
Os dois morrem no final já anuncia a tragédia logo no título para ninguém vir reclamar de depois. Mas a melhor coisa mesmo é que, como todo bom romance, a jornada é tão importante quanto o final. Independentemente se os dois morrem no final, ou não.
Os dois morrem no final (They both die at the end)
Adam Silvera
Tradução Vitor Martins
Intrínseca | 2021 | 416p.
Disponível em Amazon
“Não se trata mais do início dos anos 2000, quando as pessoas morriam sem nenhum tipo de aviso. A Central da Morte está aqui para preparar os Terminantes e seus entes queridos, não para que um Terminante dê as costas para as pessoas que o amam.”

Sobre Adam Silvera
Adam Silvera é escritor e trabalhou por anos no mercado editorial. Best-seller do New York Times, é autor de E se fosse a gente? e Here’s to Us, que escreveu em parceria com Becky Albertalli, e também de História é tudo que me deixou, Lembra aquela vez, Infinity Reaper e Infinity Son, todos sucesso de público e crítica. Nasceu e foi criado no Bronx, em Nova York, e atualmente mora em Los Angeles, onde escreve em tempo integral.

Sinopse de Os dois morrem no final
No dia 5 de setembro, pouco depois da meia-noite, Mateo Torrez e Rufus Emeterio recebem uma ligação da Central da Morte. A notícia é devastadora: eles vão morrer naquele mesmo dia.
Os dois não se conhecem, mas, por motivos diferentes, estão à procura de um amigo com quem compartilhar os últimos momentos, uma conexão verdadeira que ajude a diminuir um pouco a angústia e a solidão que sentem. Por sorte, existe um aplicativo para isso, e é graças a ele que Rufus e Mateo vão se encontrar para uma última grande aventura: viver uma vida inteira em um único dia.
Uma história sensível e emocionante, Os dois morrem no final nos lembra o que significa estar vivo. Com seu olhar único, Adam Silvera mostra que cada segundo importa, e mesmo que não haja vida sem morte, nem amor sem perda, tudo pode mudar em 24 horas.

Os dois morrem no final: a história de Rufus e Mateo
“Olá, aqui quem fala é a Central da Morte.
Sinto muito em lhe informar que em algum momento ao longo das próximas 24 horas você terá um encontro prematuro com a morte.
Em nome de toda a equipe da Central da Morte, sentimos muito a sua perda.
Aproveite este dia ao máximo, está bem?”
Já imaginou um mundo em que você recebe uma ligação de telemarketing avisando que seu dia chegou? É isso, seu dia de morrer. Não vão te passar detalhes, pode ser desde um ataque cardíaco até um piano despencando na sua cabeça. A questão é que, a partir da ligação da Central da Morte, seu destino está selado, você pode ter ainda dois minutos de vida, duas horas ou quem sabe até mesmo 20. Mas uma coisa é certa, você não verá o dia seguinte nascer.
É nesse mundo que Rufus e Mateo existem, um mundo bem parecido com o nosso, com tecnologia na ponta dos smartphones, app’s para tudo e mais um pouco. Só que, no mundo deles, todo mundo fica sabendo quando é o dia em que vai morrer. Como cada um vai aproveitar suas horas finais, bem, aí é outra história.
“Eu não tinha lá grandes esperanças. Não sei as estatísticas nem nada do tipo, mas não é muito comum que a Central da Morte ligue para as pessoas erradas. E nós, da família Emeterio, não tínhamos muita sorte no quesito permanecer vivo. E encontrar o criador muito antes do tempo era nossa especialidade.”

“Meu pai sempre botou na minha cabeça que eu deveria fingir ser o protagonista de uma história na qual nada de ruim acontece, em especial a morte, porque o herói precisa estar vivo para salvar todo mundo.”
Como o título já entrega para a gente, os dois morrem no final e só podemos estar falando desses dois, Rufus e Mateo, que acabam de receber as ligações que vão mudar suas vidas para sempre. Enquanto Mateo está em casa lendo postagens de Terminantes (pessoas que estão prestes a morrer, que receberam a ligação) no site Contagem Regressiva, Rufus está num momento um tanto quanto questionável de sua vida. Mas o ponto é que ambos receberam a ligação da Central da Morte e ambos agora precisam lidar com sua morte próxima e certeira.
Quando o app Último Amigo é responsável por cruzar as vidas de Rufus e Mateo, suas jornadas serão aventureiras, dramáticas e, especialmente, com tempo contado. Mas será que eles conseguirão se despedir e viver toda uma vida em menos de 24h?
“Todo mundo vive especulando sobre como a Central da Morte recebe essas informações que mudam a vida das pessoas. Tagoe já me contou um monte de teorias malucas que ele leu na internet, tipo uma sobre a Central da Morte consultar um monte de médiuns de verdade e outra, mais ridícula, segundo a qual o governo acorrentou um alienígena em uma banheira e o força a dar informações sobre os Dias Finais.”

