Um Ano de Retipatia + Sorteio

Bom dia, tarde e noite folks! Clichês à parte, parece que foi ontem, mas já faz um ano que tivemos a primeira postagem aqui no blog. Muita água rolou de lá para cá, não apenas o blog ganhou outra cara como também encontrou seu foco. Por mais que, vez por outra, eu fale de um ou outro tema aleatório aqui, como cinema, TAG’s e projetos, os dois principais focos do blog são as resenhas literárias e os contos que escrevo e compartilho nesse pequeno pedaço de mundo. Chega a ser difícil descrever quantas emoções e coisas realmente fantásticas aconteceram desde que eu criei o blog. A máxima de que a dedicação surte resultados é muito verdadeira nesse mundo blogueiro. É claro que tem dias que acho que ainda engatinho por aqui (e tem dias que tenho certeza disso), mas a todo tempo a recepção das pessoas só me mostra que é possível crescer e buscar sempre ser melhor, não importa qual seja o objetivo da pessoa. O mundo blogueiro me trouxe muito mais do que o incentivo a praticar minha escrita e à leitura. Me trouxe pessoas especiais e que, independente de qualquer coisa, terei para sempre no coração. A acolhida em vários grupos, em blogs que admiro, dos autores que confiaram seus trabalhos a mim sendo que estou aqui há tão pouco tempo, cada comentário sincero e apoio recebido, trazem uma sensação de completude sem igual. E, a todos vocês, eu só posso dizer o meu muito obrigada! Pensando em como celebrar essa data tão especial, acabei resolvendo fazer duas coisas: primeiro, uma seleção dos posts mais acessados do blog e, segundo, três sorteios bem legais e especiais que venho planejando há um tempo e que, muito alegremente, tive a ajuda de planejar com alguns parceiros do blog!

Conto ♥ Entremeio

Sugestão de música para durante a leitura: Hozier feat. Karen Cowley / In a Week Algo que se encontra no meio do caminho, como a pedra do poema de Drummond. Algo que fora deixado exatamente entre dois limites, apto a fazer-lhe parar bem na metade, seja lá do que for. – Tem certeza de que pegou tudo? – Eu insisto. – Claro que sim, Ian. – Detesto quando ele diz meu nome dessa forma, enfadonha, assim como minha mãe o usaria quando eu era uma criança impertinente. – Só estou perguntando, você fez sua mala em cinco minutos, Alan. – Tento imitar o tom indiferente, mas provavelmente sai algo muito mais próximo à malcriação. Ele sorri daquele jeito aberto e espaçoso e sua mão alcança meus cabelos, jogando-os para todos os lados. É claro que eu não posso bagunçar o seu topete perfeito, mas o ato é o suficiente para me acalmar e me fazer suspirar fundo. Não é por ter bagunçado meu cabelo, é óbvio, mas porque seu toque tem esse efeito quase mágico sobre mim. Acalma, quando precisa. Apago o abajur do meu lado da cama e ignoro o fato de que ele acaba de se acomodar com um livro nas mãos. – Vamos acordar em cinco horas, Alan. – Eu sei, só vou terminar um capítulo. – Claro, como se eu acreditasse em tudo que um leitor fala. – Falo, rindo e viro pro outro lado, para evitar a claridade.

