Resenhas

A Mulher com Olhos de Fogo ♥ Nawal El Saadawi

A Mulher com Olhos de Fogo: O Despertar Feminista
Nawal El Saadawi
Faro Editorial
“- Quem disse que o fato de uma pessoa ser gentil a impede de cometer assassinato?”

Sobre a Autora

NAWAL EL SAADAWI, 87, é uma escritora, ativista, médica e psiquiatra feminista egípcia. Saadawi foi presa pelo presidente Anwar al-Sadat em 1981 por supostos “crimes contra o Estado”. Ela escreveu muitos livros sobre as mulheres no Islã, e se dedica, em especial, à luta contra a prática da mutilação genital feminina no Oriente Médio. Nawal é tratada como “a Simone de Beauvoir do mundo árabe”. Seus livros já foram traduzidos para mais de 28 idiomas e são adotados em universidades do mundo inteiro. Seus discursos atualmente se concentram na crítica à tentativa de normalizar o que ela considera a opressão aos costumes das mulheres na África e Oriente Médio. Depois de quatro décadas da revolução islâmica, muitos já consideram normais as restrições aplicadas às mulheres, incluindo as próprias mulheres.

Sinopse
“Um dos livros mais francos e radicais sobre a vida feminina, de todas as origens, em todas as partes do mundo.” THE GUARDIAN

Esta ficção é baseada no relato verdadeiro de uma mulher que espera sua execução em uma prisão no Egito. Sua história chega até a autora, que resolve conhecer Firdaus para entender o que levou aquela prisioneira a um ponto tão crítico de sua existência. “Deixe-me falar. Não me interrompa. Não tenho tempo para ouvir você”, começa Firdaus. E ela prossegue contando sobre como foi crescer na miséria, sua mutilação genital, ser violada por membros da família, casar ainda adolescente com um homem muito mais velho, ser espancada frequentemente, e ter de se prostituir… até que, num ato de rebeldia, reuniu coragem para matar um de seus agressores, levando-a à prisão. Esse relato é um implacável desafio a nossa sociedade. Fala de uma vida desprovida de escolhas, mas que em meio ao desespero encontra caminhos. E, por mais sombrio que isso possa parecer, sua narrativa nos convida a experimentar um pouco dessa liberdade encorajadora através das transformações internas de Firdaus. O que acontece com ela é o despertar feminista de uma mulher.

A Mulher com Olhos de Fogo

Ter a vida como um livro aberto. Talvez seja essa a ideia de A Mulher com Olhos de Fogo: mostrar a vida de Firdaus de maneira aberta, sem amarras, sem vendas. Ao mesmo tempo que faz ver, é também cortante como o fio da navalha, sufocante como estar debaixo d’água por tempo demais e, claro, violento como apenas o mundo humano consegue ser.

“Foi como se eu tivesse morrido no instante em que os olhos dela fitaram os meus. Eram olhos que matavam, como uma faca, penetrando e cortando fundo na carne; eles pareciam firmes, inabaláveis.”

Visceral. Talvez seja a melhor palavra para descrever a história que Firdaus está prestes a narrar para a psiquiatra que senta à sua frente na cela da prisão com apenas um propósito: ouvir. É o que ela faz, é o que fazemos. A voz de Firdaus sai das páginas e ressoa em nossos ouvidos como se estivéssemos também sentadas no chão duro e frio. A voz é tão antiga quanto a própria Terra e faz pensar em todas as vidas de mulheres que já se passaram sobre o globo.

O motivo de Firdaus estar presa, aquele que logo de cara sabemos é este: ela assassinou um homem. Talvez antes nunca tenha ouvido falar de uma assassina, que de fato cometeu o crime, mas que era inocente, ou pelo menos, não como ela.

“Deixe-me falar. Não me interrompa. Eu não tenho tempo para escutá-la. Eles virão me buscar às seis horas da tarde de hoje. Nem aqui nem em nenhum outro lugar deste mundo. Essa viagem rumo ao desconhecido, a um lugar onde ninguém neste mundo jamais esteve, me enche de orgulho.”

