Cartas para Martin ♥ Nic Stone

Retipatia

Cartas para Martin é um livro duro, cruel e, por isso mesmo, extremamente realista. É a história do adolescente Justyce descobrindo que o mundo irá julgá-lo não por suas ações ou por quem ele é, mas por sua cor. É um segurar de fôlego da primeira até a última página, porque a verdade escorre das folhas e o tom é vermelho como sangue. Mais do que um livro bem narrado e construído, com personagens cativantes e reais, é um livro necessário. E você precisa conhecer Justyce.

Cartas para Martin (Dear Martin)
Nic Stone
Tradução Thaís Paiva
Intrínseca | 2020 | 256p.

Disponível em Amazon

“Pode até não haver mais bebedouros separados para as pessoas ‘de cor’, e racismo hoje em dia é crime, mas, se eu ainda posso ser forçado a sentar no chão de concreto com algemas apertando meus pulsos mesmo sem ter feito nada errado, é bem óbvio que temos um problema. Que a sociedade não é tão igualitária quanto as pessoas gostam de dizer.”
Sobre Nic Stone

Nic Stone é uma das vozes mais celebradas da literatura jovem atual. Seu romance de estreia, Cartas para Martin, foi best-seller do The New York Times e lhe rendeu sucesso internacional. Nascida e criada em um subúrbio de Atlanta e formada na Spelman College, foi aos vinte e três anos, numa temporada em Israel, que ela descobriu sua verdadeira vocação: contar histórias. Tendo crescido em contato com uma gama diversa de culturas, religiões e contextos sociais, seu maior objetivo é trazer essas diferentes vozes para seu trabalho.

Sinopse de Cartas para Martin

Justyce McAllister é um garoto de dezessete anos com um futuro brilhante pela frente. É um dos melhores alunos de uma prestigiada escola de Atlanta, tem uma mãe amorosa e um melhor amigo incrível. No entanto, um episódio de violência policial traz à tona que a distância entre ele e seu futuro é quase um abismo. Porque Justyce McAllister é negro, e isso significa que, muitas vezes, é julgado pela cor de sua pele.

Ao ser agredido e detido injustamente, o olhar de Justyce desperta para um novo mundo, um lugar solitário em uma sociedade que insiste em vê-lo como ameaça ou como promessa de fracasso. Ele se dá conta, então, de que não pode mais fingir que não tem nada errado e decide iniciar um projeto: escrever cartas para Martin Luther King Jr., um dos mais importantes ativistas políticos pelos direitos dos negros, símbolo da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos, morto em 1968.

Ao tentar aplicar os ensinamentos de Luther King em sua vida, Justyce começa a trilhar um caminho para entender não só como deve reagir diante das injustiças, mas que tipo de pessoa ele quer ser. Em meio a questões familiares, desentendimentos com os amigos e complicações da vida amorosa, nas cartas ele expõe suas dúvidas, sua angústia, sua revolta e a percepção clara de que a sociedade não é tão igualitária quanto deveria.

No livro de estreia de Nic Stone, vemos Justyce passar pelos desafios da adolescência, amadurecer e encarar o racismo que tanto afeta sua existência. Comovente e extremamente necessário, Cartas para Martin é um relato sobre ser um jovem negro e sobre o direito inalienável de existir. Um livro impossível de ignorar.

Cartas para Martin

O futuro de Justyce se estende à sua frente como um caminho brilhante, ele não apenas é um aluno exemplar, o quarto de seu ano, como é capitão do time de debate e já tem vaga garantida em Yale. Não que qualquer coisa tenha lhe sido entregue de mãos beijadas, Justyce tem bolsa integral na Escola Preparatória de Braselton e se empenha para ser excelente. O que, para ele, é suficiente para conquistar tudo o que deseja.

“Agora, eu só consigo pensar o seguinte: ‘o que teria sido diferente se eu não fosse negro?’ Até entendo que, de cara, o policial só podia confiar no que estava vendo (que realmente parecia meio suspeito), mas nunca tinham duvidado do meu caráter dessa forma.”

Mas quando ele é preso e fica detido e algemado por horas, sem ter feito nada de errado, um caminho mais tortuoso parece se estender à sua frente. A pergunta que Justyce faz a si mesmo é a de que, se ele não fosse negro, as coisas seriam diferentes?

