Resenhas

Inspeção ♥ Josh Malerman

Inspeção (Inspection)
Josh Malerman
Editora Intrínseca
2019 / 416 páginas
ARTIGO PRIMEIRO DA CONSTITUIÇÃO DA PARENTALIDADE: A GENIALIDADE É PERTURBADA PELO SEXO OPOSTO.

Sobre o Autor

Josh Malerman é escritor, músico, cantor e compositor da banda de rock The High Strung. Ele mora no Michigan, Estados Unidos. Caixa de Pássaros, best seller que ganhou adaptação da Netflix com a atriz Sandra Bullock, foi seu  romance de estreia, Inspeção é seu quarto livro.

Sinopse

Rapazes e garotas estão sendo criados em escolas especiais. Um grupo não sabe da existência do outro — até agora. No alto de uma torre embrenhada em uma floresta e isolada do restante do mundo, temos J. Ele é um dos vinte e seis rapazes de um internato que tem como objetivo formar prodígios em artes, ciências e atletismo.

Até hoje J só teve contato com as outras pessoas que vivem ali: os colegas são sua única família e todos acreditam ser filhos do fundador da escola. A vida acadêmica é tudo o que conhecem — e tudo o que lhes é permitido conhecer. Mas J suspeita da existência de algo mais fora dali, para além da Torre em que vive, algo que não querem que ele veja. É então que começa a questionar. Qual o verdadeiro propósito daquele lugar? Por que os alunos não podem sair? E que segredos o pai está escondendo deles? Enquanto isso, do outro lado da floresta, em um internato muito parecido com o de J, uma jovem chamada K vem se fazendo as mesmas perguntas.

Ao investigar os mistérios por trás de suas estranhas escolas, talvez os dois acabem descobrindo algo… que não deveriam.

Inspeção

É hora da Inspeção. É hora de despir-se de toda sua roupa, de toda sua proteção. Os olhos do P.A.I. querem saber bem mais do que a pele exposta pode revelar: todos os pensamentos e sentimentos que transcorrem na mente de seus filhos. Os Meninos do Alfabeto.

“Nós, adultos, já sabemos: ‘conhecer a si mesmo’ não é possível, não por completo, mas tentar fazer isso durante a vida com certeza diminui o sofrimento.”

Sabemos que ninguém nunca foi reprovado numa Inspeção, mas é impossível não sentir a tensão do momento. Olhos minuciosos atrás de uma lupa a verificar seu corpo em busca de sinais de alguma doença (talvez Vés, Podridões ou Placasores), sinais de que o garoto estragou. Apesar de nenhum ter sido reprovado, os meninos sabem bem que dois deles estragaram, foram para o Canto. O lugar mais temido da Torre em que vivem e para o qual quem entra nunca retorna.

O que esses garotos que acabam de completar doze anos e entrar na puberdade, não sabem é que, a apenas alguns hectares de distância, separados por uma pequena floresta de pinheiros, existe outra torre idêntica à que vivem. Mas essa é regida pela M.Ã.E. As Meninas do Abecedário seguem, como os meninos, as letras do alfabeto, uma para cada letra. Fechadas em um mundo em que só existem mulheres, tanto quanto os garotos em um que só existem homens.

“Mas como esperar quando não se pode… mais… esperar?”

Um sistema que depende de um equilíbrio delicado, onde todos, não apenas as crianças, mas também todos que lá trabalham, precisam estar alinhados. A questão toda é: e se um deles não estiver? E se, por alguma razão, alguma das crianças descobrir mais do que deveria?

Essa a história que nos é apresentada em Inspeção. Um mundo paralelo dentro do nosso próprio, regido pela ideia de que o ser humano apenas é capaz de alcançar seu máximo potencial se não tiver distrações. Por distrações entenda-se bem mais do que as tecnologias e coisas disponíveis no mundo atual, afinal, o sexo oposto é principal distração, o culpado da perda de foco de qualquer pessoa.

“As coisas tinham começado a degringolar. As pessoas tinham começado a sangrar. Começado a mudar.”

O livro se divide em quatro partes: Os Meninos do Alfabeto; Urgências; K; e Estragados e Podres. A primeira delas é a que mais somos levados à conhecer a realidade de uma vida na Torre, é vista especialmente pelo ponto de vista de um dos Meninos do Alfabeto, J, e de alguns dos membros da Parentalidade, como o P.A.I. e alguns muito interessantes Relatório Burt. Essa primeira parte também é a mais longa e, infelizmente, até chegar em 40/50% da leitura, ela se mostrou descritiva ao ponto de repetir-se muitas vezes na narrativa dos sentimentos dos personagens. A sensação é que o autor quis dar profundidade aos conflitos da trama, mas acabou sendo prolixo em dados momentos.

