Resenhas Literárias

O Exorcista ♥ William Peter Blatty

O Exorcista (The Exorcist)
William Peter Blatty
HarperCollins Brasil
2019 / 336 páginas
“A melhor explicação para qualquer fenômeno – interrompeu Karras gentilmente – é sempre a mais simples que acomode todos os fatos.”

Sobre o Autor

William Peter Blatty foi um escritor e cineasta americano. O romance O Exorcista, publicado em 1971, é sua obra mais famosa. Ele também foi responsável pela adaptação do roteiro do filme O Exorcista, que estreou em 1973 e pelo qual ele ganhou o Oscar. O filme O Exorcista III contou com Blatty como roteirista e diretor.

Sinopse

Um clássico do terror com mais de 13 milhões de exemplares vendidos. Uma obra que mudou a cultura pop para sempre, O exorcista é o livro que deu origem ao maior filme de terror do século XX. Quatro décadas após chocar o mundo inteiro, a obra-prima de William Peter Blatty permanece uma metáfora moderna do combate entre o sagrado e o profano, em um dos romances mais macabros já escritos.

O mal assume várias formas. Seja com monstros, fantasmas ou demônios, tanto a literatura quanto o cinema sempre foram bem-sucedidos em representar a essência do nosso lado mais reprovável. O exorcista, no entanto, conseguiu superar qualquer outra obra do gênero. Inspirado no caso real do exorcismo de um adolescente, o escritor William Peter Blatty publicou em 1971 a perturbadora história de Chris MacNeil, uma atriz que sofre com inesperadas mudanças no comportamento da filha de 11 anos, Regan. Quando todos os esforços da ciência para descobrir o que há de errado com a menina falham e uma personalidade demoníaca parece vir à tona, Chris busca a ajuda da Igreja para tentar livrar a filha do que parece ser um raro caso de possessão. Cabe a Damien Karras, um padre da universidade de Georgetown, salvar a alma de Regan e ao mesmo tempo tentar restabelecer a própria fé, abalada desde a morte da mãe.

Neste livro, Blatty conseguiu dar ao demônio a sua face mais revoltante: a corrupção de uma alma inocente. A menina Regan é, ao mesmo tempo, o mal e sua vítima. Ela recebe a pena e a revolta de leitores e espectadores em doses equivalentes e, mesmo quarenta anos depois, seu sofrimento e o abismo entre o que ela era e o que se torna continuam nos atormentando a cada página, a cada cena. Um clássico do terror que se mantém atual como somente os grandes nomes do gênero poderiam criar, O exorcista não se trata apenas de uma simples história sobre o bem contra o mal, ou sobre Deus contra o Demônio, mas também sobre a renovação da fé.

O Exorcista

Talvez só de ouvir o nome O Exorcista algumas imagens já surjam na cabeça. É bem provável que mesmo quem não assistiu ao clássico longa dos anos 70 seja capaz de identificá-lo pela cena macabra da menininha com o pescoço virado em 180° ou mesmo quem sabe, aquele vômito esverdeado que nos faz agradecer o fato de que o cinema ainda não exala odores.

“Naturalmente curiosa, ela mergulhava nas pessoas, torcia as pessoas. Mas os livros não eram torcíveis. Os livros eram superficiais. Diziam ‘deste modo’ e ‘obviamente’ quando não havia nada óbvio; e os circunlóquios não podiam ser desafiados, não podiam sofrer interrupções irresistíveis e enternecedoras como: ‘Ei, calma, espera aí. Sou burra. Pode explicar melhor?’ Os livros não podiam ser explorados, desafiados, dissecados.”

Seja como for, é possível que o filme ganhe mais destaque pelo alcance que o cinema tem, mas é sempre bom lembrar de onde uma história surgiu. E, no caso do clássico, ele foi inspirado em outro clássico homônimo, do autor William Peter Blatty, que, convenhamos, não deixa nada a desejar em relação ao filme, para os amantes do terror. Aliás, ouso dizer, o livro é de uma profundidade que geralmente só se é alcançada quando debruçamos sobre páginas e vemos a história desenrolar não na caixa à nossa frente, mas em nossa mente.

