Na Corda Bamba ♥ Kiley Reid

Retipatia
Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.

Na Corda Bamba é uma expressão que define bem a situação em que Emira Tucker está vivendo. Não apenas o caos de sua vida profissional, que ela não sabe exatamente o que fazer com ela, mas também após ser acusada de sequestrar a criança a qual ela é babá, uma trama intrincada irá se desbravar em sua vida. Uma que reflete os padrões da sociedade e o racismo estrutural que a autora Kiley Reid tão bem trouxe à discussão.

Na Corda Bamba (Such a Fun Age)
Kiley Reid
Tradução Roberta Clapp
2020 | 320 páginas
Editora Arqueiro

Disponível em Amazon

“Naquela noite, quando a Sra. Chamberlain ligou, Emira a princípio só entendeu algo como ‘levar a Briar sei lá onde’ e ‘te pago o dobro’.”
Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.
Sobre Kiley Reid

Kiley Reid recebeu a bolsa de estudos Truman Capote para cursar o mestrado no Iowa Writers’ Workshop, concluído recentemente. Vive na Filadélfia, Pensilvânia. Na corda bamba é seu primeiro livro e foi indicado ao Booker Prize 2020.

Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.
Sinopse de Na Corda Bamba

Certa noite, num supermercado de um bairro rico, Emira Tucker, uma jovem negra que trabalha como babá, é abordada por um segurança que a acusa de ter sequestrado Briar, a garotinha branca que está com ela. Uma pequena multidão se reúne, alguém faz um vídeo da situação e a comoção só termina quando o pai da criança aparece.

Alix, a mãe de Briar, fica chocada com o ocorrido. Bem-sucedida e dona de uma marca envolvida na luta pelo empoderamento feminino, ela decide que Emira merece justiça e resolve fazer de tudo para que isso aconteça.

A própria Emira, porém, só quer deixar a história para trás. Aos 25 anos, trabalhando sem carteira assinada e prestes a perder o seguro-saúde, ela está às voltas com os desafios da vida adulta e a última coisa que quer é ser exposta pela divulgação dessas imagens.

Mas, quando uma parte do passado de Alix vem à tona, ela e Emira são confrontadas com verdades que podem mudar para sempre o que elas pensam uma sobre a outra e sobre si mesmas.

Um romance essencial para os tempos atuais, Na corda bamba fala sobre como o racismo e o privilégio afetam as relações interpessoais no dia a dia. Com uma narrativa vibrante e provocativa, é também uma reflexão sobre como a necessidade de “fazer a coisa certa” pode nos colocar, às vezes irreversivelmente, no caminho errado.

Na Corda Bamba e o Racismo Estrutural
Você sabe o que é racismo estrutural?

Segundo Silvio Almeida, intelectual contemporâneo, o racismo na dimensão estrutural significa dizer que as instituições são racistas e o são porque a sociedade também o é. São as estruturas em que se baseiam as ordens jurídica, política e econômica que validam e mantém os privilégios brancos e contribuem para a prosperidade apenas desse grupo. Assim, as próprias instituições externalizam o racismo de forma cotidiana e sistémica.*

O racismo estrutural acaba se revelando de formas distintas, algumas são situações que podemos chamar de flagrantes, que qualquer pessoa consegue identificar. A questão é que, nem sempre, o racismo estrutural se mostra assim tão escancarado, já que ele está tão intrínseco ao sistema e às instituições que conhecemos, e, ao mesmo tempo, às atitudes e normas já postas. São questões que, muitas vezes, a camada privilegiada nem se dá conta de que é racismo. E é aqui que entra Na Corda Bamba, romance de estreia de Kiley Reid e que foi publicado pela Editora Arqueiro.

Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.
Na Corda Bamba… such a fun age

Quando chegou uma caixinha alaranjada aqui fiquei pensando que livro seria. Foi uma bela surpresa ver que a versão em português de Such a Fun Age, que eu já havia visto que tinha sido lançada recentemente aqui no Brasil, ganhou ainda por cima uma capa linda com ilustração da artista brasileira Mariana Sguilla (@marisguii).

No mesmo dia que o livro chegou por aqui, me debrucei nele. Numa noite, foi metade da história, no dia seguinte, eu sabia que precisava terminar. E assim foi. Uma leitura que fluiu rápido, intensa e cheia de nuances.

