
Saindo do trabalho algumas dezenas de minutos depois do habitual, paro no passeio, esperando a maré de carros cessar enquanto abria a bala que iria comer no ônibus – enquanto ler-ia – e tinha à mente uma trivialidade qualquer que me levaria a analisar o glitter prateado de meus sapatos e à constatação, não muito revestida de novidade, de que tenho especial apreço por vestimentas na cor cinza – calçados inclusos – e, no soar do plástico que envolve a massa cor de rosa, o chiado da pólvora a incendiar se faz presente.
Num gesto automaticamente antipático, que vem depois do olhar de esguelha que identifica o sujeito alinhado da ação torpe, que agora incendeia o cigarro que é aparado na mesma mão em que jaz uma lata de Coca-Cola, espanto o ar para tentar espalhar o resquício já conhecido do cheiro do apagar do fósforo que tanto me faz pensar de ser esta a pior parte de se acender uma vela, fato este acompanhado de um singelo passo para trás na vã tentativa de evitar a fatídica primeira baforada que sempre se segue à primeira tragada. A cabeça que sai do terno repete meu olhar de esguelha, mas a mão livre da Coca abana a fumaça que vivamente, como se soubesse de minha fuga e me persegue, agindo como reflexo constrangido à antipatia. Abanada a fumaça, cigarro abaixado junto da lata, vai passos para trás.
Sinal abre.
Fora gentileza? Ainda é gentileza quando agimos porque sabemos que incomodamos?
Voltei ao cinza e ao glitter. As balas que comeria enquanto iria ler, sentada no sacolejar do ônibus, acabam antes mesmo que dê o sinal para entrar e os seis minutos que o mostrador indicava finalmente completam doze no relógio do tempo e sento no banco vazio, a pensar nessas palavras, no pulmão dele, no meu, e a certeza de que a Coca que bebi no almoço terá o mesmo efeito da que acompanhava o cigarro.
Crônica escrita na cabeça e passada para o papel no sacolejar do ônibus, num dia qualquer, num banco qualquer, com um lápis cor-de-rosa qualquer a saber, que, nem tudo na vida, precisa ser poesia para fazer sentido. Ou melhor, nem tudo precisa fazer sentido. A quem lê, não esquece de me contar se é amante de uma dose de Coca-Cola ou, quem sabe, de palavras alheias que não fazem sentido algum.
Que a Força esteja com vocês!
Ouvindo: Only Love Can Hurt Like This – Paloma Faith

