
Prelúdio Sombrio é o livro que dá início a série Hades Hangmen da autora Tillie Cole. Um dark romance publicado no Brasil pela The Gift Box, já com toda a série prevista para publicação pela Editora.
Prelúdio Sombrio (It Ain’t Me, Babe)
Série Hades Hangmen – Livro Um
Tillie Cole
Tradução Mariel Westphal
The Gift Box
2019 / 400 páginas
Disponível em Amazon
“Pecar nunca pareceu tão bom.“

Sobre a Autora
Tillie Cole nasceu em Teesside, na Grã-Bretanha, filha de uma mãe inglesa e um pai escocês. Graduada na Universidade de Newcastle, ela foi professora por sete anos antes de se mudar com o marido para o Canadá. Escreve romances contemporâneos – como sua série de maior sucesso, Sweet. Mil Beijos de Garoto é sua estreia no gênero jovem adulto.

Sinopse de Prelúdio Sombrio
Pecar nunca pareceu tão bom… Um encontro fortuito, que nunca deveria ter acontecido.
Muitos anos atrás, duas crianças de mundos completamente diferentes forjaram um laço inquebrável que mudaria suas vidas para sempre…
Salome conhece apenas uma maneira de viver: sob as regras do Profeta David. Uma vida à qual acredita estar destinada, até que um evento horrível a liberta. Fugindo da segurança de tudo o que conhecia, Salome é jogada no mundo exterior…
River ‘Styx’ Nash sabe da única certeza da vida: nasceu para usar um colete de couro. Atormentado pela impossibilidade de falar, Styx aprende rapidamente a lidar com seus inimigos. E ele tem uma única regra na vida: nunca deixar alguém se aproximar demais. É um plano ao qual se mantém fiel há anos, até que uma jovem é encontrada ferida no seu território…

Prelúdio Sombrio: leitura sensível e o que é dark romance
Leitura recomendada para 18+: contém conteúdo de violência, abuso, sexo, drogas, linguagem ofensiva, tópicos sensíveis e tabus. Pode conter gatilhos.
Antes de falar da história, é bom levantar alguns pontos. Prelúdio Sombrio é o livro que inicia a saga Hades Hangmen, da autora Tillie Cole e traz um dark romance com direito à seita religiosa e um clube de motoqueiros: Hades Hangmen.
Para quem não conhece, uma história é considerada um dark romance quando ela explora temas pouco debatidos, em sua maioria tabus, que costumam deixar as pessoas incomodadas. Não chega a ser uma regra, mas alguns podem ser classificados também como romances eróticos, como é o caso de Prelúdio Sombrio.
Dark romance são histórias feitas para incomodar, em que dificilmente a linha entre certo e o errado não será corrompida e que provavelmente existirão momentos, cenas, acontecimentos, que deixarão dúvidas se o relacionamento exposto é saudável, balanceado, igualitário. Bem, deixo o aviso, a história não foi feita para sê-lo.

A ideia está mais para apresentar o antagonismo de alguém não tão bom assim, que provavelmente vai usar meios escusos para fazer algo, digamos, relativamente bom.
É, eu sei que pode parecer confuso. Mas dificilmente, aqui, papeis de vilão e mocinho serão separados. É mais ou menos todo mundo do mesmo balaio e, por alguma eventualidade, provavelmente uma garota, a rivalidade será estabelecida e uns maus terão que lutar com os mais maus ainda.
“A morte é um ciclo. Cedo ou tarde vamos todos nos encontrar com o Barqueiro, pagar pelas merdas que fizemos em vida.”
Então, para ler um dark romance, recomendo não apenas idade, mas maturidade e preparo para a leitura. Saber separar realidade da ficção e, ao mesmo tempo, conseguir criar uma visão crítica do que está sendo exposto.
O livro deixa claro essa temática, não apenas com a indicação da faixa etária para a leitura, presente na contracapa, como também na Nota da Autora, que relata seu conhecimento nos temas que serão abordados no livro (em especial a pesquisa para graduação acerca da questão religiosa abordada no livro), para poder iniciar a história. Além disso, há um Glossário com os termos utilizados na narrativa, que também são um bom preâmbulo do que iremos encontrar nas páginas.
Bem, sem mais delongas, vamos ao livro…

