Conto ♥ Último Beijo

Em 28.03.2017   Arquivado em Contando Histórias, Contos

Sugestão de música para leitura: Pearl Jam – Last Kiss

– Luizaaa!!! – Ouço meu nome sendo gritado e olho na direção em que suponho estar sendo chamada.

Mila me encara furiosa do outro lado do corredor. Retiro o fone da cabeça, antes de me dar ao trabalho de falar com ela. Irmãs de onze anos são insuportáveis.

– O que é Mila?

– Estou há horas te chamando, Lu! É importante.

Respiro fundo. Claro que é importante, sempre é quando se tem onze anos. Me levanto e minha cabeça lateja, parece que há abelhas a ferroando e minha visão fica turva. Fecho os olhos por um instante e tudo volta a ter foco.

– O que é, Mila? – Pergunto, já mal-humorada.

– Ah, deixa para lá. – Ela dá de ombros e entra no próprio quarto, batendo a porta.

Ótimo. Menos uma coisa para me preocupar. Meu celular vibra no meu bolso novamente.

‘Estou saindo daqui!!!

A empolgação de Pedro podia me contagiar, mas com tudo que parece estar por vir, eu simplesmente não sei o que fazer, o que dizer.

Quase meia hora exata depois da mensagem, o interfone toca e libero a entrada de Pedro. O porteiro apenas interfona por hábito, porque Pedro vem aqui há tantos anos e fica sempre tanto tempo que parece que ele mora aqui.

Antes que eu chegue na porta, Mila passa correndo por mim para fazê-lo. Ela é impossível… Reviro os olhos e isso faz minha dor de cabeça aumentar. Mas que inferno!

Me deixo cair no sofá e me sento embrulhada em uma manta, colocando até meus pés para cima do assento.

– Eu não posso acreditar! – Ouço a voz de Pedro e quero sorrir apenas por isso. Me contenho, o efeito que ele tem em me fazer derreter não é bem-vindo no momento.

Pedro e Mila estão conversando sobre alguma coisa qualquer que não dou atenção e logo vejo ela puxando-o pela mão e segurando o pacote de bolinhos que ele sempre traz da confeitaria do pai dele, onde ele trabalha aos fins de semana.

Ele geralmente fica um bom tempo com Mila, eles jogam videogame, assistem (e me fazem assistir também) aqueles seriados infanto-juvenis ridículos de pessoas com nomes de cores e plantas e, depois que ela se cansa, nós dois finalmente somos deixados em paz.

Mas, ao me ver no sofá e, muito provavelmente, minha expressão séria e não rabugenta como de costume, ele estaca e me encara, dizendo para Mila que logo a alcança.

– Oi, Lu. – Ele fala, bagunçando aquele seu cabelo lindo.

– Oi.

Pedro se aproxima e se senta ao meu lado, sua mão logo encontrando a minha, mesmo com toda a coberta ao meu redor.

– Está tudo bem? – A melhor parte dessa pergunta é que sei que ele fala sério. Pedro só me faz essa pergunta quando sabe que tem algo errado.

Desde que fiquei doente, ou descobri estar doente, Mila foi a única pessoa, que não demonstrou piedade. Até minha mãe me deu um olhar desses. Eu nunca havia me sentido tão mal em toda minha vida até aquele momento.

Eu balanço a cabeça em negativa, tentando colocar ordem nos meus pensamentos. Se ele me der um olhar assim, eu não sei o que vai acontecer. Mesmo que Pedro tenha apenas um ano a mais que eu, sempre pareceu ter um milhão de anos.

Nunca sei o que dizer, como agora que a ideia de que a vida passa realmente rápido, recai com força sobre mim. Desabo a chorar antes mesmo de lhe contar qualquer coisa e me abraço em seu corpo, desejando pela milhonésima vez, que nada disso estivesse acontecendo.

– Lu, fale comigo, por favor. – Eu olho um pouco para cima, e vejo seus olhos castanhos brilhantes me encarando.

Parece que a gente se conhece há uma eternidade. Sempre estudamos na mesma turma, brincávamos juntos e, na verdade, fazíamos absolutamente tudo, juntos. Até que o primeiro beijo aconteceu há dois anos atrás e, a nomenclatura namorados, passou a fazer parte de nós dois.

Sua mão seca suavemente as lágrimas de meu rosto e coloca meus cabelos bagunçados para trás. E então, ele espera minhas palavras, pacientemente.

