Abril Encantado: o livro de Elizabeth Von Arnim e o filme Um Sonho de Primavera de 1992

Retipatia
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Abril Encantado lança a seguinte pergunta: poderia um único mês na Itália ser capaz de mudar a vida de quatro mulheres? Talvez a ideia possa parecer um tanto quanto difícil, ainda mais quando se considera que são quatro estranhas dividindo uma estadia em um castelo na Itália, longe de todos aqueles que elas conhecem. Mas essa jornada promete ser mais do que um mês de descanso em suas vidas, promete ser um Abril Encantado.

Abril Encantado (Enchanted April)
Elizabeth Von Arnim
Tradução de Rachel Agavino
Wish | 2021 | 321p.
Disponível em Loja Wish (cupom RETIPATIA5)
“Isso só mostra quão imaculadamente boas fomos durante toda a vida. Na primeira vez em que fazemos algo que nossos maridos não sabem, nos sentimos culpadas.”
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Sobre Elizabeth Von Arnim

Nascida Mary Annette Beauchamp, foi uma novelista britânica de naturalidade australiana. Foi casada com um aristocrata alemão e suas obras mais conhecidas se passam na Alemanha. Depois da morte do primeiro marido, ela teve um caso de três anos com o escritor H. G. Wells, e mais tarde se casou com Frank Russel, irmão mais velho do escritor e filósofo Bertrand Russel, ganhador do prêmio Nobel. Era prima da escritora neozelandesa Katherine Mansfield. O primeiro casamento a tornou Condessa von Arnim-Schlagenthin e o segundo Elizabeth Russel, Condessa Russell. A publicação do seu primeiro romance a fez conhecida entre os leitores como Elizabeth Von Arnim, nome que adotou entre os amigos e familiares.

Sua obra de 1922, Abril Encantado, inspirada por uma estadia de um mês na Riviera Italiana, é talvez a mais leve e exuberante de suas obras, por vezes adaptada para os palcos e para o cinema. A adaptação mais famosa é o filme de 1992, indicado ao Oscar, intitulado Um Sonho de Primavera.

Sinopse de Abril Encantado

Em Abril Encantado, Elizabeth Von Arnim dá voz a quatro mulheres distintas que, cansadas de suas vidas cotidianas, resolvem viajar juntas para a Riviera Italiana durante o mês de abril, na primavera. Chegando lá no meio de um temporal, elas quase acreditam que fizeram o pior negócio de suas vidas, mas o amanhecer trará, além do sol e a beleza estonteante da primavera, o início de uma jornada de profundas transformações e de reconexão com a vida. Agora, se a mesma transformação puder ser realizada em seus maridos e amantes, então o encantamento estará completo.

Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Abril Encantado

Um anúncio no jornal. Um castelo na Itália. Glicínias. O mês de abril. E quatro desconhecidas. Essa é a receita mágica de Abril Encantado da escritora Elizabeth Von Arnim, que traz uma história que pode ser melhor definida como uma leitura feita com um sorriso nos lábios ou, quem sabe, perfumada como a brisa cálida da primavera que chega enquanto você se delicia com um chá gelado e uma boa música.

“Não eram para ela os castelos medievais, nem mesmo aqueles especificadamente descritos como pequenos. Não eram para ela as margens do Mediterrâneo em abril, as glicínias e o sol. Esses prazeres eram apenas para os ricos. No entanto, o anúncio tinha sido dirigido a pessoas que gostam dessas coisas, então, de alguma forma, também se dirigia a ela, pois certamente as apreciava; mais do que qualquer um sabia, mais do que alguma vez admitira. Mas ela era pobre.”

Quando a Sra. Wilkins vê o anúncio no jornal, a ideia a inquieta. Um castelo na Itália, disponível por um mês inteiro. Não seria uma boa ideia passar umas férias por lá? Umas férias do marido, da vida, inclusive. Mas por outro lado, estamos falando de um castelo, não é mesmo? Ela não é rica e sabe que sozinha, mesmo suas economias não seriam suficientes para uma viagem como essa.

“Durante anos, ela só conseguira ser feliz se esquecendo da felicidade. Queria permanecer assim. Queria calar tudo o que a lembrasse de coisas bonitas, que pudessem fazê-la ansiar outra vez, desejar…”

É enquanto ela está no Clube de Senhoras em Londres que, vendo o olhar perdido em devaneios da Sra. Arbuthnot, com jornal em mãos que a ideia chega em sua cabeça. E mesmo antes que ela dê por si, está tentando convencer a Sra. Arbuthnot de ir para a Itália. As duas desconhecidas, juntas, por um mês inteiro. Em um castelo, é claro.

