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O Reino de Zália ♥ Luly Trigo

Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.

O Reino de Zália é um livro juvenil de ficção, mas aqui, eis o aviso: a realidade que o inspirou é a minha, a sua, a nossa. A autora Luly Trigo criou um mundo em espelho ao Brasil de hoje, que precisa de reparos urgentes! Uma história que, depois de iniciada, será difícil deixar de lado!

O Reino de Zália
Luly Trigo
Editora Seguinte
2018 | 436 páginas
Disponível em Amazon
“Que graça tem ser rei se não se pode aproveitar as coisas mais importantes da vida? Não consigo nem calcular o peso da coroa.”
Sobre Luly Trigo

Luiza Trigo, ou Luly, como prefere ser chamada, nasceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Cinema, e fez uma especialização em Roteiro pela New York Film Academy (NYFA). Trabalhou em uma produtora de Nova York como assistente de produção e câmera e, de volta ao Rio, participou de produções audiovisuais, além de atuar como assistente de direção na direção na gravação de DVDs de diversos músicos profissionais. Em 2008, produziu seu primeiro curta-metragem, Delito, que ganhou o prêmio de Melhor Curta do Festival Cinesul. É autora de Meu Jeito Certo de Fazer Tudo Errado, Uma Canção Pra Você, Na Porta Ao Lado, As Valentinas, A Caixinha Mágica e Meus 15 Anos, que teve os direitos vendidos para o cinema e, com roteiro da própria autora, estrelou nas telonas em 2017.

Sinopse de O Reino de Zália

No primeiro livro de fantasia de Luly Trigo, uma princesa se vê obrigada a assumir o governo do país em meio a revoltas populares, intrigas políticas, conflitos familiares e romances arrebatadores.

Por ser a segunda filha, a princesa Zália sempre esteve afastada dos conflitos da monarquia de Galdino, um arquipélago tropical. Desde pequena ela estuda em um colégio interno, onde conheceu seus três melhores amigos, e sonha em seguir sua paixão pela fotografia.

Tudo muda quando Victor, o príncipe herdeiro, sofre um atentado. Zália retorna ao palácio e, antes que possa superar a perda do irmão, precisa assumir o posto de regente e dar continuidade ao governo do pai. Porém, quanto mais se aproxima do povo, mais ela começa a questionar as decisões do rei e a dar ouvidos à Resistência, um grupo que lidera revoltas por todo o país. Para complicar a situação, Zália está com o coração dividido: ela ainda nutre sentimentos por um amor do passado, mas começa a se abrir para um novo romance.

Agora, comprometida com um cargo que nunca desejou, Zália terá de descobrir em quem pode confiar – e que tipo de rainha quer se tornar.

O Reino de Zália: a história

A princesa Zália é a segunda na ordem de sucessão do trono de Galdino. Isso lhe deu a chance de estudar em um colégio interno e ficar de fora da vida controlada e conflituosa que impera no palácio.

Isso até que seu irmão Victor seja vítima de um atentado, que dizem que foi causado pela Resistência (será só sensacionalismo ou será verdade?). Além de ter que lidar com o luto repentino do irmão, Zália agora se vê numa nova posição: está prestes a se tornar a Regente de Galdino, tal qual seu irmão foi, auxiliando o rei que está debilitado da saúde, no pesado dever de governar.

“Ser contra a monarquia e assassinar alguém são coisas bem diferentes. Só radicais seriam capazes de uma coisa dessas.”
Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.

O detalhe é que ela nunca se preparou para isso. Seus planos eram passar uma semana com os amigos em Corais, um dos paraísos de Galdino e, depois, se formar na escola e participar do baile. Aí, é claro, cursar a faculdade, com direito a viagens pelo mundo fotografando tudo o que vê.

“Não quero imaginar no que minha vida vai se transformar, mas é difícil evitar quando meus sonhos estão gritando “socorro” dentro de mim.”

Seus planos precisam ser reajustados junto das novas obrigações, que incluem estudos, discursos, inaugurações e um monte de regras que ela nem sabia que existia. Mas o detalhe é que logo Zália vai perceber que o jogo do poder é algo muito maior do que ela jamais imaginou. E que muita gente está disposta a jogar da maneira mais suja e corrupta. A questão é o que ela, com nem seus dezoito anos completos, sendo uma Regente sob o mando de seu pai, poderá fazer!?

Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.
O Reino de Zália: leitura coletiva, e-book free, pandemia e narrativa

O livro da Luly Trigo já me chamou a atenção, lá em 2018 quando foi lançado, pela capa. O título já foi o segundo indicativo de que eu precisava ler, amo ficções com princesas na atualidade. Mas foi só na bienal de 2019 que adquiri o livro, mas desde então ele estava lá na estante e cadê a hora de pegar para ler? Veio a pandemia nesse 2020 e a Editora Seguinte disponibilizou o e-book gratuitamente. Daí, uni uma coisa com a outra: montei uma Leitura Coletiva e eu e mais algumas pessoas, fomos desbravar O Reino de Zália.

Não poderia ter sido uma escolha melhor! Esse foi meu primeiro contato com a escrita da Luly Trigo, e sua narrativa deixa a leitura fluida, divertida, leve e, ao mesmo tempo, cheia de mensagens importantes. É um livro juvenil (young adult), mas sem dúvidas, capaz de encantar leitores de qualquer idade!

Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.
O Reino de Zália: noções políticas, sociais e econômicas do Brasil, incluídas na ficção

Falando em mensagens importantes, o que mais ganha destaque na história é o panorama histórico e cultural que Luly Trigo conseguiu imprimir no livro. O país, chamado Galdino, está passando por um momento difícil. A monarquia não se sustenta porque o povo não confia mais nela, dado aos inúmeros casos de corrupção e a aparente inércia da Coroa.

Ainda, a desigualdade econômica é massacrante, o que aumenta a revolta e a indignação. Mesmo com alguns representantes instituídos pelo povo, o controle principal vem da Coroa e, com a reputação em baixa, é difícil ter apoio até para mudanças. Sem contar a Lei de Reforma da Aposentadoria que vai exigir mais tempo de trabalho das pessoas, porque o país está afundando em dívidas. O povo não quer e o atentado de Victor, foi às vésperas de ele assinar a nova lei. Coincidência?

Qualquer semelhança com o país que vivemos não é mera coincidência! A autora trouxe temas importantes, destacando o quanto o mal da corrupção se enverada pelos mais diversos campos e contamina todo um sistema político.

Do outro lado, em oposição à Coroa, temos a Resistência. E, como qualquer movimento e manifestação política, cultural, econômica e social, é composta de extremos: alguns que desejam a cabeça da Coroa à prêmio. Os que querem paz e um mundo igualitário, sem caça às bruxas. Ou caça à realeza. E é claro que extremistas e conservadores (e conservadores extremistas) também são encontrados do lado da Coroa.

“— ‘O sol brilhará para todos’ — diz minha mãe, como se lesse meus pensamentos. — É o nome de um poema de Jadir Ricci, um poeta do século XIX.”

Luly Trigo traça na história um paralelo bem construído entre governo e oposição, na abordagem mais importante da obra. A necessidade de revisão política, do status quo e de expurgar a corrupção em todos os níveis em que ela se impregna é latente, tal qual no mundo em que vivemos. E ela ainda ressalta esse ponto através da forte presença da mídia durante a história e toda a repercussão de fatos que são tratados das formas mais diversas, conforme a posição política que o narrador defende.

Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.
O Reino de Zália: não apenas um livro político, mas também de aprendizagem e amadurecimento

Mesmo tendo esse forte viés político, o livro não se resume à isso. Afinal, vamos lembrar que a adolescente Zália está prestes a enfrentar uma tarefa para a qual não se preparou.

E assim, vamos conhecendo a jovem que, aos poucos, começa a perceber a realidade de seu país e de seu povo. E que não deseja ser apenas um peão decorativo em eventos. Mas que quer ter voz ativa e poder. Não para si, mas para ser capaz de ajudar a quem ela deve: o povo de Galdino.

“Por que estou tão elétrica?, pergunto a mim mesma. E, como se existisse outra de mim, respondo: Porque acabei de sentir como é ter poder… e gostei.”

É uma transformação e tanto pela qual ela passa, com direito a apoio dos seus melhores amigos: Gil, Julia e Bianca, que se tornam também seus Conselheiros e que ajudam a trazer um ar revigorado para a Coroa de Galdino. Junto de Zália, deixam aquele lembrete: nosso futuro está nas mãos das gerações jovens, que estão despertando uma consciência maior e mais ativa em relação ao mundo em que vivemos.

“Nós partimos e ninguém se lembra de nós, só ficam as construções. — Não seriam nossos atos construções também? — ele pergunta, me fazendo refletir. — Se quer deixar sua passagem marcada, não basta construir algo novo no sentido metafórico?”
Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.