Parece que um bolo se formou em minha garganta e é difícil fazer qualquer coisa passar por ele. Opto pela simplicidade.

– Eu tenho câncer, Pedro. – Prendo minha respiração depois de dizer tais palavras.

Seu olhar ainda está preso ao meu, seu braço ainda abraçado à minha cintura e sua mão em meu rosto.

Me lembro como ele ficou preocupado na semana passada, quando eu desmaiei na escola. Ele me carregou até a enfermaria e não saiu do meu lado até o momento em que a ambulância chegou. Na verdade, nem mesmo lá ele foi impedido de entrar.

Já fazem dois dias que recebemos a notícia. Mamãe tenta não parecer, mas a palavra que melhor a descreve é desespero. Ela sabe que nosso plano de saúde não é tão bom assim. Não como vou precisar e não temos dinheiro para pagar coisa alguma. Nós aprendemos a contabilidade do lar cedo aqui em casa.

– Diz alguma coisa. – Eu finalmente falo, quando meus pensamentos não conseguem mais fugir para as memórias e insistem falar da realidade.

E então, é minha vez de lembrar que Pedro tem, na verdade, só dezessete anos. Ele não é nenhum super-herói, é tão humano quanto eu, infelizmente. As lágrimas que descem de seus olhos parecem serem feitas de ácido, porque fazem meu coração queimar de dor. Não há olhar de piedade ou algo assim. Mas a tristeza mais pura que eu já vi.

Não é como a tristeza da mamãe, que vem carregada de preocupação, raiva e piedade. Ou mesmo como a tristeza de Mila, que veio cheia de revolta, incompreensão imatura e companheirismo.

É do pior tipo que me faz sentir remorso de mim mesma por estar em uma situação que não tenho controle, por fazê-lo sofrer.

Passo minhas mãos em volta do seu pescoço e o puxo para um abraço apertado, minha própria represa se rompendo mais uma vez. E eu imerjo em seu pranto, me afogando nele quando alcanço seus lábios.

Este conto foi escrito para o desafio do grupo Interative-se, que deveria usar a palavra ‘imersão’ (usei uma variação e mais ou menos seu sentido… rs) e a imagem da postagem.

Esse conto tem os mesmos personagens do conto A Vida Passa Muito Rápido e, apesar de ter sido escrito depois, a história é anterior àquela. De todo modo, a ordem de leitura é independente. E, dessa vez, tivemos pouca Mila, para seus adoradores e um pouquinho mais de Pedro. A ideia era fazer mais um conto mostrando a relação das irmãs e trazer mais da fofa Mila, mas, não sou eu quem manda, são os personagens, então a parte fofa e alegre eu fico devendo pro próximo. Quem sabe depois temos mais histórias de Lu e Mila?

A escolha da música depressiva foi porque, inevitavelmente, ela martelou na minha cabeça enquanto eu escrevia… E o conto ficou pequeno assim porque minha carga emocional não estava me permitindo mais sofrimento por personagens inexistentes hoje…

Que a Força esteja com vocês!

  • Amanda

    Em 28.03.2017

    Mas que conto mais lindo, eu não esperava por isso, só achei que ela fosse terminar com ele porque estava em algum tipo de crise existencial, eu não esperava por isso, não mesmo.
    Vou acompanhar seu blog, você escreve muito bem, parabńs 🙂

    Beios

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Oi Amanda!!! Obrigada por acompanhar o blog! Que bom que gostou do conto!!! <3 <3
    xoxo

  • Luciana de Andrade-Ciana Andrade

    Em 28.03.2017

    Notei que eram os mesmos personagens, pensei ser uma continuação antes de ler o final. Lindo conto! Sensível e mesmo com a doença o que me tocou foi a relação de irmãs. Sou filha única, sempre quis ter uma né.rsrs
    bjs

    Simplesmente Ciana

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Obrigada Lu! Irmãs são tudo de bom mesmo e fico super feliz que o conto tenha mostrado isso! <3
    xoxo

  • tanise

    Em 28.03.2017

    Que conto lindo Re!
    Bem emocionante, me deu um aperto aqui… ♥
    Tu escreve muito bem!
    beeeeeeijos

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Obrigada Tata! Posso dizer que tô feliz com o aperto que causou??? rsrsrs <3
    xoxo

  • Kassia Gular

    Em 28.03.2017

    Que profundo e triste….vivi a história apenas lendo o conto 🙁
    Bjs ♥

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Tá permitido eu dizer que tô feliz com a reação à história? rs A ideia é que ela permita a cada um experimentar um pouco do que os personagens vivem e, acho que alcançou o objetivo então! Obrigada por compartilhar! <3
    xoxo

  • Thaís Bueno

    Em 28.03.2017

    Como sempre arrasando nos seus contos! Parabéns mais uma vez, você é muito talentosa. Nunca deixe de escrever.

