Todas as Cores do Céu ♥ Amita Trasi

Retipatia
Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.

Todas as Cores do Céu traz uma história forte, impactante, angustiante. Um olhar sincero e realista sobre a vida de milhares de mulheres vítimas do tráfico sexual, de vários tempos, através das palavras e vidas de Mukta e Tara. Você precisa conhecê-las.

Todas as Cores do Céu (The Color of Our Sky)
Amita Trasi
Tradução de Caroline Chang
2019 | 384 páginas
HarperCollins Brasil

Disponível em Amazon

“A realidade, no entanto, é que há cerca de dez novas crianças desaparecidas a cada hora na Índia e mais de setenta por cento delas nunca é encontrada.”
Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.
Sobre Amita Trasi

Amita Trasi nasceu e foi criada em Mumbai, na Índia. Ela tem MBA em gestão de recursos humanos e durante sete anos trabalhou em diversas corporações internacionais. Atualmente mora em Houston, no Texas, com seu marido e dois gatos. Este é seu primeiro romance.

Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.
Sinopse de Todas as Cores do Céu

Aos dez anos, Mukta é forçada a seguir um ritual de sua casta, que, essencialmente, a torna uma prostituta. Para salvá-la deste horrível destino, um homem a resgata e lhe dá um lar. Tara, filha dele, cria um laço especial com a criança recém-chegada — um vínculo digno de irmãs. A amizade sofre um baque definitivo, entretanto, quando Mukta é sequestrada.

Anos depois Tara retorna à Índia para encontrar Mukta que, ao que tudo indica, foi submetida novamente à prostituição. Mas a extrema pobreza em Bombaim se mostra uma realidade mais difícil do que Tara consegue suportar. Relato emocionante e realista da Índia contemporânea, Todas as cores do céu mostra como o sistema de castas explora os mais fracos, e como o amor nos faz buscar a reparação para nossos atos mais horríveis, vencendo barreiras impenetráveis.

Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.
Todas as Cores do Céu
A leitura pode conter gatilhos, temas de abuso infantil, estupro, prostituição, violência, violência contra a mulher.

Todas as Cores do Céu irá nos contar a mesma história, por dois lados. É a história de Mukta, tal qual ela a viveu e, também, tal qual Tara a conheceu.

“Conseguia ouvir o som da nossa risada, sentir o cheiro da minha infância — a comida que Aai costumava preparar e com a qual amorosamente me alimentava —, aquele perfume flutuante do açafrão do pulao, de dal aromatizado com cúrcuma, as doces rasgullas. Não havia nenhum desses cheiros, claro, não mais. Só o que restava era um odor bolorento de portas fechadas, de segredos enterrados.”

A história de Mukta começa em 1986, quando ela ainda era criança. Mas sabemos que sua história foi escrita há muitos anos, quando mulheres se tornaram devadasis, as servas de Deus. Sob um olhar contemporâneo e ocidental, poderia ser outro significado: escravas dos homens. Isso porque as devadasis são como prostitutas que servem à Deus e aos homens. Impedidas de firmar compromisso, de se casar, obrigadas, durante toda a vida, a se prostituir. Algumas, aceitam a ideia como parte de sua vida, de sua obrigação. Outras, como a mãe de Mukta, conseguem ver o fardo pesado e injusto que precisam suportar.

“Dizem que o tempo cura tudo. Não acho que seja verdade. À medida que os anos passaram, comecei a achar estranho como coisas simples ainda podem nos fazer lembrar de tempos terríveis ou como o momento que nos esforçamos tanto para esquecer se torna nossa lembrança mais nítida.”

Ainda que sua mãe seja contra, Mukta é levada para a cerimônia de iniciação aos oito anos e, assim, passa pelo primeiro marco de abuso da sua vida: tem sua virgindade vendida e é estuprada.

Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.

A vida de Mukta, depois de várias perdas, ganha novo rumo com o acolhimento da família de Tara. As duas crianças se aproximam e a amizade é mais forte do que o sangue poderia criar. Mas o passado de Mukta já estava selado quando ela nasceu mulher: como filha de uma devadasi, esse também seria o seu destino.

“Não é bom para uma menina ter tanto josh… tanta vivacidade. Mas como falar isso a uma mãe? Como sua filha vai encontrar marido? Só nós, mulheres, sabemos como é difícil encontrar um menino adequado para as nossas meninas. Como ela vai cuidar da casa? Batendo nos meninos, brincando com eles? Terrível! Ensine isso a ela, senão nunca vai encontrar um marido para sua filha. Vai passar o restante da vida juntando um dote, mas ninguém vai se casar com ela.”

