
O Construtor de Pontes
Markus Zusak
2019 | 528p.
Intrínseca
“No início havia um assassino, uma mula e um menino, mas este não é exatamente o início, é antes disso, sou eu, Matthew, e aqui estou, na cozinha, no meio da noite – a boa e velha foz de luz -, com os golpes, o tec-tec. O restante da casa está em silêncio.”

Sobre o Autor
Mais novo de quatro filhos de um austríaco e uma alemã, Markus cresceu ouvindo histórias a respeito da Alemanha Nazista, sobre o bombardeio de Munique e sobre judeus marchando pela pequena cidade alemã de sua mãe. Ele sempre soube que essa era uma história que ele queria contar.
“Nós temos essas imagens das marchas em fila de garotos e dos ‘Heil Hitlers’ e essa ideia de que todos na Alemanha estavam nisso juntos. Mas ainda haviam crianças rebeldes e pessoas que não seguiam as regras e pessoas que esconderam judeus e outras pessoas em suas casas. Então eis outro lado da Alemanha Nazista”, disse Zusak numa entrevista com o The Sydney Morning Herald.
Aos 30 anos, Zusak já se firmou como um dos mais inovadores e poéticos romancistas dos dias de hoje. Com a publicação de “A Menina que Roubava Livros”, ele foi batizado como um “fenômeno literário” por críticos australianos e norte-americanos. Zusak é o autor vencedor do prêmio de quatro livros para jovens: “The Underdog”, “Fighting Ruben Wolfe”, “Getting the Girl”, e “Eu Sou o Mensageiro”, receptor de um Printz Honor em 2006 por excelência em literatura jovem. Markus Zusak vive em Sydney com sua esposa e sua filha. Gosta de surfar e assistir filmes em seu tempo livre.

Sinopse
Se em A menina que roubava livros é a morte quem conta a história, em O construtor de pontes, novo romance de Markus Zusak, presente e passado se fundem na voz de outro narrador igualmente potente: Matthew, o filho mais velho da família Dunbar. Sentado na cozinha de casa diante de uma máquina de escrever antiga, ele precisa nos contar sobre um dos seus quatro irmãos, Clay. Tudo aconteceu com ele. Todos mudaram por causa dele.
Anos antes, os cinco garotos haviam sido abandonados pelo pai sem qualquer explicação. No entanto, em uma tarde ensolarada e abafada o patriarca retorna com um pedido inusitado: precisa de ajuda para construir uma ponte. Escorraçado pelos jovens e por Aquiles, a mula de estimação da família, o homem vai embora novamente, mas deixa seu endereço num pedaço de papel. Acontece que havia um traidor entre eles: Clay.

É Clay, então, quem parte para a cidade do pai, e os dois, juntos, se dedicam ao projeto mais ambicioso e grandioso de suas vidas: uma ponte feita de pedras e também de lembranças — lembranças da mãe, do pai, dos irmãos e dele mesmo, do garoto que foi um dia, antes de tudo mudar. O tempo, assim como o rio sob a ponte, tem uma força avassaladora, capaz de destruir, mas também de construir novos caminhos.
O construtor de pontes narra a jornada de uma família marcada pela culpa e pela morte. Com uma linguagem poética e inventiva, Markus Zusak nos presenteia mais uma vez com uma história inesquecível, uma trama arrebatadora sobre o amor e o perdão em tempos de caos.

A Ponte de Clay
Pensei em inúmeras maneiras de começar a escrever sobre O Construtor de Pontes. Poderia dizer que no início havia a velha Tec-tec. Ou que haviam os garotos Dunbar e Penny. Os cavalos e as corridas. O Assassino e a estátua do Stalin. E que havia um rio seco e uma ponte a ser construída.

É claro que há tudo isso, mas há bem mais. Há o quarto garoto Dunbar: Clay. E é tudo sobre ele, sobre a ponte que vai construir. Quem conta sua história é Mathew: com os dedos a estalarem as letras da velha Tec-tec, o mais velho dos garotos Dunbar nos leva ao começo de tudo. Ou o que pode ser o começo, já que o começo das coisas não é sempre necessariamente onde elas se iniciaram.

Em duas linhas narrativas, com capítulos intercalados, seguimos a vida dos garotos Dunbar morando e se virando sem pai ou mãe. São aquele misto de meninos quase homens que usufruem ora do lado de lá das criancices, ora do cá das adultezas. É um limiar tênue que pode passar de uma coisa a outra em questão de segundos ou num estalar de dedos.

