conceito de contato de emergência não é você estar muito morto e alguém ligar para ele no seu lugar?”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.
Sobre Mary H. K. Choi

Mary H. K. Choi é sul-coreana e cresceu em Hong Kong e no Texas. Atualmente, mora em Nova York. Ela escreve para publicações importantes, como The New York TimesGQ e Wired, além de quadrinhos para a Marvel e a DC. Também é repórter do Vice News Tonight, exibido pela HBO, e apresenta o podcast Hey, Cool Job!Contato de emergência é seu romance de estreia.

Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.
Sinopse de Contato de Emergência

Eles mal se conhecem. São apenas dois jovens trocando mensagens de texto. Mas cada palavra vai mudar suas vidas para sempre.

Essa é a história de Penny e Sam.

Ela tem dezoito anos e acabou de sair de casa rumo à universidade. Longe da mãe expansiva e do namorado sem graça, vai finalmente se dedicar ao sonho de ser escritora. Só não contava que essa nova vida traria também novos obstáculos: pessoas, o maior pesadelo de qualquer introvertido.

Ele, por sua vez, está perdido na vida. Em todos os níveis. Aos vinte e um anos, os poucos dólares na conta, a mãe alcoólatra e a ex-namorada complicada não o ajudam a se manter são. Só lhe resta fazer os doces mais mirabolantes para o café onde trabalha (e mora), concluir sua faculdade a distância e tentar (sem muito sucesso) não surtar.

Por um acaso do destino — também conhecido como um ataque de pânico no meio da rua —, eles passam a trocar mensagens de texto inofensivas. Mas o que começa como um simples contato de emergência salvo no celular se torna a conexão mais importante da vida deles.

Aos poucos, esses jovens introvertidos e problemáticos se tornam dois amigos dividindo angústias, sonhos, piadas e inspirações. Duas pessoas que quase nunca se veem, mas que estão juntas o tempo inteiro. Dois solitários que, finalmente, não estão mais sozinhos.

Contato de Emergência

Penny e Sam não se conhecem muito bem pessoalmente. Mas a história é outra quando se trata de mensagens de texto. Um é o contato de emergência do outro e, por mais que a ideia pudesse se restringir à necessidade de contato no caso de uma emergência, eles expandiram a ideia. Um funciona para o outro como um ombro amigo, pau pra toda obra, psicólogo sem formação, conselheiro, ouvinte, local de desabafo, depósito de frustrações e angústias. Tudo que a gente precisa para sobreviver ao mundo atual, ou no caso de Penny e Sam, a recém chegada à vida adulta.

“De outra bolsa, tirou um rolo de papel higiênico, uma cortina livre de germes para o chuveiro, um porta-escova de dentes que não acumulava água no fundo, um tapete novinho e toalhas. Penny arrumou tudo de uma forma que fazia perfeito sentido. O papel higiênico estava pendurado na direção correta (para ser puxado “por cima”, obviamente; “por baixo” era coisa de psicopatas).”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.

Penny pode ser descrita por Pringles, controle, comer qualquer porcaria, não lidar com os problemas, não lidar com a mãe, jogar a culpa nos outros (e na mãe), namorar sem gostar, se apaixonar por mensagens, roupas pretas, cereal com Cheetos com Nutella, kit de sobrevivência, escrever ficção, ama ficção científica, singularidade tecnológica, começando a faculdade, síndrome do impostor, solitária, odeia/afasta as pessoas, tem seu próprio idioma. Contato de Emergência de Sam.

“Penny se lembrou do ditado coreano usado para quando alguém gostava muito, muito mesmo, de alguma coisa. Dizia-se ‘encaixa perfeitamente no seu coração’. Sam se encaixava perfeitamente no coração dela.”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.

Sam pode ser descrito por: nunca filmar os documentários que deseja, sempre sem grana (sem grana mesmo), mãe alcóolatra, Lorraine / MzLolaXO, (quase) sem-teto, faz doces incríveis (de acordo com seu humor), faculdade à distância, ataque de pânico, relacionamento tóxico, roupa preta, solitário, não superou a ex (que talvez esteja grávida), tio Sam, fala o idioma Penny, quer ser cineasta. Contato de Emergência de Penny.

“A mãe dele costumava dizer que ninguém deveria se casar com alguém de quem não quisesse se divorciar, e agora ele entendia. Lorraine era o equivalente emocional de levar um tiro; a bala atravessa seu corpo, e a ferida que ficava era um show de horrores.”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.

Os contatos de emergência se mostram muito úteis em ligações do hospital em dia de aniversário da mãe ou quando a ex-namorada pode estar grávida e até em momentos aleatórios, como quando falta inspiração para escrever ou quando se achou a estrela para seu documentário. Apesar de muito diferentes e iguais nas roupas que costumam vestir e por serem extremamente introvertidos, Penny e Sam encontram um no outro mais do que amizade e amor, encontram confiança para lidarem com seus problemas.

“Penny pensou sobre o tipo de garota que adorava caras frágeis. Ou Ou incompreendidos. Costumava ser o mesmo tipo que acabava se casando com serial killers condenados à pena de morte.”

