Mundo Literário Resenhas Literárias

João & Maria ♥ Neil Gaiman & Lorenzo Mattotti

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher

João & Maria é um dos contos de fadas mais populares, e, na resenha da vez, é hora de mostrar a edição que traz a narrativa de Neil Gaiman atrelada ao traço dark de Lorenzo Mattotti.

João & Maria (Hansel & Gretel)
Neil Gaiman & Lorenzo Mattotti
Tradução Augusto Calil
2015 / 56 páginas
Intrínseca
Disponível na Amazon
“E João e Maria não se importavam se a mãe às vezes parecia amarga e tinha a língua afiada e se o pai às vezes ficava cabisbaixo e ansioso por deixar a casinha onde moravam. Bastava que pudessem brincar na floresta, subir em árvores e nadar em rios; bastava que houvesse pão fresco, ovos e repolho cozido na mesa.”
Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher
Sobre Neil Gaiman

Neil Gaiman nasceu em 1960, na cidade de Portchester, Inglaterra. Desde pequeno, demonstrou sua ligação com os quadrinhos. Seu trabalho mais conhecido é “Sandman”, que o imortalizou entre os fãs de HQs. E, por 75 números, Gaiman e “Sandman” foram se tornando cada vez mais famosos. A série tornou-se o carro-chefe do selo Vertigo, destinado a um público geralmente adulto que não queria mais saber de super-heróis.

O autor ganhou reconhecimento da crítica ao receber prêmios ao redor do mundo, como o prestigiado World Fantasy Award, geralmente concedido a obras em prosa. Dentre outros vários trabalhos com HQs, romances e roteiros, Gaiman publicou os livros “Coraline”, “Deuses Americanos” e “O Livro do Cemitério”.

Sobre Lorenzo Mattotti

Lorenzo Mattotti é um desenhista de histórias em quadrinhos e ilustrador da Itália que fez ilustrações inspiradas no conto de Hensel & Gretel (João & Maria), foram feitas com tinta indiana e originalmente criadas para comemorar a produção de Hensel & Gretel do Metropolitan Opera, e foram posteriormente publicadas pela Gallimard Jeunesse e inspiraram Neil Gaiman a escrever o conto popular.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher
Sinopse

O prestigiado escritor Neil Gaiman e o brilhante ilustrador Lorenzo Mattotti se encontram para recontar o clássico João e Maria. Familiar como um sonho e perturbador como um pesadelo, o conto narra a saga de dois irmãos que, em tempos de crise e falta de esperança, são abandonados pelos próprios pais e precisam enfrentar com coragem os perigos de uma floresta sombria. Em um texto poético, Gaiman revive a tradição dos contos de fada: dando profundidade à aventura dos irmãos, mas sem abandonar a autenticidade e o talento único de mesclar realismo e fantasia que o transformaram em um dos maiores autores de sua geração. Mattotti, por sua vez, dá um ar inteiramente novo ao clássico. Seus traços criam um jogo de luz e sombra, permitindo que a imagem se desvende aos poucos, assim como os segredos da história.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher
João & Maria

Contos de fadas povoam o imaginário popular desde tempos quase imemoráveis. Da tradição oral eles passaram para as palavras escritas e, daí, sofreram, por influência do tempo, localização, cultura e contador, diversas alterações.

O conto de João & Maria, em seu original escrito pelos irmãos Grimm, dupla de irmãos referência em contos de fadas, é do tipo que dificilmente alguém não conheça.

Seja com uma diferença aqui e acolá, é bem provável que já tenhamos ouvido a história dos dois irmãos que são deixados na floresta abandonados pelos pais por causa da fome. As crianças deixam trilhas para conseguir retornar para casa, até quando as migalhas de pão são devoradas pelos animais e eles acabam perdidos até encontrarem uma casa feita de doces em que mora uma feiticeira que pretende devorá-los.

Invariavelmente, os contos são também fontes inesgotáveis para muitas das histórias que temos nos dias de hoje. É de se pensar que essas histórias são o berço de praticamente todo tipo narrativo que temos hoje.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher
As Ilustrações de Lorenzo Mattotti de João & Maria: os contos em suas origens trágicas e tenebrosas

O clássico conto João & Maria inspirou as ilustrações de Lorenzo Mattotti em comemoração da encenação de Hensel & Gretel pelo Metropolitan Opera e possuem um tom dark, quase gótico, sinistro e agourento.