“Contente é uma palavra que parece meio estúpida, mas estou aqui escrevendo e contando isso tudo para você pura e simplesmente porque é assim que nós somos. Estou ainda mais contente porque amo esta cozinha neste momento, e toda a sua grandiosa e terrível história. Tenho que fazer isso aqui. Nada mais apropriado do que fazer isso aqui. Fico contente ao ouvir minhas anotações sendo fincadas na página.
Bem diante de mim está a velha Tec-tec.
Embaixo dela, o tampo da mesa de madeira todo arranhado.
Um saleiro e um pimenteiro descombinados, na companhia de teimosos farelos de torrada. A luz do corredor é amarela, a luz da cozinha é branca. Estou aqui sentado, pensando, escrevendo. O velho tec-tec-tec das teclas. Escrever é sempre difícil, mas fica mais fácil quando se tem algo a dizer:
Quero lhe contar sobre o nosso irmão.
O quarto garoto Dunbar, chamado Clay.
Tudo aconteceu com ele.
Todos nós mudamos por causa dele.”

Os garotos Dunbar, já que não falei, são cinco: Matthew, Rory, Henry, Clayton, Thomas. Desse lado da história são eles e os cinco bichos de família: a mula, a cadela, o gato, o pombo e o peixe. Uma sinfonia de gente e bicho que deixa a casa cheia, sempre em movimento. Porque eles não podem parar, sabem disso. Qualquer pedaço de gente ou de bicho que faltar vai deixar um rombo. Dos grandes, daqueles que é provável que eles não consigam sobreviver. Não de novo. Não depois de tudo que aconteceu, depois de Penny.

Penny. Bem, é alguém de muitos nomes e da história do outro lado. O lado que tem a garota que deixa a terra natal como refugiada, que tem o pai que é igual à estátua de Stalin, mas que permaneceu do outro lado do oceano. E tem a chegada às terras americanas. É um sofrimento aprender a viver no tipo de calor seco e abafado quando se vivia em meio a ventos gélidos e neve. Mas nessa época ainda não se tratava de Penny. Era Penélope Lesciuszko; Rainha dos Erros; Garota do Aniversário; Noiva do Nariz Quebrado.

Tudo isso até ser Penny Dunbar. Mas claro que antes disso teve também um outro Dunbar: um que se apaixonou pela garotinha que pisou no seu avião, que cresceu, casou com ela. Até ser deixado por ela. Abey. Até chegar o piano no seu endereço. Mas não era pra ele. Era para a moça que vinha de um ponto mais distante da Rua Pepper. Era o número 3/7 e não 37. Acontece.

“Uma sentença tão difícil quanto a própria tarefa… E, no fim das contas, esta era a verdade:
Quem ia tinha que voltar.
Quem cometia o crime tinha que enfrentar a punição.
Voltar e voltar para casa:
Duas coisas diferentes.”

E aconteceu de na rua Pepper virem os garotos Dunbar. Todos os cinco. E vieram outras coisas mais, como a morte. Ela acompanhou os passos deles por um bom tempo, e, sendo sincera, nunca deixou. Mandou lembretes que estava sempre à espreita numa outra esquina.

Até que o Assassino apareceu. A ideia da ponte. E de todos os garotos Dunbar, havia um traidor. Ele disse não com a boca, mas disse sim com o coração. Clay, que poderia ser chamado de Clay, o Traidor, se estivéssemos em uma tragédia grega. Tudo porque ele sabia, ou sentia mais do que sabia, que ele precisava construir aquela ponte. Aquela que seria feita dele. Dele mesmo.

Essa é a história, mas só uma pincelada dela, uma pequena pedra que vai dar firmação à ponte. A construção é toda detalhada através da poética narrativa de Zusak. Uma das mais poéticas que já li, e não apenas poética, capaz de conversar com o lado de dentro de quem lê. De tocar aquelas partes que julgávamos inalcançáveis. As palavras chegam lá, vão sendo moldadas conforme a construção da ponte avança. E, claro, precisamos esperar a chuva, para o rio encher e ver se tudo se firmou. Se a ponte vai resistir.

“Acontece que ela também não esperava que:
Em breve, seu futuro seria determinado por três coisas relacionadas.
Uma era um vendedor de instrumentos musicais com uma audição sofrível.
Outra era um trio de entregadores imprestáveis.
Contudo, primeiro viria a morte.
A morte da estátua de Stálin.”

E tudo isso, o que dá forma aos blocos que constroem a história são os personagens. O narrador Matthew, o construtor Clay e todos os garotos Dunbar. Penny e Michael Dunbar. A família Dunbar, é claro. E tem ainda Carey. Não podemos esquecê-la. E claro, os animais, a Ilíada, são tanto personagens quanto qualquer outro. Estão ali alicerçando a ponte.

A beleza da construção braçal, dura, contrasta com os detalhes silenciosos e sentimentais da construção figurativa da ponte. A que será feita do próprio Clay. Que, em inglês, significa argila. Moldado, maldada. Daí o título original do livro: Bridge of Clay. Bridge é ponte. Ponte de argila, ponte de Clay.