A narrativa de Choi nos leva por capítulos intercalados entre Penny e Sam, o que dá uma ótima visão de quem cada um deles é, de todas as suas neuras particulares, de todos os dramas e de tudo o mais que possa surgir. Além disso, ela tem um tom descontraído que combina com ambos os personagens. Estar na cabeça deles é, muitas vezes, tão louco quanto estar na nossa própria.

“As estratégias de algumas pessoas para lidar com a vida consistiam em remoer os problemas em segredo até cultivar um bem tumorzinho no coração, com direito a um ataque de pânico como acompanhamento. Cada um com seu cada um.”

Apenas deixo a ressalva que tive a sensação que a história demorou um pouco para engrenar. Não é um livro com uma grande reviravolta, com brigas destinadas a separar o casal que ficará junto no final (fico muito feliz por isso, inclusive), é muito mais sobre trajetória dos personagens, como se permitem (ou não) viver.

“Droga, se Penny não tinha a menor ideia do que ela mesma queria, por que seus personagens inventados se sairiam melhor?”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.

Um dos temas principais é a vida adulta ou o começo dela. É difícil definir que a idade x ou y que atingimos nos traga junto dessa “adulteza”, a capacidade de lidar com todos os problemas, equilíbrio emocional e maturidade. As coisas não funcionam assim e Contato de Emergência é um perfeito exemplo disso.

“Aja com coragem, viva com coragem e minta com coragem.”

Outro ponto bem legal é que temos uma história com um relacionamento tóxico, que pode não estar muito escancarado para todos os leitores, mas a vida de Sam é o perfeito exemplo que não apenas homens podem ser tóxicos, mas também as mulheres (e digo isso não apenas sobre seu relacionamento amoroso, também em seu relacionamento materno).

“O dever de casa não termina. Pilhas e pilhas de dever de casa emocional para sempre se você quiser se qualificar como adulta.”

Do lado de Penny, a autora guardou uma pequena bomba para ser revelada mais para o fim da história e, apesar de ser um tema importante a ser abordado, senti que ele caiu um pouco de paraquedas, ainda que seja algo que revele mais sobre a personagem.

“A gente não escolhe. A arte escolhe você. Se desperdiçar a chance, seu talento morre. E é aí que você começa a morrer junto com ele.”

E, um tema que é forte entre os dois personagens e que acaba respingando até mesmo nos secundários que surgem, como Lorraine, Mallorie e Jude é a maternidade. Sobre os diferentes tipos de mãe, de maternidade e que nem sempre ser da família, ter o mesmo sangue, significa ter um elo forte, inquebrável e repleto de amor.

“- Você é uma flor rara – disse Celeste. – E tudo bem. É bom ter padrões elevados. O que me preocupa é que você também se submete a esses padrões. É dura demais consigo mesma. Tanta análise, reflexão e planejamento estão impedindo você de viver. Aproveite o presente, Penny. Não afaste as pessoas.”

Essa não foi uma história de devorar, mas de apreciar aos poucos. De ver como os personagens foram criados, trabalhados, construídos. Choi fez um excelente trabalho nesse quesito e preciso dizer que, os pontos em comum que tenho com os personagens são os mesmos que trabalho em terapia e que eles trabalham cada qual com seu respectivo contato de emergência. Vida de adulto que chama, né!?

“Amar alguém era traumatizante. Nunca se sabia o que poderia acontecer com a pessoa solta no mundo. Tudo o que era precioso era também vulnerável.”

Além disso, a construção da história e o desenvolvimento da “subhistória” que Penny está escrevendo para sua aula da faculdade, é incrível. Ela se desenvolve, cresce e amadurece tal qual a personagem, tal qual a história ganha mais força e forma. Um paralelo incrível, além de falar de um tema bem atual: a influência do mundo virtual na vida real.

“Penny pensou sobre como certos físicos acreditavam que a realidade é uma simulação criada por civilizações do futuro para puro entretenimento. Não havia como saber quem estava dirigindo o espetáculo. Para ser o herói, você precisava decidir que o diretor era você.”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.

Contato de Emergência é uma história leve, divertida e que fala sobre o principal ponto de se chegar à vida adulta: lidar com as incertezas. É muito mais fácil seguir adiante quando superamos, perdoamos e compreendemos a nós mesmos, os nossos processos e aqueles ao nosso redor. Penny e Sam estão descobrindo como fazer isso, assim como é uma descoberta para qualquer um de nós, reles mortais que não tem certeza se vivem numa realidade simulada ou se os telefones Androids sonham com ovelhas elétricas.

“Os telefones Android sonham com ovelhas elétricas?”
Resenha Contato de Emergência de Mary H. K. Choi, publicado pela Intrínseca.
Aleatoriedades

Contato de Emergência foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca.

Depois de ler esse chuchuzim, fiquei pensando em algumas histórias que podem ser do mesmo estilo para indicar: Adultos da Emma Jane Unsworth, Teto para Dois da Beth O’Leary e Na Corda Bamba da Kiley Reid. Apesar de ter uma dose a mais de drama, recomendo também Novembro, 9 da Colleen Hoover.

Para as fotos da vez coloquei o Pringles em homenagem à Penny, mas não deu para juntar cereal como Cheetos e Nutella porque só mesmo ela para comer algo assim! ehehe

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...

%d blogueiros gostam disto: