
Iluminadas, é como ele as vê. Apenas algumas garotas, mulheres especiais são assim, ou precisam ser purificadas para que se iluminem. Ele é o único capaz de fazer isso. E, quando ele decide que chegou a hora de uma delas, é quase impossível escapar. Apenas uma garota sobreviveu ao ataque e agora é ela quem irá caçar o homem que não deixa rastros e desaparece após ceifar uma vida.
Iluminadas (The Shining Girls)
Lauren Beukes
Tradução Mauro Pinheiro
Intrínseca | 2014 | 320p.
Disponível em Amazon

Sinopse de Iluminadas
Kirby é a última das “meninas iluminadas” cuja vida Harper é impelido a eliminar após invadir uma casa abandonada em Chicago, nos anos 1930. Sob o domínio da casa, que funciona como uma espécie de portal para o futuro, Harper se insere na vida das jovens, esperando pelo momento certo de atacar. Ele é o assassino perfeito, desaparecendo após cada crime, indetectável – ate que uma de suas vítimas sobrevive.
Determinada a fazer com o que o homem que tentou matá-la responda por esse crime, Kirby ingressa no Chicago Sun-Times para trabalhar com o ex-repórter policial Dan Velasquez, que cobriu seu caso. Em pouco tempo, Kirby se descobre perto de uma verdade inimaginável. Uma reviravolta genial nas histórias de serial killers, Iluminadas é um thriller violento e memorável sobre uma heroína em busca de um criminoso mortal.

Iluminadas
Iluminadas fez parte da lista de livros que escolhi para a Maratona Literária que participei no ano passado e era incluído no tema ‘viagem no tempo’. O único arrependimento que tenho acerca de Iluminadas é não tê-lo lido antes. Chega a ser difícil falar sobre o livro sem, repetidamente, dizer o quanto a história é fantástica e envolvente, em como os personagens são incrivelmente reais e factíveis e como eu agora sou fã de Lauren Beukes.
“Bom é a exata definição da mediocridade. É algo gentil. Socialmente aceitável. Precisamos viver com mais brilho e profundidade, sem nos contentarmos com o que é bom, querida!”. p. 30.
Kirby é uma das vítimas do serial killer Harper e, a única sobrevivente do assassino que usa a viagem no tempo para fugir. Apesar dos conselhos da mãe – e todos os outros – Kirby sabe que não conseguirá seguir em frente com sua vida a não ser que a justiça seja feita. O caso já não tem novidades há muito tempo e, assim, quando a polícia já sequer a recebe e ignora seus telefonemas, ela decide usar seus próprios meios para investigar seu próprio caso de homicídio tentativa de homicídio.

“Nada é infinitamente redutível. É possível partir um átomo, mas não se pode transformá-lo em vapor. As coisas permanecem. Agarram-se a nós, mesmo quando estão partidas. Uma hora ou outra é preciso catar os cacos. Ou ir embora. Não olhar para trás.” p. 43.
É assim que Kirby conhece o exrepórter investigador Dan e passa a trabalhar como sua estagiária, para ter acesso aos arquivos do jornal e, logo, ganha um aliado poderoso na busca pelo criminoso. Enquanto isso, Harper viaja no tempo, encontrando suas garotas iluminadas (daí o shining girls) e assassinando a cada uma com cada vez um toque a mais de crueldade. Será que Kirby irá encontrá-lo? Ou melhor, sobreviver novamente, quando Harper descobrir que ela está viva e à sua procura?
“Os eixos da corrupção são lubrificados com creme de confeiteiro. Ou ao menos os donuts foram o preço que Kirby pagou para ter acesso aos arquivos que, aliás, ela não tinha qualquer boa desculpa para verificar.” p. 68.

