O Quarto do Barba-Azul ♥ Angela Carter

Em 09.07.2018   Arquivado em Resenhas

Uma noiva a caminho das núpcias, uma filha vendida à fera, um elfo que vive no coração da floresta, uma garota que vive entre lobos, uma vampira solitária, um gato de botas… todos seres e histórias dignas dos mais conhecidos contos de fadas, transformados em histórias cheias de detalhes, beleza e significados nas palavras da incrível Angela Carter.

O Quarto do Barba-Azul

Autora Angela Carter

Editora Rocco

“E em meio ao triunfo do casamento senti uma dor de perda, como se, no momento em que ele me colocou o anel no dedo, eu tivesse deixado de ser filha dela para me tornar esposa dele.”

Sobre a Autora

Angela Carter (Eastbourne, Inglaterra, 7 de maio de 1940 – Londres, Inglaterra, 16 de fevereiro de 1992) em registrada sob o nome Angela Olive Stalker, foi uma escritora inglesa, muito conhecida por sua literatura pós-feminista e seu realismo mágico, sem falar em trabalhos de ficção científica.

Sinopse

Os contos de fadas são fonte de inspiração para muitos escritores contemporâneos. Joyce Carol Oates destaca duas mulheres nesse universo de novas explorações. Duas visões marcantes por sua iconoclastia, estilo febril, eivado de feminismo provocante e um certo ar precursor, de quem já na década de 70 intuía novos caminhos: a poeta Anne Sexton e Angela Carter.

O quarto do Barba-Azul (1979), a obra prima de Carter, é um livro sensorial. Salpicado de imagens de comida, bebida, perfumes, vôos, enjôos, ele propõe um banquete para os sentidos e um permanente desafio para o intelecto. A bem urdida erudição da autora não exige menos. Receie e fuja do lobo; porque, pior que tudo, o lobo pode ser mais do que parece, avisa o narrador de um dos contos. O alerta serve para toda essa coletânea, em que máscaras e disfarces adornam personagens e escondem sugestões, a cada página. Leitora de Shelley, Poe, Carroll, Barthes e Foucault, especialista em literatura medieval, estudiosa de Sade, Angela Carter faz dos contos um peep show, um olhar pela fechadura em que encontramos e perdemos imagens de nossa infância, da cultura, da contracultura, da subliteratura. Tudo é muito mais do que parece.

O conto que abre a coleção, “O quarto do Barba-Azul”, é um diálogo com as ideias do Marquês de Sade, nos mínimos detalhes. O marido pornógrafo, que gosta de citar Baudelaire, tem ações no mercado, lida com drogas, compra para sua noivinha ingênua roupas de Poiret e Worth. É um predador moderno e um tarado refinadíssimo que encontrará a morte merecida.

As duas histórias que se seguem são releituras de A Bela e a Fera. A primeira, uma questionável acultuação da Fera, a segunda, a transformação da Belaem um cordeiro que pode correr com os tigres. Em “O gato-de-botas”, Angela Carter mostra sua faceta de amante da cultura popular em um conto ágil, picaresco, repleto de referências operísticas e finos comentários sobre as diferenças arquitetônicas de estilos. “O rei dos elfos”, terror da mitologia germânica, é uma homenagem ao romantismo, que inclui citações dos Grimm. A mocinha encontra o príncipe perfeito, com um ligeiro defeitinho: quer aprisioná-la para sempre. “A garota de neve” é um conto macabro, como “A senhora da casa do amor”, a decadência de uma descendente de Nosferatu. Os três contos que fecham o livro falam de lobos e assemelhados. São histórias de instintos selvagens, de ambivalências sexuais, com a desmistificação característica de Angela Carter. É mesmo magia e das boas o que faz esse O quarto do Barba-Azul um hino a um mundo de livre sexualidade para homens e mulheres. Um mundo sem pornografia, porque sem puritanismo. Sem culpa, porque sem pecado.

No Quarto do Barba-Azul

A leitura começa com a jovem noiva seguindo viagem de trem para o castelo de seu esposo e, a seguir, nos leva para o jogo que leva o homem a perder a filha para a fera e, de pronto, conhecemos um gato que gosta de andar sobre botas. Não paramos aí, adentramos a floresta e conhecemos uma garota feita de neve, uma outra senhora reclusa e um homem que se transforma à sua cheia… até Alice aprecia bem mais a companhia de lobos do que de homens…

“Não, eu não tinha medo dele, mas de mim. Eu mal me reconhecia na descrição que ele fazia de mim, renascida que estava em formas que não me eram familiares, e no entanto não haveria nela um quê de verdade brutal? E à luz vermelha do fogo corei outra vez, sem que ele notasse, ao pensar que ele podia ter-me escolhido porque na minha inocência sentiu haver raro talento para a corrupção.”

