
Maio, redemoinho véspera de encerramento do primeiro semestre do ciclo anual. Mês, estado de espírito que tem sabor e sentido próprio, que foi bordado nas páginas de…
Maio
Coleção Yebá
Autora Bárbara Mançanares
a poesia não resolve a vida
não sossega a alma.ela corrompe.

Sobre a Autora
Bárbara Mançanares cresceu no mato, nas ruralidades de Paraguaçu, onde tomou gosto pelas palavras e pelo cheiro da terra molhada. Foi fazer História e viver outras mais na UFOP. Anos depois, no Rio de Janeiro, mudou-se para o reduto dos mineiros com saudade das Minas e das Gerais, Santa Tereza, para cursar o Mestrado em Museologia e Patrimônio na UNIRIO. Atualmente, é presidente da Academia Paraguaçuense de Letras, pesquisadora e bordadeira.

nos manuais informais do ser artista
se diz mais sobre as máscaras
que sobre a nudez da alma.
mandaram-me ler os trsites
entregar-me à lascívia do álcool
(afinal, a vida é líquida)
e ao torpor da fumaça.
todos os itens dessa lista intelectual
não me transformaram em produto de promessas.
antes, uma caricatura borrada.
permaneço poeta de um mundo bruto
e remendo retalhos
em arcos de madeira.

Sinopse
Misto de poesia e sincretismo, o livro Maio é a conjunção de um amor não resolvido e de um pedido de paz – quase profético – por uma vida. Os versos são soltos e não seguem nenhum acordo ortográfico-religioso que dita como devem ser. A liberdade poética das descrições nos mostra uma autora que deve ser lida de dentro pra fora e que se descobre incognitamente junto aos leitores – leitores das metáforas do tempo e dos tantos relacionamentos com Joaquins, Fernandos, Diegos. O cenário do livro, por sua vez, existe talvez apenas no inconsciente de um Hamlet que todos nós possuímos; ele é um retrato da alma humana: ferida, doída, amada. A autora, que é historiadora e museóloga, se define melhor como poeta, fala sobre a subjetividade humana como fala do comum, traça versos sem rimas e dó, mostrando-nos a crueza e a beleza da poesia e da vida.

Maio
Talvez resenhar um livro de poesias seja tarefa quase impossível a ser cumprida. Ainda que haja um todo a ser analisado, cada uma delas é tão singular quanto como se fossem vários livros em um. Em Maio, são como os dias que compõem o calendário do quinto mês do ano, cada qual com seu clima e acontecimentos próprios e, ainda assim, interligados pela linha que os costura ao calendário.
Por isso mesmo, como boa bordadeira que a autora é, fez de Maio um bastidor, colocou tecido, alinhavou cores nas palavras, pontos acertados, espaçados e justos, quando necessário. Trançou cores para a estação primaveril que compõe o livro, e fez a mente passear nas arestas que dividem a obra em três nós bordados: A Estação, Seus Oráculos e E Abismos.

no fim, as mudanças de maio
ficaram tatuadas no peito de cada um
em formato de uma nova lua nascendo com seu
encanto sem procedênciae a gente pensava que o tempo fosse curar
que o tempo fosse dizer
mas o tempo só quer o que ninguém quer ofertaros dias de vento e a claridade entre as árvores
N’A Estação de Maio, vemos insetos que começam o dia em tom laranja em prateleiras tortas que pendem como se fossem fios de linha. Pendem cartas de amor como pontos avermelhados que formam corações, e fizamos bordado inteiro pra ver se o tempo passava e fechava os rombos que a aprendiz de bordadeira deixou no tecido. O tempo, às vezes, não quer nada além de brilho de sol que vem pelas folhas como se fosse linha perfurando pano, essa é a verdade, ou o que ouvi dizer dela.

ai, deus
me salva da minha designorância
do que a vida há de ser para mim.
me livra da certezae tatua no meu peito nu
em meio à dor e à luz
qualquer possibilidade agridoceque, na calada da noite, eu acorde serena
que, da luz que brilha e cega,
eu renasça doce e vermelha como uma maçãe não me perca mais no obscuro
dessa minha solidão.
E então, fizeram da leitora oráculo, Seus Oráculos, com saber desmedido de medidas que às vezes transborda em copo que só quer estar meio cheio. Afinal de contas, tudo tem que vir em pontos bem balanceados e traçados, que só mão habilidosa e que já viu furos nas pontas dos dedos sabe do que se trata: “para ter luz / é preciso a sombra“. E, como bom oráculo, tem todas as respostas às mais variadas perguntas, faz procura a todo canto, mas só as encontra mesmo quando se acha.

