Alice no País do Amor ♥ Lucilla Guedes

Bom dia, tarde e noite folks!

Hora de se aventurar no mundo das maravilhas, ou melhor, no mundo do amor, com a resenha do livro Alice no País do Amor, em parceria com a autora Lucilla Guedes, publicado pela Chiado Editora. Agradeço imensamente a autora pela confiança e carinho em compartilhar sua obra aqui com o blog.

“As cláusulas anãs dizem que até podemos fazer o que quisermos, desde que dentro do pequeno cercado que fomos erguendo, tijolo por tijolo, durante o período de escolhas erradas ou de indecisão… Intricado, não?”

Sente-se, acomode-se e prepare-se. É hora do chá.

Sobre a Autora

Lucilla Guedes é mineira, morou alguns anos em São Paulo e cresceu em Curitiba. Casada com os livros e amante do cinema, sempre se aventurou pelo mundo das artes: fez dança, participou de grupo de teatro, cantou em corais e até ganhou um concurso de karaokê. Seus livros preferidos cabem em uma estante e já assistiu ao filme “Cantando na Chuva” quarenta e nove vezes. Apaixonada por poesia e pelo mistério das palavras, graduou-se em Direito e atua na área jurídica. Nos últimos anos, decidiu dedicar parte de seu tempo à coisa que mais gosta de fazer: escrever. Alice no País do Amor é seu romance de estreia. (Fonte: primeira orelha do livro)

“Será que existe gene da felicidade? Do otimismo? Se sim, acho que não fui contemplada.”

Sinopse da Obra

Instruções: Siga a trilha do coelho branco e “caia de amores” por esta história em que conquista, paixão, personagens pirados de filmes, gurus do amor e anciãos malucos se misturam, trazendo situações engraçadas, revelações e muito, muito romance…

Alice é uma advogada beirando os trinta anos, que mora em Curitiba e sonha com o verdadeiro amor. O problema é que ela é apaixonada – desde menina – por Max (atual namorado de sua melhor amiga, Helen), nutrindo, por ele, uma paixão platônica.

Esse sentimento se reacende na época da faculdade quando o reencontra como professor do curso de Direito. Alice resolve não revelar que fora sua vizinha quando criança e inicia um flerte com Max, mas a história toma outro rumo quando ele conhece Helen e eles começam a namorar.

“É claro que eu já tinha uma predisposição natural ao romantismo. Somos aquilo que somos, seja lá o que isso signifique.”

Sofrendo com essa paixão não correspondida, Alice conta sempre com o apoio de Alan, seu amigo e confidente, mas vê evaporarem suas últimas esperanças ao saber que Max pediu Helen em casamento. Abalada com a notícia, com a autoestima “no pé” e tentando “dar a volta por cima”, Alice decide ousar, com um vestido para lá de provocante, justamente na festa de aniversário à fantasia de Helen (em que quase todos estão vestidos como as personagens de Alice no País das Maravilhas) e então desperta – novamente – o interesse de Max, que tenta seduzi-la.

Será que Alice conquistará o homem dos seus sonhos?

“- Meu caro, o amor – não importa se outra palavra for escolhida em seu lugar – faz parte de nós. Pense nele como um clone nosso. Éramos crianças, ele era criança; nos tornamos adolescentes, cheios de espinhas, ele também; foi crescendo, na exata medida que nós, sendo burilado, aperfeiçoado. Talvez todo o resto cresça minimamente, o amor não. Ele é o pé de feijão mágico que estica até sumir nas nuvens.”

Impressões Sobre a Obra

Alice é uma advogada beirando os trinta que vive sua vida repetitiva em Curitiba. Boa parte das aspirações tradicionais dos adultos de sua idade foram alcançadas: sucesso na carreira = check; independência = check; sucesso na vida amorosa = opa… espera! Que horas é mesmo o chá?

Nossa protagonista teve uma infância conturbada em casa e, por isso, encontrou sua própria versão de anjo da guarda na casa ao lado. Enquanto ela era uma criança, ele um adolescente que tinha em alguns momentos as palavras que ela precisava ouvir e, em outras, um picolé, foi o suficiente para eternizá-lo como salvador.

“O amor é forte o bastante pra coexistir com qualquer outro sentimento ou emoção.”

Moldada por essa imagem, Alice sempre manteve a imagem de Max no pedestal e, quando ela ingressa na faculdade, o ideal mítico é atingido quando ninguém menos que Max se torna um de seus professores no curso de Direito. A aproximação entre os dois é clara, reacendendo todas as sensações que seu coração guardou com todo cuidado. A ideia de que ele também estaria se apaixonando por ela não sai de sua cabeça e, claro, bagunça todos seus sentimentos.

Encontros e mais encontros vem e vão, até o dia em que Alice tem certeza de que Max e ela terão seu momento. A queda brusca na toca do coelho em direção ao tão esperado País das Maravilhas é suplantada pelo elemento surpresa chamado Helen. A melhor amiga de Alice surge na festa e os olhares de Max não são mais direcionados a nossa protagonista narradora, mas à mais chamativa personagem da história: a Rainha de Copas.

“Incrível como a memória funciona bem quando tem emoção envolvida. Tudo é revivido: cores, aromas…”

O enlace estava feito, a partir daí, Alice só ouviria falar do relacionamento que surgia, do namoro e, claro afastar-se de Max, para ela, era a coisa mais natural. Suas esperanças foram destroçadas, mas, com a ajuda de seu fiel escudeiro  Alan (ou seria do Sr. Coelho?), a ideia de que tudo fora superado parece finalmente alcançada.

Tudo isso até o ponto de virada. A notícia do casamento entre Helen e Max é o suficiente para destroçar mais uma vez o coração já fatigado e as esperanças de Alice. Max nunca seria seu, afinal de contas. E, é exatamente quando tudo parece estar caminhando para o precipício que as coisas pioram. O aniversário de Helen está chegando e uma festa a fantasia, espalhafatosa como só a aniversariante é capaz de fazer, está prestes a ocorrer.

“Nada acontece por acaso, sempre há uma teia de fatos que deságuam em alguma coisa, cabe a você descobrir a trilha.”

Num último golpe de tentar superar a tristeza, Alice toma todo o conteúdo do vidro escrito ‘beba-me‘ e aparece na festa perfeitamente vestida de Alice, não ela mesma, é claro, mas numa versão sexy e morena da Alice criança e loira de Carrol.

Mas, não se faz o País das Maravilhas sem os personagens principais: a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco e um Coelho Branco um tanto quanto mal interpretado, mas que se juntou ao Quarteto Fantástico, no fim das aparências.

“Uma saudade pontiaguda me invadiu. O quarto estava impecavelmente limpo e as coisas, intocadas desde quando saí de casa, encaravam-me, reprovando minha ausência. Minha ausência prolongada tornara-se uma presença.”

O que Alice não esperava era que Max fosse reagir a transformação que a poção de crescimento trouxe. Uma noite inteira de flertes, uma Rainha de Copas adormecida como uma das  princesas de outro conto de fadas. Uma Alice e um Chapeleiro saindo juntos da festa. Um Coelho um tanto quanto perdido.

Alice finalmente tem seu desejo concedido, Max é seu, ao menos por uma noite. O que vem depois? A mente conturbada, o peso, o rancor e, numa descoberta, a verdade: Helen está grávida de Max.

“Naquela noite, a cidade era de papel ordinário e os edifícios, colmeias iluminadas. E lá estava eu, debruçada numa das janelinhas do meu vespeiro. Mais um inseto entre tantos, com uma história que não passava de uma versão grotesca e incompleta das já contadas.”

Apoiando-se em seu amigo de tão longa data quanto Helen o é, Alice parte para a casa dos tios de Alan, nos arredores de São Paulo, numa tentativa de amainar seus sentimentos tão controversos em relação a ela mesma, à Max e Helen.

O tempo, como era de se esperar de uma história repleta de Maravilhas do País mágico de Carrol, não passa como se deve, mas como ele próprio quer e logo Alice se vê envolta em novos sentimentos e se questionando o que, afinal de contas, deveria ser feito de sua vida e daqueles que a cercam.

“Eram daquelas pessoas que te deixam à vontade logo de cara. Minha mãe as chama de “pessoas-sapato-velho”. Diferentes de alguns, que mais se parecem com um sapato de salto-agulha altíssimo e de couro falsificado.”

O que Alice decide muda o trajeto da vida de todos ao seu redor e, especialmente, a sua própria. O desenlace desse espetáculo, você precisa, é claro, conferir no livro Alice no País do Amor.