Traçamos esses caminhos por 10 contos, todos narrados em um tipo de sincronia e balanço que só Carter expressa. São detalhados, dizem muito de lugares, pessoas, trajes, formas, texturas e cores. E, no mesmo montante, narram acontecimentos, diálogos e aventuras. Todos os contos têm seu misto de fantasia, ficção, realidade e romance, aliados à boa dose de sensualidade que seduz para o mundo momentâneo de cada pedaço de história, ainda que, por vezes, essa venha a se exprimir em poucas páginas. Aliás, tamanho e qualidade por aqui não andam de mãos dadas, já que os contos variam em tamanho, mas sem dispensar o primor narrativo que a autora consegue desencadear tanto quanto em primeira quanto terceira pessoa.

“‘o único e supremo prazer do amor é a certeza de que se está fazendo mal.'”

Em O Quarto do Barba-Azul, que da título à obra e o conto mais longo da coletânea, Carter é subversiva quanto ao papel de salvador, no conto originário reservado aos irmãos da donzela, desencadeia um covil para o Barba-Azul prestes a engolir a pureza e a decência de sua nova esposa, e dá toques de sensualidade e irreverência aos detalhes que vão do personagem do afinador de pianos à simbologia do sangue e da marca que ele deixa.

“Aquela moça mecânica que me passara ruge na face… não me teria sido dada apenas a mesma espécie de imitação de vida entre os homens que o fazedor de bonecas tinha dado a ela?”

Aliás, todas as histórias têm seu quê de simbólico, seja com o pai da Bela vendendo-a para a Fera, seja com os pássaros que o rei dos Elfos aprisiona em seu casebre na floresta ou com uma jovem garota que fora feita de neve, tudo tem um sentindo além do que está escrito e clama para que o leitor desvende as nuances de cada conto como se despisse uma dama vestida com camadas e camadas de cetim.

“o amor é desejo mantido pela insatisfação.”

Um dos contos que mais imergi floresta adentro foi O Rei dos Elfos, além da história que deixa curiosa pelo desenrolar, há uma grande beleza na descrição dos cenários, sendo inclusive, tecidos parágrafos e mais parágrafos seguidos da mais pura narrativa descrita de local, sem nunca tornar qualquer frase parada ou enfadonha. Uma maestria que apenas enriquece e atiça a imaginação e dá asas para fazer fluir os acontecimentos da história por entre as árvores e criaturas tecidos na mente.

“fico sempre comovido com a pungente reticência com que na presença do desejo a humanidade timidamente hesita em se despojar do amontoado de trapos que a cobre.”

Outro que merece destaque é A Senhora da Casa do Amor, em que a imortal vampira tece seus sonhos pelas cartas de tarô que joga noite após noite, até que o destino a apresenta a oportunidade de mais um banquete apropriado, um inesperado jovem que reverte as circunstâncias da morta-viva.

“- Como é que posso viver sem ela?
Foi o que fez durante 27 anos, meu senhor, e nem por um momento sentiu falta dela.”

Aos amantes do famoso A Bela e a Fera, a coletânea conta com três versões da história, da mais próxima ao que conhecemos, à uma bela que se transforma em fera. Todos repletos de tons vermelhos de rosas incautas e espinhos traiçoeiros.

“E, embora sinta certo mal-estar, não sente pavor; parece portanto, o rapaz do conto de fadas para quem não há fantasmas, espectros, bestas, o próprio Diabo e toda sua comitiva que consigam causar arrepios.
A falta de imaginação confere ao herói o heroísmo.”

Claro que cada um dos contos poderia ser objeto de análise detalhada, íntima e pormenorizada. Mas merecem, muito mais, toda atenção do leitor a desbravar as palavras e sentidos que povoam cada uma das histórias. Em resumo, precisam ser lidos para serem sentidos.

Toda a obra de Carter é uma ode ao feminino, com demonstrações claras da sensualidade que reverbera das próprias mulheres, o misticismo da virgindade, a força da maternidade, os elos do amor e refutando o papel de donzela em perigo e mulher indefesa. Sem dúvidas, mais que leitura recomendada para os amantes de releituras de contos de fadas, já que é deleite para a imaginação, mas necessária para fazer questionar tudo e todos ao nosso redor e os papéis que a literatura costuma moldar em suas páginas de papel, para as mulheres.

Aleatoriedades

  • O livro lindo da Angela Carter foi emprestado por uma amiga. Já tentei garimpar para comprar um para mim, mas está esgotado e nem em sebo online encontrei. Esse exemplar é da Editora Rocco e seria maravilhoso se ela ou outra editora voltasse a publicar! Estou sonhando com esse dia…
  • Tenho tentado dar novos estilos para as fotos aqui do blog, então, entrei um pouco mais na produção dessa (literalmente) e me aventurei a uns cliques com temporizador do celular… rsrsrs
  • A Edição da Rocco faz parte do selo Avis Rara que traz uma mensagem bem legal, que está na foto logo a seguir:

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Assistindo Desperate Housewives 1ª Temporada


CAPTCHA Image
Reload Image

%d blogueiros gostam disto: