Toda luz que não podemos ver ♥ Anthony Doerr

Retipatia
Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.

Algumas histórias irão se cruzar de maneira inesperada em Toda luz que não podemos ver. Algumas do lado francês, outras do lado alemão, durante o período da Segunda Guerra Mundial. Personagens marcantes irão te levar numa viagem no tempo, uma que irá te revelar muito sobre a guerra, a vida, a morte e o sentido de liberdade.

Toda luz que não podemos ver (All the light we cannot see)
Anthony Doerr
Tradução de Maria Carmelita Dias
2015 | 528 páginas
Intrínseca

Disponível em Amazon

“A guerra, pensa Etienne, é um bazar onde vidas humanas são trocadas como qualquer outra mercadoria: chocolate, balas ou seda de paraquedas.”
Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.
Sobre Anthony Doerr

Anthony Doerr nasceu nos Estados Unidos, é formado em história e dono de uma narrativa de extrema sensibilidade, que passeia com igual sucesso por contos, memórias e romances. Autor premiado de cinco livros, é best-seller em diversos países. Toda luz que não podemos ver, seu segundo romance publicado, ganhou o Pulitzer de Ficção e foi finalista do National Book Awards em 2014. Além disso, foi eleito um dos melhores do ano por veículos como The GuardianEntertainment Weekly Kirkus Reviews. Pela Intrínseca, publicou também o livro de memórias Quatro Estações em Roma. Atualmente mora no estado americano de Idaho com a mulher e os filhos.

Sinopse de Toda luz que não podemos ver

Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu.

Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.

Toda luz que não podemos ver

Marie-Laure. O chaveiro. Werner. Jutta. Dr. Geffard. Etienne. Frau Elena. Von Rumpel. Nautilus. Capitão Nemo. Volkheimer. Madame Manec. Frederick. Arronax. Mar de Chamas.

Apenas alguns dos nomes pelos quais seus olhos irão passar durante a leitura de Toda luz que não podemos ver. Alguns são a ficção dentro da ficção, como o Capitão Nemo de Vinte Mil Léguas Submarinas. Outros, uma lenda dentro da história. E, os demais, personagens inesquecíveis, pelos mais diversos motivos.

Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.
“A Deusa da História escarnece os mortais. Apenas pelas chamas mais quentes a purificação pode ser atingida.”
“Ela visualiza uma deusa enraivecida avançando pelos corredores, lançando maldições pelas galerias como nuvens de veneno. O pai lhe diz para refrear a imaginação. Pedras são apenas pedras, chuva é apenas chuva e maldições são apenas má sorte. Algumas coisas simplesmente são mais raras do que outras, e é por isso que existem as trancas.”
Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.

Conheceremos assim, Mari-Laure, uma garota que ficou cega aos seis anos e agora está escapando com seu pai, Daniel LeBlanc, o chaveiro, de Paris, por causa da invasão alemã no início da Segunda Guerra.

E também Werner, que sai do orfanato em que viveu boa parte da vida com a irmã, Jutta, sob os cuidados de Frau Elena, para ir estudar numa escola que forma a juventude hitlerista. Não que ele compreenda exatamente, o que isso significa.

“‘Viver com lealdade’, cantam os rapazes enquanto marcham pelo perímetro do distrito. ‘Lutar com bravura e morrer com um sorriso.'”
“Abram os olhos e vejam o máximo que puderem antes que eles se fechem para sempre.”

Através da contagem dos passos de Mari-Laure, indo e voltando do Museu em que seu pai trabalha, percorrendo os dedos pela maquete que ele fez de seu bairro e, depois, de Saint-Malo, onde vivem após a fuga de Paris, vamos descobrindo um novo mundo. Repleto de sons, formas, cheiros e texturas. Um mundo repleto de moluscos, estrelas do mar, conchas e léguas submarinas lidas em braile. Quem sabe, uma breve volta ao mundo em oitenta dias.

Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.

Com Werner, vemos o outro lado da moeda, o outro lado da guerra. A guerra lutada por jovens, por crianças, por aqueles que se deixavam levar pela maré, por aqueles que usavam vendas invisíveis porque se todos dizem, é o que deve ser o certo. É pelo Führer. Ele está se livrando da escória, está buscando o sangue puro. Transformando crianças em soldados cegos, que morrem a sorrir, pelo Führer.

Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.
“Vocês vão se desfazer de suas fraquezas, de suas covardias, de suas hesitações. Vocês vão se tornar uma torrente, uma saraivada de balas. Todos vocês vão se lançar na mesma direção, com o mesmo ritmo, para a mesma causa. Vocês vão se privar de confortos; vão viver apenas pelo dever. Vão comer país e respirar nação.”
“Isso, ela percebe, é a base do medo dele, todo o medo. Que uma luz que você é incapaz de deter vai se lançar sobre você, guiando uma bala ao alvo.”

Intercalando essas narrativas, Anthony Doerr nos levas pelas ruas de Saint-Malo e por vários outros pedaços da Europa, mostrando o mundo bruto e frio da guerra. As linhas temporais também se dividem, um capítulo, normalmente mais curto, nos mostra o período do fim da guerra. No próximo, mais longo, nos mostra o passado, dos momentos antes da guerra deflagrar, até que esses dois pontos, se tornem um só. Apesar dos capítulos longos, dentro de cada um deles, temos a narrativa intercalada dos personagens, o que dá a sensação de serem capítulos dentro de capítulos e isso contribui muito para a fluidez da história.