Mukta é sequestrada da casa de Tara e, desde então, não se têm mais notícias dela. O pai de Tara passa a vida em busca de Mukta, mesmo depois de se mudar com a filha para os Estados Unidos. Mas é sem sucesso. E, apenas onze anos depois, Tara retorna a Mumbai, e decide que permanecerá lá até encontrar Mukta.

“A mágica está nas palavras, minha menina querida. Quando você dobra os pensamentos de alguém com palavras que tocam a alma, isso se chama inspiração.”

Envolvida nessa busca, Tara nos narra os acontecimentos do presente, na sua busca e tentativas de entender a procura que o pai nunca abandonou. E, também, do passado, desvelando sentimentos e segredos há muito enterrados, mas que movem todos os seus passos atuais.

Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.

De outro lado, a voz de Mukta surge narrando a própria jornada, desde a infância com Amma e sua avó, até a vida na casa de Tara e, anos depois, ao ser sequestrada.

“Acho que a nossa vida é como o céu. — Amma suspirou, ainda olhando para cima. — Às vezes, Mukta, quando você olhar para o céu, ele vai estar escuro. Você não vai saber em quem confiar. Vai se perguntar se alguma pessoa conseguirá tirar você da escuridão. Mas, acredite em mim, algum dia o nosso céu vai brilhar de novo. E vai ter a aparência e o cheiro de esperança. Não quero que se esqueça disso. Quero que tenha esperança, não desista.”

São duas vozes que se unem e formam pontos de vista distintos da mesma história. Viajamos no tempo e imergimos em outra cultura, costumes, crenças. Mas também, para o sofrimento da mulher, esse o foco central da trama. Da mulher e das mulheres que nunca tiveram vozes ou liberdade, abusadas desde muito cedo, tratadas como mercadorias.

“Mas isso não me incomoda, Tara. O que eu teria feito se tivesse estudado, afinal? Não tenho a inteligência do seu Papa — falava minha Aai. — A vida de uma boa mulher está na felicidade do marido, em ser uma boa esposa e uma boa mãe, tomando conta da família. E é bom você também aprender isso. Até mesmo garotas de seis anos da aldeia sabem como preparar dal e sabji. É melhor você aprender também.”

Mukta nos mostra, através de tudo que narra, não apenas seu sofrimento, mas em como crê numa sorte que, aos nossos olhos, pode parecer ínfima. Ela é grata pelo tempo e pela amizade de Tara. Grata por algo que muitas mulheres jamais sonharam: memórias boas com as quais contar. É de tirar o fôlego ver sua constante luta, sua crença de que recebia mais do que merecia. Afinal, ela era de uma casta inferior.

E, aqui, entramos num ponto motor da história: a divisão de castas em Bombaim (atual Mumbai) e aldeias próximas, movida pela crença, pela religião, pelo tráfico e claro, pelo viés econômico. Ainda que ocidentalmente tenhamos essa visão, ela toma outro panorama no fim da década de 80, na Índia. É assombroso. A casta inferior faz referência não apenas ao sentido econômico, mas também, em sentido de valor de pessoa. Alguém de uma casta inferior jamais valeria o mesmo que alguém da casta superior. O quanto você possui e, também, onde você nasceu, são definidores do seu valor como ser humano.

“A princípio, eu não conseguia entender o que ele estava tentando me dizer. Mas depois, aos poucos, descobri que há uma coisa que todos temos em comum, independente da casta ou da religião: todos somos feridos ao longo da vida, todos queremos sobreviver e ser felizes, e todos precisamos ser bem tratados. Afinal de contas, não escolhemos onde nascemos, mas podemos dar duro e pavimentar nosso caminho para o sucesso. E todas as
pessoas da Terra merecem essa chance.”

As marcas que essa divisão alimenta refletem em várias partes da história, em muitos campos da vida de Tara e de Mukta. Até mesmo a visão que cada uma tem acerca da amizade que construíram, é vista sob essa lente. Tara, vendo tudo com o olhar de quem sempre poderia ter sido melhor, ter feito mais; enquanto Mukta reveste-se de uma gratidão desmedida, acreditando ser mesmo inferior, não merecedora do que lhe foi dado.

“Você não pode se casar com homem algum. Você está casada com a divindade e somente depois de venerá-la poderá fazer uma refeição. Precisa jejuar dois dias por semana e servir a qualquer homem que vier até você. Se ele bater em você, não deve retaliar.”

