O Feminino em As Tumbas de Atuan de Ursula K. Le Guin

Resenha do livro As Tumbas de Atuan de Ursula K. Le Guin, republicado no Brasil em 2022 pela Editora Morro Branco.

As Tumbas de Atuan é o segundo livro do Ciclo Terramar, e traz uma história que sucede O Feiticeiro de Terramar.

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que, mais uma vez, Ursula K. Le Guin me surpreendeu com sua maestria ao tecer a trama de As Tumbas de Atuan. É incrível como em uma história de apenas 168 páginas, exista todo um universo, cultura e sociedade a ser compreendida. Além, é claro, do universo da protagonista, que é chamada de Arha.

A história de As Tumbas de Atuan

Diferentemente das sagas que retomam à história precisamente do ponto em que a anterior parou, As Tumbas de Atuan traz uma nova perspectiva.

Afinal, o livro é sobre Arha e contada de seu ponto de vista. Enquanto o primeiro volume é sobre Ged, o Senhor dos Dragões, o próprio Feiticeiro de Terramar e a quem acompanhamos durante todo o primeiro livro.

Em As Tumbas de Atuan, conheceremos assim, Arha, a Devorada, a menina que é a reencarnação da Alta Sacerdotisa. Por essa razão, ela foi levada de sua família aos cinco anos de idade para começar a servir aos Inominados.

Quando cresceu, ela perdeu todas as lembranças da mãe, sem saber que as havia perdido. Ela pertencia a esse lugar, o Lugar das Tumbas, sempre pertencera a esse lugar.

É ela quem tem seu nome retirado, quem tem a alma devorada e que conhece os caminhos secretos e escuros das Tumbas. É ela quem derrama sangue quando exigem, é também ela quem conduz os ritos, dança diante do trono vazio e responde apenas à eles: os Inominados.

Quando um forasteiro aparece no Lugar sagrado, proibido para qualquer homem, em busca de um tesouro que não o pertence, Arha precisa descobrir a melhor forma de se vingar. Mas não apenas isso, ela precisa entender porque ele não teme os Inominados. Também porque não teme a escuridão e se sua feitiçaria é uma ameaça aos deuses.

Assim, é a partir desse ponto de conflito que a trama tem seu ponto de virada. Mas antes disso, desbravamos o universo de Arha através de sua rotina, dos ritos e afazeres, das poucas conversas, dos muitos pensamentos, das caminhadas solitárias pelo negrume das catacumbas e do desbravar do Labirinto.

É através disso que Ursula K. Le Guin opera sua mágica, tecendo camada a camada de uma trama que pode parecer simples num primeiro olhar, mas que é complexa, repleta de nuances e críticas à sociedade.

Resenha do livro As Tumbas de Atuan de Ursula K. Le Guin, republicado no Brasil em 2022 pela Editora Morro Branco.

Poder através da crença e da religião em As Tumbas de Atuan

Um dos pontos centrais pelos quais a história se desbrava é a questão das crenças do povo karginês em contraste ao que conhecemos na primeira história, com o Gavião.

Dentro disso, a autora traça com maestria as diferenças culturais, especialmente, sob o aspecto da religião e das crenças.

Afinal, o governo de Terramar é dos homens auto proclamados deuses, mas em Atuan, a crença dos deuses antigos ainda resiste aos fiapos através das adorações nas Tumbas.

O processo que acompanhamos então, na história é exatamente sobre esse esfarelamento das crenças, um embate entre o antigo e o novo e, em consequência, entre religiões.

Apesar da aparência de que elas convivem bem, basta algumas páginas, anedotas e observações de Arha para percebermos que, apesar da sua extrema devoção, ela não se expande a todas as pessoas que servem em Atuan.

Prova disso se põe no contraste da figura da Sacerdotisa do Deus-Rei, Kossil. A personagem apresenta parte da contraposição do poder que emana da Arha, não apenas por sua crença, mas também como a representante de todo um mundo que está em mudança.

Ao mesmo tempo, é interessante como o jogo de poder se move através e fundamentado nas crenças de cada uma: Kossil ao Deus-Rei, Arha aos Inominados.

Esse embate, então, não ocorre apenas na vida de duas mulheres, mas sim entre duas crenças que não mais aceitam coexistir. Enquanto uma luta para preservar o que ainda lhe resta, a outra quer se livrar dos fantasmas do passado e firmar como única e superior.

Kossil não trazia, no coração, uma devoção verdadeira aos Inominados ou aos deuses. Ela não considerava sagrada nenhuma coisa, exceto o poder. O Imperador das Terras Kargad detinha o poder agora e, portanto, aos olhos dela, ele era um deus-rei de fato e ela cumpria bem seus serviços a ele. Mas para Kossil os templos eram mero espetáculo, as Lápides eram rochas, as Tumbas de Atuan eram buracos escuros no chão, terríveis, mas vazios. Elas acabaria com a adoração do Trono Vazio, se pudesse.

O Poder do Feminino em As Tumbas de Atuan

Ao mesmo tempo, As Tumbas de Atuan é um livro em que quase todas as personagens são mulheres. Elas representam, dentro desse aspecto, uma variedade imensa de identidades, formas, estilos e personalidades.

Em sua pluralidade, representam também o papel da mulher em uma sociedade que tem seus traços machistas, facilmente detectáveis já em O Feiticeiro de Terramar. Como exemplo, enquanto os homens lá são dotados de poderes e nobres feiticeiros, as mulheres com poderes não passam de bruxas subalternas, inferiores e trapaceiras.

Ainda assim, é preciso destacar que o fato do embate principal ser representado por Arha e Kossil, é feito de maneira tão inteligente que é impossível rotular alguém como vilã. Não se trata de heróis e vilões, a busca aqui é por e liberdade e poder.