Os dois morrem no final: impressões sobre o livro
Quando surgiu a oportunidade de leitura desse livro, preciso dizer que fiquei dividida. O título é do tipo que já seria mais do que suficiente para me fazer correr para comprar o livro, mas eu já havia tido um contato anterior com a escrita de Adam Silvera em E se fosse a gente?, escrito em parceria com a Becky Albertalli e, não foi do tipo que me faria procurar outras leituras do autor. Apesar de não ter sido ruim, afinal o livro é bom, a prosa dele não me agradou tanto em E se fosse a gente? Mas o lado curioso de leitora e a vontade de dar uma segunda chance para o autor falaram mais alto.
E eu só posso dizer AINDA BEM! Eu não apenas devorei o livro em apenas um dia, como também não consegui parar de pensar em sua história desde que terminei. A ideia da Central da Morte, as histórias de Rufus e Mateo, os personagens que se entrelaçam em suas histórias, absolutamente tudo nesse livro é apaixonante. Viciante.
O foco central da trama é, sem dúvidas, a vida. É, pode até parecer que é a morte, já que os dois morrem no final, mas eu posso garantir que é a vida. Ou, melhor do que isso, é viver. Não apenas através do momento em que os garotos recebem as ligações e suas vidas são reviradas de cabeça para baixo, como também com as histórias de suas vidas. Cada um vivendo seus próprios dramas e tormentas, tendo seus próprios problemas para lidar e histórias que queriam tanto poder ouvir, contar e viver e que, de repente, não existe mais a possibilidade de acontecer.

“A causa não importa tanto quanto o que eu vou fazer antes que isso aconteça, mas a incerteza me dá calafrios; só se morre uma vez, afinal.”
“Quando alguém compartilha a própria jornada, assim, para todo mundo ver, você presta atenção – mesmo sabendo que eles vão morer no final.”
“Não sei como fazer isso. Ninguém nunca ensina para você como preparar os outros para a sua morte, ainda mais quando se tem dezessete anos e é saudável. Todos nós já passamos por muitos momentos sérios, e quero fazê-los rir.”

O debate aqui, em os dois morrem no final, não é apenas sobre a efemeridade da vida. Todo ser humano tem consciência de sua mortalidade, mas não vivemos todos os nossos dias como se fossem as últimas 24h que possuímos. Às vezes vivemos a esperar pelo fim de semana, esperar por aquelas férias, esperar ter aquela promoção no trabalho, esperar encontrar o amor. Mas será que deveria ser assim, quando, de fato, todos os nossos dias podem ser o último?
Uma das coisas mais legais que o livro trabalha é a multiplicidade de reações. Cada pessoa, desde os protagonistas Rufus e Mateo, até os personagens que lhe são próximos, como a melhor amiga de Mateo, Lidia, e os Plutões de Rufus, têm várias e várias reações à morte. Afinal, por mais que estejamos em um mundo em que existem ligações da Central da Morte, a cultura ocidental em relação a forma com que a morte é vista, é a mesma. Um misto de mistério e terror e, sempre, sempre, o luto e a fragilidade de quem fica.
Além disso, o processo do luto é trabalhado de maneira incrível, especialmente através do personagem Mateo. Já imaginou como seria ficar de luto pela sua própria morte? Primeiro estágio, negação e isolamento. Segundo, raiva. Terceiro, barganha. Quarto, depressão. Quinto, aceitação. Como um mapa que nos indica suas evoluções, é possível ver em Mateo precisamente o que seria entrar de luto por nós mesmos e, a forma como a história conduz essa questão é, no mínimo, brilhante.

“Certa vez, meu pai me contou que que dizer adues é ‘o impossível mais possível’, porque você nunca quer dizê-lo, mas seria estupidez não o dizer quando se tem a oportunidade.”
“É muito bizarro, mas sobreviver me ensinou que é melhor estar vivo querendo estar morto do que estar morrendo e querer viver para sempre.”
“Fui ensinado a ser sincero, mas a verdade pode ser complicada. Não importa se a verdade não vai causar uma confusão, às vezes as palavras não saem até que você esteja sozinho. Às vezes a verdade é um segredo que você guarda de si mesmo porque viver uma mentira é mais fácil.”

Aliás, Mateo é um ótimo personagem em vários outros sentidos, já que todas as suas inseguranças são colocadas à prova e elevadas ao último grau a partir daquela ligação. E, com Rufus, a situação pode não ser exatamente da mesma maneira, mas a seu próprio modo de sentir, viver e sofrer, ele passa pelos estágios, talvez até em ordem um tanto quanto alterada, e vê seu mundo refletir possibilidades que ele nunca imaginou. Ao mesmo tempo que isso aquece o seu coração (e o nosso), também expõe a efemeridade do agora, de sua vida. A proximidade com a morte.
Antes de mais nada, é ótimo destacar que Os dois morrem no final também é uma história sobre aceitação, inclusão, família, respeito e diferenças. Além de abordar transtornos mentais, também estão destacadas questões sobre sexualidade e identificação. São várias vozes queer presentes que se destacam e fazem dessa história mais do que um romance inclusivo, mas também real e acolhedor.
Agora, não se desespere quando você receber sua ligação da Central da Morte. Tenho certeza que você tem vivido todas as suas 24h como se fossem as últimas. É o que Rufus e Mateo recomendam. É o que a Central da Morte recomenda. Tenha uma boa vida. Viva-a.

“Posso não conseguir curar o câncer ou acabar com a fome no mundo, mas pequenos atos de gentileza são capazes de se espalharem.”
“Nós nunca agimos. Apenas reagimso quando percebemos que o tempo está acabando.”
“Minha Última Mensagem seria para que todos encontrem as pessoas importantes. E que vivam cada dia como se fosse a vida inteira.”

Aleatoriedades
O exemplar de prova antecipada de Os dois morrem no final foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca. Os livro ainda conta com conteúdos extras sobre o processo de criação da história Os dois morrem no final, com um texto do autor, mapa dos personagens e alguns rascunhos do seu livro de anotações que era reservado apenas para esta história.
As dicas de leitura da vez, para aquecer o coração, são: Com Amor, Simon, da Becky Albertalli e, apesar de ainda não ter resenha aqui, não posso deixar de indicar Quando te vejo da Holly Miller.
A Central da Morte deseja que você aproveite este dia ao máximo!
xoxo