Conto ♥ Agridoce

Sugestão de música para ouvir durante a leitura: Like I’m Gonna Loose You – Meghan Trainor feat. John Legend A vida é assim, meio amarga e agridoce. Toda a bagunça que deixei antes de sair de casa, há três dias, continua me aguardando. Deixo minha mala ao lado do sofá, apenas mais um item para arrumar. Descalço meus saltos e coloco o celular no carregador. Alongo o pescoço, deixando meu corpo cair sobre o sofá. Preciso me mover. Banho e depois, dormir. Me levanto e ergo os braços, alongando cada músculo. A claridade da janela me indica que o sol já terminou de se levantar. Talvez com tanto cansaço quanto eu. Meus pés seguem preguiçosos até a cozinha, coloco água para ferver. O telefone começa a tocar. Somente uma pessoa me ligaria esse horário. Na verdade… basicamente só uma pessoa me liga, além do telemarketing, é claro. – Oi. – Não contenho a empolgação ao colocar o aparelho no ouvido. – Adivinha quem acabou de desembarcar? – Não sei, alguma celebridade? – Falo, já rindo pela surpresa. – Depende. – Do que, exatamente? – Posso ser uma celebridade em alguma realidade paralela. – O sorriso está refletido em sua voz.

Conto ♥ Último Beijo

Sugestão de música para leitura: Pearl Jam – Last Kiss – Luizaaa!!! – Ouço meu nome sendo gritado e olho na direção em que suponho estar sendo chamada. Mila me encara furiosa do outro lado do corredor. Retiro o fone da cabeça, antes de me dar ao trabalho de falar com ela. Irmãs de onze anos são insuportáveis. – O que é Mila? – Estou há horas te chamando, Lu! É importante. Respiro fundo. Claro que é importante, sempre é quando se tem onze anos. Me levanto e minha cabeça lateja, parece que há abelhas a ferroando e minha visão fica turva. Fecho os olhos por um instante e tudo volta a ter foco. – O que é, Mila? – Pergunto, já mal-humorada. – Ah, deixa para lá. – Ela dá de ombros e entra no próprio quarto, batendo a porta. Ótimo. Menos uma coisa para me preocupar. Meu celular vibra no meu bolso novamente. ‘Estou saindo daqui!!!‘ A empolgação de Pedro podia me contagiar, mas com tudo que parece estar por vir, eu simplesmente não sei o que fazer, o que dizer.

Conto ♥ Blue Bayou

Sugestão de música: Blue Bayou –  Linda Ronstadt Encarando meu reflexo no espelho, tento arrumar meus cabelos. Estão loucamente amassados em todas as direções possíveis. Meus olhos indicam o quanto não dormi, estão avermelhados e há olheiras logo abaixo deles. Talvez seja melhor mesmo que ele não esteja em casa quando eu chegar, assim não precisará me ver nesse caos. Lavo minhas mãos no lavado e encaro a água correr por alguns instantes. É engraçado como algumas coisas diminutas parecem importantes, sem o menor aviso prévio. Ele já me viu em situações bem piores do que algumas olheiras e cabelo bagunçado, afinal de contas. Volto para minha poltrona, ainda tenho mais uma hora de voo ao lado de um roncador profissional. Como ele conseguiu dormir por mais de dez horas seguidas? E, claro, roncar durante todas elas. Deixo o livro que estava lendo de lado, meus olhos muito cansados para isso, então, coloco os fones para ouvir música. O tempo acaba passando mais rápido do que eu imaginei e, quando percebo, já estou ao lado da esteira, pegando minha bagagem. Vamos eu a mala nos arrastando em direção à saída e vejo meu irmão falando ao celular. Ele está sério, provavelmente são negócios. Mas ele anda sério assim há muito tempo. Seu olhar encontra o meu e ele esboça o que ele deve imaginar ser um sorriso. É só a sombra de um, na verdade.