Em O Exorcista a verdade é que talvez ninguém saiba ao certo quando tudo começou. Se foi com o tabuleiro de Ouija, com o livro desaparecido, com as roupas que mudaram de lugar, o amigo imaginário ou com os palavrões. A questão é que Regan, a doce menina de onze anos, filha de Chris MacNeil – uma famosa atriz de cinema – aos poucos deixa de ser a criança amável que sempre fora.

Talvez seja apenas uma fase, um reflexo por causa da recente separação dos pais. É o que se imagina… Mas o que se inicia com meras malcriações logo se torna uma grande preocupação: Regan está cada dia mais estranha, mais violenta, cada dia se parece menos com ela mesma. Chris sabe que há algo de errado com sua filha. E é por isso que, mesmo desejando manter-se longe de médicos, ela busca ajuda com diversos profissionais.

O mais espantoso é que nenhum tratamento surte efeito, o estado de Regan cada vez mais crítico, a mãe já não reconhece sua criança, mas apenas alguém que diz sujeiras e obscenidades a todo tempo. A razão, a medicina, tudo falha sucessivamente.

“No mundo, havia maldade, e grande parte dela resultava da dúvida, de uma confusão real entre homens de boa vontade. Um Deus razoável se recusaria a eliminá-la? Não revelaria finalmente a si mesmo? Não se manifestaria?”

De outro lado, acompanhamos a vida do padre Karras, que vê sua fé definhar dia após dia após a morte de sua mãe. O remorso o consome e, no papel de psicólogo dos outros padres, tudo o que faz é engolir a dor dos outros junto à sua.

E então, uma morte. O diretor do filme que Chris estava gravando em Georgetown despenca da escadaria próxima à sua casa. O terror a invade quando os indícios são piores do que se pode imaginar e, para completar, é impossível que algo passe despercebido pelo detetive William F. Kinderman.

Os destinos que inicialmente pareceriam não se encontrar, surgem com a medida desesperada de uma mãe. Como último recurso, Chris deseja que seja feito um exorcismo em Regan: quando nada mais faz sentido, mesmo sem crer em Deus, e propriamente em possessão, ela está disposta a fazer o que for preciso para salvar a vida de sua filha.

Ainda que contrariado, Karras vai investigar o caso e, cético, é também alguém que não acredita em exorcismo, mas sim em casos para tratamentos psicológicos e psiquiátricos. E, ao acompanhar o caso de Regan, se depara a todo instante com questionamentos que vão além de sua razão e desafiam suas crenças. Assim, diversas tramas e personagens se mesclam enquanto a vida de Regan está em jogo. Mas, ao final, quem irá prevalecer?

“O oculto é diferente. Eu me mantive longe disso. Acredito que mexer com ele pode ser perigoso. E isso inclui usar um tabuleiro Ouija.”

Um dos debates mais emblemáticos da história é a luta entre a racionalidade e a fé. E a vemos não apenas em Chris, que precisa lidar com uma situação extrema e se vê disposta a concordar com qualquer coisa que possa curar sua filha. Ela é cética, mas, como mãe, em desespero, se vê crente, agarrando-se à última esperança remanescente pela vida de Regan.

De outro lado, temos a fé em crise de Karras, juntamente com seu ceticismo quanto à existência do demônio ou de qualquer representação deste. Seus estudos o levam a crer que o problema de Regan é psicológico, que, de alguma maneira, ela foi capaz de desenvolver uma outra personalidade que está disposta a acabar com a primeira, da doce e gentil criança. Todos os pontos que surgem precisam ser investigados e refutados e é aí que as dificuldades se iniciam.

Acompanhamos o desenrolar de sua investigação, e nos pegamos questionando os mesmos pontos que Karras. Seria esta uma autêntica possessão? Todos os fatos estranhos que vem acontecendo podem ser explicados com racionalidade? Se podem ser respondidos, explicados, a solução só pode ser médica. Mas… e se não puderem ser explicados?