Prelúdio Sombrio: a história
O pequeno River pode até não ser exatamente desobediente, mas pedir para um garoto ficar no carro é o mesmo que dizer, saia e aventure-se! Enquanto seu pai, o Prez dos Hangmen (chefe, presidente do clã), sai para resolver alguns problemas, ele se embrenha na mata. Até encontrar uma cerca que parece sem fim, seja para que lado ele siga.
Sua surpresa, na verdade, acontece quando uma garotinha aparece do outro lado. Um anjo aos seus olhos. Ainda que um anjo triste, alquebrado. Apesar de sua mudez, não presente apenas em conversa com seu amigo mais próximo e com seu pai, River consegue o impensável. Ele fala com ela. A garota. A que ele irá se lembrar por todos os seus dias, ainda que jurem que ela não passa de um devaneio de sua cabeça.
Os anos passam e River, agora Styx, não é mais um garotinho. É um Hangmen destemido, o novo Prez após a morte de seu pai. É o temido Hangmen Mudo, que tem uma reputação inabalável, uma que não deixa ninguém se aproximar.
“Como seria a vida do lado de fora da grande cerca? As pessoas eram realmente más lá fora? Será que todos na Terra queriam nos fazer mal?”

De outro lado, vamos conhecer Salome. Como é de se imaginar, a outrora garotinha que conheceu River através da grade e que vive praticamente em um mundo paralelo. Uma amaldiçoada, aquela detentora do pecado, da tentação. E por isso ela precisa se casar com o Profeta, para que todos na Comuna tenham a salvação.
A questão é que Salome tem uma visão bem diferente dos acontecimentos do lugar em que vive. Ela anseia pelo mundo do além-cerca, ainda que digam que do lado de fora existem apenas pecadores e predadores. Ela deseja rever o garoto, tentar a sorte e, quem sabe, se ver livre de todo o tormento pelo qual passou sua vida inteira.
A vida de Styx vai mudar quando Salome consegue escapar e uma jovem à beira da morte surge no território dos Hangmen. Uma a qual Styx se lembra muito bem, ainda que a coincidência pareça tamanha. Uma que vai selar não apenas o seu destino, mas de todo o clube e do local de onde veio.

Prelúdio Sombrio: a narrativa e fanatismo religioso
A história segue contada pelo ponto de vista de Salome, que logo passa a ser chamada de Mae, e por Styx. É um bom balanço, já que permite aprofundar não apenas no passado dos personagens, como também ver as diferenças entre eles, o choque que um representa para o outro.
Os temas principais que serão abordados na história e que vão gerar debates e desconforto nos leitores, estão especialmente vinculados à seita religiosa na qual Mae passou toda sua vida. Isso porque estamos falando de fanatismo religioso, de homens utilizando-se da religião como instrumento de poder. Um poder corrompido que será mantido através do medo, da tortura, da violência, do abuso, do machismo e da opressão.
“Eu era uma das quatro Amaldiçoadas. Uma das quatro mulheres que eram classificadas como tentadoras demais para os homens. Uma das quatro que foram segregadas do resto da comuna, já que acreditavam que o diabo tinha sido responsável pela nossa criação.”
O que vamos conhecer, através do passado e da perseguição de Mae, é sobre homens se aproveitando de mulheres e crianças sob o manto de superioridade, sob a desculpa de que é o que o Profeta quer, o que ele previu, o que deve ser feito. É aqui que são apresentadas cenas que são mais do que incômodas, são violações, crimes. Atos desumanos.
A autora ressalta que, especialmente essa parte da história, foi fruto de um trabalho de graduação e baseado em dados e relatos reais. O que, claro, torna tudo ainda mais odioso e repudiável. Uma realidade não muito abordada na literatura e que ganha destaque no dark romance de Tillie Cole. Não desimportante de debate, apesar de ser de difícil digestão.

Prelúdio Sombrio: motoqueiros e machismo
Do outro lado da história, digamos que, o lado que a gente precisa torcer para conseguir vencer a batalha, está o Clube de Motoqueiros Hades Hangmen.
Longe de serem certinhos, vamos ressaltar. Cometem crimes dos mais diversos, de assassinatos, roubos, pilhagem, tráfico e algumas coisinhas mais. A questão é que, aqui, o lado humano vai falar mais alto. Vou me revoltar contra foras da lei ou contra abusadores de crianças e mulheres?
É, a balança pesa bastante e a autora sabe disso. Tanto é que faz questão em destacar alguns “podres” dos Hangmen. É bom que o leitor saiba que a luta não é entre santos e pecadores.
O detalhe que me trouxe incômodo na história, foi na verdade em relação à estrutura dos Hangmen. As mulheres são acessórios e nada mais. Só merecem respeito se forem propriedade de outro homem (eles reclamam as que desejam. Ou seja, tomam posse do seu pedaço de carne). E, ainda assim, são meras coadjuvantes em suas vidas. Não existem mulheres em nenhuma escala de poder. Elas ouvem e obedecem seus homens, seus donos. Com pequenas tentativas na trama de torná-las importantes, mas que são soterradas pela dinâmica do grupo.
“Ninguém nunca questionava os ensinamentos, ao menos não aqueles que queriam evitar as punições. Eu não sabia de nada sobre a vida além dessas paredes, e depois desta noite, meu dever seria como esposa. Eu nunca seria capaz de ir embora.”

