Quando fui Girassol ♥ M. Becke

Retipatia
Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.

Quando fui Girassol traz uma história em uma realidade distante que não poderia ser mais atual: aquela em que a vida humana é um perigo à natureza. Que a luta pela sobrevivência do planeta é defendida por alguns e ignorada por tantos outros. Um romance que entrelaça dois lados diferentes da mesma história.

Quando fui Girassol
M. Becke
2020 | 278 páginas
Independente Amazon
Disponível em Amazon (Kindle Unlimited)
“O povo Kaija acreditava que cada animal da terra tinha alma, espírito e personalidade. E os humanos não estavam ali para combatê-los, mas sim viver junto, respeitando seus limites, aceitando que sua alma valia tanto quanto a nossa.”
Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.
Sinopse de Quando fui Girassol

Após décadas de brigas entre a cidade Karsten e o povo Kaija, Árya entende o motivo do segredo. Entende o porquê do mistério, da raiva e das histórias de terror que seu povo conta sobre os caçadores da cidade. Após o próprio desaparecimento dos pais Árya aprendeu que jamais deve ser vista fora da aldeia. Com o relacionamento difícil com a avó e a vida sufocante que leva, Árya encontra momentos de paz nas súbitas fugas que consegue fazer para a floresta. No cenário verde, limpo e tranquilo, ela renova as energias para com as responsabilidades que deve assumir dentro da aldeia.

O que Árya não espera é ser sequestrada por um grupo de caçadores durante uma de suas fugas, nem ser levada a força para a cidade. Em um momento de desespero surge a ideia de um acordo com um dos caçadores, Rowan. Apesar de saber que jamais deve confiar em um caçador, Árya pensa encontrar uma brecha entre as brigas constantes entre eles. Na tentativa de mostrar que o povo Kaija não é a ameaça que Rowan pensa, Árya assume o risco de provar que ele está errado. Porém, quando um acordo é feito com um caçador os perigos são mais altos do que o previsto, e Árya não sabe se pode confiar em Rowan para guardar seus segredos. Na distração de mostrar a ele sua realidade, Árya não percebe que Rowan esconde seus próprios segredos.

Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.
Quando fui Girassol: quando tudo começou
O livro contém algumas cenas de sexo descritas e violência, mas não é um romance erótico, ok! Recomendo para 14+

O mundo não é exatamente o mesmo que vemos hoje, mas podemos dizer que o ser humano, sim. Na mesma medida em que há bondade nele, há maldade. Na medida em que há respeito, empatia, solidariedade, há sede de sangue, vingança, egoísmo. Um ciclo infindável que parece nunca se romper.

Árya conhece esse ciclo tão bem quanto seus ancestrais do povo Kaija, que vive escondido há anos em medida de sobrevivência. Pessoas que vivem em sintonia com a natureza, que retiram dela apenas o necessário, numa coexistência harmônia nas terras secretas da floresta.

O motivo de se manterem escondidos por gerações tem nome: os caçadores. Homens da cidade cinza e dura que caçam com rapidez, precisão e sem remorso. Bem, quase todos. Um dos melhores homens, Rowan, até sabe o que é sentir remorso por uma caça. Mas esse é seu trabalho, é o único que possui, o único que aprendeu. E ele é bom nisso.

Não será a escória do povo Kaija que irá lhe impedir de fazer o seu trabalho, ainda que, vez por outra, insistam em destruir suas armadilhas. E ninguém desejará estar na pele de um Kaija ao se deparar com um qualquer caçador. Mas é bom que eles também não se aventurem sozinhos na floresta, já que o contrário, também não será perdoado.

Quando fui Girassol: a história de Árya e Rowan

Árya, como qualquer outra pessoa do povo Kaija, sabe do perigo, mas ao mesmo tempo, ela não é como todos os outros. Seu espírito livre precisa vagar pela floresta, sentir a água gelada do rio em sua pele, a textura da grama em seus pés. Sua conexão com a natureza está além daquela que seu povo possui, está além do respeito. Ela é parte do ciclo, parte da vida, parte do todo. E, assim, em uma de suas expedições do lado de fora da aldeia, ela é pega de surpresa por um grupo de caçadores.

Mas, mesmo na situação crítica, com alguns dos caçadores querendo lhe esfolar viva, e outros em dúvida de qual caminho seguir, ela consegue uma trégua: se convencer o chefe dos caçadores, Rowan, a crer no que ela crê, a ver o mundo com seus olhos, com os olhos de seu povo, ela não será levada para a cidade.

