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Mar Aberto de Caleb Azumah Nelson

Foto em flat lay com livro Mar Aberto à esquerda e abaixo, por sobre uma bandeja de madeira que cobre a metade direta da foto sobre fundo de madeira, ao lado esquerdo da foto, um lenço cor caramelo com um fone de ouvido estilo headphone acima do livro, à esquerda da foto também.

Um Mar Aberto inesquecível

Alguns livros são mais complexos de serem resenhado porque não conversam conosco. Já em outros casos, como em Mar Aberto, isso acontece porque existem tantas camadas na história que um único texto jamais seria capaz de expressar todos os pormenores.

Mar Aberto é tão repleto de camadas em suas poucas 208 páginas que o que você vai ler aqui é apenas um vislumbre das facetas de uma história que se não encerra na última página. Um vislumbre que, entenda, desejo fortemente que seja o suficiente para te levar imediatamente para as páginas do livro.

Foto em flat lay com livro à esquerda e abaixo, com ênfase na capa e, ao lado direito e para cima, uma xícara sobre porta-copos de madeira sobre mini disco de vinil.

Mar Aberto

Seria fácil descrever o livro de estreia de Caleb Azumah Nelson com os tropes do momento: você pode escolher entre o queridinho friends to lovers (de amigos a amantes), ou, imaginando um pouquinho mais, até mesmo only one bed (só tem uma cama).

O problema é que eu estaria apenas resumindo sua trama rica, sua narrativa única e todos os temas abordados sob subterfúgios frágeis.

A trama que se desprende pelas páginas de Mar Aberto nos apresenta a um jovem britânico, negro, fotógrafo, que está naquela constante procura do seu lugar no mundo, enquanto precisa lidar com o luto, um amor forte que desabrocha na rudeza do inverno e toda a realidade que envolve ser homem negro no mundo de hoje.

Que vida estranha que você e outras pessoas negras levam, eternamente visíveis e não vistos, eternamente ouvidos e silenciados. E que estranha uma vida é para ter que conquistar pequenas liberdades, ter de dizer a si mesmo que pode respirar.

Do outro lado, há ela, a garota britânica, a bailarina, a que tem aroma de lar, que ilumina onde está, os outros, a si mesma. Ela que é sua melhor amiga, que não apenas te olha, também te vê.

No fim e no começo, Mar Aberto é exatamente sobre isso: o desabrochar do romance, são dois jovens que se conhecem em um pub no sudeste de Londres, como diz a sinopse. E é por causa por causa e através do apaixonar-se, é que ele escava bem mais fundo em suas tantas outras camadas.

Logo você iria descobrir que o amor o tornava preocupado, mas também o tornava bonito. O amor o tornava negro; quer dizer, você ficava mais retinto quando estava na presença dela. Isso não era motivo de preocupação; era preciso exultar! Vocês podiam ser vocês mesmos.

Foto em flat lay com livro Aberto à esquerda e abaixo, mostrando a folha de rosto, e, ao lado direito e para cima, uma xícara sobre porta-copos de madeira sobre mini disco de vinil.

Você: entre o dito e o não dito

Uma das belezas da narrativa rica de Caleb Azumah Nelson é exatamente esse você. A narrativa segue do início ao fim na segunda pessoa, contando a história a você, você que estava lá, viveu, viu, sentiu.

Você, que não apenas lê, é colocado no lugar do protagonista. E o mais interessante é que esse detalhe marcante da narrativa tem seu contraponto curioso: personagens secundários, esses sim ganham nomes. Já o protagonista, é você, e ela é, bem, ela.

O que é melhor do que acreditar que você está caminhando em direção ao amor?

Do prólogo ao último capítulo, seu nome não surge, o dela, tampouco. Do começo ao fim são você e ela, os dois jovens que se conheceram em um pub no sudeste londrino, mas ainda assim, completamente diferentes.

O interessante é que isso ajuda a deixar espaço aberto para se colocar no lugar, para entender e, especialmente, para imaginar. O que abre um espaço de debate necessário com toda a temática da masculinidade e subjetividade negra presente na obra.

Foto em flat lay com livro Aberto à esquerda e abaixo, com ênfase na capa e, ao lado direito e para cima, uma xícara sobre porta-copos de madeira sobre mini disco de vinil.

Masculinidade: força, fragilidade e cor

Para além do romance, a trama é permeada da realidade do jovem negro em terras britânicas. Do medo a dor, do temor da violência ao preconceito e estereótipos.

No meio disso tudo, a pergunta que urge é: onde é que entra o espaço para ser você mesmo? Onde é que existe espaço para a fragilidade, para ser, pertencer, para o respeito e tudo que envolve o existir?

Você não quer morrer antes de poder viver. Isso é fundamental e audacioso, mas você quer aproveitar ao máximo enquanto ainda pode.

É com extrema sinceridade, realismo e intimidade que a trama nos mostra, a partir da subjetividade negra, o romance que nasce e é cultivado entre amigos, tanto quanto as relações de trabalho, estudo, família, amizades e comunidade.

Como a sinopse adianta:

[…] o que é ser um indivíduo quando o mundo enxerga apenas um corpo negro, como ser vulnerável quando apenas a força é respeitada[…]

A música em Mar Aberto: uma playlist para o livro

Tal como personagens complexos, repletos de facetas e suas próprias histórias seguindo seu fluxo, Mar Aberto é exuberante em referências.

A localidade reside na Inglaterra, mas sua história também é de Gana, também é do amor à distância que se estende pelas estações.

