
A Paciente Silenciosa
Alex Michaelides
2019 | 364p.
Editora Record
“E por que razão Alceste, rediviva, permanece muda e imóvel?” (Alceste, de Eurípedes)

Sobre Alex Michaelides
Nascido no Chipre e filho de um pai greco-cipriota e uma mãe inglesa, ALEX MICHAELIDES estudou Literatura inglesa na Universidade de Cambridge e fez uma pós em Roteiro de Cinema no American Film Institute, em Los Angeles.

Sinopse
Um assassinato, uma verdade oculta. As raízes do silêncio são muito mais profundas do que se pode imaginar.
Alicia Berenson escreve um diário para colocar suas ideias em ordem. Ele é tanto uma válvula de escape quanto uma forma de provar ao seu adorado marido que está bem. Ela não consegue suportar conviver com a ideia de que está deixando Gabriel preocupado, de que está lhe causando algum mal.
Alicia Berenson tinha 33 anos quando matou seu marido com cinco tiros. E nunca mais disse uma palavra. O psicoterapeuta forense Theo Faber está convencido de que é capaz de tratar Alicia, depois de tantos outros falharem. E, se ela falar, ele será capaz de ouvir a verdade?

A Paciente Silenciosa
Alicia Berenson. Talvez você se lembre desse nome, afinal, esteve em muitas manchetes há alguns anos. Hoje, poucos se lembram dela. Isolada e muda em um hospital psiquiátrico. É fácil perder o interesse assim, ainda que ela tenha matado o marido com cinco tiros na cabeça…
Alicia Berenson ama seu marido. Alicia Berenson matou seu marido.
Algo nas duas sentenças não se encaixa para o leitor que pega o exemplar de A Paciente Silenciosa para desbravar as páginas. Afinal, quem ama não é capaz de matar. Não é?

O caso de Alicia desperta curiosidade não apenas no leitor, mas também no psicoterapeuta Theo Faber, que consegue um emprego no hospital psiquiátrico Grove para ter a oportunidade de tratá-la. Theo quer conseguir chegar até Alicia, quer que ela volte a falar. Que enfrente a verdade, seja ela qual for.

Nesse panorama, vamos conhecendo tanto a história de Theo, assim como o acompanhamos na busca por conhecer Alicia. Afinal, se ela não fala, ele vai buscar quem fale por ela. Quase que numa investigação policial, ele revira o passado de sua paciente. Mas, o que Theo descobre e todos os acontecimentos da trama, muitas vezes, não podem ser descritos como nada menos que surpreendentes: um verdadeiro quebra-cabeça que parece ter peças faltantes.

A história segue intercalando relatos de Theo sobre sua vida e sua investigação sobre Alicia, com partes do diário da própria paciente. Caminhando juntas, as narrativas instigam não apenas a prosseguir na leitura, mas também a formar mil suposições sobre o que aconteceu e o que vai acontecer. Mas o detalhe é que dificilmente o leitor irá acertar o que realmente aconteceu e o que está prestes a acontecer. Eu posso dizer que o Dr. Faber já assinou meu atestado de papel de trouxa.

As referências de A Paciente Silenciosa
Além do desfecho incrível, o livro prende por vários outros fatores. Temos referências à tragédia grega Alceste, de Eurípedes e descrições sobre a arte da própria personagem Alicia que fazem pintar telas em nossas mentes. Na tragédia, Admeto é condenado a morte e sua esposa Alceste aceita dar sua vida em troca da dele. Ele então, vai até o Hades e consegue trazê-la de volta à vida. A questão é que quando ela retorna, não fala. Tal como Alicia. E, nesse ponto, não vou me alongar para não trazer spoilers da história, mas o silêncio é um dos pontos mais significativos da história e o modo como ele é desenvolvido, não pode ser melhor dito do que espetacular.

As interpretações possíveis acerca da relação entre a tragédia e o caso de assassinato são bem interessantes e o autor ainda consegue trabalhar vários níveis de possibilidades que vão sendo apresentadas e descritas, formando um emaranhado de linhas imaginárias que levam o leitor à crer estar, por vezes, no caminho certo mesma estando completamente errado.

