Para Ser Escritor – Parte I

Em 09.05.2016   Arquivado em Resenhas

Hello people!

Como cheguei a dizer escrever em Os Ismos Nossos de Cada Dia, esse era para ser o primeiro post com “conteúdo” aqui do Retipatia. Como o assunto anterior acabou passando a frente por necessidades claras, adiado foi, mas adiado não permanecerá.

Ganhei o livro Para Ser Escritor, de Charles Kiefer, em janeiro deste ano de duas pessoas muito especiais na minha vida. Sabendo do meu amor pela escrita, elas esmiuçaram atrás desse pequeno livro, até que o conseguiram e fui presenteada. Aproveito para reforçar o muito obrigada pela ótima escolha e pelo excelente presente!

Para quem já torceu a boca ao ler o título e não conhece a obra, e logo está pensando que o livro em questão não deve passar de uma versão barata de auto-ajuda para aspirantes a escritores, pare agora! Senta aí, pega um cafezinho e vamos conversar.

Charles Kiefer é do Rio Grande do Sul, professor de Escrita Criativa na PUC/RS e orientador em oficinas literárias, e claro, não menos importante, é escritor, com dezenas de títulos publicados. Estreou em 1982 com Caminhando na Chuva, – que já vendeu mais de 100.000 exemplares – e já ganhou vários prêmios, como o Jabuti, o Guararapes e o Afonso Arinos pelas obras lançadas.(Para Ser Escritor, Editora Leya).

Pois bem, eu abri as páginas de Para Ser Escritor e rapidamente devorei vários de seus capítulos, que são, na verdade, pequenos textos individualizados. Li como se lesse um romance empolgante, devorando as páginas rapidamente. Mas, em certo ponto, percebi que estava tudo errado. E quando digo tudo, era tudo mesmo. Não me recordava do teor da maioria dos textos e não tinha reflexão ou conclusão alguma do que eu havia lido. Não sabia sequer com o que concordava ou discordava.

Daí então, parei a leitura e bolei uma estratégia diferente. Iria ler, a partir de então, apenas um capítulo por vez, grifaria (me dói o coração assumir que esse é o meu primeiro livro em que literalmente usei um lápis e fiz pequenos asteriscos e chaves para destacar algumas partes. Sim, me sinto um monstro contando isso ainda por cima!) o que achasse importante e faria anotações disso (dessa vez usei post-it, não suportaria, de fato, fazer anotações no livro). E dessa vez, posso dizer que funcionou. Eu leio um capítulo, faço minhas anotações primárias e geralmente fico com aquele tema na cabeça por alguns dias, desenvolvendo as ideias, remoendo os pedacinhos que mais me marcaram. Acabam por surgir várias constatações e, por vezes, chego em assuntos que jamais pensei terem relação (talvez até não tenham mesmo e eu só tenha viajado na maionese, interligando os meus assuntos favoritos…).

Pensando em como o livro é maravilhoso e me faz refletir sobre vários aspectos do que compreende, de fato, ser um/uma escritor/a, somado ao fato de que livros maravilhosos devem ser sempre indicados, resolvi falar um pouquinho de cada um de seus capítulos. Para cada capítulo/texto, um post compartilhando um pouco das minhas reflexões com vocês e convidando a adquirirem seus exemplares e tirarem suas próprias conclusões e compartilharem aqui comigo.

Vale lembrar que não estou começando do início do livro, mas da parte em que reiniciei minha leitura “reflexiva”, por assim dizer e, quando chegar ao final, volto para o início, até chegar no “meu” começo novamente.

O capítulo/texto pelo qual iniciarei minhas anedotas é o 12º do livro, intitulado Rigor e Compaixão e fala sobre métodos de avaliação de conteúdo. Explico melhor: nesse texto, de apenas duas páginas, Kiefer vem retratar o fato de que nem sempre ele utiliza o mesmo método para analisar os conteúdos que seus alunos produzem. E, o que poderia inicialmente soar como falta de parâmetros para avaliar, se mostra, na verdade, como um método bastante elaborado. Como o autor destaca, cada aluno deve ser avaliado, incentivado e cobrado na medida de sua capacidade e grau de desenvolvimento. É um processo que exige um conhecimento muito mais aprofundado do professor para com cada um de seus alunos, mas que, segundo ele, dá resultados bastante frutíferos.

Não objetivando dizer que este seja o melhor ou mais eficaz método de análise, mas, pensando no método proposto pelo autor de realizar uma análise individual aluno a aluno, – no caso, aprendizes – levará, muito provavelmente a melhores resultados individuais. Se a ideia é que cada um possa crescer e desenvolver sua escrita, é difícil até mesmo defender que este não seja o melhor método a ser adotado para analisar as produções. Quantas e quantas vezes não nos sentimos subjugados em nossa vida estudantil e até acadêmica por termos todos que passarmos pelos mesmos métodos avaliativos, mesmo sabendo que essa nem sempre é a melhor forma de demonstrar todo seu conhecimento e aprendizado?