“Sentando ao redor da velha mesa de madeira da sala, as duas haviam montado diversos mensageiros do vento, que se batiam e faziam barulho quando o vento passava por eles. Seu pai contou que o vento que batia nas conchas e depois se dissipava espalhava boas energias por onde passava.”
“Ao contrário do que vocês acreditam que nós fazemos, nós sabemos reconhecer o perigo quando o vemos. Não temos a pretensão de imaginar que os animais dessa floresta não nos atacariam – não somos ingênuos. Simplesmente preferimos deixar seu espírito livre, deixar que a natureza cuide deles. Não matamos sua alma nem machucamos seu corpo.”
“Vocês podem viver muito bem sem matá-los. O que vocês fazem é desrespeitar o mundo em que vivem. Arrancam a pele do animal para se aquecerem? Para terem o que vestir? Empalham suas cabeças na sala para poderem ver o prêmio que conquistaram quando tiraram uma mãe de perto de um filhote? É pela glória? Porque tudo o que eu vejo é repulsivo.”

O que Árya não sabe é que, assim como ela guarda seus segredos, Rowan também tem os seus. Alguns que o atormentaram por toda a vida. Alguns que, se revelados, poderão mudar o peso da balança e acabar com a possibilidade de uma trégua, de paz. De amor.

Quando fui Girassol: A Bela e a Fera + Romeu e Julieta?

Ao ler sobre a história, talvez você já imagine que existam algumas semelhanças com o conto de fadas A Bela e a Fera, afinal, um enlace entre prisioneira e seu raptor? Ou mesmo quem sabe você pensou em Romeu & Julieta, com famílias – aqui um povo – inimigas, e um romance proibido. Bem, eu vou te dizer que você chegou quase lá.

Em dado momento eu até me peguei pensando “ela vai se apaixonar pelo sequestrador!? Síndrome de Estocolmo?” Mas a história não para nesse ponto e a autora conseguiu mostrar que ninguém é feito de um único ato. A ideia aqui é mais como quando a presa se torna o caçador.

A história de Árya terá o foco no seu romance, no surgimento de um sentimento inesperado mas que, ao mesmo tempo, pode ser a chave para acabar com preconceitos estabelecidos há anos infindáveis.

Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.

E, através disso, a história não deixa de lado outros pontos importantes: a relação que temos com a natureza, a forma com que a vemos, com que a tratamos e como lidamos com o mundo ao nosso redor. Aqui, a ideia não é, necessariamente, escolher um lado, determinar certo e errado. A história fala muito mais sobre o equilíbrio, o balanço, o respeito às diferenças.

Árya e Rowan: os protagonistas

Árya, a protagonista, sabe bem disso. Ela também é cheia de concepções certeiras que vão sendo desconstruídas ao longo da história e com sua convivência incendiária com Rowan. Ao mesmo tempo, ela não se esquece de quem é, de onde veio, das suas crenças. Seu mundo se expande, tal qual sempre sonhou, mas nunca imaginou como ocorreria.

Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.
“O que você é hoje, Árya?” “Hoje eu sou uma flor, mãe”, ela dizia, “e você?” “Se você é flor, hoje eu sou primavera.”
“A expressão de desgosto que surgiu no rosto dela o deixou transtornado, e pela primeira vez na vida ele ficou com vergonha de ser quem era. Porque ser caçador não era uma profissão, não era algo que podia ser desligado quando não se estava trabalhando. Ser caçador era uma opção de vida.”
“Vocês tratam a terra como se fossem donos dela, e não são. Ninguém é. Existe um equilíbrio muito frágil que comanda tudo isso, e vocês simplesmente passam por cima dele, como se não fosse nada demais. Tudo isso volta, Rowan”
Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.

O que não é diferente com Rowan. O povo Kaija, na cidade, e é certo, também para ele, é visto como inferior. Não são seres humanos, são animais ou piores que estes. E Rowan, em uma vida toda dedicada à caça, suprime qualquer sentimento que possa ter, até se deparar com Árya.

Um coração solitário e um coração quebrado que estão prestes a descobrir que, por mais que nossos atos possam ser apenas uma gota na imensidão do oceano, pode ser o passo que faltava para que mudanças aconteçam.

Quando fui Girassol: a narrativa

A narrativa da autora é fluida e traz beleza à história. E, ainda que ela se mantenha por um bom tempo na dupla principal (a narrativa se intercala entre os personagens, em terceira pessoa), é coerente e faz com que os personagens secundários também sejam bem introduzidos e todos permanecem fiéis às si mesmos.

E é ainda interessante como toda peça colocada em Quando fui Girassol tem seu lugar e motivo de ser. Becke traz uma narrativa romântica, sensual, alegre e bem medida com sua carga dramática. Criando um mundo esboçado pela ficção, mas finalizado pela realidade que nos circunda.

Resenha de Quando fui Girassol de M. Becke, publicado em 2020 na Amazon.