Assim, Arha e Kossil representam o embate, podem vivê-los em suas vidas devido à suas crenças, mas ele não parte de uma rixa, gosto ou desentendimento pessoal. Não parte do feminino ou de características comumente atreladas à ele. É sobre algo muito maior do que elas, ainda que também se relacione ao destino e vida de cada uma.

A Terra é linda, brilhante e gentil, mas isso não é tudo. A Terra também é terrível, escura e cruel.

Resenha do livro As Tumbas de Atuan de Ursula K. Le Guin, republicado no Brasil em 2022 pela Editora Morro Branco.

As nuances da liberdade em As Tumbas de Atuan

A essa altura, já foi possível perceber que o próprio feiticeiro de Terramar, Gavião, tem papel secundário na trama. Ainda assim, é uma inserção na história essencial para seu desenvolver e para abrir espaço para um desfecho na resolução do conflito entre as crenças. Logo, secundária, mas longe de ser desimportante.

Quando o personagem é introduzido no livro, representa o outro, o diferente. Não apenas por ser homem, negro, mas por ser forasteiro, detentor de magia e de crenças que Arha aprendeu serem duvidosas e indignas.

Para além disso, a figura de Ged é também essencial para o início do questionamento aprofundado de Arha sobre sua crença e a vida imposta. Isso porque ninguém melhor do que algo ou alguém fora do nosso costume, hábito e crença para nos despertar para a reflexão.

Ainda que o outro nos incomode, é apenas esse ultrapassar da nossa linha de conforto que nos permite ver o mundo e a nós mesmos sob uma nova perspectiva. E, assim, é a partir dessa estranheza e do confronto que a linha para a liberdade se trava para os dois.

Embora cada um de nós sozinho seja fraco, tendo confiança somos fortes, mais fortes do que os Poderes das Trevas.

Feminismo em As Tumbas de Atuan

Uma possibilidade que se abre para uma luta conjunta. Com isso, demonstra, com uma maestria sem igual, a necessidade da igualdade entre sexos que não estejam em constante competição, mas em plena caminhada lado a lado.

Essa ideia mostra uma vertente do feminismo que aprecio e que me lembrou do que Chimamanda Ngozi Adichie aborda em Sejamos Todos Feministas. O livro é, na verdade, uma palestra que a autora deu no TEDxEuston e está disponível gratuitamente em e-book. Destaquei um trecho que acho muito pertinente:

A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar’. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar.

Chimamanda ngozi adichie – sejamos todos feministas

Um ponto interessante é que isso caminha lado a lado com o que a autora, Ursula K. Le Guin, destaca no texto do Posfácio da edição da Editora Morro Branco, ao falar sobre o destino de Arha na história:

Minha imaginação não fornecia um cenário no qual ela conseguisse [escapar sozinha de Atuan], porque meu coração me dizia, em tom inquestionável, que nenhum gênero poderia ir longe sem o outro. Então, na minha história, nem a mulher nem o homem podem se libertar um sem o outro. Não naquela armadilha. Cada um tem que pedir a ajuda do outro e aprender a confiar e a depender do outro. Uma grande lição, um novo conhecimento para essas duas almas fortes, voluntariosas e solitárias.

ursula k. le guin – posfácio de as tumbas de atuan

A liberdade é, então, uma forma de mostrar o poder que temos em mão quando agimos em conjunto. É para dizer um adeus à balela da guerra dos sexos, porque ninguém conquista igualdade sozinha. Liberdade também não.

Resenha do livro As Tumbas de Atuan de Ursula K. Le Guin, republicado no Brasil em 2022 pela Editora Morro Branco.

Uma leitura incrível, inesquecível e com Selo Retipatia de Qualidade. Preciso deixar o adendo que a edição da Morro Branco está sublime e foi um deleite tê-lo recebido da editora, para leitura.

Para conferir dados sobre o livro, deixei a ficha técnica a seguir e o link da Amazon:

As Tumbas de Atuan

Ciclo Terramar Volume 2

 

Título original:
The Tombs of Atuan

Autoria:
Ursula K. Le Guin

Autoria:
Tradução Heci Regina Candiani

Editora:
Morro Branco

Ano de lançamento:
2022

ISBN:
978-6586015577

Gênero:
Fantasia Juvenil

Páginas (nº):
168
Para renascer é preciso morrer…
A garota não tem outro nome além de Arha, a Devorada. Desde os cinco anos, a vida de Arha foi prometida aos Inominados como sua mais alta Sacerdotisa, um dever ao qual ela está ligada mesmo além da morte. A Sacerdotisa dança sozinha diante de seu trono, e só ela conhece os caminhos secretos e cegos das Tumbas de Atuan e de seu Labirinto. É Arha quem derrama sangue por eles quando o exigem.
E, então, um jovem feiticeiro chega, com o seu coração concentrado no tesouro que está em algum lugar dentro do labirinto mortal dos Inominados. Ged sabe tudo sobre o poder dos nomes e os perigos de enfrentar a escuridão.
Para Arha, uma mulher criada nas sombras e que jurou guardar os túmulos, tudo o que ela conhece está em perigo. A Sacerdotisa terá de provar sua lealdade aos Deuses Inominados ou fugir da escuridão que se tornou o seu próprio domínio.
Aclamada como uma das melhores séries de fantasia de todos os tempos e ganhadora dos principais prêmios, como Locus e Hugo, a obra de Ursula K. Le Guin, que se tornou referência e inspiração para a literatura fantástica mundial, chega agora em versão definitiva com ilustrações do inigualável Charles Vess.

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