“De qualquer forma, tenho certeza de que é errado continuar sendo boa por muito tempo, até a pessoa se tornar infeliz. E posso ver que você tem sido boa por muitos e muitos anos, porque parece tão infeliz – a Sra. Arbuthnot abriu a boca para protestar -, e eu… eu não faço nada além de obrigações, coisas para outras pessoas, desde menina, e não acredito que alguém me ame nem um pouco sequer… um pouco… o m-melhor… e eu desejo… ah, eu desejo… algo mais… algo mais…”

É certo que a Sra. Arbuthnot não foi convencida de pronto, mas a semente havia sido plantada em sua mente e não demora para que ela se convença de que sim, elas irão para o castelo na Itália. Com a decisão, ela imagina um modo de conseguir que as despesas pesem menos. E assim, ela e a Sra. Wilkins colocam um anúncio no jornal, para convidar outras mulheres interessadas na estadia. E é assim que a jovem Lady Caroline surge, assim como a Sra. Fisher.

“Temos sido muito boas… boas demais, e é por isso que sentimos que estamos fazendo algo errado. Estamos intimidadas… nem somos mais seres humanos de verdade. Seres humanos de verdade nunca são tão bons quanto nós. Ah, e pensar que deveríamos estar muito felizes agora, aqui mesmo na estação, indo viajar, mas não estamos, e tudo está arruinado porque nós mesmas arruinamos! O que fizemos… o que fizemos, eu gostaria de saber, além de, ao menos uma vez, querer viajar sozinhas e descansar um pouco deles?”

Não demora e acompanhamos o trajeto da Sra. Wilkins e da Sra. Arbuthnot da cinzenta Londres até a ensolarada e sorridente San Salvatore até o encontro com as outras duas integrantes, Lady Caroline e Sra. Fisher. E então, a mágica acontece.

“Que lindo, que lindo! Não ter morrido antes disso … ter tido permissão para ver, respirar, sentir isso… Ela olhava fixamente, os lábios entreabertos. Feliz? Palavra pobre, comum e cotidiana. Mas o que se poderia dizer, como se poderia descrever aquilo? Era como se ela mal coubesse dentro de si, era como se fosse pequena demais para guardar tanta alegria, era como se fosse lavada pela luz. E como era surpreendente sentir essa felicidade pura, pois ali estava ela, sem fazer nem pretender fazer nada de altruísta, sem fazer nada que não quissesse.”

Com frequência surge uma e outra história sobre uma mansão mal-assombrada, e são tantas e tão características que, ainda que suas histórias guardem suas próprias surpresas e reviravoltas, você sabe que a casa, o local é tão vivo quanto qualquer personagem. O pequeno castelo em San Salvatore é exatamente assim, ou o equivalente ao oposto de mal-assombrado. Ele é uma profusão de tons e cores do céu límpido às infinidades de flores que parecem sincronizadas para criar espetáculos nos jardins, somado aos aromas das flores à maresia e barulho do mar. É um personagem de Abril Encantado que traz toda uma aura leve, aconchegante e inspiradora para a história dessas quatro vidas que se cruzam.

“Até aquele momento, ela tivera que absorver a beleza enquanto ia vivendo, capturando pequenos fragmentos quando os encontrava – um canteiro de margaridas em um belo dia no campo de Hampstead, um lampejo do pôr do sol entre duas chaminés. Nunca estiver em lugares absolutamente lindos. Nunca estivera sequer em uma casa venerável; e algo como uma profusão de flores em seus aposentos era impossível para ela.”

E, falando em vidas que se cruzam, a narrativa de Elizabeth Von Arnim nos leva com sorriso no rosto pelos pensamentos e sentimentos de cada uma das personagens. A viagem, as férias, o descanso do mundo, tem para cada uma delas um significado. Ainda que todas queiram de fato, algum tipo de afastamento, estar no castelo traz uma revolução em seus sentimentos. E, cada uma à sua maneira e à seu tempo, é afetada pela mágica do abril primaveril no castelo em San Salvatori.