Além disso, o livro traz consigo elementos que são muito mais do que decorativos, a própria música é um elemento tão forte que é uma ambientação, um personagem com corpo próprio que ajuda a contar a história, a dar-lhe forma, tom e profundidade.

Você está ouvindo “Grief”, do Earl Sweatshirt, porque essa música dói, mas termina com um refrão alegre. Você está tentando sentir alguma coisa, qualquer coisa, mas está entorpecido. A música que você vivenciava com ela parou. Você está tentando tocar a mesma música que tocavam juntos, porém a dupla se tornou um só, e sem ela não tem onde você possa requebrar e remexer. A música parou.

Esse aspecto salta tanto aos olhos no livro (ou seria salta aos ouvidos?), que me inspirou a escrever o Capítulo 50 da minha newsletter, Gentileza Literária, abordando exatamente a ambientação que a música trouxe para a história.

Ah, e foi a partir dos destaques de todas as menções musicais do livro que criei a playlist que está no post e que recomendo muito!

Foto em flat lay com livro Aberto com marcador de páginas sobreposto, à esquerda e abaixo, com ênfase na capa e, ao lado direito e para cima, uma xícara sobre porta-copos de madeira sobre mini disco de vinil.

Para além da música: James Baldwin e outras referências

Mesmo que a música seja um marco em Mar Aberto, existem outras inúmeras referências incríveis que acompanhamos durante todo o livro.

Das raízes do protagonista e de sua família em Gana à arte, filmes, séries, escritores e artistas. É impossível seguir a leitura sem conhecer novos nomes e fazer buscas.

Algumas das referências de filmes passam por Moonlight: sob a luz do luar e Se a rua Beale falasse, artistas como Lynette Yiadom-Boakye e a escritora Zadie Smith, sempre de maneira a dar forma à um pensamento ou de refletir o tom de um momento.

James Baldwin é um nome que se destaca como uma referência marcante para o personagem através dos dizeres:

Só quero ser um homem honesto e um bom escritor.

James baldwin

O trecho, em especial, sobre ser um homem honesto, é um lembrete indelével na história que se relaciona profundamente com o debate da masculinidade e da negritude, sobre como ser frágil, como ser vulnerável, como ser você mesmo, quando tudo o que veem é, de antemão, só um corpo negro, quando tudo que se espera é força, força, força.

Vocês estão seguros aqui, você disse. Vocês são vistos aqui. Vocês podem viver aqui. Estamos todos sofrendo, você disse. Estamos todos tentando viver, respirar, e somos impedidos por aquilo que escapa ao nosso controle. Descobrimos que não somos vistos. Descobrimos que não somos ouvidos. Descobrimos que fomos rotulados de forma injusta. Nós que somos os barulhentos e os raivosos, nós que somos os ousados e os impetuosos. Nós que somos pessoas negras.

Foto em flat lay com livro Mar Aberto à esquerda e abaixo, com ênfase na contracapa.

Amor que os lança em Mar Aberto

Em se tratando do desenvolvimento do romance, Mar Aberto é de arrancar suspiros e apertos no peito. A construção do relacionamento é aprofundada, realista e sensível. Dessa forma, o romance romântico s estabelece tanto como protagonista da trama como pano de fundo.

É isso o amor? A sensação de segurança? E aqui está você, seguro na presença dela, separados apenas pelo silêncio um do outro.

Por isso, o livro é também sobre sobre amar e se deixar amar, e mais, é com esse fio romântico-realista que todos os outros temas são abordados e delineados.

Desde o debate sobre negritude, desigualdades, violência, vulnerabilidade e masculinidade, tudo isso brota exatamente do relacionamento que começou onde provavelmente você também se lembra: num pub no sudeste de Londres.

Um livro com Selo Retipatia de Qualidade, que é também uma leitura do melhor tipo: não se encerra na última página.

Ela se lançou em mar aberto, e você não demora a se juntar a ela.

Ficha Técnica de Mar Aberto

Mar Aberto

 

Título original:
Open Water

Autoria:
Caleb Azumah Nelson

Autoria:
Tradução Camila von Holdefer

Editora:
Morro Branco

Ano de lançamento:
2024

ISBN:
978-6560990043

Gênero:
Romance | Ficção Literária | Contemporâneo

Páginas (nº):
208
Fruto de uma das principais vozes da literatura britânica da atualidade, o romance de estreia de Caleb Azumah Nelson ecoa uma história de amor que floresce entre as rupturas do mundo e a condição negra contemporânea
Dois jovens se conhecem em um pub no sudeste de Londres. Ambos são negros e britânicos e receberam bolsas de estudo em colégios particulares, onde lutaram para pertencer. Agora, ele é fotógrafo; ela, dançarina – artistas tentando deixar sua marca em um mundo que ora celebra sua existência, ora a rejeita. De forma terna e cautelosa, apaixonam-se. Mas mesmo pessoas que parecem destinadas a ficar juntas podem ser separadas devido ao medo e à violência.
Uma história de amor lancinante e bela, Mar aberto é também uma visão intensa sobre cor e masculinidade. O romance dá espaço para questionamentos prementes da subjetividade negra: o que é ser um indivíduo quando o mundo enxerga apenas um corpo negro, como ser vulnerável quando apenas a força é respeitada ou mesmo como encontrar segurança no amor ainda que frente à possibilidade de perdê-lo.
Com uma escrita intensa e sensível, Mar aberto , romance de estreia de Caleb Azumah Nelson, rapidamente alcançou o status de best-seller internacional e ganhou os prêmios Costa e British Book, tornando-se uma das obras mais imprescindíveis da atualidade.

Livro recebido em parceria com a Editora Morro Branco: clique aqui para mais resenhas de títulos da Editora!

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