Se os primeiros pensamentos que vieram à sua mente foram algo do tipo, “que espécie de amiga Alice é para seduzir o namorado/noivo da melhor amiga?“, pare e abra sua mente, as coisas não são o que aparentam. E, devo ressaltar, eu fiquei com sentimentos muito duvidosos acerca de Max e Alice em todo começo da história, tentando desvendar no cerne de cada um desses dois personagens o que cada um realmente sentia e pensava a respeito desse triângulo amoroso totalmente complicado.

“Antes disso, é preciso que reconheçamos cada traço mórbido, cada expressão vazia. Para amar, antes temos que morrer. Abandonar a vida postiça e renascer para a legítima.”

Alice, nossa mocinha, é um tanto quanto como a personagem de Carrol, tem um mundo de ponta a cabeça dentro da própria mente. E, como a vida parece não seguir um ritmo que atenda às suas expectativas, as desilusões são certeiras e, as viagens dos pensamentos, constantes, agindo como verdadeira fuga do que a cerca.

A verdade é que nossa narradora é, como tantas de nós, romântica incurável, sonhadora. Bastante pé no chão quando quer e ótima conselheira, também (quem nunca aconselhou com aquele conselho que nós mesmos somos incapazes de seguir?).

“A noite já havia caído. Do outro lado da rodovia, os faróis dos carros ofuscavam nossos olhos. Lembrei-me da comparação que Alan havia feito entre se apaixonar e anoitecer. Ele tinha razão. Nunca ninguém havia visto o momento exato do cair da noite.”

O embate principal que Alice passa pela história, vai além do conflito moral entre amar o namorado da amiga, aquele homem tão fantasticamente esculpido em seu coração ao longo dos anos. Chega ao ponto de questionar como é possível reconhecer o amor? Como saber desse sentimento lindo que tantos falam e idealizam? Será arrebatador? Será calmo e fácil? Difícil e tempestuoso? Amor e sexo tem a ver? O quanto estamos preparados para amar? O quanto estamos aptos a reconhecer o amor quando ele está logo a nossa frente? Amor é paixão? E paixão, tem amor?

Uma das surpresas da história, é justamente essa. Ao mesmo tempo que Alice debate consigo mesma e, em alguns momento com Alan, a relação que tem com a própria amiga Helen e com a idealização do homem perfeito a.k.a. Max, ela debate consigo mesma sobre o que é o amor. Ela é cheia de expectativas e fantasias sobre um sentimento mágico e arrebatador, que seria inconfundível. Algo que, quando surgisse, seria impossível não reconhecer. Mas é assim mesmo?

“- Não se trata disso, se trata de reconhecer os sinais, interpretar os acontecimentos, ler uma pessoa como se fosse um livro. Digamos que você seja o meu livro de cabeceira.”

Em um mundo que estamos tão cercados de idealizações, que vão de nossa aparência ao comportamento, é impossível não criar expectativas em cima de ideias, em alguns casos, fantasiosas. Se o amor é arrebatador? Pode ser. Pode ser terno e calmo? Também. Há uma certa quebra de paradigma no que diz respeito às expectativas de Alice, já que tudo que ela tinha como certo é colocado em voga, como se a fumaça de um narguilé tivesse se misturado as coisas e as embaralhado. Ou talvez, tudo pareça um pouco como a louça bagunçada do eterno chá do Chapeleiro Maluco e da Lebre de Maio.

Não pense que os outros personagens estão aéreos no meio disso tudo. Os dois mais explorados são Max e Alan. O primeiro deles por ser o “objeto proibido de desejo” e Alan, por representar o porto seguro de Alice. Ambos vão se mostrando ao decorrer da história. Cada qual com suas próprias características que, apesar de esperadas pela leitora aqui, são reveladoras para nossa Alice. Helen não chega muito a ser bem explorada na história e, seu comportamento e jeito de ser, resta por ser quase uma incógnita no fim das contas. A Rainha de Copas tem muito a que nos contar sobre governar um reino, eu diria.

“Será que o amor podia se infiltrar, devagarzinho, pelas ranhuras da convivência? Será que os solavancos da estrada podiam embaralhar e desembaralhar os sentimentos do coração?”