“Ter que ficar lá ouvindo um riquinho branco se gabando de burlar a lei, sendo que eu passei horas algemado sem motivo nenhum… Não consigo nem dizer como foi difícil, mãe. Parece que não importa o que eu faça, vou sempre sair perdendo.”

A própria realidade do mundo diz a Justyce que sim, se ele não fosse negro, as coisas seriam mais fáceis. Mas ao mesmo tempo, existe um número sem igual de pessoas que dirão que não, é Justyce quem está vendo problemas onde não existe. Drama ou mimimi. Que ele é quem vê racismo em tudo. Que a sociedade é igualitária.

“‘Desde que você era pequeno, eu vivo te dizendo que você tem que construir seu lugar no mundo. Achou que fosse bobagem?’ Suspirei de novo. ‘Já pensou que talvez o ideal seja não ‘se encaixar’?’, continuou ela. ‘As pessoas que fazem a história raramente se encaixam.'”

Justyce não precisa sair da Escola para ter uma amostra disso. Não são as escolas a preparação para a vida? Não são elas como micro sociedades, fechadas em suas próprias regras e cultura? E é por isso que Justyce ouve diariamente que não, não existe racismo nos EUA. Só que o dia de sua detenção injusta ficou gravado em sua memória, e ele sabe que, apesar de ignorar muitas coisas até aquele momento, há um antes e depois daquele dia. Agora, é impossível ficar calado e não querer fazer algo a respeito.

“É como se eu estivesse subindo uma montanha, mas toda hora vem esse babaca tentando me empurrar para baixo, para eu não chegar até ele, e o outro babaca fica me puxando pela perna, para eu voltar para o chão, só porque ele se recusa a tentar subir também. Eu sei que eles são só duas pessoas no mundo, mas, depois de hoje, sei que em Yale (porque eu VOU para Yale) vou viver na paranoia de que as pessoas me olham e ficam se perguntando se eu tenho mesmo competência para estar lá.”

Enquanto isso, ele precisa lidar com as pressões tradicionais de ser um adolescente, como o namoro instável, a proximidade com a colega de debate, as amizades que começam a ser abaladas, e o experimento de escrever cartas ao Reverendo Dr. Marthin Luther King Jr., para refletir sobre o que está acontecendo em sua vida, sobre o racismo, sobre tudo que não entende e, especialmente, para tentar ser alguém como Martin foi. Enquanto isso, o noticiário relata mais e mais casos de crimes raciais. E essas histórias não saem da cabeça de Justyce.

E pode ter certeza, Justyce também não sairá da sua.

“Depois do caso Tavarrius Jenkins, vi um cara branco na TV falando sobre como casos como esse e o de Sherman Carson ‘desviam o foco da questão do crime perpetrado por negros contra negros’, mas como eles querem que os negros saibam como tratar uns aos outros se ouvimos o tempo inteiro, desde que fomos trazidos para este país, que não merecemos respeito?”

Quando peguei o livro para começar a leitura, já tarde da noite, pretendia apenas ler algumas páginas. Mas foi simplesmente impossível parar de ler até acabar o livro. Por certo os méritos são inúmeros. Primeiro pela narrativa leve, limpa e cativante de Nic Stone. Parece que ouvimos os pensamentos de um garoto de dezessete anos nas cartas escritas, e sentimos a realidade entrelaçada a cada pequeno pedaço da história. Ler Cartas para Martin é navegar na realidade condensada, trazendo um pouco da vida de um jovem nascido tanto do imaginário da autora, quanto da realidade que nos cerca.

“O que eu faço quando minha identidade é ridicularizada por pessoas que se recusam a admitir que o problema é real?”

De outro lado, não é apenas à narrativa que se deve a sagacidade de Cartas para Martin. Enquanto a prosa te cativa, ela despe página atrás de página as mais diversas formas do racismo. Ela mostra como cada demonstração de ódio, ignorância, desrespeito, indiferença, violência e tantas outras coisas que compõem os crimes raciais, se entranham nas pessoas, em suas vidas, em suas histórias.

“‘Por que os negros estão sempre com tanta raiva?’ Como eu posso não ter raiva?”

