Resenhas Literárias

Contágio ♥ David Koepp

Contágio (Cold Storage)
David Koepp
Tradução André Gordirro
2019 / 304 páginas
HarperCollins Brasil
“Havia um organismo fúngico dentro do tanque, uma espécie de primo do Ophiocordyceps unilateralis. É um pequeno fungo parasita bacana, que pode se adaptar de uma espécie a outra. Conhecido por sobreviver a condições extremas, um pouco como os esporos de Clostridium difficile.”
Sobre David Koepp

Roteirista de cinema, Koepp escreveu Jurassic Park, Homem-Aranha, Missão: Impossível e Indiana Jones e o reino da caveira de cristal, entre diversos outros sucessos. Contágio é seu livro de estreia.

Sinopse

Em 1987, o agente do Pentágono, Roberto Diaz, é enviado a uma pequena comunidade no deserto australiano para investigar o surgimento de uma nova espécie de fungo que adoeceu todos que entraram em contato com ele.

Porém, ao chegar no local, descobre algo bem pior: o organismo modifica o próprio DNA a uma velocidade impressionante e pode exterminar a vida na Terra em poucos dias. Com a ajuda de sua parceira, Diaz consegue conter a ameaça. Um único espécime do fungo, no entanto, é capturado e levado a uma base militar americana para ser isolado a centenas de metros debaixo da terra.

Décadas depois, a mesma base é vendida para uma empresa privada e, com o aumento da temperatura do planeta, o fungo consegue se libertar de sua quarentena. A princípio, os dois vigias do lugar ― Travis “Teacake” Meacham, um ex-presidiário tentando reorganizar sua vida, e Naomi Williams, uma mãe solteira ― não fazem ideia de como estão perto do perigo. E agora o único que pode ajudá-los é o aposentado agente Diaz. O trio, então, tem apenas uma noite para salvar o mundo de um terrível destino. Mas, tendo apenas a sorte e a coragem como armas, eles serão capazes de impedir o contágio?

É nesta obra repleta de ação que David Koepp, roteirista internacionalmente reconhecido e vencedor do Oscar, faz sua estreia no mundo da literatura. Com humor e uma extraordinária capacidade de retratar experiências humanas, Contágio une ficção científica e personagens autênticos para apresentar o que Koepp faz de melhor: contar uma história inesquecível.

Contágio
Cuidado! Alerta de Contágio! Esse post tem alto grau de contaminação!

Em 1973 a Skylab foi lançada ao espaço pelos Estados Unidos. A estação espacial destruiu-se poucos anos depois, em 1979, ao reentrar na atmosfera terrestre. Seus destroços caíram no Oceano Índico.

Bom, quase todos. Algumas partes foram parar em terras da Austrália Ocidental. Partes que continham coisas que reles humanos não sabiam da existência. Algo que ficou adormecido durante anos dentro de um tanque, guardado numa das casas de Kiwirrkurra até 1987.

O que o Major Roberto Diaz e a Tenente-coronel Trini Romano sabem é que alguma coisa saiu do tanque e que uma pessoa está muito doente. A coisa, imaginam, pode ser um fungo levado para o espaço para estudos. E, já que a certeza é necessária em um caso desses, eles estão a caminho de Kiwirrkurra.

“O que costumava ser o tio era agora uma casca que tinha sido virada do avesso, tudo que era interno se tornou externo. A caixa torácica estava aberta de forma perfeita e violenta no esterno, como um paletó no chão sem ninguém dentro. Os braços e as pernas estavam descarnados, os ossos marcados com o que mais pareciam pequenas explosões internas, e as placas do crânio foram separadas ao longo das oito costuras, como se a cola que o mantinha coeso tivesse falhado de repente, de uma só vez.”

Ao chegarem no local, um completo deserto. O tanque está jogado na pequena e única estrada de terra que liga as casas. A flora do fungo está visível a olho nu, uma profusão de verde cobrindo o equipamento e se espalhando.

Eventos catastróficos estão por vir, mas as habilidades (e um pouco de sorte) de Trini e Roberto garantem que a situação seja contida. Uma única amostra do fungo é levada para os EUA, para estudos e guarda numa base de armazenagem militar.

2019, mais de trinta anos depois. Teacup está no seu turno habitual de guarda na Atchinson Storage, uma empresa de armazenagem. O local que costumava ser a base militar fora reformada e vendida. Mudanças de gestão, de governos, essas coisas.

“É muito, muito importante aprender a dizer para todo mundo no planeta inteiro pastar o tempo todo. Levei uma eternidade para aprender isso.”