Ainda que eu reconheça que isso deve ser bem próximo da realidade de um clube de motoqueiro real, não posso deixar de levantar um ponto: era mesmo necessário reafirmar esse nível de patriarcado na história?
Ainda que se queira preservar a realidade da história, dar-lhe um tom de veracidade, dá para destacar alguns pontos não muito realistas também. Passando por alguns acontecimentos e o que pode ser chamado de síndrome de Christian Grey: a mulher (ou o sexo) como salvação do homem.
Então, se nem tudo é tão real assim, não existe um certo desserviço em mostrar um patriarcado forte e machista como salvador da mocinha em perigo? Esse ponto é bem mais para reflexão do que para oferecer respostas.
A história tira Mae de uma situação de abuso extremo e, convenhamos, qualquer coisa relativamente melhor do que o que ela viveu pareceria o céu. E é assim que o Clube dos Hangmen parece aos olhos dela. É assim que Styx parece aos seus olhos.

O sexo e os relacionamentos em Prelúdio Sombrio
É inegável que Prelúdio Sombrio também seja um romance erótico, está repleto de cenas de sexo. E não falo em termos das cenas de abuso que são contadas. O romance vai surgir entre os personagens e claro, cenas calientes irão ocorrer.
Apesar de algumas cenas serem totalmente dispensáveis, já que se apresentam apenas para quebrar o clímax da história e dar uma boa enrolada no que está prestes a acontecer, a autora coloca algumas problemáticas, dada a vida pretérita de abusos de Mae. Ainda assim, é quase como se o corpo sarado de Styx fosse remédio: uma síndrome de Christian Grey, só que, ao contrário. Falta um pouco de aprofundamento desse quesito.
E, o relacionamento entre Mae e Styx, tem outros empecilhos, com, inicialmente um quarteto amoroso, que é rapidamente dispensado com a saída mais fácil (uma trapaça injustificada para se livrar da personagem) de uma das pessoas envolvidas. Restando assim, apenas um triângulo amoroso com que lidar, mas que também começa a ser desconstruído porque alguém tem que ser babaca para acabar com o trio, não é mesmo!? Novamente, a saída mais fácil.

Prelúdio Sombrio: título em português, plot twist e início da saga
O título original de Prelúdio Sombrio, It Ain’t Me, Babe, seria algo como Não sou eu, babe (tradução livre, tá). Mas devo dizer que a escolha da The Gift Box foi excelente. Prelúdio traz a ideia de início, anterior, e esse livro é exatamente isso, o que vai dar origem à série dark, ou seja, sombria, e iniciar as problemáticas que serão desenvolvidas nas próximas histórias, que irão focar em outros Hangmen.
Além disso, a história conta com um plot twist bem legal, construído ao longo da trama e que pode pegar os leitores menos perspicazes de surpresa. E que, claro, dá a brecha essencial para o seguimento da trama e a continuidade da série. A autora soube preparar muito bem o terreno nesse primeiro livro!
Se você gosta de um dark romance ou deseja experimentar, a série pode ser uma boa porta de entrada. Mas lembre, esteja atento aos limites realidade x história e em tudo que é possível refletir a partir daí!
“Viva livre, corra livre, morra livre!”

Aleatoriedades
- Prelúdio Sombrio da Tillie Cole foi recebido em parceria com a The Gift Box, para a leitura coletiva promovida pelo Resenhando por Marina.
- Outros títulos da The Gift Box resenhados por aqui: Apenas um Toque da M. S. Fayes | Meu Pequeno Pedaço do Paraído da C. M. Carpi
- As versões física e e-book de Prelúdio Sombrio estão disponíveis também na Amazon e pelo Kindle Unlimited.
Que a Força esteja com vocês!
xoxo