“As pessoas eram exatamente como moscas. Ela desejava que também houvesse redes para mantê-las afastadas. Batia nelas com palavras e carrancas, e, como a mosca, elas deslizavam por entre seus golpes e continuavam intocadas. Pior que a mosca, pareciam ignorar que ela tentara atingi-las. A mosca pelo menos ia embora por um momento.”

Além de nos apresentar a vida da personagens, seus dramas e particularidades, a autora nos guia entre vários questionamentos. O primeiro deles é colocado pela Sra. Wilkins tão logo a história se inicia. Ela diz a Sra. Arbuthnot que sabe que ela tem sido boa por muito tempo em sua vida porque ela tem uma expressão muito infeliz. A ideia aqui é muito interessante e, por mais que se trate de um livro lançado em 1922, se mostra (estranhamente? Infelizmente?) atual.

Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.
“Viajar sozinha era ruim; pensar era ainda pior. Nada de bom poderia resultar do pensamento de uma bela jovem. Complicações, sim, poderiam surgir em profusão, mas nada de bom. O pensamento das beldades estava fadado a resultar em hesitações, relutâncias e infelicidade por toda parte. E ali estava sua Miúda, se a mãe pudesse vê-la, sentada pensando bastante. E naquele tipo de coisa. Coisas muito velhas. Coisas em que ninguém começava a pensar até pelo menos os quarenta anos.”

Ambas as mulheres que devaneiam ao ler o anúncio no jornal e se imaginam a desfrutar de férias naquele local, estão em vidas que parecem não apenas repetitivas, mas sem brilho e sem felicidade. E se fala aqui qualquer tipo de felicidade, não existem pequenos momentos, pequenos agrados, tanto quanto momentos efusivos. Cada uma presa às suas realidades, estão apenas vivendo, tentando agradar a todos, menos a elas mesmas.

“Às vezes era como se ela não pertencesse a si mesma, como se não fosse sua de forma alguma, mas sim considerada uma coisa universal, uma espécie de beleza para todos os fins.”
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Quase cem anos se passaram e muitas vezes o papel da mulher se resume às suas obrigações, entre cuidar da casa, ser bem sucedida em seu emprego, ser uma ótima mãe, atenção e cuidados ao marido, cuidar de si, da família, dos amigos… Dar conta de tudo. A bondade que a senhora Wilkins diz é o que gostamos tanto de lembrar nos dias de hoje como a capacidade de dizer não. Um não que pode vir acompanhado de quero, posso, gosto. Mas um não que, muitas vezes e por muito tempo, foi negado às mulheres.

“Os cheiros doces que estavam por toda parte em San Salvatore por si só já eram o suficiente para gerar harmonia. Eles entravam na sala de estar vindo das flores nas ameias e se encontravam com os das flores dentro da sala, e quase, pensou a Sra. Wilkins, podiam ser vistos se cumprimentando com um beijo salgado. Quem poderia ficar zangado em meio a tanta delicadeza? Quem poderia ser cobiçoso, egoísta, à moda antiga de Londres, na presença dessa beleza abundante?”

É claro que alguns parâmetros da história ainda refletem bastante a época em que fora escrita, ainda que em alguns pontos as próprias personagens sirvam de contraponto para questionar tais papeis das mulheres no casamento, por exemplo. Um embate muito bem representado com a figura da Sra. Fisher que, mais velha que as demais, ainda tem um tom conservador que mesmo às outras três parece um tanto quanto ultrapassado.

Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.
“Ah, mas, em um vento forte, sem ter nada para usar e saber que nunca terá nada e que você sentirá cada vez mais frio até enfim morrer… é assim que era viver com alguém que não a amava.”

Mesmo assim, há alguns pontos que merecem ser vistos sob o olhar de hoje, mas também ciente da época da história. Um trecho interessante é quando um possível desentendimento iria surgir entre os personagens e é impedido graças à perspicácia (e bondade) de Lady Caroline. O homem, quando vai agradecê-la, diz: “Eu a adorei antes por causa de sua beleza. Agora a adoro porque você não é apenas tão bonita quanto um sonho, mas tão decente quanto um homem. […] você se comportou exatamente como um homem teria se comportado com seu amigo.” É, o decente como um homem é para, no mínimo, revirar os olhos. Mas também vale lembrar que a fala é dita por um homem, ainda que não haja ideia narrativa posterior que rebata sua colocação.