Um dos encantos da leitura da narrativa que Lucilla construiu no livro, é o próprio País das Maravilhas criado na mente de Alice. Como já dito, ela pensa em verso, em comparações e composições que meros mortais não seriam capazes de criar, quiçá, pensar. E, mesmo que isso possa parecer melódico, estar dentro da mente de Alice é um excelente trabalho de raciocínio. Ela se pega pensando em trivialidades de um modo tão particular que nos faz refletir sobre estas mesmas coisas, enquanto acompanha suas ideias. Para dizer o bem da verdade, os pensamentos de Alice são tão vivos que são quase como um outro personagem, um que existe apenas na mente da protagonista, mas o qual nos é permitido conhecer.

Alice no País do Amor é um romance leve e, ao mesmo tempo, capaz de fazer pensar muito na vida e no amor. Em como tudo pode parecer muito certo e não o ser, em como tudo pode ser bem mais do que se espera ou bem menos. Em como cada um pode se surpreender e descobrir coisas incríveis, desde que permita que o mundo ao seu redor se encontre com o mundo que vive dentro de cada um.

“A vida era mesmo como um rascunho nunca passado a limpo, ou um ensaio que nunca se transformava em noite de estreia. Mas quer saber? É assim que deve ser.”

Fatos rápidos e aleatórios que quero destacar:

  • Preciso citar algumas referências que a história faz e que me deixaram, não apenas feliz, como empolgada. Alice é uma amante do cinema em preto e branco e faz inúmeras referências a filmes durante a trama. Além disso, um dos meus seriados/filmes do coração aparece em uma comparação mais que bem vinda entre personagens. Sex And The City é lembrado nos pensamentos de Alice e nas suas conversas com Alan, assim como cada uma das quatro personagens da série/filmes, Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte. Terminei querendo reassistir toda a série e os filmes;
  • Tem várias e várias outras referências cinematográficas adoráveis no livro, inclusive, como o próprio nome sugere várias ao mundo do País das Maravilhas, tanto à obra mãe de Lewis Carrol, quanto ao filme de Tim Burton;
  • Esse é spoiler, então, se não quiser saber, pule pro próximo tópico: Alan, eu torci por você desde que li a sinopse! rsrsrs;
  • Preciso discordar veementemente de uma frase que Alan disse à Alice (e olha que eu concordo com quase tudo que ele diz… rs): “– Cafajestes não são forjados, eles nascem…“. Alan, eu preciso dizer que não é bem assim. Ninguém nasce “cafajeste”, é moldado, pela vida, pelas escolhas, pela educação e pela moral. Isso seria o mesmo que dizer que ser mau caráter é uma condição de nascença, mas não é. É algo que se aprende na sociedade, não uma condição irrefutável que nos é dada ao nascimento.
  • Preciso dizer que, quando li a sinopse, “Alice, quase trinta, advogada, sonha com o verdadeiro amor.”… É risível, parecia uma auto-retrato meu com outro nome e localidade (também sou mineira, como a autora e formada em Direito, como ela e a personagem do livro! rs) Só que Alice é mais sonhadora como Charlotte e eu, uma sonhadora um pouco mais à lá Carrie;
  • No fim do livro, tem uma listinha de músicas e uma de filmes super recomendável!
  • Achei que o fim, fim mesmo, um pouco corrido. Vem o segundo spoiler, não leia se não quiser: não precisava chegar ao casamento rápido e toda a pressa em concretizar o amor, por assim dizer. Ainda mais quando penso que Alice mal descobrira seu amor, fiquei com a sensação que o casamento era o único caminho lógico e imediato a ser seguido. Não acho que a sequência lógica seja essa, por mais que a sociedade nos leve a pensar assim. O ponto feliz, o “momento Charlotte” de Alice, viria de qualquer forma, naturalmente, depois que ela descobriu o que é o amor.
  • Alan (você de novo!) tem um rompante machista na história e, isso, vale para lembrar que ninguém é perfeito. Ele faz uma exigência de Alice que, convenhamos, é típico da ideia de posse sobre a mulher. Alan, eu sei que você não é assim, não faça mais isso. E, acho que estou apontando os erros de Alan porque, se fosse apontar os de Max, precisaria de um post exclusivo só para tecer ideias sobre ele…
  • Por fim, sorry pelo post/resenha quilométrico. Sabem que, quando eu empolgo, é difícil parar, né?!

O livro Alice no País do Amor pode ser adquirido através da Fanpage Oficial (clique aqui) ou através do site da Chiado Editora.

Substituirei o tradicional ‘que a Força esteja com vocês‘, por esse trechinho da obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol:

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde você quer ir…”

Ouvindo: Tom Odell – Another Love

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