Uma Mulher Por Minuto

Em 30.05.2016   Arquivado em Revolucione

O post da minha linda amiga Lady Luly, do Expresso Rosa, intitulado “‘Til It Happens To You”, me fez querer compartilhar várias palavrinhas sobre os acontecimentos recentes e a repercussão deles na nossa vida.

Claro, estou falando sobre o estupro da adolescente carioca, de apenas 16 anos, que conseguiu dividir as timelines do Facebook e da vida, entre feministas, indiferentes e auto-declarados machistas e opressores (às vezes os indiferentes estão desse lado também, para minha tristeza).

Bem, para começar meu posicionamento é, resumidamente, feminista, pró vítima, em defesa dos direitos da mulher e contra qualquer tipo de conduta e violência contra a mulher. Em razão disso e de muitas coisas que ouvi nesses dias, vários foram as amizades de “face” desfeitas. E isso não digo de modo a me dar crédito, não. É muito triste saber o quanto essas pessoas, que justificaram o crime de violência hediondo cometido contra a garota em vários termos, que variam desde ao fato de sua vida sexual anterior, ao fato da mesma já ter um filho, ao fato dela não ter procurado se resguardar e que a história estaria muito mal contada, afinal, nem a polícia não confirmou se tratar de crime, ainda.

A essas pessoas, minhas sinceras desculpas, porque não procurei em momento alguma rebatê-las, mostrar a realidade, a fragilidade e preconceito que cercam seus argumentos destorcidos. Minhas desculpas, por simplesmente desfazer uma amizade virtual e não tentar trazer razão a tudo isso. Todas as minhas postagens do Face que disseram algo em prol da campanha “diga não a cultura do estupro”, foram palavras faladas, escritas e sentidas por outras pessoas, que não deixam de dizer o que eu penso também, mas não são minhas.

Às vezes o silêncio é o meio mais fácil de deixar que o lado opressor e misógino tome força. E é pelo meu silêncio e, pela falta de discutir com essas pessoas que precisam urgentemente abrirem seus olhos para realidade, que escrevo essas palavras e me desculpo. Me desculpo por não abrir os olhos delas, mas me desculpo principalmente com todos os injustiçados e injustiçadas, que diariamente são violados e violadas, que são diminuídos e diminuídas repetidamente por uma cultura do estupro e por uma sociedade machista e opressora que prefere sempre acreditar na palavra do homem do que na da mulher. Que prefere acreditar na palavra do branco à do negro, à do rico à do pobre, à do hétero à do homossexual e tantas outras variáveis. Sempre desqualifica cada ser humano por características que são prezadas como melhores ou aceitáveis, como se houvesse uma escala de melhor humano, conforme as características que você reúne: se você é homem, branco, provavelmente só terá acima de você, outro homem, branco, só que rico. Mas, se você é mulher, todos os homens, sem exceção, são melhores do que você.

E, em razão disso, e de toda opressão que, como mulher, sofri, sofro e sei que sofrerei em minha vida, é que digo que o silêncio não deve imperar mais. O silêncio é arma do opressor. Não digo que você obrigatoriamente deva ou tem de se manifestar no seu Facebook ou outra conta social da internet. Estou dizendo que seu silêncio não pode reverberar em suas ações, não pode atar suas mãos face à uma injustiça, não pode silenciar sua voz face à um comentário misógino, machista ou opressor. Seu silêncio não pode significar falta de ação. Apenas pensar: “que horror!” a cada tragédia e a todo tempo, aceitar que mulheres sejam diminuídas em todos os círculos sociais que você frequenta, sob o pretexto de engraçado ou qualquer outra coisa do tipo, é o mesmo que apenas reforçar os estereótipos existentes.

A cada vez que penso no caso da carioca de 16 anos, não penso apenas nela. Penso nas outras dezenas que são violentadas e que são resumidas na frase: “a cada 11 minutos, 1 mulher é violentada no Brasil”. Estatística. Parece muito? Isso porque esse número sequer reflete a realidade. Sabemos que o número real de mulheres violentadas é muito maior, e, segundo uma especialista, pode chegar a ser uma mulher por minuto. É assustador? Muito. E o que é ainda mais assustador é que, boa parcela da sociedade sequer se importa com isso e outra parcela acha que é normal, ou mesmo merecido.