É verdade que pode ser estranho à primeira vista ilustrações do gênero para um conto infantil, não é mesmo? Mas não seria assim o próprio conto de João & Maria? Como a maior parte dos contos de fadas, as ilustrações resgatam o tenebroso, o cruel e, ainda que tragam um final feliz, não deixam de ter muitas trevas no caminho.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher

Afinal de contas, estamos falando de crianças abandonadas à própria sorte numa floresta, pelos próprios pais, inclusive. Crianças que, no desespero movido pela fome, começam a devorar a casa de doces que lhes surge à frente. Que são escravizadas e trancafiadas para enxerem a panela da velha.

Mas também, são crianças e irmãos que lutam um pelo outro, que buscam a volta para casa, ainda que a razão de seu sofrimento tenha vindo do abandono.

Resenha João & Maria
A escrita de Neil Gaiman em João & Maria: a visão contemporânea e ausência da figura da bruxa

Neil Gaiman, inspirando-se nas ilustrações de Mattotti, traz nova vida ao conto ao dar suas cores e formas para a contagem da história. Ainda assim, a mantendo tal como é, sob novo suspiro e olhar.

É interessante como logo no começo da narrativa, Gaiman deixa claro se tratar de tempos distantes, ao se dirigir ao leitor da atualidade:

“Isso tudo aconteceu há muito tempo, na época da sua avó, ou no tempo da avó dela. Muito tempo atrás. Naquela época, todos viviam nas margens de uma grande floresta.”

A ideia de levar o leitor para tempos passados contribui para lembrar que os contos foram escritos em épocas distantes. E, ao mesmo tempo, que se originaram em épocas ainda mais antigas e que refletiam os modos e realidades destes últimos.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca

Hoje, imaginar pais abandonando suas crianças em uma floresta – sem adentrar no quesito desumano e criminoso da situação – pode parecer não apenas absurda como difícil. Afinal, quantas pessoas vivem à margem de uma floresta? Então, Gaiman nos lembra que foi no tempo de nossos avós, ou ainda, dos avós de nossos avós.

Em contraste à Gaiman, temos a narrativa de Jacob e Wilhelm Grimm, que, apesar de não iniciar com era uma vez, soa como tal:

“Próximo a uma grande floresta, viviam um pobre lenhador, sua esposa e seus dois filhos: o menino era João, e a menina, Maria.”

O balanço da narrativa de Gaiman perdura por todo o conto, Trazendo fluidez, me fazendo ler tudo de uma só vez. E, como primeiro contato com sua escrita, só tenho a dizer que mal posso esperar para ler mais (especialmente Sandman e Coraline).

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher
João & Maria: suas transformações ao longo do tempo e semelhanças com outras histórias

Um aspecto muito interessante da edição da Intrínseca é que, após a história, temos o texto Um Conto de Fadas e Suas Transformações. Trazendo diversos fatos sobre os irmãos Grimm, como a iniciativa de escrever os contos da oralidade em revolta à dominação napoleônica no reino alemão em que eles viviam, em 1806.

Ainda, conta que a primeira publicação do conto se deu em 1812 e que sua origem pode remontar do período medieval, quando a Grande Fome de 1315 levou várias pessoas comuns a abandonarem seus filhos ou se alimentarem de carne humana. Numa aura que combina muito com as ilustrações de Lorenzo Mattotti para João & Maria, Neil Gaiman retrata parte dessa situação em um dos trechos no começo da história:

“Quando a guerra veio, os soldados vieram com ela – homens esfomeados, furiosos, entediados e assustados que, ao passarem, roubavam os repolhos, as galinhas e os patos. A família do lenhador nunca soube muito bem quem estava brigando com quem, e muito menos o motivo da briga. […] A cabana do lenhador ficava longe das batalhas, mas o lenhador, a mulher, João e Maria sentiram o efeito da guerra. Eles tomavam sopa de repolho velho com pão amanhecido, agora duro feito pedra, e a família ia dormir com fome e acordava com mais fome ainda.”
Resenha João & Maria
O Papel da Mulher nos Contos de Fadas e em João & Maria: criança, filha, irmã, mãe, madrasta, velha, bruxa, feiticeira

O elemento mais interessante que o texto aborda é o papel da mulher nessa história. A primeira versão dos Grimm retratam pai e mãe concordando com o abandono de João e Maria. As revisões posteriores, contudo, a mãe torna a figura ativa do plano, mostrando pouco ou nenhum pesar. Mais revisões e a mãe se torna madrasta, o pai um ser um tanto quanto mais iluminado, cheio de remorso e submetido às vontades da mulher.