Particularmente, digo que me senti assim inúmeras vezes. De fato, tudo que é padronizado demais, tende, em alguns casos, a desatender as necessidades individuais. Na verdade, deixa de atender aquele conceito de justiça que alguns defendem: justo é tratar cada um na medida de sua desigualdade. Talvez seja melhor pensar apenas no trato de cada um, com igualdade, conforme suas diferenças (mas é melhor não adentrar demais nesse quesito apenas para não fugir ao tema em questão). Simplesmente, é impossível esperar que todas as pessoas sejam boas e eficientes nos mesmos graus e nas mesmas áreas. As aptidões são diversas e em graus muito diversos também. Posso efetuar uma tarefa com extrema facilidade que, para outros, seja penoso ou até difícil. E vice-e-versa.

Por outro lado, sempre fui daquelas alunas que era aplicada na medida em que entrava em sintonia com a didática do corpo docente. Se a didática, de alguma forma, me agradava ao ponto de que eu fosse capaz de aprender, a matéria e/ou conteúdo sempre se tornaram mais leves e fáceis para mim. O que não significa que isso seja assim para todo mundo, várias pessoas dão certo com o modelo padrão “brasileiro” de avaliação, unificado e invariável aluno a aluno, como acontece na maior parte dos casos. Para mim, ele funcionou também em alguns momentos mas, como disse, coincidindo-se com a didática aplicada pelo professor.

Divagações à parte, o método proposto por Kiefer é, com certeza, deveras trabalhoso ao professor e não dispenso o mérito de se comprometer de tal maneira. A construção de um novo mecanismo, não apenas para cada aluno, mas a cada produção daquele, respeita a individualidade e lembra que nenhum tipo de produção é igual a outra.

Experimente escrever um texto inteiro. Delete-o. Agora, o reescreva. Por mais que boa parte do que fora escrito esteja em sua memória e seja reproduzido, em partes, ipsis litteris, de modo algum será o mesmo texto. Você não é a mesma pessoa que escreveu aquele primeiro texto, não é a pessoa que foi há cinco minutos atrás. Você mudou e, assim, seu texto vai mudar também. Algumas ideias ficarão mais apagadas no texto do que estavam antes e outros pontos agora parecerão mais importantes, a ordem pode ser alterada, tantos e tantos fatores podem ser distintos.

E por isso, a cada vez que se analisa uma obra, devemos tanto nós, aprendizes de escritores, como avaliadores, ter a delicadeza de nos lembrarmos da independência e autonomia de cada obra em relação às outras, em relação ao contexto e época em que ela está inserida e em relação a quem escreveu. Isso me faz devanear um pouquinho demais me lembrando da tradicionalíssima e habitual comparação – entre obras de cunho totalmente distintos – entre filmes e livros. Não digo que não se possa comparar um filme ao livro que originou seu roteiro. Sim, o livro dá origem ao roteiro e esse é seguido na realização do filme, é bom lembrar. Mas é sempre importante lembrar também que cada uma dessas formas de arte tem seu próprio estilo e modo de apresentação ao público. O livro, invariavelmente exige um tipo de interpretação bem distinto, porque, na maior parte das vezes, não lhe fornece dados visuais daquilo que está retratando e, ainda que o faça, será sempre necessário o preenchimento de lacunas, que somente sua criatividade e imaginação poderão fazer. O filme, por sua vez, te dá todo ou quase todo produto já elaborado e muitas vezes deixa a imaginação um pouco guardada. O visual completa características que muitas vezes o livro nem mesmo citou, mas que, pela necessidade, foram incluídas e agora fazem parte daquela obra. Além do que, a exigência de reproduzir em duas horas um livro é simplesmente impossível, pelo próprio tamanho da obra ou complexidade. Assim como, em vários casos, a narrativa cinematográfica poderia se tornar deveras enfadonha ou inviável. A sequência de atos que funcionam em um filme nem sempre são as mesmas que funcionaram em um livro. Quer um exemplo bem simples? Odiadores ou não, creio que muitos assistiram a parte final da saga Crepúsculo (sim, eu gosto. Mas isso é tema para outra hora…), em que o final do livro e do filme foram trabalhados de modo bastante distintos, chegando, ainda assim, ao mesmo resultado. Ok, para quem não assistiu e/ou leu, segue um resumão:

Bella (ex-humana, agora vampira) e seu marido Edward mãos de tesoura, ops, só Edward, estão, junto ao clã Cullen e vários outros vampiros e a matilha de lobos/lobisomens, unidos para proteger a pequena Nessie (filha de Bella e Edward), já que o clã “do mal” Volturi deseja destruir (para não dizer matar) a menina, sob o pretexto de que ela seria uma criança vampira. Papo pra lá, papo pra cá, a briga começa, seu coração dispara no cinema quando Carlile (um dos mocinhos) tem sua cabeça arrancada e o circo pega fogo. Você não sabe onde está, o terreno é incerto e cheio de armadilhas e explosivos. Não para eles, que estão brigando no meio da floresta, mas para você, que não leu uma linha sequer desse balacobaco todo no livro. Até que, rufem os tambores, tudo não passou de uma visão da vampira do bem Alice, que mostrou pra galera do mal que se começassem a briga, não iriam vencer.