A noite monótona de Teacup está para se alterar quando percebe que é também o turno de Naomi Williams, a mulher bonita que aparece só para cobrir alguns turnos e que ele ainda não teve coragem de procurar. Os dois acabam numa missão de busca quando ouvem um bipe constante soando pelas paredes. Mas o que estão prestes a descobrir é altamente contagioso.

Enquanto se desenrola a ação dentro da Atchinson Storage, os militares chamam Roberto Diaz. Agora, já quase nos seus sessenta anos, para dar uma conferida no local, e vamos acompanhar sua batalha para chegar a tempo de uma catástrofe enquanto Teacup e Naomi enfrentam as coisas mais estranhas já vistas.

Koepp sabe das coisas. Além de conseguir uma ficção científica digna de um filme daqueles, sua narrativa prende e o suspense e a tensão da história são perfeitamente balanceadas com humor. A história, apesar das mortes e do risco de infecção e morte de toda a raça humana, segue leve, e garantiu algumas horas de leitura descontraídas e perfeitas para fazer curar a ressaca literária a qual me encontrava.

“Essa era uma das coisas boas de ser velho, como era agradável a ideia de conservação de energia, de prudência, de estilo. A juventude era toda feita de desperdício de movimentos e produção de barulho, um pensamento de que quanto mais a pessoa parecia que estava fazendo uma coisa, mais ela era, quando, na realidade, o contrário era verdadeiro. Será que alguém tem a paciência para permanecer completamente imóvel até que a água suja assente e seja possível ver de forma clara? Não quando se tem menos de 50 anos.”

Um dos pontos interessantes é como o autor conseguiu mesclar pontos históricos marcantes, como a Sylab e dados científicos sobre fungos (é, vamos ver bastante deles) deixando a trama mais interessante e crível. Além disso, o raciocínio das etapas de evolução do fungo e outros pontos são explicados com um tom bem-humorado e descontraído e é impossível não se pegar rindo e achando graça até mesmo dos momentos mais caóticos.

Um dos pontos chaves do humor está no fato de que o ex-Major Roberto Diaz já está em uma idade em que as aventuras são um pouco mais complicadas. As penas não são mais tão fortes, a coluna não anda lá essas coisas e o tom de realidade desse fato garante detalhes para o desenrolar da história tanto quanto para seu desfecho.

Outro ponto interessante é a dinâmica complexa e cheia de surpresas que irá ocorrer na antiga base de armazenagem. Os vinte anos de abandono surtiram efeitos positivos para o fungo, que, como todo ser vivo, continua em sua jornada de alimentar-se e multiplicar-se. Alguns detalhes nojentos, outros aterradores, animais voltando à vida, corpos inchados e explodindo. O caos se instaura no local. E a melhor chance de Naomi e Teacup está no velho Major que está lutando para conseguir chegar. Se ele não travar a coluna antes disso, é claro.

Uma leitura que talvez seja um pouco tensa para alguns, dados os acontecimentos mundiais com o covid-19, mas que, para aqueles que não terão esse problema e que gostam de ler temas assim nessa época (ou em qualquer outra), a leitura é mais que recomendada. Koepp mostra que entende não apenas de roteiros, mas também de literatura.

Evite o contágio! Lave bem as mãos depois da leitura!
Aleatoriedades
  • Contágio foi recebido em parceria com a HarperCollins Brasil!
  • A meleca verde das fotos é um slime, como é de se imaginar, que na minha época a gente chamava de Geleinha. Eu não sei como criança gosta desse negócio porque é muito nojento ahaha Ele veio junto do livro, dando um ar super característico pro pacote e combinando com o fungo do livro, que tem aparência esverdeada.
  • Contágio está disponível na Amazon em e-book e versão física!
O livro infectado está em quarentena, como mandam as regras de segurança.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

2 comentários

  1. Lembro de você mostrar , acho que nos stories a bagunça desse slime já na embalagem rs. Lendo a resenha, já me passou as imagens de alguns filmes, só não lembro os nomes e em tempos de corona a leitura combina mesmo.

  2. Vazio Na Flor diz:

    Eu fiquei de queixo quando você postou a foto no Insta. Admiro demais esse cuidado, esse capricho e sim, slime é nojento.rs Mas vou falar que amei as fotos, deu um ar realmente de um vírus.
    Eu amo esse tipo de história, que mistura ficção e realidade.
    Por isso, com certeza, espero poder conferir o livro o quanto antes!!!
    E oh, obrigada por dividir tamanho carinho com todos nós!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

Repense, renove, rediscuta...