“O amor, mesmo o amor universal, o tipo de amor com o qual se sentia inundada, não devia ser testado. Era necessária muita paciência e discrição para que o casal fosse bem-sucedido em dormir junto. Placidez; uma fé firme; ambos também eram necessários.”
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

E falando em adendo, eis mais um. Confesso que me surpreendi com o rumo que a história tomou, quando, em dado momento, as férias que eram para ser isoladas de todos, passa a ser compartilhada também por alguns homens, como o marido da Sra. Wilkins, que percebe que deveria passar as férias com ele. Ao mesmo tempo que eu esperava que a história se mantivesse naquele núcleo feminino, com a vida londrina (maridos) das personagens deixada bem, em Londres, é compreensível que a a autora tenha escolhido esse caminho. Afinal, uma mudança que se restringisse apenas as integrantes do passeio, muito provavelmente se encerraria quando voltassem para casa. Mas a ideia de operar a mudança que o livro propõe, para a vida e não apenas para o momento, não seria possível sem tais personagens. Por fim Elizabeth Von Arnim me convenceu de que era o caminho mais sensato a percorrer.

“Suas mentes estavam ocupadas, e os sonhos que tinham eram claros, curtos, rápidos, inteiramentediferentes dos pesados sonhos que tinham em casa. Havia algo na atmosfera de San Salvatore que produzia uma atividade mental em todos, exceto nos nativos.”

Abril Encantado tem vários méritos que vão desde o questionar do papel da mulher na sociedade, enquanto esposa, mãe, amiga. A própria ideia de amizade e irmandade, de mulheres que se apoiam e se entendem e da busca pela felicidade que parte, essencialmente, daquilo que se tem na vida e não necessariamente, do que você precisa buscar.

Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.
“Havia, naquele ano, uma primavera particularmente maravilhosa, e de todos os meses em San Salvatore, abril era o melhor, se o tempo estivesse bom. Maio era chamuscado e murcho; março era inquieto e podia ser duro e frio em seu brilho; mas abril chegava de mansinho como uma bênção, e se fosse um abril bom, era tão bonito que se tornava impossível não se sentir diferente, não se sentir agitado e tocado.”

Os ares de San Salvatore em abril são realmente mágicos: são capazes de fazer uma velha se sentir jovem, alguém frívola buscar por profundidade e reflexão, uma beata ver a realidade dos pecados que não existem e apenas ela recriminava, e, claro, trazer a certeza de que a felicidade está ao alcance de si, e de todas as mulheres lá presentes, quando se permitem viver a primavera de suas vidas.

“O que tinha acontecido com ela? Por que abrira mão da âncora da oração? E também tinha dificuldade de se lembrar dos seus pobres, até mesmo de lembrar que havia pobres. As férias, claro, eram uma coisa boa, e todo mundo sabia disso, mas deveriam apagar tão completamente a realidade, causando tanto estrago?”

Se você procura por leveza com ar primaveril, um toque cálido de brisa com aroma de mar; por amores que nascem, amizades que se formam e laços que são restaurados; se quer sentir os lábios se curvarem para cima a cada virar de página e se deseja, acima de tudo, uma boa leitura, você pode preparar suas malas e garantir sua estadia no castelo em San Salvatore, é certo que você terá um Abril Encantado!

“Rose sentia profundamente em seu íntimo que se você já entediou alguém completamente, era quase impossível deixar de entediar. Uma vez chato, chato para sempre – pelo menos, sem dúvida, para a pessoa entediada, pensou.”
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Abril Encantado e sua adaptação para o cinema: Um Sonho de Primavera

Apesar de já ter se passado 70 anos de seu lançamento, em 1992 o livro de Elizabeth Von Arnim ganhou adaptação sob o mesmo título que foi chamada no Brasil de Um Sonho de Primavera (por que não deixaram o nome original???), com direção de Mike Newell. Além de contar com a premiada Joan Plowright, interpretando a Sra. Fisher, o elenco tinha Josie Lawrence como Sra. Wilkins, Miranda Richardson como Sra. Arbuthnot e Polly Walker como Lady Caroline. Além delas, Alfred Molina interpretou Sr. Mellersh Wilkins e Jim Broadbent, Sr. Frederick Arbuthnot.

“E quanto mais ele a tratava como se ela fosse realmente muito boa, mais Lotty florescia e se tornava realmente muito boa, e mais ele, por sua vez, também se tornava muito bom; de modo que eles davam voltas e voltas nesse círculo, não vicioso, mas altamente virtuoso.”

