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As Flores do Mal ♥ Charles Baudelaire

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret

Les Fleurs du Mal foi publicado em 1857 e é a obra mais famosa de Charles Baudelaire, poeta que permanece vívido até os dias de hoje. A obra, que ganha resenha aqui no blog, foi, além de uma das leituras mais intensas que já fiz, censurada em seu lançamento. Sendo publicado de maneira completa, apenas após da morte do poeta. E, na edição especial da Martin Claret, podemos apreciar essa a obra-prima completa de Baudelaire em As Flores do Mal.

As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal)
Charles Baudelaire
Tradução Mário Laranjeira
2020 / 272 páginas
Editora Martin Claret
Disponível em Amazon
“[…] Por trás dos dissabores e mágoas que temos
Que vergam com seu peso a existência brumosa,
Feliz de quem possui uma asa vigorosa
Para lançar-se aos campos claros e serenos.

Quem tem os pensamentos como a cotovia,
Que para os céus bem cedo o seu voo já estende,
– Quem plana sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e do que silencia!” O Albatroz
Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret
Sobre Charles Baudelaire

Charles-Pierre Baudelaire foi um dos maiores poetas franceses de todos os tempos. Alguns o consideram um antecessor do parnasianismo, ou um romântico exacerbado. Pioneiro da linguagem moderna, impôs à realidade uma submissão lírica.

Quando publicaram As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal) em 1857, todos os envolvidos com o livro foram processados por obscenidade e blasfêmia. Além de pagarem multa, viram-se obrigados a retirar seis poemas do volume original. Tanto As Flores do Mal como Pequenos Poemas em Prosa (póstumos, 1869) introduziram elementos novos na linguagem poética, fundindo opostos existenciais como o sublime e o grotesco.

Seus últimos anos foram obscurecidos por doenças de origem nervosa. Após uma vida repleta de tribulações, Baudelaire morreu com apenas 46 anos, nos braços da mãe. Apenas no século 20, tornou-se um ícone, influenciando toda a moderna poesia ocidental.

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret
Sinopse

O poeta crítico francês Baudelaire inventou uma nova estratégia da linguagem, incorporando a matéria da realidade grotesca à linguagem sublimada do Romantismo, criando, dessa maneira, a poesia moderna. Suas poesias retratam a inquietude, o mal, o degredo e as paixões da alma humana.

Nesta edição, disponibilizamos para o leitor a versão completa de As Flores do Mal, com os poemas censurados e os incluídos posteriormente. A primorosa tradução é de Mário Laranjeira, professor da Universidade de São Paulo.

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret
As Flores do Mal

A tradução de Mário Laranjeira, a quarta realizada no Brasil do francês para o português, toma algumas liberdades, as quais a diferencia das antigas traduções, mas também, busca aproximar o leitor não apenas da obra original, como trazê-la para ares mais contemporâneos, de certa forma.

“Dir-se-ia teu olhar de um vapor ocultado;
Teu olho misterioso (é azul, cinza, esverdeado?)
Alternativamente doce, cruel, ao léu.
Refletindo a indolência e o palor do céu.

Lembra os dias brancos, mornos e velados,
Que em pranto fundem corações enfeitiçados,
Quando os agita mal incógnito e premente,
Nervos despertos zombam da alma dormente. [..]” Céu Turvado

A tradução fora realizada para a edição de 2011, que marcava os 150 anos da segunda edição publicada de As Flores do Mal, já que a primeira, de 1857, sofreu graves censuras, levando não apenas editores e envolvidos na publicação a pagarem multas, como também Baudelaire, sob a alegação de que alguns dos poemas eram um ultraje à moral pública.

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret

O Prefácio é de Álvaro Faleiros, Professor de Literatura Francesa da USP e traz não apenas um norte sobre a vida de Baudelaire, que adianto, é ótimo auxílio na compreensão dos poemas e da angústia muitas vezes expressada. Mas também analisa a tradução de Mário Laranjeira, com abordagem diferenciada das antigas traduções, que não se apega a rigorismos rítmicos, mas mantém a métrica baudelairiana.

“É noite, a lua sonha ainda mais preguiçosa;
Tal como uma beldade em muitos travesseiros,
Que afaga com a mão distraída e dengosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios,

No dorso acetinado das moles nevadas,
Moribunda, se entrega a longas aflições,
E lança o olhar a brancas visões já passadas
Que sobem pelo azul tal como florações. […]” Tristezas da Lua

Os poemas que compõem a edição de As Flores do Mal, são divididos em: Spleen e Ideal; Quadros Parisienses; O Vinho; Flores do Mal; Revolta; A Morte; Os Destroços; Peças Condenadas Tiradas de As Flores do Mal; Galanterias; Epígrafes; Peças Diversas; Gracejos; Poemas Trazidos pela Terceira Edição (1868), Póstuma; Farrapos; Projetos de um Epílogo para a Edição de 1861 e Projetos de Prefácio.