A história que Firdaus conta começa em seu princípio, na infância, com a fome e seus irmãos e irmãs minguando até a morte. Os dias são duros, brutos e ela não vê nada de si no homem que chama de pai ou na mulher que chama de mãe. Jura que ela foi trocada por outra, uma a qual ela não reconhece o brilho no olhar.

“- … Viver é duro demais.
– Você deve ser mais dura que a vida, Firdaus. A vida é muito dura. As únicas pessoas que realmente vivem são as que conseguem ser mais duras que a vida.
– Mas você não é dura, Sharifa. Então como consegue viver?
– Eu sou dura, Firdaus, sou terrivelmente dura.
– Não. Você é gentil e delicada.
– Minha pele é delicada, mas o meu coração é cruel, e a minha mordida é fatal.
– Como uma cobra?
– Sim, exatamente como uma cobra. A vida é uma cobra. É a mais pura verdade, Firdaus. Se a cobra perceber que você não é uma cobra, vai morder você. E se a vida perceber que você não tem veneno, vai devorar você.”

A partir daí, a vida mostra que pode sempre cobrar mais, tirar mais. Firdaus sofre mutilação genital, passa por abusos, privações até ir morar com seu tio após a morte de seus pais, onde sente que renasceu. Qualquer pouco que lhe é dado, ela sente como se fosse muito, como se o tratamento que lhe está sendo dispensado, fosse especial. Não que o tio represente de fato alguém livre de preconceitos, abusos ou opressão, mas o que temos é a visão da criança que sente o mundo a ser desbravado.

“O que importa é como se leva a vida até o momento da morte.”

Na nova morada, uma escola. Palavras a rodeiam, uma sede pela leitura e pelo saber. Mas que se esvai com o retorno para casa após a conclusão dos estudos a nível médio, a faculdade não é uma opção, cara demais. E Firdaus não tem dote nem herança. O casamento com um tio da esposa de seu tio é a saída para que ela não seja mais uma boca a alimentar.

A partir daí vemos o desenrolar de um casamento violento, opressor, machista, o que leva Firdaus à fuga. É apenas o início do que seria uma fuga que não cessa mais, ou apenas no dia em que ela é enclausurada na prisão. Nesse meio tempo, vemos os caminhos que a levaram à entrar e sair da prostituição mais de uma vez, até o fato que marcaria o fim de sua vida: o assassinato de um homem.

“Quando as ruas se tornam a sua vida, você não anseia mais por nada, não tem mais esperanças. Mas do amor eu tinha expectativas. Com o amor eu comecei a imaginar que havia me tornado um ser humano.”

A narrativa é, ao mesmo tempo, densa e fluida. É densa porque é difícil imaginar como Firdaus sobreviveu, não apenas aos abusos e violações de seu corpo, mas também de sua mente. E fluida porque ela lhe conta a história como se recontasse para si mesma, como se quisesse, uma última vez, olhar para os passos que a levaram à forca.

“Eu tomei consciência do fato de que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar conselhos, ou diziam que queriam me resgatar da vida que eu levava. Eu costumava odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam como algum tipo de heróis magnânimos – um papel que não fizeram nenhuma questão de desempenhar em outras circunstâncias. Queriam se sentir nobres e superiores lembrando-me do fato de que eu estava em situação de inferioridade.”

São esses passos que marcam seus pensamentos, que tomam vida em cada linha e mostram as marcas que a vida oprimida e subjugada lhe trouxeram. Não existe confiança, laços amigáveis ou amor entre homens e mulheres. Entre Firdaus e os homens. Eles não permitiram, não deram sequer uma chance, um respiro. Mantiveram a postura de superioridade por toda vida dela, e assim se mantiveram, se justificaram.

“Todas as mulheres são vítimas de embuste. Os homens enganam as mulheres e as punem por terem sido enganadas, forçam-nas a se degradar e as punem por terem chegado tão baixo, prendem-nas ao casamento e então as castigam por toda a vida com serviços humilhantes, insultos e surras.”