Ao mesmo tempo, outro tema é foco da história: a violência contra a mulher. Não apenas do ponto de vista da vítima, de Mukta, mas também, da luta contra o tráfico sexual, que é protegido pela própria cultura, economia e poder local. E isso, não apenas no fim da década de 80, quando se passa o começo da história, mas também, no início dos anos 2000, precisamente em 2004, quando Tara retorna à Índia para retomar as buscas por Mukta. Um sistema não apenas precário, mas que privilegia e protege os abastados, a casta superior.

Amita Trasi nos leva pelas ruas de Bombai, pelas vidas de inúmeras mulheres, por segredos de família, amizades verdadeiras, laços de sangue e muitos sentimentos brotam durante a leitura de Todas as Cores do Céu. Apesar de, em algumas partes da história, o foco ser muito maior em Tara, quando esperava mais de Mukta, o que fez com que alguns trechos se alongassem mais do que o necessário, demorando bastante para que descobertas surgissem.

“Abri um livro e acariciei as letras das páginas, imaginando qual seria a força daquelas palavras para que tivessem construído um templo para elas.”

Além disso, a proposta da história, ao que parece no primeiro capítulo, é lhe entregar um mistério a ser desvendado, algo quase digno de um livro de suspense. Mas essa está longe de ser a proposta real da história, já que os fatos são desvendados facilmente pelo leitor e a trama não segue uma busca enérgica. É um livro sobre rememorações, sobre a história não dita, sobre segredos enterrados. Há uma beleza intrínseca à trama por isso, intrincada à busca que Tara realizada, e a toda dor que surge de cada poro de cada página.

“O único jeito de corrigirmos nossos erros é tentando desfazer o mal que causamos.”

Todas as Cores do Céu é o tipo de leitura que não se encerra na última página. Ela transcende, através dos acontecimentos, dos fatos, dos personagens, uma realidade que, ainda que não nos pertença, precisa ser compartilhada, dita, suscitada e, em vários aspectos, combatida.

“A esperança é como um pássaro. Quer se manter em movimento, por mais que se tente aprisioná-la.”

Amita Trasi conseguiu criar uma história forte, realista e comovente. Uma quebra do véu de que as mulheres não clamam por ajuda, que não precisam dela, de que já são iguais. É uma mostra sobre como o poder é usado para controlar vidas, em prol de alguns poucos, em prol do enriquecimento. É vazio, é desumano. E, infelizmente, acontece até hoje, enquanto eu escrevo essas linhas. Agora, enquanto você me lê.

Que possamos acreditar e ajudar as muitas Muktas que o mundo produz.

Aleatoriedades

Todas as Cores do Céu foi cortesia da HarperCollins Brasil e integrou a TAG Inéditos de dezembro de 2019. Obrigada pelo oportunidade em conhecer essa história. Eu a carregarei para sempre.

O livro não é baseado em uma única história real, mas Amita Trasi agradece às instituições às quais teve ajuda no processo de escrita, instituições que atuam no combate ao tráfico sexual.

Resenha de Todas as Cores do Céu, livro de Amita Trasi, publicado pela TAG Inéditos e HarperCollins Brasil, em 2019.

Além disso, a história é repleta de palavras híndi, e a edição do livro traz um Glossário com várias delas. Algumas são passíveis de dedução de seu significado pelo próprio contexto da leitura, mas confesso que ainda tiveram algumas que não estavam no glossário e que poderiam constar, enriquece muito a leitura!

Enquanto lia esse livro, foi impossível não pensar em outras mulheres, outras Muktas as quais suas histórias eu já conheci. Algumas delas, eu recomendo a leitura, tanto quanto de Todas as Cores do Céu e que possuem uma narrativa tão imersiva e realista, quanto a de Amita: Encontro de Marés da Manuella Marques Tchoe | Fadas e Copos no Canto da Casa de Mariana Salomão Carrara | A Mulher com Olhos de Fogo de Nawal El Saadawi | Pssica de Edyr Augusto

Que a Força esteja com você!

xoxo

Retipatia

One thought on “Todas as Cores do Céu ♥ Amita Trasi

  1. Confesso que é a primeira resenha que leio desse livro e não ao certo como terminei de ler e ver tudo acima. Tá, a beleza das suas fotos enche meus olhos de alegria, mas a tristeza na resenha dói o coração.
    Acho que estou sentindo tudo de uma vez só rs
    E isso é tão maravilhoso!!!
    Triste saber que isso foi e talvez ainda seja real. Culturas diferentes, acreditar totalmente diferente dos nossos.
    Com toda certeza do mundo, é um livro que já quero muito sentir!!!
    Beijo

    Angela Cunha/O Vazio na flor

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