Essa parte é especialmente interessante porque demonstra as diferentes visões da mulher ao longo do tempo. Se mãe, é horrível que seja capaz do abandono, da indiferença, da maldade. Vamos transformá-la em madrasta, então. Essa, que é “falsa mãe“, pode ser, sem dúvidas, a malvada, sem qualquer tipo de remorso. O pai, em contraponto, ganha suavidade em seu papel porque, afinal, não dá para todo mundo ser mal nessa história, não é!?

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca

A própria figura da bruxa é uma visão de malvadeza dos contos de fadas: uma velha feia e malvada que é capaz de qualquer coisa. Aqui, seus crimes são puníveis com o que as bruxas merecem: a fogueira, ainda que não uma propriamente dita.

E a ideia de madrastas e bruxas más, até se incorporando uma à outra, não é nenhuma novidade no mundo dos contos de fadas. O próprio conta da Branca de Neve é um ótimo exemplo.

Resenha João & Maria
A mulher em dois pólos: sacralidade materna, bondade e beleza x maldade e feiura

A mulher sempre se divide em dois pólos: ou é má, bruxa, feia, feiticeira ou é a pureza, beleza e inocência. Pólos que sabemos serem perpetuados até os dias de hoje. Maria é a inocência, a pureza não só infantil, mas a representação da mulher que só irá agir sob condições necessárias. A bruxa, tanto quanto a mãe/madrasta é aquela sob o manto da maldade, a que não tem escrúpulos.

O próprio papel de mãe é colocado em jogo, já que, se mãe, não cai bem que seja má. Se mãe, precisa ser a benevolente, a que tudo faz e de tudo abre mão. A que sempre compreende e tira água até da fonte seca. Uma sacralidade da figura materna que vêm sendo perpetuada ao longo do tempo. Se madrasta podemos relativizar, o vínculo costuma se resumir àquela que pare, aquela que literalmente coloca o ser no mundo. Mas bem sabemos que não são esses critérios os que definem o amor de mãe e tampouco se esta é boa ou má (sem adentrar na dicotomia bem e mal que é mais tênue do que os contos retratam).

Assim como o canibalismo da bruxa (que também encontra referência em Branca de Neve), a fome, em João e Maria, atinge o nível de vilã justificadora. O que encontra raízes na realidade, como já citado sobre a Grande Fome. E a correlação de crianças expulsas de casa pelos pais em virtude da fome também pode ser encontrado em O Pequeno Polegar de Charles Perrault.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher
A visão de Gaiman para a bruxa em João & Maria: velhinha amável

O trabalho de Gaiman deixa a descrição de bruxa de lado: ela tem uma voz “doce e divertida“, é uma “velhinha amável, apoiada em uma bengala, que analisava os arredores apertando os olhos para enxergar melhor.“. Essas características iniciais passam a ideia de confiança, de segurança, de conforto e também, fragilidade da mulher. Ao lê-las, ela não ligam o alerta de perigo e, se o fazem, é porque já sabemos o desfecho da história.

A justificativa para o que ela faz surge logo após: a cegueira a impedia de caçar e sua isca na floresta passava o ano inteiro vazia. É para gerar tristeza, empatia, a ideia de que ela faz o que faz por necessidade. As crianças, ela própria diz, são sinal de boa sorte. E é interessante como ela se assemelha, em certo ponto, bem mais à uma desesperada da época da Grande Fome do que à bruxa maléfica que simplesmente devora crianças a seu bel prazer.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca: origem do conto e papel da mulher

Claro que há a maldade por debaixo desse véu. Afinal, a velha possui suprimentos para engordar João e é de imaginar que fome não fosse o único problema. Mas sabemos também que as justificativas humanas para os atos mais atrozes sempre surgem de algo real, sendo distorcido para servir aos mais escusos propósitos.

Para os fãs de contos de fadas, essa é uma leitura indispensável! E especialmente para quem gosta de analisar as nuances e transformações que os personagens sofrem em razão do tempo e da cultura que estão inseridas. Aqui, podemos esperar um final feliz para alguns dos personagens, mas jamais para aqueles que estão sob o manto da maldade, seja ele qual for.

Resenha João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti publicado pela Intrínseca
Aleatoriedades
  • O livro João & Maria de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti, foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca!
  • As fotos da vez foram bem vibes minimalista, mas sem o estilo arrumadinho que eu particularmente tenho sérias dificuldades em produzir. Como o livro já se expressa numa aura dark, preferi dar tons mais claros e quentes para tentar balancear… A luz do dia nublado não ajudou, mas como dizem, eu que lute…
  • O livro que aparece nas fotos é o Contos de Fadas em suas versões originais da Editora Wish, tem resenha dele no blog, pra conferir, é só clicar aqui! O trecho do conto citado de João e Maria foi retirado também dessa edição.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...