Em português, o título foi alterado para uma versão que, em humilde opinião, mostra tanto da essência da história quanto o original. Não se trata de um construtor de pontes, mas de o construtor de pontes. Haveria significativa perda em dizer apenas Ponte de Clay, já que no português, a referência à argila se perderia e seria encontrada somente durante a leitura. A própria Intrínseca se manifestou quanto à escolha do título em português em uma matéria no seu site (clica aqui para conferir).

“- Não faz isso, Clay. Não vai, não me deixa… mas vai.
Se estivesse em um dos épicos de Homero, seria a Carey Novac dos olhos cintilantes, ou a Carey dos olhos preciosos. Ela fez questão de deixar claro o tamanho da saudade que sentiria dele, mas que também esperava – na verdade, exigia – que ele fosse fazer o que tinha que ser feito.
Não faz isso, Clay. Não vai, não me deixa… mas vai.”

De uma maneira própria, o livro tem tudo para cativar: boa narrativa, história, personagens humanamente complexos e surpresas ao longo do caminho. Ainda assim é na essência que O Construtor de Pontes se destaca, na essência de Clay, da ponte e de tudo que acontece. É completamente compreensível a razão de Markus Zusak ter levado treze anos em sua escrita. A história é tão complexa quanto uma vida. E são muitas vidas que se cruzam, intrínsecas umas às outras de um modo que apenas o destino pode explicar. As coisas são como são, acontecem como devem acontecer.

O livro me trouxe vários ensinamentos, várias reflexões, e um detalhe foi que me mostrou que é possível sim que uma pessoa tenha um livro favorito. Aquele que se ela precisar escolher para ler e reler pelo resto de seus dias, seria a sua escolha. O Construtor de Pontes é a minha escolha. Meu favorito, meu livro de cabeceira. Aquele que quero reler todas as páginas e todos os trechos que sublinhei. Sublinhar outros, sentir novamente a miríade se sentimentos dentro de mim, para então, redescobrir que ele ainda pode me mostrar ainda muitos outros detalhes que irão se revelar a cada vez que meus olhos correrem por suas linhas.

O Construtor de Pontes é inspirador, poético, inesquecível. Um livro que fala sobre a vida, pontes, família e perdão. Recomeços. Fala de ser ponte, de construir ponte. É sobre o amor e sobre os garotos Dunbar, a família Dunbar. E Clay, sempre Clay.

Teclas de um Piano
“As melhores coisas sempre acontecem antes de nós nascermos.”
“Era isto que tornava as coisas tão difíceis:
Um coração inundado de cores em meio a tanto cinza.”
“Acho que dá para dizer que éramos diferentes versões da mesma coisa, e nossos olhos eram prova disso. Tínhamos fogo nos olhos, e não importava de que cor eram, porque o fogo sobressaía.”
“É curioso ver como se desenrolam as confissões.
Admitimos quase tudo, e é o quase que conta.”
“Há quem diga que não nos cabe tomar decisões. Talvez seja verdade.
Achamos que estamos no controle, mas não estamos.
Damos voltas na vizinhança.
Passamos por certa porta.”
“Quando apertamos uma tecla de piano e não sai nada, apertamos de novo, porque temos que apertar. Precisamos ouvir algo e esperamos que não seja um erro…”
“Ele matou a gente.
Ele matou a gente, Clay, você não lembra?
Ficamos sem ninguém.
Ele abandonou a gente.
O que éramos está morto…”
“Conforme prometido e planejado, eu matei mesmo Clay.
E mais fiel que nunca à sua palavra, ele simplesmente não morreu.
Como era bom ser um garoto Dunbar novamente.”
Aleatoriedades
- O Construtor de Pontes foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca, obrigada pela oportunidade de conhecer esse livro, eu precisava dele e nem sabia disso! Um suspiro soa toda vez que penso nessa história…
- Queria que as fotos mostrassem um pouco da história ou do que ela foi para mim. A minha velha Tec-tec, apenas de não ser uma Remington, serviu de base. A corrida da revista, veio por acaso, eu procurava por uma ponte, mas pensei, deve ser eles então. A vela está aí porque a argila precisa do fogo para ser moldada. E a simplicidade do cenário está aí porque a beleza das coisas está, exatamente, em sua simplicidade. É a essência que a leitura me deixou.
- Definitivamente, quanto mais gosto de um livro, mais difícil é a escrita da resenha. Esse foi para o topo. Duas semanas para escrever uma resenha que me deixasse moderadamente satisfeita. Sei que um livro é um tema inesgotável e vários pontos talvez não tenham sido ditos aqui, mas sentimentos quanto à este livro, sem dúvidas, não faltam!
- Dica de leitura: A Casa Holandesa de Ann Patchett
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Que a Força esteja com vocês!
xoxo