na ânsia de trilhos,
o trem passa sem qualquer sutileza.o homem não se importa com
o choro nem com as mãos;
viajar é preciso
e a saudade é permanência.
eu também já fui a muitos lugares que não conheço e
ainda há espaço para mais.porque o homem é como um trem (porém, de uma sutileza
de fada).
e o trem, por entre montanhas e pedras e vidas,
chora seu apito.
E Abismos, repletos cheios de nós dentro de nós, pontos e traçados em cores e linhas e palavras. Tão confusos como ninguém deveria ser vez por outra, tão latente que faz querer dormir a eternidade e deixa aquele espaço em branco, que às vezes é só pedaço de pano ou papel em branco mesmo. Às vezes, é visita a se fazer, outras, vazio a se lembrar. Mas é sempre abismo, sempre poesia pincelada em bordado, que corrompe as linhas fracas, não resolve nada da vida, como já adianta, mas inquieta a alma.

São esses três pedaços de tecido bordado que compõem a leitura, que vai de clima a clima, de poesia a poesia, falando de amor perdido, daquele perdido no outro e daquele perdido na gente. É cheio de nuances e de metáforas, que podem significar uma coisa para quem lê, outra para quem escreve e mais outra ainda para quem relê, como uma estação, um oráculo e um abismo.
É poesia que se forma palavra-bordada-a-palavra-lida e faz pensar do lado de dentro antes mesmo de cogitar o lado de fora. A poesia nasce no olho de quem interpreta, faz mais ou menos sentido, mais ou menos beleza conforme o olho corre na textura da linha que muda de tom quando sai do verde da folha para o marrom do tronco. Sem deixar nunca de ser árvore.
Talvez seja como o Kid Abelha cantou, Maio já está no final, é hora de se mover, pra viver mil vezes mais, esqueça os meses, esqueça os seus finais… esqueça os finais… Maio tem a leveza que o nome carrega, mas também não tem fim, faz círculo com estação, oráculo e abismo, faz bordado com linha que muda de cor a cada ponto, mas que, ao afastar o olhar, compõe a figura, a forma, a cor e o tom, do que, irrevogavelmente, é, Maio.

Aleatoriedades
- Poesia nunca esteve com frequência na minha lista de leitura. Quando Maio lançou, já gostei da estética, do nome – tenho apreço em coisas com palavra única de título, vai entender… – e fiquei a imaginar como seria saborear um livro inteiro de poesias, assim, como quem senta e borda uma peça inteira. Nem preciso dizer o quanto foi boa, né?
- Maio faz parte da Coleção Yebá, que é deusa brasileira, parte da mitologia dos índios Dessana, e criou a si mesma quando nada existia, para depois criar o mundo. Não podia ter nada mais bonito do que ligar Yebá à literatura na qual a Quintal acredita: somos nós, mulheres, que nos geramos, para poder conceber também tudo aquilo que nos rodeia.
- O livro foi recebido em parceria com a Quintal Edições, obrigada pela confiança e oportunidade, é sempre uma experiência única cada leitura! Os outros livros já resenhados da Editora por aqui, foram: Fadas e Copos no Canto da Casa, Incômodo Conto, O Que Ficou Por Fazer, Batismo, Noite Prateada, Molhada e Vermelha e Coroa de Leite.
- As fotos dessa vez exigiram que eu desse um passeio no parque e levasse minha irmã como fotógrafa. Achei que o livro pedia fotos ao ar livre e, por alguma razão que só um oráculo vai saber responder, eu queria bolhas de sabão também… rsrsrs Uma pequena ginástica para fotografar, soprar bolhas e driblar o vento, mas sobrevivemos! eheheh
- IMPORTANTE: Nenhuma bolha de sabão ou animal fora maltratado durante a sessão de fotos! Isso inclui o pássaro da sexta foto que posou para o clique de livre e espontânea vontade.
Maio, da Bárbara Mançanares e os demais títulos da Quintal Edições estão disponíveis na loja online da Editora, só clicar aqui e conferir!
Que a Força esteja com vocês!
xoxo
Ouvindo: Maio – Kid Abelha (só na minha cabeça…)

