Resenhas

Rumo ao Sul: Southernmost ♥ Silas House

Rumo ao Sul: Southernmost
Silas House
Faro Editorial
“Asher ergueu os olhos e observou as estrelas novamente. Não era justo que um céu tão iluminado como aquele estivesse brilhando acima deles quando havia tanta gente que perdera tanto. Mas o céu não presta a menor atenção às coisas que acontecem conosco, sejam elas alegres ou tristes.”

Sobre o Autor

Silas House é um prestigiado escritor norte-americano. Autor de mais de cinco romances, seus livros aparecem na lista dos mais vendidos do The New York Times. Ele também é jornalista e ativista de causas ambientais. House é conhecido pelas histórias rurais e personagens simples e vem sendo destacado como um dos autores mais proeminentes nos Estados Unidos na atualidade.

Sinopse

E se você descobrisse que viveu muito tempo sob perspectivas equivocadas? E que foi cruel com uma das pessoas que mais amava no mundo? Essa é a jornada…

Ao sul dos Estados Unidos, numa pequena cidade do Tennessee, o pastor Asher Sharp tem de encarar o seu próprio passado após uma das mais violentas enchentes que aquelas terras já enfrentaram. Então um casal gay pede abrigo ao pastor após ajuda-lo no socorro a outras pessoas, mas perderam tudo na inundação. Asher se vê diante de um dilema, quer abrigar os dois homens mas encara a recusa de sua esposa. Um fato que vai trazer à tona histórias enterradas de sua própria vida, da rejeição ao seu irmão, que era também seu melhor amigo. Algo que o faz questionar todos os valores daquela comunidade e tomar atitudes de ruptura, que desencadeiam uma série de outros eventos.

Decidido a encontrar o irmão de quem ele se afastou e nem sabe o paradeiro, desejando salvar o filho de um ambiente asfixiante, ele parte numa viagem rumo ao sul. Um percurso em que toda a sua história é passada à limpo, em meio a belas paisagens, novas amizades e descobrindo um mundo imenso, muito diferente do seu, algo que pôde ensiná-lo sobre as coisas mais profundas da vida.

Rumo ao Sul

Às vezes a vida leva o caminho mais longo e tortuoso para passar suas lições. Não que isso signifique que todas as pessoas vão entender, receber a mensagem completa ou, quem sabe, conseguir interpretá-la. É provável que tudo dependa do quanto você irá conseguir abrir seus olhos para aqueles que estão ao seu redor e para si mesmo.

Asher está passando exatamente por esse caminho tortuoso. Depois de ver um rio de lama soterrar quase tudo na pequena cidade do Tennessee onde ele é pastor há anos, ele se vê diante de uma encruzilhada: sua vida e suas crenças não são mais as mesmas. E isso inclui sua posição diante do repúdio que um casal homossexual sofre na cidade e de sua esposa.

Apesar de ainda não saber ao certo o motivo de toda a mudança que sente, não há duvidas de que seu passado tem parte nisso, em especial, com seu irmão Luke. De uma só vez, tudo ao redor de Asher começa a desmoronar junto da lama que ainda cobre a cidade: o casamento, a família, a comunidade, o emprego, a religião. Fragmentam-se como se ele fosse um estranho, alguém em quem não se pode mais confiar.

É neste momento que ele parte, junto de seu filho, rumo ao sul. O trajeto é tão barulhento como silencioso, mas a verdadeira jornada de pai e filho se dá na calmaria da cidade de Key West. À beira-mar, numa pousada acolhedora chamada Canção para uma Gaivota, ele encontra duas almas parecidas à sua, ainda que, à primeira vista, possam parecer completamente distintas.

“Justin costumava pensar que as árvores eram Deus. Mas agora, ali, ele acha que o oceano talvez seja Deus. Toda aquela força e fraqueza estendendo-se diante de nós. O oceano pode fazer tanta coisa quando quer, e às vezes pode ficar sem fazer nada além de ir e vir, formando ondas ou mantendo a calmaria. O oceano é um mistério, como Deus. Ambos são tão grandes que nunca podemos ver tudo ao mesmo tempo, mas podemos captar pedaços aqui e ali. Justin acredita que Deus é tão grande quanto o oceano. Até maior.”

Entre a rotina do trabalho, os medos e anseios de um adulto parecem, para uma criança de oito anos, pequenos demais. Já para Asher, são a razão de temer cada dia e de querer aproveitar cada segundo de sua existência, da companhia do pequeno Justin.

Assim, vivemos os dias em Key West junto a Asher e Justin, em busca de respostas, mesmo que em dados momentos não tenhamos sequer as perguntas. Buscamos entender todos os lados, os pensamentos, crenças e ideologias. É impossível não repudiar várias ações dos personagens, não tomar partido de um lado ou de outro, dizer que um ou outro estão errados, ou que todos estão. E é exatamente no desenvolver da trama que percebemos o quanto é fácil revestir uma ou outra pessoa de herói ou vilão, em como um simples fato pode parecer definir toda a pessoa, quando, na verdade, não define. A questão é que ninguém se resume à um nome, idade ou à sua orientação sexual. E menos ainda, ninguém se define por um erro ou por um acerto.

“O oceano é Deus, mas também somos todos nós.”