Inclusive, não se trata apenas de alinhavar a história dos personagens, mas também a história da Guerra, a história de Vinte Mil Léguas Submarinas, e a história-lenda do Mar de Chamas, um diamante de valor inestimável (ou o equivalente a cinco torres Eiffel), que tem um papel tão importante quanto os outros personagens dessa engrenagem. Mar de Chamas é, sem dúvidas, um dos que fazem a trama manter-se girando.

“Seu problema, Werner, é que você ainda acredita que a sua vida lhe pertence.”
“Nunca vou abandonar você, nem em um milhão de anos.”

Em sua narrativa bela, mas também realista, mesmo em se tratando de uma ficção, Doerr nos transporta para outro tempo e nos apresenta suas dores. Nos apresenta o contraste de pensamentos, de sentidos, de vidas que se chocaram sem nem ao menos se ter ciência disso.

Aliás, essa é uma das maiores belezas da história que Doerr intrincou: nossos atos ecoam pelo mundo. Talvez nós nunca venhamos a saber como ela ecoou, para quem ou quando. Mas o eco existe e trafega no mundo de maneira invisível tais quais as ondas de rádio.

Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.
“Para Werner, as dúvidas surgem regularmente. Pureza racial, pureza política – Bastian fala com horror de qualquer tipo de corrupção. No entanto, medita Werner na calada da noite, a vida não é uma espécie de corrução? Uma criança nasce, e o mundo se apossa dela. Arrancando coisas dela, alojando coisas nela. Cada porção de comida, cada partícula de luz entrando no olho – o corpo nunca pode ser puro. Mas é nisso que o comandante insiste, o motivo pelo qual o Reich mede o nariz de cada um deles, avalia a cor dos seus cabelos.”
“Se pelo menos a vida fosse como um romance de Júlio Verne, pensa Marie-Laure, e você pudesse passar as páginas para a frente, quando precisasse, para descobrir o que estava para acontecer.”

Ondas intensas, tais quais os sentimentos que a obra é capaz de despertar em quem lê. Três dias acompanhada dessa história. Acompanhada de Marie-Laure e todos os outros. E, mesmo assim, nada do que li se encerrou na última página. Tudo transborda em Toda luz que não podemos ver. É tal como a luz, que não se segura em um ambiente com uma fresta que seja. Ela sai, ela encontra o caminho. Perpassa o mais minúsculo lugar e leva consigo o fio da vida.

Além dos protagonistas, Werner e Marie-Laure, os personagens secundários são tão complexos quantos os primeiros e tem suas histórias, ainda que em segundo plano, bem exploradas. Se o personagem surge, você sabe quem ele é, qual sua trajetória e porque ele funciona na trama. É tudo bem alinhavado e as reviravoltas, são tais quais a vida em tempo de guerra. Nós torcemos por seus destinos tanto quanto Marie-Laure torce por Arronax e o Capitão Nemo.

“Tantas janelas estão às escuras. É como se a cidade tivesse se tornado uma biblioteca de livros escritos em uma língua desconhecida, as casas, em grandes prateleiras com volumes ilegíveis, todas as luminárias apagadas.”
“Werner fica impressionado ao perceber exatamente naquele momento como é extraordinariamente frívolo construir prédios esplêndidos, compor música, cantar canções. imprimir livros colossais repletos de pássaros coloridos diante da indiferença sísmica e controladora do mundo – quanta pretensão têm os seres humanos! Por que alguém vai se dar ao luxo de compor uma música se o silêncio e o vento são tão mais amplos? Por que alguém vai acender as luzes se as trevas vão inevitavelmente apagá-las? Se os prisioneiros russos são acorrentados a cercas, em grupos de três ou quatro, enquanto os soldados alemães enfiam granadas destravadas em seus bolsos e fogem?”

E, falando em vida, a história é sobre ela. Há a morte, é claro, estamos na Segunda Guerra. Mas a história é sobre quem fica, as marcas que fazem, e a beleza que pode existir no comum, no ordinário, em viver. É sobre a esperança, mas também sobre seguir em frente. Sobre tudo aquilo que nossos olhos podem ver e também tudo aquilo que eles não captam, aquilo que sentimos, cheiramos, pressentimos, imaginamos, ouvimos. Sobre toda luz que não podemos ver.

Resenha de Toda luz que não podemos ver de Anthony Doerr, publicado pela Intrínseca em 2015 e que ganhará adaptação pela Netflix.
Aleatoriedades

Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr, foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca.

O livro teve seus direitos comprados pela Netflix para virar uma minissérie! E esperamos em breve ter notícias sobre isso! A produção é da 21 Laps, que também fez os sucessos Stranger Things e A Chegada.

Para quem gosta de leituras tocantes, vou deixar a recomendação de A Casa Holandesa, da Ann Patchett e, para quem gosta de histórias que se passam na época da guerra, Os Segredos que Guardamos de Lara Prescott.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

One thought on “Toda luz que não podemos ver ♥ Anthony Doerr

  1. Eu namoro esse livro há tanto tempo. Tudo que envolve a crueldade da Segunda Guerra(apesar de ter certeza absoluta que nunca seremos capazes de saber de tudo que houve lá) cada livro ou filme com essa parte da história, me dói. Mas é algo como necessário e isso me assusta!
    Mesmo sabendo que vou sofrer muito, é um livro que desejo muito ler e principalmente, sentir!!!
    Um livro azul para um mês azul!!!!
    Beijo

    Angela Cunha/O Vazio na flor

Repense, renove, rediscuta...

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