A leitura é, em partes (na verdade, quase toda ela), sufocante, o machismo exacerbado que pinga das páginas nos faz desejar se tratar de mera ficção, de um caso extremo. Mas sabemos que é, ainda (o livro foi escrito baseado num relato que a psiquiatra recebeu de uma prisioneira em 1974), realidade. É a realidade que permeia a vida de incontáveis mulheres, incontáveis Firdaus.

Ainda assim a autora conseguiu dar sintonia e sincronia no ciclo narrativo. Dividia em três partes, a primeira e a última, são a visão da psiquiatra que visita a Prisão de Qanatir, a segunda, é a voz de Firdaus. Nesta, em especial, temos momentos cíclicos que marcam a vida da mulher-personagem. São detalhes, que mostram a aspereza, a beleza, rudeza, feiura e sutileza da vida. É a garota que se apaixona por aqueles que lhe demonstram os mais singelos toques de cuidado, atenção. É a mulher que sente que o amor é algo indizível, que não precisa de formas ou palavras para existir, que, simplesmente, o é.

“Não demorou para que eu saísse de trás das grades, livre de acusações. A corte decidiu que eu era uma mulher respeitável. Isso me ensinou que uma pessoa precisa ter muito dinheiro para preservar sua honra, mas me ensinou também que não se pode obter uma grande quantidade de dinheiro sem abrir mão da honra. Um círculo infernal girando sem parar, e me arrastando para cima e para baixo com ele.”

Mais do que dizer certos e errados, a história questiona. Firdaus questiona. Por que esse ou aquele é o papel da mulher? E sabemos o que e quem a levou ao ato que a condenaria à morte não foram os atos isolados de um único homem. Foram todos os atos de todos os homens que cruzaram seu caminho. Eles a muniram, eles desferiram o golpe, o sangue corre nas mãos de cada um deles, jamais nas dela.

“Eu sou uma assassina, mas não cometi nenhum crime. Como você, eu mato apenas criminosos.”

A Mulher com Olhos de Fogo: o despertar feminista é um livro necessário, dolorido, angustiante. Mas, repito, necessário. As dores de Firdaus são as nossas dores. Sua luta é a nossa. Seus olhos que flamejam fogo dizem ainda mais que suas palavras, mostram a chama que não devemos deixar que se apague como fizeram com Firdaus.

“Eu sei porque eles me temem tanto. Eu fui a única mulher que arrancou a máscara, e eu expus a face da feia realidade deles. Eles me condenaram à morte não porque matei um homem – milhares de pessoas são mortas todos os dias -, mas porque eles têm medo de me deixar viver.”

Aleatoriedades
  • O livro A Mulher com Olhos de Fogo foi recebido em parceria do Resenhando por Marina com a Faro Editorial e a resenha foi originalmente postada no Resenhando!
  • A edição do livro está incrível, papel amarelado ótimo para leitura, boa revisão e as ilustrações e detalhes das folhas combinam muito com o estilo oriental da obra. Sem dúvidas a Faro arrasou nessa edição!
  • As fotos para esse livro foram um pequeno grande desafio, queria elementos que combinassem e, ao mesmo tempo, sem pesar demais a composição e deixar tudo em tons muito escuros, como os da capa. Acabei optando por uma mistureba, que no fim, até que gostei.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

12 Comments

  1. Oi Renata, boa noite.
    Comecei a ler a sua resenha assim que chegou em meu e-mail, mas como estou em meio a um assunto muito próximo do tema do livro, fui lendo em pequenos goles. E fixei nas frutas de tal maneira ao observar as fotos que precisei sair e comprar maçãs. A louca.
    Li os contos papel de parede amarelo no fim do ano passado que também era indigesto e nada agradável. Uma temática bem próxima e decidi que iria escrever a respeito em um romance. A voz das pedras é um romance onde o tema de fundo é a violência contra a mulher, mas ao buscar por esse livro na livraria, lendo-o, percebi que não quero toda essa angústia em evidência, porque o assunto em si já é de tirar o fôlego, mas quero um cair de pano. Uma cortina que se abre e fecha como se o leitor estivesse diante de um quebra cabeças com pecas faltando. rs
    bacio