Em contraponto ao capitalismo devorador, à desigualdade mortal, temos o idealismo, as crenças e o estilo de vida do povo Kaija. Uma mostra de que a coexistência das pessoas e da natureza não precisa ser voraz. Pode ser orgânica, equilibrada, natural. Quando fui Girassol nos lembra não apenas que isso é possível, mas que existe em nosso mundo, que é alcançável e, especialmente, o quanto é necessário.

Uma leitura que eu recomendo para os amantes dos romances envolventes, que possuem um toque de fantasia e de mistério. Para quem acredita que esse mundo pode ser tão bom quanto desejarmos, que nossa existência pode ser bem mais um acalento do que uma infecção no planeta em que existimos!

“Seu povo nunca acreditou em acidentes, coincidências. Tudo tem motivo, tudo tem explicação, e o que não se podia traduzir através da língua do homem é cedido à Natura – a mãe Natureza. E quando a natureza fala, ela não sussurra, não esconde palavras através de indiretas. Ela grita. E era exatamente o que estava acontecendo agora.”
“Porque você se recusa a acreditar em qualquer coisa além da sua própria verdade. Você se recusa a aceitar outros mundos. Isso é fraqueza.”
“Ela era gentil. Com as pessoas, os animais, a terra, as árvores e o sol. Era gentil com a vida, com o universo. E este era gentil de volta, apenas para fazê-la sorrir, iluminar um pouco mais os dias nublados.”
Aleatoriedades
  • O livro Quando fui Girassol foi recebido em parceria paga com a autora M. Becke.
  • Para as fotos da vez, é claro que precisava de alguns girassóis, não é mesmo!? Eu até comprei um de verdade, mas se eu não vou contar que ele morreu com poucos dias de vida, apesar de meus esforços… rsrsrs
  • Para quem se pergunta de onde o título Quando fui Girassol veio, a ideia se mostra presente na história, relacionada à personagem principal e é bem legal!
  • Outras histórias que envolvem a relação do homem com a natureza que eu recomendo: Princesa Pocahontas de Virginia Watson | Um Lugar Bem Longe Daqui de Delia Owens | Bambi: a história de uma vida na floresta de Felix Salten | A Filha do Rei do Pântano de Karen Dionne

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

7 thoughts on “Quando fui Girassol ♥ M. Becke

  1. Achei sensacional, aborda um tema super necessário no meio da história, com certeza é um livro que quero ler, acho que vai ser uma experiência única!

  2. É inevitável não associar dois pontos na minha cabeça: o nome da personagem(Árya) que lembra ou é igual a uma menininha danada de forte em Got rs e também as referências sim, A Bela e a fera. Mas até que ponto? São dois povos que de certa forma se odeiam. Perseguição. Medo.
    E o amor aparece onde menos se espera. Não como a síndrome de Estocolmo, mas como a salvação para ambos. O medo precisa deixar de existir. A caça precisa se sentir segura, sendo livre.
    Eu só fiquei triste pelos girassóis terem morrido em alguns dias rs são flores tão fortes, tão belas, igual a todas nós!!!
    Já quero o livro, fato!
    Preciso elogiar as fotos? Claro!!!
    Obrigada pelo sorriso amarelo de novo!!!!
    beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor(@vazionaflor)

    1. Oi Angela!
      ahaha eu também lembrei de GOT por causa do nome, mas foi só num primeiro momento, porque a história não tem o mesmo estilo. A ideia da Bela e a Fera foi mais forte, mas gostei muito da condução que a autora trouxe para a questão e em como tudo pode mudar de uma hora para a outra. O amor aqui é a chave não apenas para a vida de Árya, mas para a de todo seu povo e até para os caçadores! É bem legal essa relação! ❤
      Nem me fala, não é o primeiro girassol que eu compro que morre. Eu não sei se o local onde eu compro eles já chegam mais velinhos, pesquisei sobre como cuidar, mas tô cuidando do cabinho pra ver se ele floresce de novo! ehehe
      Obrigada, lindeza!
      xoxo

  3. Eu adorei sua resenha, me fez ficar muito curiosa para ler o ebook. A personagem principal parece ser muito forte e determinada e o plost me é muito familiar. Tbm gosto muito de livros que trata a relação familiar, pela resenha notei um pouco que Árya não se dá bem com a avó….

  4. Gostei da resenha, esse livro vai para minha lista ele parece ser mt top, uma leitura diferente das que eu li até hoje, as fotos também estão uma graça.

  5. As fotos ficaram e fiquei babando no caderninho com a menininha, ja me interessei pela historia ele aparenta que vamos conhecer dois mundos distintos e de certa forma um retrato de nossa sociedade que precisa aprender vicer equilibrio

Repense, renove, rediscuta...

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