Bem, uma coisa é certa, a maior parte de nós, reles mortais, esperamos por essa briga durante todo o livro (para não dizer durante toda a saga) e ela simplesmente não acontece. E, se você a imagina, é por conta sua, já que tudo não passa de uma troca de olhares e leituras de pensamentos mútuos entre os vampiros oponentes. Daí eu te pergunto: se o filme tivesse permanecido na troca de olhares, singela, sem balacobaco, como o livro o fez, teria o efeito desejado? Creio que não, porque a ideia de um filme, ainda que seja contar a história que temos no livro, é também tornar aquilo visualmente interessante, fazer com que o espectador mantenha a bunda na cadeira durante aquelas mais ou menos duas horas e que sim, não vamos negar, recomende o filme, fale bem, venda, atraia mais gente.

Mas como foi que eu cheguei mesmo em Crepúsculo? Ah é, falando dos métodos, para evitar comparações que desconsiderem a autonomia ou necessidade de cada obra. É, acho que foi por aí. De toda forma, não vou deixar de lembrar que, como toda regra comporta exceção, acho que todo método, neste caso, pode ser visto como uma regra – cabendo exceção para ele também – e quase sempre que me refiro a um livro que tenha continuações, minha análise é sempre feita da obra inteira. As histórias parte um, dois até a vigésima sétima, se existir, muito provavelmente se tornará uma coisa fluida em minha memória e eu, mesmo sem perceber, acabo, muitas vezes, sequer tendo um livro ou outro preferido de uma série ou saga. Pelo simples motivo que, tudo acaba sendo uma coisa só na minha cabeça. E, como boa exceção à uma regra, essa minha exceção, caso se torne uma regra para sagas e séries, também comporta exceções, porque, em alguns casos, eu tenho os livros menos queridos, mas dificilmente terei os mais queridos. O que poderia então gerar outra exceção da exceção da exceção, então é melhor eu parar por aqui, ou talvez seja apenas eu analisando cada coisa de modo individualizado, como Kiefer propôs, cada história é cada história, nenhuma é parecida com a outra.

E, se nada é parecido com o outro, talvez seja melhor mesmo, repensar nossos métodos de constante comparação, que acabam por diminuir uma coisa em relação a outra, ainda que sem querer, acabando por desvalorizar a escrita de um ou de outro.

Escrever é, sem dúvidas, desafiador, mas é somente com a prática, que se progride. Para ser escritor, é necessário reinventar-se, sempre. E a ajuda adequada pode levar você longe! Como Kiefer bem descreve:

“Talvez não seja possível ensinar a escrever, mas é plenamente possível ensinar a aprender a escrever”.

Ouvindo: Trilha sonora de Forrest Gump

  • Nanda

    Em 09.05.2016

    Bem legal o posicionamento com relação as diferenças entre um livro e sua adaptação ao cinema, é justamente o que eu penso também, as pessoas tendem a querer comparar tudo e acabam criticando um ou outro sem a menor necessidade. É totalmente plausível gostar de um livro e da sua adaptação cinematográfica sem ficar fazendo essas comparações, que por muitas vezes acabam sendo infundadas.
    Sobre o livro para aspirantes a escritores, achei bacana, pelo visto ele tem vários pontos que servem de base e/ou até mesmo um norte para quem está apenas começando, o que não é o meu caso, não pretendo ser escritora, então sigo apoiando e dando pitaco nas suas obras mesmo! =D

  • Luly

    Em 09.05.2016

    Gente, quero esse livro! Acho que nesse caso não tenho problemas em sublinhar coisas e tudo mais, na verdade até gosto… Mas isso é assunto pra outro momento, hahahaha!
    Referência é tudo nessa vida. Realmente não podemos deixar de ter parâmetros para comparar ou até mesmo corrigir coisas. Existe uma diferença muito grande em “tratar igualmente” e “tratar com justiça”: a justiça é algo muito mais complexo e, na minha opinião, até melhor. Mais “justa” mesmo!
    Inclusive gostei muito do exemplo que você usou pra comparação porque faz total sentido! Só é difícil fazer as pessoas entenderem, né…

  • biancapalaci

    Em 09.05.2016

    Não conhecia esse livro, mas achei muito interessante, vou ver se encontro por aqui.
    Beijos
    Bluebell Bee

  • Retipatia

    Em 09.05.2016

    Vale a pena Bianca! É excelente livro! 🙂

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