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Encontro de Marés ♥ Manuela Marques Tchoe

Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.

Encontro de Marés da Manuela Marques Tchoe, autora de Ventos Nômades, vem como as águas de março para fechar o verão, nem sempre mansas, mas sempre necessárias!

Encontro de Marés
Manuela Marques Tchoe
Editora Pendragon
2019 / 308 páginas
Disponível em Amazon
“A cada raio que cortava o céu, Mariana se recordava de quando sua mãe a acordava durante tempestades de verão para reverenciar o fenômeno da natureza. Elas discutiam a origem do barulho estrondoso, imaginando que deuses e santos brigassem por qualquer coisa, talvez dançassem numa festa divina, quiçá vivessem uma história de amor. Cada heresia era recompensada com mais estardalhaço no céu, para regozijo de mãe e filha.”
Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.
Sobre Manuela Marques Tchoe

Baiana de Salvador, vive há mais de dez anos na Alemanha, onde trabalha como executiva de marketing. Manuela é uma escritora apaixonada por culturas diferentes, um tema com o qual vive todos os dias. Seu primeiro livro, Ventos Nômades é uma coleção de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e do exótico, os desafios e maravilhas de relacionamentos multiculturais e imigração. Já Encontro de Marés é seu primeiro romance, ambos publicados no Brasil pela Editora Pendragon.

Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.
Sinopse de Encontro de Marés

Na mística Salvador, Rosa cresce na casa de sua carinhosa avó Dalva, sem ideia das circunstâncias que a impediram de ter pai e mãe presentes em sua vida. Sua infância feliz é interrompida quando seu pai reaparece e a rapta, transformando sua vida para sempre.

Tempos depois, Mariana aterrissa no Rio de Janeiro, amaldiçoando sua vinda para o país que um dia lhe deu as costas. Quando criança, ela fora abandonada por sua mãe num orfanato, sem nunca entender por que fora deixada para trás. Adotada por um casal de alemães, tudo o que Mariana mais desejava era esquecer seus traumas e apagar traços de sua origem. Mas o horror de um tiroteio na favela da Rocinha desperta o seu desejo mais intrínseco: buscar respostas sobre o seu passado.

Com suas vidas entrelaçadas, Rosa e Mariana são confrontadas com decisões impossíveis e desencontros. E lutam contra o tempo – até seus caminhos se cruzarem novamente.

Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.
Encontro de Marés
A leitura contém temas sensíveis, como violência e prostituição infantil.

Uma história entremeada como partes de uma colcha de retalhos, que transita através de anos, personagens e diferentes lugares do mundo para alinhavar as vidas que surgem como sopros da maré, prestes a virar a qualquer tempo.

“Vovó era moça, ainda cinquentona. Umas caraminholas na cabeça ela tinha, mas comigo essas tristezas iam embora. Ela queria me mostrar o lado divertido e alegre da vida, mesmo que essa felicidade viesse através da esquisitice da vida alheia.”

A escrita da Manuela Marques Tchoe já havia me encantado quando li seu livro de contos chamando Ventos Nômades, que traz um misto de realidade e fantasia a cada conto, me fazendo viajar para os mais diversos cantos do globo em pontes que atravessam o oceano.

Agora, em Encontro de Marés, um romance com força oceânica, temos uma história arrebatadora, numa narrativa que mistura a primeira e terceira pessoas, sem perder o tom, mantendo o interesse forte e a necessidade de desbravar as cidades brasileiras, intensa.

“Não foi à toa que meu pai me colocou nesse quarto, bem no alto… Me sentia feito a Rapunzel, presa na torre. Mas sem um príncipe pra me salvar.”

No livro, iremos ter vislumbres de diferentes Brasis e de um povo que se mistura de norte a sul, vivendo entre as mazelas e a beleza com o fulgor que só se encontra nessa pátria.

Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.

Ao jogarmos os búzios, encontramos de um lado, em Salvador, a jovem Rosa, estudante cheia de sonhos que vive na casa humilde com sua avó Dalva que faz as vezes de mãe. Os dias pacatos de conversas entre avó e neta sob a janela de casa vendo gente que passa na rua, entretanto, estão contados. Benedito, pai de Rosa, surge como uma tempestade em suas vidas, raptando Rosa. A vida de ambas acabara de ter o curso do destino alterado por uma faca que rasga cada pedaço de futuro.

“Depois daquela noite maldita vieram tantos que eu perdi a conta. A dor do corpo foi embora, meus movimentos se tornaram automáticos. A tortura que eu sentia era na alma… era como se um maremoto passasse por cima dela, as ondas gigantes deixando minha pobre alma num coma profundo.”

Viajando pelo tempo, conhecemos Mariana. Uma jovem que se vê obrigada a vir ao Brasil em virtude de seu trabalho na instituição alemã que ajuda crianças carentes das favelas do Rio de Janeiro. Apesar do seu desagrado, o visita se mostra não apenas uma porta para seu passado, mas também, para conhecer um Brasil que vai além dos tiroteios nas ruelas das comunidades e que se estende para a beleza da água salgada do mar.

“Nesses primeiros momentos cobiçava retornar à vida previsível de Munique, uma vida sem altos e baixos, sem o lembrete constante da miséria humana.”
Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.