Voltando ao caso da garota carioca, além do crime em si, a indignação só aumenta devido às diversas reações, as quais já citei algumas aqui, que vão do caráter da vítima até sua facilitação pelo próprio crime. Disso, dois pontos eu quero e preciso urgentemente destacar: primeiro, que as pessoas que julgam a vítima, em razão de sua vida, de seu passado, de seu status social, etc., são, muitas vezes, aquelas mesmas que pedem para não se julgar um livro pela capa. São incapazes de avaliar a injustiça que estão cometendo, sobre o pretexto que de que vítima deu motivos para tanto ou não se resguardou como deveria. Em pleno século XXI, elas falam de liberdade, mas liberdade apenas até certo ponto. Falam de igualdade, mas até certo ponto. Cobram e exigem padrões defasados, atrasados e que não são seguidos por eles mesmos. É triste de ver, de ler. É repulsivo.

A vítima não é culpada do crime, NUNCA. A mulher não é culpada por ter sido violentada, NUNCA! A cada vez que vejo comentários e afirmações nesse sentido, meu estômago embrulha. E olha, eu tenho estômago forte. Não me abalo com qualquer coisa, muito menos por qualquer motivo. Mas isso, as injustiças reais do mundo, me abalam. A todo tempo nós, mulheres, somos obrigadas a ouvir que, se algo ruim nos acontece, é porque facilitamos, pedimos ou merecemos. Até quando? Até quando seremos convertidas em objetos, diminuídas em relação ao sexo oposto, hostilizadas e repreendidas pela sociedade?

A cada momento que uma voz se ergue em prol dos direitos das mulheres, é como se um tufão de merda de preconceito e machismo escorresce da boca de opressores para dizer que não passamos de loucas, desconexas e claro, nos falta uma pica e a pia cheia de louças para lavar. Claro, nossa vida se resume a sexo e tarefas domésticas, como boa parte dos homens ainda acredita e anseia encontrar uma mulher que seja assim. E o mais engraçado disso tudo, são as pessoas que defendem um lado, de que a mulher precisa de igualdade salarial, por exemplo, mas não vê problema que essas mesmas tarefas domésticas lhe sejam atribuídas como de sua única responsabilidade. Ou mesmo, defendem que mulher tem que ter liberdade para fazer o que quiser, sair, se divertir, ficar com quantos homens quiser, desde que o resto da sociedade não saiba disso e ela não seja, por assim dizer, pobre. Porque daí, ela não é livre, ela é “piriguete”, é puta. Dá para todo mundo porque quer, ficou grávida porque quis, porque não se dá o valor. E quem disse que alguém precisa se dar o valor??? Todos somos pessoas e, por si só, isso já significa sermos seres humanos. E é engraçado como é fácil para essas pessoas, cheias de opiniões a respeito, duvidar da humanidade de uma garota, e não duvidar de mais de trinta outros que foram capazes de cometer um crime hediondo, expô-lo sem nenhuma culpa ou remorso e ainda se gabarem disso.

E dizem que o mundo evoluiu. Não sou adepta a comparações, e este não é exatamente o intuito do que eu vou dizer agora, é mais um precedente, um paralelo a nos fazer pensar. Um crime que chocou e ainda choca a humanidade até hoje, é o holocausto. As pessoas ainda não conseguem entender como uma sociedade inteira, formada por “pessoas de bem”, de repente, instruída por uma ideologia, condenou milhares de pessoas à morte e à tortura, baseados na despersonificação dos primeiros. Lavagem cerebral, boa oratória, interesses econômicos? Claro, existiam interesses econômicos e políticos envolvidos também, no extermínio dos judeus, negros e tantos outros perseguidos à época. Mas isso não seria argumento capaz de mover toda a massa. Era necessário mais, muito mais. E o que foi encontrado foi a coisificação da pessoa, do semelhante. As vítimas não eram vítimas, eram a escória, que precisava ser exterminada do solo alemão. Os judeus e todas as minorias perseguidas, não eram formadas por pessoas, mas por seres inferiores, que não mereciam respeito, direitos, nada. Qualquer um que já tenha estudado um pouco de história, ou mesmo, assistido à algum filmes que retrate à época da Segunda Guerra Mundial, sabe do que estou falando. Não é necessária grande pesquisa para se constatar isso.