A história, é claro, traz questionamentos bem mais profundos do que a velha e conhecida dicotomia do bem e do mal, Deus e o diabo, o sagrado e o profano. Acreditar, ter fé, até que ponto tais questões são capazes de influenciar uma mente? A ideia macabra da possessão não apenas se revela traiçoeira ao vitimado, mas, especialmente, para aqueles que o rodeiam, que deixam de ver e sentir a pessoa que conheceram um dia. O quão triste e desesperadora uma situação como essa pode se tornar?

“E ainda acho que o alvo do demônio não é o possuído. Somos nós… que observamos… Todas as pessoas desta casa. E acho… Acredito que o objetivo seja fazer com que nos desesperemos, que rejeitemos nossa humanidade, Damien, que vejamos a nós mesmos como bestas, maus e podres; deploráveis, horrorosos e indignos. E talvez aí esteja o cerne da questão: na indignidade. Porque acho que a crença em Deus não é uma questão de razão. Acredito que seja, no fundo, uma questão de amor, de aceitarmos a possibilidade de Deus nos amar.”

É claro que o sentimento de revolta quanto à possessão não se encerra no fato em si. É tão brutal, é corruptiva. E faz questionar a razão da escolha de uma criança, uma vida inocente. O impacto seria maior? A punição seria maior? Não são pontos que se encerram aqui, eles sempre reverberam no cotidiano ao nos depararmos com uma grave enfermidade ou mesmo a morte de um inocente. A própria visão de inocência tem um viés interessante na história, já que a personagem de Regan é descrita inicialmente de maneira quase angelical. Talvez, para ajudar no impacto posterior, na dimensão da transformação que se passa tanto quanto utilizar do imaginário comum como elemento que valida a história.

Ao ler a obra, é possível compreender porque se tornou um clássico atemporal. Não apenas a trama é toda bem construída, como a narrativa é capaz de dar vários vislumbres do que acontece, do que se quer que seja deduzido, deixando lacunas interessantes para serem preenchidas pelo leitor.

O Exorcista foi a primeira leitura verdadeiramente considerada como terror que me aventurei a fazer, uma experiência inigualável e que, sem dúvidas, abriu portas para o desconhecido. Se recomendo? Sem dúvidas! Mas se prepare, tome cuidado caso ouça vozes incorpóreas, coisas de movendo sozinhas ou mesmo caso se depare com um tabuleiro Ouija…

“Mas se todo o mal do mundo faz você pensar que pode existir um Diabo, como explica todo o bem do mundo?”

Aleatoriedades
  • O Exorcista ganhou essa edição lindíssima de capa dura, com corte colorido e ilustrações nas folhas de guarda que está de arrancar suspiros! Obrigada a HarperCollins Brasil pela oportunidade da leitura, estou apaixonada com esse livro (pela edição e pela história)!
  • As fotos da vez foram complicadas, sempre acho difícil fotografar certos livros com tons marcantes, como esse que tem o verde neon, porque não quero elementos que briguem com a cor de destaque e, ao mesmo tempo, que façam sentido na composição… e, se possível, que tenham relação com a história. Aqui a Bíblia e o tabuleiro Ouija fizeram esse papel.
  • O Exorcista está disponível na Amazon nessa versão linda de morrer, recomendo muito!

Que a Força esteja com você!

xoxo

Retipatia

2 comentários

  1. […] no começo da HQ). O Exorcista foi uma das minhas leituras de 2019 e se tornou um favorito (clica para ler a resenha de O Exorcista). A história do clássico traz um misto de sentimentos quando o assunto é possessão e a HQ é […]

  2. […] quem curte terror, não posso deixar de indicar: O Exorcista de William Peter Blatty | Exorcismo: O Ritual Romano de El Torres e Jaime […]

Repense, renove, rediscuta...