Uma combinação que acredito que apenas foi possível pela junção da narrativa leve de Kiley Reid somada à inteligente construção da história. E falando no livro, ele começa com uma ligação, a que mudará todo o rumo da vida de todos os personagens.

A história de Na Corda Bamba

Emira Tucker está na festa de aniversário de uma amiga quando recebe uma ligação de Alix, a mãe de Briar, a garotinha de quem ela é babá. Emira não entende muito bem o que aconteceu, mas Alix precisa que Briar fique fora de casa por um tempo e isso inclui pagamento em dobro. Não é Emira quem responde, mas seu saldo bancário precário.

E então, quando Emira pega a pequena Briar em casa e vai com ela até o supermercado do bairro rico em que a garotinha vive, para passar o tempo, ela é abordada pelo segurança da loja. Ele acredita que Emira sequestrou Briar. O que ele não diz ou diz de maneira indireta é que uma jovem vestida como ela, uma jovem da cor dela, jamais deveria estar com uma criança branca, num bairro rico, à noite.

Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.

A cena é filmada por um cara branco que estava no supermercado e a situação só se resolve quando o pai de Briar chega ao local. Mas Emira não quer processar ninguém, não quer ter sua cara em um vídeo viralizado na internet. Ela quer pensar na própria vida, na própria carreira e no que fazer para não precisar se desdobrar entre dois empregos.

O impacto da cena vem certeiro. Não é apenas o flagrante racismo que acontece na cena, que também é chocante e infelizmente corriqueiro, mas especialmente em como os eventos irão se desbravar a partir dali. É o termo ‘vida que segue‘ que se institui na história de uma maneira fantástica. Seguir adiante não significa estar livre de consequências.

A chama de Na Corda Bamba

A cena inicial da história, do supermercado, é como o riscar do fósforo da trama. Ela não será destacada a todo tempo, mas sim os desdobramentos dela. E, com isso, vamos seguir na narrativa de Emira, vendo seu sentir, seu ponto de vista, ideias, o que ela acredita, o que ela deseja, almeja.

De outro lado, seremos apresentados à Alix, a mãe de Briar que toma para si o que ela acredita ser uma nobre função, algo como uma salvadora para Emira. Ela acredita fielmente que, quanto mais intervir na vida de Emira, melhor a vida de Emira será. Afinal, do seu lugar de mulher branca, rica, que está a frente de uma marca sobre empoderamento feminino, o que mais ela deveria fazer? Ela não deveria agir?

Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.

Durante a trama, seremos levados à eventos passados, que servirão de base para conhecermos melhor tanto Alix, quanto alguns personagens que surgirão. E, no meio disso, virá a pergunta: o que são mesmo boas intenções?

Com essa pergunta, envolvendo mais de um relacionamento na vida de Emira, é que seremos levados a ver situações em que o racismo estrutural se faz velado e, em muitas pontos, em como ele também é alimentado pela diferença de classes.

Emira: a voz de várias mulheres negras

A importância da história de Emira está longe de ser (apenas) pelo estardalhaço que o crime no supermercado poderia gerar diretamente em sua vida. Está na profundidade de como crimes de racismo se entranham na vida das pessoas negras das mais diversas formas.

E uma delas é transmitida através da visão de boa samaritana que Alix quer assumir em relação à Emira. Que, na verdade, é mais um afago em seu ego e uma lustrada na sua própria imagem.

A personagem de Alix traz perfeitamente essa visão distorcida que os brancos têm do que os negros precisam, supondo, muitas vezes, sem ouvir o que a causa, o que a pauta pede. E, como alguém endinheirada, Alix sente como se tivesse uma obrigação moral de fazer alguma coisa, mas sem conhecer o outro lado. Ela parte das suas próprias ideias e convicções, definindo o que é melhor para Emira.

Tudo isso também faz parte do racismo estrutural e a forma que a autora escolheu para mostrá-lo na história é simplesmente incrível. Porque, no fim das contas, ela mostra o racismo enraizado, aquele que é mais difícil de identificar. Aquele que faz os algoritmos das redes sociais privilegiarem as fotos com pessoas brancas em relação às fotos com pessoas negras. Aquele que é abafado pelos ruídos das tragédias, dos crimes hediondos, das atrocidades que existem aos montes.