Esse detalhe, no entanto, é superado nas outras três partes do livro, cerca de metade dele, quando nos deparamos com a observação da história de K, uma Menina do Abecedário. Sua história ganha um viés bem mais ágil e, ainda assim, consegue mostrar a personagem e o sistema sob o qual ela está inserida.

“O que acontece, Warren perguntou (e escreveu também, escreveu a ideia em um livro, não no outro), quando um homem sente tanta culpa que precisa realizar uma cirurgia em si mesmo, removê-la do corpo? E o que o homem faz quando a culpa é extraída? E o que ele faz com o espaço vazio?”

A reviravolta da trama é bem trabalhada, apesar de, durante a leitura, não se ver muitos caminhos alternativos ao que está por vir. Acredito que a questão não é bem a surpresa, e sim o modo como tudo deslancha. Como segredos são revelados, o sistema de fé cega é abalada e, claro, as consequências ressoam por ambas as Torres.

E, aos leitores, um aviso: a parte final da trama não poupa na violência explícita. Não que ela não mostrasse a face durante o restante da história, ela está lá, de modo mais sutil e velado sob o regime da Parentalidade. Mas, ao final, praticamente num modo caricaturesco (que me fez pensar no filme Kill Bill, de Tarantino), ela não pouco detalhes e sangue. O grotesco aqui é o reflexo de toda a violência implícita ao qual à trama se baseou desde o princípio, mas não posso negar que destoou da narrativa do restante da história tanto quanto à primeira parte o fez das demais.

“Será que uma criança estraga se ele ou ela vir um desenho do sexo oposto? Se ouvir uma menção ao sexo oposto? Se ler um livro que retrate um membro do sexo oposto? Com base em como criamos essas crianças, será que o sexo oposto não seria o equivalente a um unicórnio ou a um duende do Planeta Distração?”

Talvez para quem leu a sinopse ou o texto até aqui, é possível relacionar a história com o Mito da Caverna de Platão. Não há dúvidas de que o tema encontra fundamento na metáfora do filósofo, já que esta aparece de modo sutil até mesmo durante algumas partes do livro e é interessante notar como a ideia pode ser trabalhada de vários modos.

A história, aqui, fala exatamente sobre a natureza humana, sobre a ignorância, o que é o saber, o que é a inteligência, o poder do outro, em como a realidade pode ser uma questão de perspectiva, daquilo que é permitido a alguém saber. São ótimos questionamentos, que me remetem até mesmo a algumas mensagens que encontramos em Caixa de Pássaros, best seller e primeiro livro do autor.

“Se quisermos conquistar uma coisa, temos que viver como se estivéssemos em um livro de Judith Nancy.”

Para quem já conhece a escrita de Josh Malerman em Caixa de Pássaros, um aviso: é bem diferente! Não apenas porque seu primeiro livro tem um toque de terror mais explícito, não posso dizer que há a ausência de terror em Inspeção, apesar de que ele não é um livro aterrorizante, por assim dizer. A questão é que, em Inspeção, se vê um terror psicológico, embutido na história que traz um toque também de suspense.

Devo confessar que esperava uma leitura que me fizesse virar a madrugada como foi com Caixa de Pássaros. Mas o ritmo de Inspeção é completamente diferente e não chega a ser inovador como se vê na primeira obra do autor. É um bom livro, mas talvez, precisasse de alguns cortes e revisões para que seu apelo chegasse de maneira mais efetiva e contundente ao leitor. Vi várias críticas bem pesadas sobre esse livro, não creio que todas sejam completamente fundamentadas, mas que a sensação final é de um gostinho de que podia ser melhor, especialmente porque o plano da Parentalidade, em alguns pontos parece frágil e feito para desmoronar.

“Emoção. Embargo. Espírito. Emoção, porque é preciso saborear cada refeição, cada sílaba de uma risada, cada segundo de um sorriso. Embargo, porque é preciso ser capaz de embargar a descrença em todas as áreas da vida. E espírito, porque… Bom… O espírito dirige o carro, certo?”

Recomendo a leitura para quem gosta de narrativas descritivas e histórias que analisem o humano, a pessoa, suas relações e visões de mundo. Sem dúvidas vai encontrar um prato cheio ao se deparar com uma Inspeção.

Aleatoriedades
  • Inspeção foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca e é o quarto livro do autor Josh Malerman publicado pela editora.
  • Outro livro do autor já resenhado aqui no blog foi o best seller Caixa de Pássaros, que ganhou até adaptação da Netflix em produção estrelada pela Sandra Bullock. Para ler a resenha, é só clicar aqui!
  • Inspeção e outros títulos do autor estão disponíveis na Amazon em versão física e e-book!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...