Conto ♥ Sincronia

  Sugestão de música para acompanhar a leitura: Lucky – Aurora A vida é sempre certa no que ocorre, pode não parecer a princípio ou mesmo nunca entendermos como e por quê tais coisas ocorreram. Mas tudo ocorre quando precisa ocorrer. Se nos pareceu que demorou muito ou pouco, aí a conversa é outra. O entendimento de cada um é pessoal, subjetivo. A questão é que, no fim das contas, as coisas fluem como devem. Ligo o chuveiro com certa dificuldade, a torneira está dura demais para minhas mãos e parece que todo meu corpo precisa trabalhar para girá-la. Com a mesma rapidez que a água enche minhas mãos juntas em concha, ela se esvai por elas, num ciclo infinito que não parece ter início ou fim. O conhecimento de que é impossível contê-la por completo não me impede de tentar fazê-lo. Abro os dedos e deixo que desça pelo ralo. Fecho as mãos mais uma vez e, agora, jogo a água acumulada em meu rosto, sua temperatura quente fazendo meu corpo inteiro se aquecer. Assim que termino o banho, sigo para meu quarto, o armário range a porta ao abrir, e escolho aquele vestido de flores que Malu tanto gosta. Ela sempre elogia quando estou vestindo e há um bom tempo que eu sequer me preocupava com o que iria vestir, não importava muito. Talvez hoje ainda não importe.

Conto ♥ Can’t Blame a Girl For Trying

Sugestão de Música para Acompanhar a Leitura do Conto: Can’t Blame a Girl For Trying – Sabrina Carpenter Não, a felicidade não está escondida nas pequenas coisas, como costumam dizer. É algo um tanto quanto mais sublime que isso. Não está no virar de uma esquina e esbarrar no amor da sua vida. Não está em assistir a um filme com a trilha sonora perfeita. Não está, definitivamente, em encontrar o emprego dos sonhos ou ter a carreira que deseja. Tampouco pense que está em ter milhões na conta, em não se preocupar com dinheiro, em ter tudo o que sempre sonhou, o que precisa e o que não precisa também. Não está, ainda, em privar-se. Não está em desistir de tudo que é excessivo, em trocar os sonhos altos por alguns mais alcançáveis. Não está sequer, no fato de se sonhar. – O que ele disse? – Que não tinha porque continuarmos. – E o que você disse? – Mandei ele se ferrar. – Jordan ri, em resposta à minha fala.

Conto ♥ A Vida Passa Muito Rápido

Estou novamente na beirada, quase caindo. Olho para meus pés e estou calçando aquelas botas coloridas que eu tanto adoro. Papai me empurra e vou cada vez mais alto no balanço. Minha voz infantil continua a pedir “Mais alto, papai! Mais alto”. E ele me empurra e ri, vou mais alto, tão alto quanto é possível, até ver toda a cidade aos meus pés, os prédios parecendo peças acinzentadas de Lego. Tão alto e tão distante que, quando me solto do balanço, voo livre por muito tempo até começar a cair. Não estou mais usando minhas botas coloridas ou confortavelmente ouvindo o sorriso de papai. Estou sozinha, caindo, me aproximando do concreto, cada vez mais perto do chão. Do impacto. Meu corpo irá se partir em milhares de pedaços. – Lu? Luiza, acorde! Abro meus olhos e vejo Camila com o olhar preocupado em minha direção. Suas mãos seguram meus ombros com força e meu corpo todo treme. Estou gelada e um suor frio escorre por minha pele.

Conto ♥ Carnis Levale

Atenção: conto com indicação 18+ A despeito da vida, a dança é o tipo de coisa que, invariavelmente, não funciona quando duas pessoas tentam conduzi-la concomitantemente. Em vários outros aspectos essas duas se encontram: precisam de sincronia, ritmo e sentimento para serem boas, bem feitas, bem executadas, bem relacionadas, bem escutadas e bem sentidas, por assim dizer. Por mais que possa parecer que a vida e a dança são tão similares, já que possuem tantos aspectos em comum, não, elas não o são. Dançar exige algo que a vida não exige, o parceiro certo. E, nesse caso, a dança de assemelha bem mais do sexo do que da vida. Não dá para que os dois os conduzam, já disse isso. Afivelo meus sapatos e me encaro por alguns instantes no espelho. Meus lábios rubros dão destaque ao tom de minha pele e representam a única cor forte em todo meu reflexo. Impecável. Posso ficar impressionada com meu próprio reflexo? Bem, é uma época de luxúria, não vejo porque não.