Falar de poemas tão celebrados ao longo de mais de cento e sessenta anos de seu lançamento, de um poeta que, como tantos outros, tornou-se mais reconhecido após sua morte e com o passar do tempo, têm um grande peso. Então, adianto que aqui não serão analisadas perfeição de métricas, termos técnicos e estilos de escrita e composição.

“[…] O Ódio é como um ébrio ao fundo da taverna,
Que sempre sente a sede nascer do licor
E se multiplicar como a hidra de Lerna

– Mas bêbados felizes sabem o vencedor,
E o ódio é votado a essa estranha crueza;
Jamais poder dormir por debaixo da mesa.” O Tonel do Ódio

O que posso – e devo falar – é sobre a intensidade. Sobre a beleza, dureza e impacto que a leitura de Baudelaire é capaz de gerar. Em seus poemas iremos encontrar nuances da vida: do vinho que se bebe à embriaguez; da mitologia grega e romana ao catolicismo. Trivialidades, lugares, tempos, a vida no mar. Pessoas, mulheres, beleza, sexo, relacionamentos, mágoas.

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret

Em alguns aspectos, notamos presentes sentimentos que coadunam com suas experiências em vida, desde a vida boêmia aos problemas familiares, como em Os Faróis e O Inimigo. Mas ainda notamos algo mais doce, romântico, como naqueles escritos à enamoradas e amores. Há, inclusive, vários poemas dedicados à pessoas com quem conviveu e manteve proximidade.

“[…] É doce, em meio às brumas, ver nascer a estrela
No azul, e uma candeia posta na janela,
Os rios de carvão subindo ao firmamento
E a lua a nos verter pálido encantamento.
Verei as primaveras, estios e outonos,
E, quando vier o inverno, as neves de retorno,
Fecharei as janelas todas e as portas
Pra na noite criar meus paços de eras mortas. […]” Paisagem

Além disso, alguns traços são característicos de suas linhas, horas melosas, por vezes críticas e trágicas, mas sinceras e sensuais. E, de sensualidade, há bastante na parte intitulada Flores do Mal, inclusive os poemas censurados, sendo um deles intitulado e fazendo menção à ilha de Lesbos, em que viveu a poetisa Safo, que tem poemas que são interpretados como sua expressão de amor à outras mulheres (caso esteja imaginando, essa é a origem, claro que posterior, da palavra lesbianismo). Eu só imagino a cara de choque da sociedade da época e não posso mensurar o quanto o aprecio por esse poema e tantos outros.

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret

O mais gostoso de ler e sentir dentre suas flores do mal, sem dúvidas, foi As Mulheres Condenadas, Delfina e Hipólita. Sem contar a intensidade e sensualidade do ato descrito em As Joias. Imagino o falso puritanismo do século XIX estupefato e rotulando tudo como ultraje à moral pública. Como se a vida não viesse de atos escandalosos e sensuais.

“Por vezes me parece do meu sangue o fluxo
Correr qual chafariz em ritmo de soluço,
Ouço-o fluir em mim como um longo gemido,
Mas em vão ando em busca do membro ferido. […]” O Chafariz de Sangue

Ler As Flores do Mal foi tomar poema a poema em pequenos goles, todos sentidos, alguns mais que outros. Não vou negar que a linguagem e referências contínuas várias vezes fizeram parar, consultar as notas ou o dicionário. Mas valeu cada olhadela, e nova palavra. Fazem parte do sentir, compreender a trama que se descreve em cada estrofe.

Talvez deva confessar que tampouco sou leitora assídua de poesia. Mas algo em Baudelaire, a aura sombria, trágica, sensual e crítica, me atraiu. E agradeço ao momento que resolvi dar uma chance e aos bravos incentivadores (oi, Lunna).

“[…] Mas eu persigo em vão o Deus que se retira;
Da irresistível noite o império conspira,
Negra, humilde, funesta e cheia de arrepios;

Um odor de sepulcro pelas trevas nada,
E o pé, com medo, esmaga, do brejo à beirada,
Muito sapo imprevisto e caramujos frios.” O Pôr do Sol Romântico

Só posso dizer, leia Charles Baudelairie. Sinta As Flores do Mal.

Resenha As Flores do Mal de Charles Baudelaire Edição Especial Martin Claret
Aleatoriedades

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

1 comentário

  1. Sou suspeita com relação a Baudelaire e suas Flores do mal. A primeira vez que o li fiquei sem pele, alma. Vazia e levei dias para preencher com sensações novas-outras.
    Adorei saber que te incentivei a ler Baudelaire. Eu sou leitora de poesias, você sabe e foi o que educou a leitora que sou.
    Tem vários poemas de Baudelaire que me tomam de assalto e, principalmente, a maneira como ele enxergou Paris e acompanhou as mudanças da época e influenciou tantos outros poetas, como o Mário de Andrade que escreveu sua São Paulo a partir da Paris de Baudelaire.
    Ah, enfim, sou suspeita…
    Não sei se quero ler essa tradução, sou sincera em dizer porque fiquei um pouco incomodada com a “atualização” proposta na tradução. Vou ficar com o meu velhinho aqui, com tradução conhecida de Ivan Junqueira.

Repense, renove, rediscuta...