Uma surpresa não tão boa assim…

Não sou alguém que mantém as leituras muito organizadas na plataforma do Skoob, mas no geral, costumo anotar o andamento e quais livros estou lendo, por lá. Quando terminei de ler o livro e estava com aquela sensação boa de todo mundo precisa conhecer essa história, acabei me deparando com alguns comentários de que o livro não aborda o racismo e que não entrega o que promete.

Eu fiquei surpresa. Mas muito surpresa mesmo, porque o tema está em todos os capítulos da história, não apenas em relação aos eventos diretamente relacionados à Emira, como também dos personagens ao seu redor. Eu só consigo pensar… como ele não fala?

As entrelinhas, as mensagens ditas e não ditas, está tudo lá disposto tal como na vida, nem sempre tudo é fácil de ser identificado, analisado. E este, para mim, é um dos pontos mais inteligentes da trama. Mostrar como a nossa cultura, o sistema, nós mesmos, como tudo está impregnado com um racismo estrutural, institucionalizado que, perigosamente, passa despercebido muitas vezes. Não pelos oprimidos, mas pelos que oprimem.

E não é apenas isso…

Além de tudo que eu já coloquei aqui, não poderia deixar de lado um tema muito bom que Kiley Reid colocou na história. Logo de cara já sabemos que Emira se divide entre dois empregos e que, mesmo assim, a grana está sempre curta. E ela está rodeada de amigas que se formaram na faculdade, tal como ela, mas que estão seguindo e crescendo em suas carreiras.

Mas a questão é que Emira não sabe o que ela realmente quer enquanto vive uma transição para a vida adulta, sem se sentir realmente adulta. Mesmo tendo feito faculdade, ela não conseguiu chegar à nenhuma decisão concreta. E a pressão sobre querer uma carreira, querer crescer e ter mais e ganhar mais não é algo que ela almeja.

Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.

E a discussão implícita da história sobre esse ponto é maravilhoso. Não podemos negar que as gerações atuais são movidas à ideia de sucesso. Se o seu negócio não está crescendo, não é bom. Não é promovido, não é bom. Se você não tem aumentos constantes, não é bom. Não falo em termos de problematização de salários desiguais, de oportunidades. Mas pelo lado de querer sempre mais, de precisar ser sempre mais, ter algo sempre “melhor”.

Nossa cultura tende a isso. Mas até que ponto isso é necessário para uma vida com que estejamos satisfeitos? Ou felizes. Seja como for, vale a pena ler Na Corda Bamba e refletir sobre isso também.

Na Corda Bamba…

… é mais do que uma leitura leve, divertida e bem narrada, é uma história necessária para o mundo em que vivemos, é um alerta e um lembrete sobre como todas as nossas relações são influenciadas pelos privilégios, pelo racismo. O principal lembrete é de que aqueles que querem, efetivamente ajudar, devem antes de mais nada, aprender a ouvir o outro, a ouvir o oprimido.

Resenha do livro Na Corda Bamba, de Kiley Reid, publicado pela Arqueiro.
Aleatoriedades

O livro Na Corda Bamba de Kiley Reid foi cortesia da Editora Arqueiro.

* Fonte: Informações retiradas do site Revista Afirmativa, matéria Racismo Estrutural Segundo Silvio Almeida por Monique Rodrigues do Prado. Disponível aqui.

FUN FACT: Na Corda Bamba foi um dos livros do Clube de Leitura da Reese Witherspoon em 2020.

A dica de leitura da vez será o livro Teto para Dois de Beth O’Leary, que traz temas muito bons para debate e em uma narrativa fluida como a de Kiley Reid.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

3 thoughts on “Na Corda Bamba ♥ Kiley Reid

  1. Tá. Eu já sabia que encontraria muito mais aqui no blog, mas você sempre consegue me surpreender com esse mais rs
    Não entendia muito isso de racismo reverso, racismo no seu contexto mais amplo do sentimento ruim.
    E outro ponto super importante, até onde usar a bondade em favor de si mesmo? Acolher a dor do outro em prol de algo que é um projeto seu??
    Nossa, dá uma discussão imensa sobre um livro que tem um capa simples, que até remete ser uma comédia e do nada, destrói a gente por dentro em imaginar uma cena comum,mas que infelizmente é corriqueira nesse mundo do avesso que vivemos!
    Com certeza, quero muito esse livro em mãos!!!
    Beijo

    Angela Cunha/O Vazio na Flor

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