Conto ♥ Lucidez

Sugestão de música para ouvir enquanto lê: Skinny Love – Birdy O amor é uma distração. Uma muito boa. Uma distração muito boa para tudo que aconteceu, de tudo que você quer esconder. Ainda assim, não passa de uma distração. As pessoas costumam insistir que há algo belo e irremediavelmente apaixonante no amor. Bem, se estiverem falando em certos tipos de amor, como aquele que temos por cachorros e gatos ou aquele que a gente aprende do berço para com os parentes mais próximos… mas a questão é que nunca estão. Sempre se referem ao amor hollywoodiano, ao amor que Jane Austen descreve, ao amor de Bentinho e Capitu, até, ou mesmo àquele amor de todo dia que esperam encontrar na esquina do trajeto ao trabalho, na cafeteria, no próprio trabalho, na balada. Talvez tenha me esquecido dos amores salvadores, que aparecem logo antes de alguém morrer. Porque, obviamente, morrer sem ter amado – este tipo de amor, fique claro – é absurdo e inimaginável. Não, talvez eu não esteja sendo sincera e verdadeira. Qualquer tipo de amor é distração. Se ama muito, se vive pouco, apesar do que dizem. A questão toda é, o quanto se é capaz de fazer por amor?

Conto ♥ Call It Magic

Leia ouvindo: Call It Magic – Coldplay Um suspiro ruidoso, difícil, forçado. Foi o último, de toda forma. Minha memória auditiva nunca funcionou tão bem. Mas este não é o tipo de som que se esquece. É do tipo que fica gravado, desejando ou não. – Está pronta? – O som da voz de Clara me desperta. Balanço a cabeça em positivo, mas respondo mesmo assim. – Sim, estou pronta. Saímos de casa e o vento está abafado do lado de fora, dentro do sedã está, literalmente, um forno. Ligo o ar condicionado e deixo as janelas abertas até o ar abafado se dispersar. Assim que o ar melhora, subo as janelas. Clara liga o rádio, mas aperto o botão para desligar logo em seguida. Ela suspira contrariada e começa a mexer em seu Smartphone. Adolescentes são assim, suponho. Não lembro particularmente de como eu era, ainda mais porque, na minha época, não existiam tantos aparelhos eletrônicos. Não que isso justifique qualquer coisa. O caminho é ensolarado e dirijo por quatro horas seguidas, parando já quase na hora do almoço. O ar está ainda mais abafado aqui. Nos sentamos no restaurante de beira de estrada e um rapaz que deve ter a idade de Clara nos entrega os cardápios com a expressão mau humorada. Ela escolhe batatas e um sanduíche e eu peço o mesmo. Não estou com fome realmente, não tenho fome há muito tempo. – O que eles fazem, de especial? – Ela pergunta. – Quem? – Às vezes não sei se ela está falando comigo ou com seu telefone. – O circo, ou seja lá o que for que estamos indo ver. – Não é um circo, é um parque. – Corrijo. – E o que têm de especial nele? Pesquisei e não vi nada legal, nem um pouco próximo do Cirque du Soleil. Mimada. – Não, não tem. Não é um circo, Clara. – Mas você disse que era mágico. Você usou exatamente esta palavra.

Conto ♥ Porta Aberta

Sugestão de música para leitura: Good Riddance (Time of Your Life) – Green Day O sol está nascendo no horizonte no topo da colina em bonitos tons alaranjados que se fundem com o cinza enquanto coloco a água quente na caneca e depois adiciono dois sachês de camomila. A fragrância é tranquilizadora e promete que o dia será leve, apesar de tudo. Como mamãe sempre dizia, “começar com um pensamento positivo, é sempre metade do caminho”. Talvez seja, de fato. A dificuldade, porém, reside no fato de que não fomos ensinados a isso. Um minuto depois papai entra na cozinha, com certeza já alimentou todos os animais e já está carregando uma cesta pequena com alguns ovos e o leite em uma lata.