Além disso, as mensagens embutidas na história são muitas e não se resumem a detalhes explícitos. Temos, por exemplo, o próprio nome do personagem principal, Justyce, que em tradução significa Justiça, um dos pontos centrais que o levam à reflexão. Afinal, o ato de injustiça pelo qual ele passou é um dos inúmeros que ocorrem dia após dia e que, como as manchetes anunciam, nem sempre terminam com o jovem retornando para casa.

“Foi assim que eu me senti quando comecei na escola nova. Todo mundo me via como negro, mesmo eu não tendo a pele muito escura e tendo olhos verdes. Os alunos negros esperavam que eu conhecesse todas as suas referências culturais e gírias, enquanto os brancos esperavam que eu agisse ‘que nem negro’. Foi um choque de realidade cruel. Quando a gente passa a vida inteira sendo ‘aceito’ pelos brancos, é fácil ignorar a história e é difícil encarar os aspectos que ainda são problemáticos, entende?”

Além disso, o apelo às cartas escritas por Justyce endereçadas à Matin Luther King é excepcional. A narrativa da história segue em terceira pessoa, mas nas cartas, temos Justyce desnudado, expondo os lados mais inquietantes que lhe afligem durante os acontecimentos. E tudo fala, do modo como ele questiona, a como coloca as ideias, angústias e revoltas, a raiva, até mesmo o período em que fica ausente. Nada do que está na história é mero acaso, a construção te leva passo a passo para o desfecho e, é certo, para a realidade contundente e afiada como navalha.

“Mate-os com bondade. A questão é que o mundo está cheio de gente como Jared e esse meu funcionário, e muitos deles nunca vão mudar. Por isso, vocês é que precisam ser fortes. No futuro, é melhor que você evite falar com os punhso…’ Ele cutucou Manny. ‘Mas pelo menos agora você tem uma ideia do que vai enfrentar. Tentem não deixar que essas coisas impeçam vocês de sempre dar seu melhor.”

Na melhor definição, você vai de um extremo à outro na leitura, um leve sorriso enquanto conhece Justyce até chegar as lágrimas. Ok, talvez você não chegue às lágrimas, como eu (situação raríssima, admito), mas é impossível não sentir a dor de todos os acontecimentos que se desencadearão na história. É como segurar o ar na primeira página e apenas soltar ao chegar à última palavra, da última página. O que não significa, nem de longe, deixar a história de lado. Pelo contrário, ela ficará por dias e dias com você e, na verdade, espero que possa ficar pelo resto da vida.

“Pra que tentar andar na linha se as pessoas sempre vão olhar pra minha cara e esperar o pior?”

Cartas para Martin, através da criação de várias tramas, personagens e ramificações da história, mostra o nível do entranhamento do racismo na sociedade, nas pessoas, nos atos aparentemente inofensivos e cotidianos. Nic Stone escancara não apenas as dificuldades e dores, mas a complexidade de resultados que cada evento ocasiona em cada indivíduo.

“Naquele momento, […], a ficha caiu: apesar de ser um cara sensacional, eles mataram o Martin mesmo assim.”

Cartas para Martin é mais do que uma leitura importante, é necessária. Um excelente texto para se debater em sala de aula, em casa, em família, entre amigos, entre grupos de leitores, em todos os lugares, com todas as pessoas. É o tipo de história que, a cada vez que você olha, percebe um novo detalhe, surge uma nova percepção, um novo aprendizado se mostra presente. É um relato ao mesmo tempo duro, cruel, mas também esperançoso. De que podemos construir um mundo melhor quando temos consciência do que está errado e, especialmente, ao ouvirmos aqueles que são oprimidos.

“A cada desafio que enfrentei, a pergunta era ‘O que Martin faria?’. Eu nunca consegui responder a isso de verdade, mas, se seguimos a lógica de Doc e perguntarmos ‘Quem Martin SERIA?’, aí é fácil responder: você seria o mesmo, o eminente Martin Luther King: uma pessoa não violenta, difícil de ser desencorajada, firme em suas crenças.”
Aleatoriedades

Cartas para Martin foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca.

As sugestões de leitura da vez são: Na Corda Bamba da Kiley Reid e Daqui pra Baixo do Jason Reynolds.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...

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