Além disso, Zália tem uma mãe que, a primeira vista, parece ter uma voz silenciada pela vida e pelo próprio marido, o Rei de Galdino. Mas, aos poucos, Rosangela se mostra um suporte indispensável na formação da rainha que Zália quer se tornar.

“De um jeito ou de outro, você sempre vai desagradar alguém, então por que não ser você mesma?”
Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.

Humberto, pai de Zália e o Rei, é alguém já calejado pelo poder, alguém que se habituou tanto a ver o mundo sob as lentes da riqueza da realeza que se mostra inflexível, conservador e um antagonista ao papel que a filha quer desempenhar.

“O povo admira a monarquia porque nossa vida é perfeita. Querem viver como a gente. O que vai acontecer se nos virem tristes, preocupados? Não podemos jamais mostrar fraqueza.”

O único detalhe aqui que acredito que poderia ter uma construção mais sólida, é quanto à incapacidade do pai em reinar. Sua necessidade de um Regente está atrelada ao fato de que sua saúde está debilitada, mas não há uma definição clara quanto ao poder compartilhado que ele mantém enquanto há um Regente instituído. Já que, quando se tem um Regente, é porque o monarca não está desempenhado seu papel por alguma razão e, no caso, ele estava. Ainda que debilitado.

O Reino de Zália: relacionamentos e tem romance sim!

É claro que não podia faltar um pouco de love story nesse reino, né!? rsrsrs Um dos pontos legais é que a autora trabalha um triângulo amoroso, mas sem tanto drama quanto geralmente vemos nessas situações. E ele fica bem à cara de primeiros amores, decepções, descobertas e, claro, fazem parte do processo de Zália aprender a ouvir a própria voz interior e amadurecer.

Aqui, eu faço dois adendos: achei um dos personagens do triângulo pouco desenvolvido e foi bem difícil criar empatia e entrar na vibe de torcer pro time dele. E nem preciso dizer que tive uma queda pelo boy lixo, e só por isso eu já sabia que uma hora, ia dar ruim ahahah Além disso, tenho um pouco de problema com a ideia da necessidade de que a princesa precisa ficar com alguém na história. Ainda que eu entenda que, pelo estilo do livro, é uma ideia que agradaria a maior parte dos leitores.

“Tudo o que eu queria era liberdade, e agora que a tenho me sinto vazia. Não existe liberdade sem aqueles que amamos por perto.”
Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.

E ainda temos outros relacionamentos explorados na trama: a relação de Zália com seus pais; de Gil, amigo e Conselheiro de Zália, com sua família, que não aceita o fato dele ser homossexual; e Julia com sua sede de gritar Resistência! aos quatro cantos (eu adoro ela por isso ahaha)! A própria amizade de Zália com o trio Gil-Julia-Bianca é um frescor muito bom para a história, porque a importância da amizade não é apenas em ter pessoas por perto, mas aqueles que possam te apoiar, respeitar e também, puxar a orelha e abrir os olhos quando for preciso.

“Ter meus amigos ao meu lado me fortalece. Eles não se importaram ao me ver chorar, isso não os afasta. Permanecem todos do meu lado. Com eles, as preocupações e o medo se tornam menores. Me sinto mais eu, e a coroa não parece tão pesada.”
Resenha do livro O Reino de Zália, da autora Luly Trigo, publicado em 2018 pela Editora Seguinte.

E nem preciso dizer que, é óbvio que vai rolar muito balacobaco por causa desses relacionamentos e, também, devido a situação que impera no país e ao posicionamento de Zália frente às injustiças e corrupção. Segura as pontas para ler porque o livro vem com uma dose de ação garantida!

“Finalmente entendo que é importante se permitir sentir. Só assim podemos superar nossos traumas e crescer. Transformar os obstáculos em lições, e não em fantasmas.”

O Reino de Zália é uma aventura por uma Galdino tão real quanto o mundo em que vivemos. É descobrir que nossa capacidade jamais deve ser subjugada, nem por nós mesmos, nem por ninguém. Zália vai lembrar a todos que, “caráter é poder“*.

Aleatoriedades
  • *A frase ‘caráter é poder‘, no original ‘character is power‘, é creditada a Booker Washington, que foi uma liderança afro-americana, que viveu no século XIX (Saiba mais).
  • Para as fotos da vez, fiz algumas artes no Canva, como se fossem matérias de revista publicadas sobre a princesa Zália e sua ascensão como Regente e, claro, vida pessoal, que é algo que é bem retratado na história. E tentei pegar fotos de pessoas que me lembrassem os personagens do livro (as fotos são do Pexels).
  • Para quem curte um juvenil, com uma pitada de fantasia, com amadurecimento e com uma princesa bem legal também indico: A Improvável Annelise da Taty Azevedo!