“Porque este é o problema com a morte, seja um assassinato, um ataque cardíaco ou um acidente de carro: a vida continua.” p. 160
Iluminadas passa por narrativas distintas: o ponto de vista de Harper, o assassino e o ponto de vista de suas vítimas, o que dá um excelente panorama do que está acontecendo na trama. Mas, a parte mais interessante disso tudo é como a viagem temporal faz com que a história, que segue a cronologia de atos realizados pelo assassino, não siga uma cronologia temporária idêntica no tempo. Por exemplo, saímos da década de 70 e pulamos para a década de 30, sendo que isso, meus caros, faz total sentido durante a história.
“Veneno partilhado é veneno pela metade. Ou talvez acabe envenenando todo mundo do mesmo jeito.” p. 165.

O jogo inteligente que envolve a viagem no tempo é tão bem descrito pela autora que, além de lhe revelar as informações primordiais, lhe deixa sempre com alguma dúvida. Você sabe exatamente o que aconteceu e, de todo modo, precisa ler mais e mais para ver, o porque e o como aconteceu. E, às vezes, há grandes janelas temporais entre estes fatos.
“Talvez a morte condense tudo, torne as pessoas babacas e egoístas, ainda que se sintam feridas e solitárias por dentro.” p. 225.
Além disso, a questão temporal, que, geralmente envolve máquinas míticas, uma dose de magia ou loucura, no livro, é tida de modo tão precioso que, além de ser praticamente um personagem do livro – na verdade a casa é sim uma personagem da história -, parece absurdamente real. Como se qualquer um pudesse viajar no tempo, ou que fosse algo totalmente provável e factível.

“- Uma rede de segurança. Uma espécie de consolo. Viver pode ser algo muito solitário. Mas a vida segue seu curso. Foi incrível enquanto durou. Mas tudo tem seu fim. A vida. O amor. Tudo isso… – Ela faz um gesto vago com a mão na direção das caixas de papelão. – A tristeza também. Embora seja mais difícil se livrar dela do que da alegria.” p. 256.
Sobre os personagens, estes, eu tiro o chapéu para a autora. Kirby é simplesmente fantástica, cheia de nuances, sentimentos e ações que, juntas, formam uma pessoa, cheia de qualidade e defeitos, como todos somos. E, por isso, ela tem carisma. Você torce por ela, você se entristece e se revolta com e por ela. E, por mais que eu aprecie o trabalho de Beukes com a nossa mocinha Kirby (e também com sua mãe Rachel e o repórter Dan), eu devo dizer que os aplausos soam mais altos quando se trata de Harper, o assassino.
“- Está tudo bem, meu amor. Este é o grande segredo, você não sabe? Todo mundo tem medo. O tempo todo.” p. 260.

Calma, já explico. Eu não adoro assassinos ou qualquer coisa do gênero. A questão é que, o modo de construção do personagem de Harper é simplesmente fenomenal. Pode-se dizer que ele é um personagem que ficamos satisfeitos em odiar. É inegavelmente baixo, frio, vil, repudiável e tantos outros adjetivos que eu poderia passar o dia descrevendo. Em outras palavras, é um assassino pelo qual desejamos que a justiça seja feita. Repudiamos seus atos a ponto de repudiarmos o próprio autor e, querendo ou não, é um bom ponto a ser levantado em uma época em que tantos ‘vilões’ são glamourizados para que se tornem os protagonistas das histórias e que todos os amem, ainda que sejam, de fato, criminosos.
“Os padrões existem porque procuramos encontrá-los. Uma tentativa desesperada de ordem, pois não podemos encarar o terror de que tudo seja aleatório.” p. 262.
A leitura do livro foi super rápida e flui muito bem, além de ser repleta de conversas inteligentes e quotes ótimas que coloquei aqui no post. Aliás, a capa do livro é linda. Gostei mais do que de uma das versões gringas (acho que a original, que tem o título ‘The Shining Girls‘ tem uma garota desenhada), o minimalismo da capa me rendeu grande admiração e, a colocação das letras como se estivessem em chamas deu um toque especial.

Aproveitando, vou deixar duas dicas de suspenses, com um tipo diferente de viagem no tempo, já que as histórias é que nos são apresentadas em várias partes diferentes do tempo: O Silêncio da Casa Fria de Laura Purcell e As Sombras do Mal: As Fitas de Blackwood de Guillermo del Toro & Chuck Hogan.
xoxo