O longa foi indicado ao Oscar por Melhor Figurino, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Joan Plowright (Sra. Fisher). No Globo de Ouro, concorreu a Melhor Filme, mas as premiações vieram para Miranda Richardson como Melhor Atriz e para Joan Plowright como Melhor Atriz Coadjuvante.

“Velhos amigos, refletiu a Sra. Fisher, que tinha esperança de estar lendo, estavam sempre a comparando a pessoa com quem ela costumava ser. Sempre fazem isso se alguém se desenvolve. Ficam surpresos com mudanças. Eles voltam aos assuntos passados; esperam que nada mude depois de, digamos, cinquenta anos, até o fim dos dias.”
Fotografia de Miramax Filmes

Em termos de adaptação, o filme pode ser considerado bastante fiel ao livro de Elizabeth Von Arnim. Os motivadores da viagem, as características marcantes das personagens, estão presentes e o filme se vale até mesmo de momentos em que acompanha individualmente as personagens e seus pensamentos são narrados com a voz das atrizes.

“É verdade que ela gostava mais dele quando ele não estava lá, mas em geral gostava mais de todos quando não estavam por perto.”

Mas há outros que acredito valer serem mencionados, enquanto o livro traz uma sensação de profundidade acerca das personagens, o filme carece de aprofundamento em alguns pontos, que acabaram um pouco confusos ou superficiais. Por outro lado, alguns pequenos detalhes trouxeram maior clareza para alguns desfechos do livro (como a situação que ocorre com a chegada do Sr. Arbuthnot e o desenlace romântico de Lady Caroline). Ah e a fala acerca de Lady Caroline ser tão decente quanto um homem, não acontece. Mas pudera, afinal, o filme estreou 70 anos depois do lançamento do livro!

“[…] não era melhor sentir-se jovem em algum aspecto do que velha em todos? Haveria tempo suficiente para envelhecer em todos os aspectos de novo, tanto por dentro quanto por fora, quando voltasse ao seu sarcófago em Prince of Wales Terrace.”
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Outro ponto interessante é que a fotografia segue dois estilos, refletidos dos cenários às vestimentas das personagens; a primeira em Londres é sombria, acinzentada. Na Itália, a história ganha tons mais claros, fica florida, iluminada. Ainda assim repetiram bastante os mesmos trechos de jardim, e nada próximo à exuberância vista nos livros aparece. Não se tem sequências e cenas com amplas paisagens e deslumbres floridos, às vezes por limitação orçamentária, ou quem sabe, até mesmo escolha e estilo de produção da época.

“Eu a adorei antes por causa de sua beleza. Agora a adoro porque você não é apenas tão bonita quanto um sonho, mas tão decente quanto um homem. […] você se comportou exatamente como um homem teria se comportado com seu amigo.”

Um último adendo interessante e que é mais uma percepção minha, é que a personagem de Joan Plowright, Sra. Fisher, tem grande destaque na trama, talvez até um pouco mais do que no livro, tal qual a personagem de Polly Walker, Lady Caroline. Joan Plowright foi indicada ao Oscar e levou o Globo de Ouro por melhor atriz coadjuvante, ainda que seja difícil ver sua personagem, de fato, como coadjuvante nessa história. Por outro lado, Miranda Richardson foi indicada ao Globo de Ouro como Melhor Atriz, tendo levado o prêmio, mas seu papel no filme, especialmente a partir do momento em que estão na Itália é quase irrelevante e foi difícil perceber os motivos que levaram não apenas a identificar a personagem como principal, como a escolha da premiação, ainda que eu ache que ela é uma ótima atriz.

“Parecia que as pessoas só podiam ser realmente felizes em pares – qualquer tipo de pares, não necessariamente amantes, mas pares de amigos, mães e filhos, irmãos e irmãs -, e onde será que se encontrava a outra metade do par da Sra. Fisher?”
Resenha do livro Abril Encantado de Elizabeth Von Arnim publicado pela Editora Wish e do filme Um Sonho de Primavera, de 1992.

Aleatoriedades

Abril Encantado foi recebido em parceria com a Editora Wish (crush do meu coração).

Infelizmente não encontrei o filme disponível em plataformas de streaming e nem para compra e locação, mas ele está disponível no YouTube em uma versão legendada em inglês (é só clicar aqui para ver).

Para quem curte clássicos, a sugestão de leitura da vez é Razão e Sensibilidade de Jane Austen!

P.s.: todas as quotes do post são do livro.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...

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