Antologia Macabra ♥ Hans-Åke Lilja

Retipatia
Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.

Para você, o que é terror? O que te faz ter medo? A Antologia Macabra traz um misto de terrores e medos, todos prontos para te devorar se você piscar. Seja lá o que você teme, as páginas estão prontas para você. Ou para o seu medo.

Antologia Macabra (Shining in the Dark)
Organização Hans-Åke Lilja
Ilustrações Odilon Redon
Tradução Paulo Raviere
2020 | 240 páginas

Disponível em Amazon

“Verdade! Nervoso – muito, terrivelmente nervoso fui e sou; mas por que dirá que sou louco? A doença apurou meus sentidos, não os destruiu, não os amorteceu. Acima de tudo, tornou aguda minha audição. Ouço qualquer coisa, no céu e na terra. Já ouvi muito no inferno. Como, então, posso estar louco? Escute! Observe como posso lhe contar minha história – de modo são – com muita calma.” O Coração Delator de Edgar Allan Poe
Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.
Sobre Hans-Åke Lilja

Hans-Åke Lilj é uma das principais vozes da internet quando se trata de cobrir e relatar livros e filmes de Stephen King. Seu site, Lilja’s Library, é a fonte de fãs apaixonados para obter informações sobre novos projetos do King e notícias de última hora, mas Lilja também apresentou suas próprias análises e entrevistas detalhadas com as pessoas mais importantes do mundo de King, incluindo o próprio Stephen King.

Sinopse da Antologia Macabra

Organizada por Hans-Åke Lilja — editor do Lilja’s Library, um dos principais sites do mundo dedicados às obras de Stephen King, no ar desde 1996 —, a coletânea reúne o medo e o horror de treze almas macabras selecionadas a dedo para exaltar o que há de mais sombrio na literatura.

Entre histórias assombrosamente originais, os leitores encontrarão o raro “O compressor de ar azul”, do mestre Stephen King — que nunca apareceu em nenhuma das antologias do autor e, antes da publicação desta coletânea, não era impressa em lugar algum desde 1981 —, “O fim de tudo”, um momento de noir assustador de Brian Keene, “A dança do cemitério”, de Richard Chizmar, amigo e parceiro criativo de Stephen King, que mostra um homem caindo na loucura e obsessão, entre outros fragmentos tenebrosos.

Banquete cheio para os leitores famintos por histórias arrepiantes, Antologia Macabra revela também mestres cultuados mundo afora, com ilustrações do francês Odilon Redon, um dos mais importantes do simbolismo, que transpôs em tela seus sonhos e pesadelos.

Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.
Conto Inspirado na Antologia Macabra

Eu queria poder dizer para ele, mas talvez já seja tarde demais. Eu também escuto. Ressoa por cada página e, a medida que passo por cada uma delas, o som se intensifica. É como um tum-tum forte de um coração desesperado. Seria o meu próprio?

Acredito que não. Posso ter pisado na beira do rio vezes suficientes para que a imagem translúcida e avermelhada da criança já me seja familiar. Ele diz que o barulho é de um compressor de ar, azul. Me pergunto como sabe a cor, apenas pelo som.

Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.

Mas o tum-tum forte permanece e entra pelas pontas dos meus dedos fazendo meu corpo inteiro vibrar. Tremer. Talvez seja só a vibração do telefone avisando que chegou um novo e-mail. Andrew. Posso fazer com que isso dê certo. Ele só tem a mim. Eu e eu. O meu eu noturno, aquele que a lua cheia revela… Mas é claro que ele não precisa saber desse outro eu.

Farei dar certo. Porque me afasto da beirada do rio, tomo um gole de café e lembro de amarrar as pontas do meu roupão que já está folgado demais. Não é como se as noites turbulentas correndo de quatro pelas vielas fossem diferentes da luz opaca do dia.

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O celular vibra novamente e percebo que não é Andrew. Não me lembro o nome dela, a que vende meu romance. Aquele que fala da tormenta do mundo como se fosse minha. Ou seria o oposto? A essa altura é difícil ter certeza porque eu ainda ouço o tum-tum como se gravado em meus ouvidos. Preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

tum tum

Resolvo seguir o som que parece se juntar ao farfalhar de folhas sendo passadas por dedos apressados. Meus pés me levaram até o cemitério e cada tum, tum, tum é como o disparo do canhão de uma arma. Quando dou mais alguns passos é que percebo que não são folhas. São asas. Asas de milhares de mariposas que sobrevoam o túmulo. O que eu conheço tão bem. E então…

Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.

É como se apagassem a lua, mas não me lembro quando o sol se pôs. As nuvens atravessam e vejo fachos parcos na terra enlameada que continua a me mandar seguir, as asas deixadas para trás, o tum-tum ritmado crescendo, quase ensurdecedor.

Mas a audição não é meu único sentido. Tem aquele que costumamos renegar, mas que faz a espinha gelar no meio da noite, a nuca arrepiar como se algo atrás de nós estivesse. Eu sei que está. Talvez ele, a coisa, o que seja, também siga o tum-tum, mas não posso mais parar, nem se eu quisesse, já que minhas mãos estão agarradas ao bastão de um carrinho de trem fantasma e os trilhos rangem a cada pequeno pedaço de terra que seguimos.

Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.

A criatura continua em meu encalço, já não me importo quando percebo seu hálito perto demais, quente demais em minha nuca. Fecho os olhos quando sinto que suas garras estão prestes a abocanhar. Mas minha garganta grita quando o solavanco faz meu corpo ser arremessado para longe. Eu voo e voo e caio e caio em terra dura, seca.

tum tum

A dor dos ossos indica que alguma coisa se quebrou em meu braço, mas não há tempo a perder, eu ouço a criatura se aproximando. Seria uma forma de carma, é isso? Foi tudo por amor, eu juro!, falo em voz alta, mas sai apenas um assovio arranhado da minha garganta.

Tento escalar, mas um dos meus braços é inútil. Sou inútil. O tum-tum vem dali, da terra, de baixo de mim. Junto do ressoar das patas da fera que ruge acima da minha cabeça, aguardando que sua presa tente escapar. Morro aqui. Ou moro lá.

Cravo as unhas na terra e sinto as unhas sangrarem enquanto a dor de transformar brota e os pelos surgem da minha pele enquanto meus ossos se espicham, minha carne se estende, o uivo sai é da minha boca com dor. Mas continuo a cavar com mãos e patas e logo tudo se torna lama com a água que não vi que já caía sob o luar. E quanto mais cavo, mais o tum-tum aumenta.

Tum-tum

Tum-tum

Resenha da Antologia Macarba organizada por Hans-Åke Lilja e publicado pela DarkSide Books.

Mais lento agora. Tum. Tum.

Mais lento agora.

O fiapo de cabeça que se mostra na terra me leva até o dia em que eu escolhi quem vivia. Quem morria. Encaro a cabeça, a cabeça me encara de volta.

A fera pula no buraco.

O tum-tum cessa.

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Antologia Macabra: do que você tem medo?

Geralmente imagens de seriais killers, palhaços assassinos, seres de outro mundo, demônios e assombrações são as primeiras referências sobre medo, sobre terror. Mas a beleza da Antologia Macabra é mostrar que o que nos aterroriza pode ter várias formas, texturas, cheiros, cores e formas. Pode ser a ausência, pode ser o grotesco. Pode ser tudo ou absolutamente nada.

E eu poderia definir brevemente o que a Antologia Macabra representou, tão bem, para mim: pluralidade de medos. Não que eu senti todos à flor da pele, mas ela ressalta como que o medo é completamente subjetivo, íntimo, particular, peculiar à cada indivíduo. E os contos são, além de bem escritos, uma ode ao terror. Ao que revira nossas entranhas.

A leitura da Antologia, além de fluida, mesmo mesclando vários autores, vários estilos, foi meu primeiro contato com algum escrito do King. E, apesar de ter gostado muito do conto dele e amar sua inspiração em Edgar Allan Poe em Coração Delator (um conto inebriantemente aterrorizante), preciso dizer que Aeliana ganhou todo meu coração.

Como todos os livros da Caveirinha, a edição da Antologia Macabra, uma parceria entre a DarkSide Books e a Macabra TV, está impecável. Da qualidade de tudo, papel, fitinha, até o cuidado com a capa, diagramação, tradução e ilustrações. Não é à toa que eu amo!

O livro foi recebido em parceria com a DarkSide Books para a Leitura Coletiva que rolou no mês de julho (eu, a atrasadas das resenhas). Obrigada Caveirinha e Clarissa pelo convite! As discussões dos contos no grupo de leitura deixaram cada história ainda mais incrível, marcante e interessante (e assustadora)!

Aos fãs das histórias curtas de terror, minha singela recomendação de Galeria Clarke de Suspense e Mistério, organizada por Juliana Daglio e publicada pela Editora Wish.

“Aqui nós ficaremos e alimentaremos a terra seca com nosso sangue.”

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

2 thoughts on “Antologia Macabra ♥ Hans-Åke Lilja

  1. Eu ri ontem rs Falei sobre ter coragem pra chegar nele na estante e não me expressei direito rs
    Não foi em relação a medo não, eu amoooo terror, medo e afins. Foi por conta da fila extensa de livros rsrsrs
    Ele está ali há um tempinho e li Medicina Macabra essa semana, aí sempre dou um intervalo entre um livro e outro(pra descansar os olhos)
    Mas sei que vou amar esse livro e Rê?? Que fotos são essas???? Que cores, que dedicação.
    Você se pintou de vermelho, você sujou uma blusinha que deve ser linda, você arrasou mais uma vez!!!!
    Eu te admiro tanto, tanto!!!!
    Obrigada por sempre me fazer sorrir com os olhos!!!! Isso é importante demais pra mim!
    Beijo

    Angela Cunha/O Vazio na Flor

    1. ahahaha ah entendi! Pois é, de fila extensa de livros eu entendo bem!
      Ah curtiu Medicina Macabra??? Tô doida por ele, mas ainda não tenho o livro!
      Obrigada, sugar! Pela visita, pelo carinho de sempre! (A blusinha passa bem ahaha)
      xoxo

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