    Beijos,

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Obrigada Thaís, é muito bom ouvir esse incentivo!!! <3 <3
    xoxo

  • Erika Monteiro

    Em 28.03.2017

    Oi Rê, tudo bem? Tanto quanto o outro conto este foi muito bem escrito. Desculpe, mas pra mim não ficou pequeno rs Se o conto passa sentimento, conta a história e nos emociona, acredito que valeu a pena. Também percebi a semelhança dos personagens, achei interessante essa continuação, mostra bastante criatividade. Continue escrevendo sempre. Beijos, Érika ^.^

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Tem nada pra desculpar, eu que sou exagerada e gosto de tudo bem extenso… kkkk
    Obrigada pelo apoio e incentivo de sempre! Fico feliz que a historia tenha conseguido passar tanto a você! <3
    xoxo

  • Nani

    Em 28.03.2017

    Tu escreve maravilhosamente. Adorei o texto, a forma como tu usou pra abordar, tudo lindo.

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Obrigada Nani! Fico feliz que tenha apreciado o conto! <3
    xoxo

  • Jéssica Miguel

    Em 28.03.2017

    Por que você escreve essas coisas? Sério. Quero bater em você, Renata. Dá pra dar um final feliz pra história?

    Beijos, <3

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    ahahaha enquanto você está querendo bater, tá tudo bem! Você sabe que eu não mando em nada, são os personagens que definem tudo, mas vou pedir a eles um final bem feliz, ok! rs <3
    xoxo

  • livrosemretalhos

    Em 28.03.2017

    Oi, terminei de ler o conto com o coração apertado…Muito lindo! Vc tem o fim de mexer com as emoções da gente…Bjs

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Oie! Obrigada pelo comentário! Fico feliz em saber que o conto conseguiu mexer com suas emoções! <3
    xoxo

  • Isaac Zedecc Castro Costa

    Em 28.03.2017

    Renata, o que é isso?
    Mulher, você escreve muito bem!
    Que texto forte, que escrita fluida e que criatividade.
    Adorei.
    Bjs
    http://www.isaaczedecc.blogspot.com

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Oi Isaac!! Muito obrigada, feliz demais que o conto e a escrita conseguiram te cativar!!! <3
    xoxo

  • Willian “Vulto”

    Em 28.03.2017

    Eu não sei, tenho sentimentos mistos sobre o seu conto.
    Ele é muito bom, mas acho que a porrada vem um pouco cedo demais. Acho que podia rolar um pouco mais de suspense para perto do final. A sensação que eu tive é que o grande ponto quente vem cedo, mas ele acaba meio morno. Não sei bem.

    É mais uma sensação minha. Não chega a tirar o mérito do seu conto. Ele é realmente bom.

    Você escreve muito bem, as construções das frases são, em sua maioria, excelentes.
    Parabéns.

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Oi Willian! Obrigada por expressar seus sentimentos em relação ao conto e fico contente que a escrita tenha agradado. 😉
    xoxo

  • Julia Melo

    Em 28.03.2017

    Aiii​ gente, esse conto é de partir o coração. =’/

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    <3 <3

  • Fran Scandolara

    Em 28.03.2017

    Nossa, que texto incrível.
    Não imaginava qual seria o desenrolar e fiquei muito apreensiva.

    Parabéns pelo blog.
    http://www.sobrecadamomento.com.br|

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Oi Fran! Obrigada, fico feliz que o texto surpreendeu! <3
    xoxo

  • Rackel

    Em 28.03.2017

    Oi! Aí que triste , o que acontece depois? Espero que seja notícias positivas. Bjos <3

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Quem sabe tem mais um conto para sabermos o que acontece?! 🙂
    xoxo

  • Josy

    Em 28.03.2017

    Olá!
    Sempre tão lindo, né? Confesso que me deu uma certa nostalgia haha
    Beijos

  • Retipatia

    Em 28.03.2017

    Oi Josy! Obrigada linda! <3
    xoxo

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