O mais provável é que, em se tratando da psiquê humana, não haja um único caminho, quiçá, apenas um correto a ser trilhado. Tudo que acontece, quem somos, a quem e o quê nos submetemos, tudo está relacionado ao nosso passado, ao que fomos criados e programados para ser. Alguns detalhes, algumas marcas que podem ser desconhecidas para outros, são, muitas vezes, as razões que nos levam a atos extremos, a comportamentos inesperados, ainda que sejamos capazes de diferir certo do errado.

É exatamente nesse trabalho que está um dos maiores enigmas do livro: quem realmente somos? Somos bons ou ruins? Há mesmo uma linha tênue que separa uma coisa da outra? O quanto podemos ser influenciados por outras pessoas ou por nosso passado?

A construção dos personagens
Outro ponto alto da trama, são os personagens. E aqui, não apenas Theo Faber, o protagonista, mas tanto quanto aqueles ligados à sua vida pessoal, tanto quanto a própria Alicia Berenson e todos aqueles ligados à ela de alguma maneira: os presentes em seu passado e aqueles que agora fazem parte do seu dia a dia no Grove. Os personagens são como as peças do quebra-cabeça que é a própria história de Alicia, que é Alicia, que é o silêncio de Alicia.

A narrativa e a construção da história
Com uma narrativa fluida, fácil de compreender, acompanhar e instigar, o autor consegue prender o leitor pela história inicialmente simples, mas que vai se intensificando e mostra que, ao passar das páginas, todas as migalhas deixadas o foram por alguma razão. É o encaixar das peças que forma o panorama: é o quebra-cabeça finalmente completo como a formar uma das pinturas de Alicia.

A elaboração da história, a inserção dos personagens, tudo funciona como uma elaborada corrente a quebrar os elos por ser esticada demais. É difícil manter-se inteiro dentro do Grove, ou diante do silêncio de Alicia, disso, não se tem dúvidas. A história é como a obra-prima de Alicia Berenson, o caso mais importante da carreira de Theo Faber. E isso diz muito mais do que o próprio silêncio da personagem que dá título à história.

A Paciente Silenciosa é um suspense inteligente e perspicaz, feito para questionar a razão e a loucura do ser humano e despertar no leitor os sentimentos mais conflitantes possíveis. É também um livro de sutilezas, em que uma tela, o silêncio e um diário podem ser as falas mais importantes a seres interpretadas.
Uma das melhores leituras do ano de 2019 do gênero suspense e dos melhores que já li na vida. Uma leitura que tiro o chapéu, mesmo que tivesse sido capaz de desvendar o mistério, não teria ficado menos surpresa ou impressionada com a leitura. As partes mais importantes, permanecem sendo aquelas em que não se é necessário emitir som algum.

Aleatoriedades
- Uma das alegrias de 2019 foi ter conseguido parceria com o Grupo Editorial Record e o livro A Paciente Silenciosa foi o primeiro recebido através do VIB: Very Importan Book. Se trata de uma caixinha especial, que vem com o livro e alguns elementos para aguçar a leitura. O exemplar é uma prova exclusiva e não revisada para leitura antecipada, já que o lançamento é apenas em 29/04. Além disso, a proposta era uma leitura às cegas, já que não há sinopse do livro na edição ou no material enviado. Bem no estilo que gosto, já que ler as sinopses não é mesmo meu hábito. Além do livro, recebemos um informativo com uma apresentação, um mini caderninho, tipo Moleskine e uma mini tela de pintura. Claro que tudo isso só serviu para despertar ainda mais a curiosidade por aqui. O caderninho é o que está aberto e com anotações nas fotos e a mini tela é a que recebeu uma sugestiva pincelada. Um mega obrigada à Record por tudo!
- As fotos da vez seguiram a linha da de apresentação do livro no IG e com alguns elementos a mais, agora já ciente da história, é sempre possível imaginar um detalhe ou outro diferente. Dessa vez, deixo a pergunta: o vermelho no dedo, é tinta ou sangue?
- Dica de leitura: Por trás de seus olhos de Sarah Pinborough
A Paciente Silenciosa está disponível na Amazon!
Que a Força esteja com vocês!
xoxo