Que a Força esteja com você!

xoxo

Retipatia

10 comentários

  1. @milenaolis says:

    Amo muito escritores nacionais. Já quero conhecer essa obra que aborda temas super importantes e atuais! Acho que combina de certa forma com o que estamos vivendo. Eu amei MUITO e já quero conhecer esse trabalho!

  2. @milenenas says:

    Eu já tô apaixonada pela Zalia e arrasada por ter perdido a época que o e-book estava grátis 🙁
    Fico muito feliz por ver cada vez mais autoras/es nacionais ganhando merecido reconhecimento!!
    Durante a pandemia, estive lendo algumas histórias nacionais do mesmo gênero e, além de “A improvável Annelise” (que eu AMO!) gostaria de deixar a minha dica também: O despertar da rainha, da Bruna Santos. Eu conheci a autora e gostei demais do livro!! É o primeiro trabalho dela!

    Meu ig: @milenenas

  3. ma.riah6256 says:

    Fascinada ! Lendo a resenha foi como se eu tivesse lido o próprio livro ! Adorei Rê. Já ouvi falar dos livros dela mas não cheguei a prestar muita atenção, eu adoro o filme Meus 15 anos ❤ É muito interessante a premissa do livro, ainda mais com a Zália sendo mais jovem então vamos nos identificando com ela mesmo não tendo que administrar um reino do nada

  4. Adaiane Pereira says:

    Eu sou fã da sua arte, suas fotos são algo bem legal de se ver, parabéns!!!
    Sobre a Luly, que legal a história dela ,sou fã de princesas e reinos.

  5. @adaianepsl says:

    Comentando de novo esqueci de colocar o meu @.

  6. Vazio Na Flor says:

    Eu já imaginava que encontraria uma resenha completa no blog, mas não tão completa e cheinha de fotos, do jeito que amo! Nossa literatura é tão rica, o coração fica tão feliz com esse capricho da autora em fazer essas duras comparações entre livro e verdade, história mesmo, que deixa a gente intrigado. Precisamos de melhoras, não somente como política, mas como seres humanos e Zália tão jovem, tão menina, teve que lidar com tanto poder e ainda assim, continuar sendo uma jovem, com problemas de uma jovem.
    Já preciso desse livro para ontem!!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor(P.s. nunca tinha lido a parte do @.rs.. @vazionaflor)

  7. Livrosdeumafisica says:

    O Reino de Zália trabalha muitos assuntos importantíssimo. Acredito que escritores brasileiros deviam ser mais divulgados pelas editoras. Fico mto feliz em ver uma obra tão completa e cativante. Interessante trazer esse tema numa versão mais juvenil que acaba alcançando pessoas de todas as idades. Amei as matérias de revista deram um toque única as fotos.

  8. Esse é mais um dos seus posts que eu penso TANTAS coisas pra comentar enquanto leio que chego aqui, nessa caixinha, sem saber por onde começar. Eu AMEI a proposta da Luly de discutir questões políticas tão pertinentes à nossa triste realidade misturando uma história de princesa com temática YA. Zália parece ser MUITO MARAVILHOSA! E, oh, pra mim já não foi a Resistência que matou o irmão dela e ponto final, hahahah! Adorei, quero ler!

  9. Evelin Danieli says:

    Adoro livros nacionais, mas não conhecia esse. Achei muito interessante, uma garota sendo obrigada a assumir a regência porque seu irmão acabou de falecer, fiquei muito curiosa de como ela vai conseguir lidar com tudo até porque muito já não acreditam no governo. Me parece que também tem um triângulo amoroso, que aliás adoro e como sempre quero saber com quem ela vai terminar e como isso tudo irá terminar. As fotos ficaram incríveis e a resenha me fez imaginar dentro do livro.

    @evelindanieli357

  10. Eu consegui o ebook gratuito na Amazon e pretendo ler em breve, eu só descobri que a autora era brasileira no seu ig, eu e maioria das pessoas precisamos parar de subestimar os nossos, temos tantos autores sensacionais. As fotos estão lindas, parece uma matéria de revista, se eu visse em outro lugar sem saber, acreditaria na existência do reino só pelas fotos de tão realistas, rs.

Repense, renove, rediscuta...