Sem dúvidas Rumo ao Sul foi um livro de surpresas calmas, lido em dois dias porque a história pedia para ser conhecida, ouvida, compreendida. Não por haver um grande mistério ou suspense envolvido, mas porque o ritmo da narrativa, dos acontecimentos, das descobertas, das incertezas, pede que se viva os dias dos personagens mais rápido do que se vive o próprio. Mas não se engane, ainda há sim um quê de surpresa inquietante na trama.

Um dos pontos que mais encantou na história foi a discussão sobre religião e crença que existe embutida em todas as partes que dividem a história: Parte 1 Você, Mãe; Parte 2 Caminho Livre, Parte 3 Canção para Uma Gaivota e Parte 4 Os Últimos Dias. Isso porque ela está entremeada à trama, cheia de reflexões e questionamentos, bem mais do que respostas e ditados. Não sou fã de leituras que se direcionam à defender um posicionamento religioso de maneira impositiva, mas gosto de livros com viés que discutam a religião e a crença das pessoas e seus pontos altos e baixos. E Rumo ao Sul é exatamente assim, um livro para questionar tanto os personagens como a si mesmo.

“Só recentemente percebera que os livros podiam dar asas às pessoas.”

Acima de tudo, a história mostra o quanto é fácil cair em erros quando se defende o que se julga certo. É sempre mais cômodo julgar os erros alheios, o difícil é reconhecer aqueles que cometemos. E, errados, todos estão(mos) em algum momento: é tentador julgar o pecador e não o pecado, como diria o próprio Asher. É essa uma das belezas de Rumo ao Sul, não há vilões e heróis, não há bem versus o mal, existem pessoas, falhas, incompletas que buscam o que desejam e o que acreditam da maneira que conhecem.

É claro que muitas atitudes são extremas e até criminosas, e o fato não é julgar quem levou quem a fazer o quê e sim toda a construção de descoberta, perdão, razão, fé, amor, família e respeito ao próximo pelas quais os personagens trilham. Não há mudança que ocorra da noite para o dia. Sejam quais forem as alterações no modo de pensar e agir dos personagens, elas vêm de uma construção, da quebra paulatina de paradigmas os quais cada um deles é submetido.

“- Minha avó sempre diz que uma pessoa tem que viver até morrer.
Justin não acrescenta que sempre tentou entender o que isso quer dizer. Às vezes ele acha que ela quer dizer que viver é mais difícil do que morrer. Outras vezes ele acha que ela quer dizer que devemos viver o máximo que pudermos antes de morrer.”

Rumo ao Sul é uma história para inspirar, fazer crer em um mundo melhor através de pessoas melhores. É uma jornada para a autodescoberta, tanto dos personagens quanto do leitor! Uma leitura que, sem dúvidas, recomendo!

Aleatoriedades
  • A resenha de Rumo ao Sul foi escrita originalmente para o blog Resenhando por Marina, com exemplar recebido em parceria da Faro Editorial.
  • A edição do livro é especial, com páginas diferenciadas destacando cada uma das partes do livro e o papel amarelado de uma gramatura excelente e que ainda deixa o exemplar super leve!
  • As fotos dessa sessão foram complicadas. Pela história os elementos que me vinham à cabeça eram todos ligados à praia, mas sabia que a história ia além das ondas do mar e gosto salgado de Key West. Vi uma foto nesse estilo com All Star e várias flores que curti muito, fiz adaptações para elementos que achei que remeteriam ao livro e esses foram os cliques que surgiram… No fim das contas fiquei mais satisfeita com o resultado do que eu esperava!
  • Rumo ao Sul já fez parte da TAG Inéditos e foi um sucesso a recepção e, depois da leitura, é fácil entender o frenesi e a escolha da Faro Editorial em realizar a publicação também.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

4 Comments

  1. Carolina silva says:

    Amei a resenha ! E as fotos muito perfeitas ! Queria conseguir fazer fotos assim pro meu IG

    1. Oi Carolina!
      Ah obrigada, esse livro é tão lindo e inspirador que eu queria fotos bem legais pra ele! E pode ter certeza que você é capaz de fazer fotos, é só ir praticar! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  2. Olha eu aqui de novo… rs
    Não conhecia nem autor, nem livro. A história, no entanto, me lembrou alguns filmes que vi no ano passado. Acho que toda viagem nos propicia aprendizados, ainda mais quando partimos de um ponto igual ao desse personagem…
    Acho interessante rever nossos posicionamentos, mudar ritmos e compreender que todos nós estamos na vida, não para cuidar do outro ou se ocupar do outro e sim de nós mesmos e o que fazemos por nós.
    A gente perde muito tempo analisando o outro e suas formas de viver e ser.
    Gostei imenso da comparação do oceano com deus. Gosto dos sons das ondas e da maneira como recuam da praia. Gosto também do deserto azul e das formas de vida que se apresentam por toda a extensão dos mares. Não creio em deus, mas gosto dessas visões humanas que buscam encontrá-lo em alguns lugares, inclusive em nós mesmos.

    bacio

    1. Oi Lunna!
      Eu li esse livro e passou literalmente um filme na cabeça, acho que tem cara de potencial roteiro, pra ser sincera. E a aprendizagem que é proposta é exatamente a da viagem, aquela ideia de que o importante é o caminho e não o destino!
      E sobre a comparação com Deus, eu também achei incrível, eu acredito em divindade, mas não na Igreja. E achei as analogias que o guri faz no livro as melhores e mais sinceras, do tipo que faz refletir e guardar com carinho.
      Obrigada pela visita, o diálogo contigo é sempre ótimo!
      xoxo

Repense, renove, rediscuta...