Na época da faculdade fiz um trabalho sobre A Banalidade do Mal, de Hanna Arendt. E o que ela chama atenção para este período da Segunda Guerra Mundial, que não foi a guerra mais sangrenta ou a mais violenta em termos de campo de batalha, é justamente como atos tão cruéis e desumanos foram tidos, por quase toda uma sociedade, como normais, até mesmo necessários. O mal foi banalizado à época. O que era ruim, o que era violento passou a ser aceitável, desde que direcionados à certos indivíduos, ou grupo de indivíduos.

Alguma semelhança à nossa situação atual no mundo? Não me refiro ao Brasil, em específico, porque sei que os problemas que enfrentamos aqui, tem escala global. A cada vez que uma minoria – e digo minoria em termos de representatividade no poder e voz ativa na sociedade, não necessariamente em questão de quantidade de pessoas/número – é atingida, é violentada, humilhada, exposta e morta, o mal é banalizado, assim como outrora foi. A sociedade tende a reafirmar que estas minorias, se estão sendo prejudicadas ou atingidas é por sua própria culpa, porque não agem da maneira como deveriam ou porque desafiam o status quo da sociedade patriarcal “perfeita e funcional”.

As minorias aqui hoje, como tantas outras existentes e que precisam de espaço e voz para serem ouvidas, somos nós, mulheres (ainda aquelas que se negam a acreditar e ver o feminismo como necessário à contínua obtenção de direitos e busca por liberdade e igualdade entre gêneros). A cada dia que passa, mais lutamos, mais forte ficamos e, em contrapartida, a sociedade tenta cada vez mais nos rechaçar e nos alinhar dentro do sistema patriarcal existente.

Alguns tentarão dizer que é exagero, que não há banalização do mal, que não há discriminação, não há diferenciação, foi só uma garota que deu mole, deixou que isso acontecesse. Não, não foi. E, se você não consegue/ conseguiu ver a relação de uma coisa com a outra, por favor, leia. Leia mais, pergunte, questione. Estamos em um país sem representatividade feminina no poder, sem voz ativa na sociedade. A maior parte de nossos representantes não representam a realidade brasileira, tampouco em caráter e ideologias. E a indiferença, a discriminação, o preconceito, a misoginia, o machismo, a objetificação da mulher e tantos outros problemas que enfrentamos diariamente, apenas alimentam o sistema opressor que insiste em reafirmar que todo o mal que cerca essa tal “minoria”, só ocorre porque essa mesma “minoria” propiciou tais atos, porque não se comportou como deveria, porque não seguiu as regras, porque não foi apenas mais um no todo. Resumindo, um monte de porquês vazios.

 E como mulher, em busca da plenitude de direitos e liberdade, tenho apenas um adendo, teremos bem menos ofensas disfarçadas de opiniões, bem menos violência com culpabilização da vítima, bem menos ódio, quando a sociedade acordar do seu estado de torpor e perceber a verdadeira inversão de princípios que está ocorrendo: a banalização de tudo que é ruim, violento e opressor.

EDIT: o post já estava pronto mas uma breve e nem tão enérgica discussão em time line alheia, cheguei a uma conclusão, bem boba, mas também bem válida. As pessoas estão 100% dispostas a levar em consideração a máxima do Direito Penal “inocente até que se prove o contrário”. Eu, como operadora do Direito, concordo com isso, sem o devido processo ninguém deve ser responsabilizado e punido por um crime. Mas, o maior problema é que, para fazer valer essa máxima, as pessoas estão invertendo os papéis e culpando a vítima, dizendo que é ela quem tem o benefício da dúvida e é ela que tem que mostrar interesse em ser vítima (oi???). É uma perigosa, triste e dura inversão de princípios. Querer descobrir a verdade e dar o benefício da dúvida ao acusado, não significa, nem nunca significou, repassar a culpa para o oprimido e para a vítima. É um benefício concedido a pessoa enquanto acusada, quando há dúvidas da autoria do crime, não se trata do fato de ter ou não ocorrido crime, isso é outra história.

Ouvindo: muito preconceito disfarçado de opinião.

  • Clayci

    Em 30.05.2016

    Perdi vários “amigos” tbm! Mas, não me arrependo…
    Acho um absurdo alguém argumentar e tentar justificar o ato..
    Eu só desejo que essa menina, consiga passar por esse problema e consiga ter um pouquinho de paz. Desejo força, coragem ela já tem e a admiro de ter denunciado.

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