    1. Oi Lunna!
      Se a resenha precisou de pequenos goles, imagina a história. Eu fiquei muito mexida com essa leitura e acho que, por mais difícil que seja, era também algo que eu precisava ler.
      ahaha Eu tô rindo aqui das maçãs… as pessoas sempre me falam que algumas fotos minhas dão fome… ehehe
      Já anotei aqui para ler Contos de Papel Parede Amarelo! E sem dúvidas escrever a respeito não é nada fácil! Já aguardando curiosa sua escrita brotar…
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  2. Oiee!!
    Essa realmente é uma leitura bastante forte e olha que eu gosto muito de leitura assim, mas já vi que vai ser daquelas que precisarei de pausas.
    Como você disse, é difícil de imaginar como Firdaus sobreviveu, não só pela parte física, mas como manter a sanidade diante de tudo?
    É um livro que vou ler e já preparada.
    Excelente resenha!

    bjs

    1. Oi Fê!
      Sim, sem dúvidas uma leitura super forte, mas mesmo com pausas, eu recomendo. É enriquecedora, uma visão de mundo que nós não temos. É difícil mesmo pensar em como ela passou por tudo durante tanto tempo. Tomara que consiga ler logo, vale muito a pena! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  3. ana claudia de angelo says:

    Nossa, Rê! Uma história incrível, que fascina e mexe com a gente em diversos aspectos. Cultura, fato real, ciclos narrativos que se unem e se completam… É de estontear! Nos infere a uma força feminina tão grande que nos dá a certeza de uma luta que não dá para deixarmos de lado! Parabéns por um trabalho tão bonito! Me orgulho de estar aqui!
    Beijos!

    1. Oi Ana Cláudia!
      Ah com certeza essa história é assim, pra causar impacto, mas um muito necessário no nosso mundo com tão pouca empatia e com tantas desigualdades. A força feminina na história também é um ponto chave, Farrah supera todos os homens que passaram por sua vida. Uma luta que ela inspira e que precisamos inspirar cada vez mais pessoas!
      Obrigada pela visita e pelo carinho!
      xoxo

  4. Leitura Enigmática says:

    Que resenha maravilhosa! Depois que a li, não tem como ficar sem ler essa história, preciso ter esse livro em mãos e conferi-la na íntegra.Já o adicionei na minha lista de desejados.

    1. Oi Gusttavo!
      Ah feliz que tenha gostado! Esse livro realmente vale muito a leitura, espero que tenha logo a oportunidade!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  5. Me parece uma leitura bem pesada, confesso que a resenha acompanhada de alguns trechos já me deixou um pouco angustiada. Mas como você disse, também acredito ser necessária. Já estou algum tempo tenho buscado e lido livros sobre feminismo, sejam ficcionais ou de não ficção. Tenho buscado também ler obras de autoras que se posicionem sobre o tema. De forma que essa obra certamente vai para a minha lista.

    1. Oi Juliana!
      Sem dúvidas não é uma leitura leve, a sensação de angústia, de impotência segue por toda a leitura. E, sem dúvidas, é bastante necessária. Com certeza esse é um ótimo livro pra sua lista de leituras. Ele aborda uma realidade que parece distante de nós, quando, na verdade, não o é.
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  6. Tatiane silva says:

    Esse livro parece ser bem denso, do tipo que vc tem ler e parar para respirar para continuar. É muito triste saber que ainda muitas mulheres vive todo o tipo de violência, as vezes até mesmo por quem deveria dar
    amor e proteger. A composição das suas fotos são perfeitas, dá ate vontade de preparar uma bela mesa com lanches durante a leitura.

    1. Oi Tatiane!
      Ah com certeza não é fácil, vivemos numa realidade distinta em alguns pontos que chega a chocar ainda mais essa questão. É um necessário abrir de olhos para outras realidades! Feliz que tenha gostado das fotos! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

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