Seguimos mais um pouco e conhecermos Teresa, mulher batalhadora que sofre com o crescimento de sua filha Janaína, que deseja experimentar a vida nos quatro cantos do mundo, enquanto cozinha beijus para o seu novo empreendimento.

“Sua família, ainda de costumes simples, divide as novidades quase todas as noites entre colheradas de caldo verde, a singela mistura de batata, couve em pedaços miúdos e azeite de oliva a gosto.”

São várias mulheres, com histórias a princípio, completamente sem ligação, mas que vão sendo entrelaçadas a medida que avançamos as páginas. E, quando os búzios caem sobre a mesa, descobrimos que, talvez, os Orixás tenham mesmo todas as respostas que procuramos, mas também que precisamos estar preparadas para recebe-las.

Interligando todos os acontecimentos, sem ordem cronológica, mas de modo algum dificultando a compreensão, a autora narra temas fortes, em especial, acerca da prostituição infantil no Brasil. A maldade, a ganância, todos motores para uma rede de crime que se fortalece no silêncio da impunidade. As personagens da história, sem exceção, irão ver os diversos lados do que compõe a prostituição infantil. Irão lutar, todas elas, para se ver livre do que não lhes fora escrito pelo destino, mas moldado por interesses escusos e sujos daqueles que as veem como nada menos que pedaços de carne, máquinas de produzir dinheiro.

“Às vezes precisamos sair de casa para conhecermos a nossa própria identidade, ela pensou.”

Um tema forte, mas que precisa de debate. Como a autora destaca em nota no fim do livro, o tema é muitas vezes esquecido e colocado sob panos quentes. Sabemos de sua existência, de suas várias formas, mas o silêncio, tanto do poder quanto da mídia, mostra o quanto ainda se precisa avançar em políticas de proteção à criança e combate ao crime.

“As ondas quebravam nas pedras pontudas, o sal se espalhava no limo escorregadio. Assim era nossa vida, escorregadio nas beiras, procurando não cair a cada passo. Não havia farol pra nos guiar, apenas o ar quente, pesado que nem tijolo, acumulando no peito.”

As mulheres são a força motriz de Encontro de Marés. São elas, na verdade, que fazem o rumo das águas bem mais que as fases da lua ou horas do dia. Elas moldam seu futuro na incerteza buscando que as mazelas de hoje não sejam perpetuadas. De Rosa à Mariana, de Teresa à Janaína. Dalva à Ulla. Gracinha à Clarissa. Luísa a Iolanda. Mulheres que marcam a história com suas próprias histórias. Que mostram que criam a maré de seus próprios oceanos. Não há uma ou outra que seja perfeita, longe disso. São humanas e por isso cravam a realidade numa história que poderíamos ter vivido ou ouvido falar.

“A cada passo eu pensava em como seria viver sem um teto. Na verdade, eu me sentia mais sem chão. Era como se um buraco fosse abrir sob meus pés pra me levar diretamente pro inferno. Ou já tava vivendo o meu inferno na terra?”
Resenha de Encontro de Marés de Manuela Marques Tchoe, publicado em 2019 pela Editora Pendragon.

Encontro de Marés ainda é um salve para a cultura brasileira, para seu povo, em especial para a cultura baiana, trazendo muito dos ensinamentos sobre os Orixás, especialmente sobre a rainha dos mares Iemanjá. A narrativa é vívida, pulsa sobre a música, os lugares e a cultura, casando perfeitamente com a história que se quer contar, seja sob os olhos de um estrangeiro, seja sob os olhos daqueles que nasceram e vivem nessa terra.

“Acompanhando a música, ela se deixou levar pelo ar perfumado de maresia e a sinfonia das ondas. Era parte daquele cosmos, não havia mais nenhuma cerca real ou imaginária que a mantivesse longe do lugar onde ela sempre pertenceu.”

Uma leitura inspiradora e inquietante. Um encontro de águas, de vidas, de passado-presente-futuro. Um encontro de gerações. Um Encontro de Marés.

Aleatoriedades
  • Encontro de Marés foi recebido em parceria com a autora Manuela Marques Tchoe, obrigada mais uma vez pelo carinho, compreensão e oportunidade de leitura!
  • Para quem quiser conferir a resenha do outro livro dela, Ventos Nômades, é só clicar aqui!
  • Os livros da autora estão disponíveis na Amazon em versão física e em e-book: clique para conferir Encontro de Marés | clique para conferir Ventos Nômades Recomendo muito a edição física dos dois livros, elas são cheias de detalhes e acho as capas maravilhosas, além de combinarem muito entre si e com o tema de cada livro!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

3 comentários

  1. Só de ler a resenha já fiquei com o coração partido, um tema delicado que infelizmente ainda persiste em ocorrer.Eu tenho o conto ventos
    nômades em ebook para ler espero gostar.

  2. Curto muito seus posts, são muito bem criativos e interessantes.. Sempre estou aqui lendo e compartilhando com minhas amigas…

    Beijos .

    Meu Blog: resultadopernambucodasorte.net

  3. Vazio Na Flor says:

    Tão lindo isso de trazer uma cultura nossa, que sim, muitas vezes, é vista com o nariz torto. Não se há respeito e isso é tão tolo.
    Por isso, fiquei emocionada ao ler tudo acima, Não somente pela história de vida que essas mulheres carregam, o peso, os medos, mas também a esperança ali presente em todas!
    Claro que já quero muito poder conferir!!!!
    Beijo

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