Fadas e Copos no Canto da Casa ♥ Mariana Salomão Carrara

Em 02.02.2018   Arquivado em Resenhas

Bom dia, tarde e noite folks!

Uma das alegrias que 2018 me proporcionou, logo que deu seus primeiros passos, foi a parceria com a Quintal Edições (sem palavras para agradecer toda a minha alegra). Os primeiros livros que recebi foram Fadas e Copos no Canto da Casa e Incômodo Conto. Hoje é a vez de falar do primeiro deles, que li no mês de janeiro e foi, sem dúvidas, uma das melhores leituras que já fiz na vida (e claro está entrou para o roll das melhores de 2018).

Fadas e Copos no Canto da Casa

Autora Mariana Salomão Carrara

Quintal Edições

A Autora

Mariana Salomão Carrara é paulista, nascida em 1986. Tem um romance juvenil publicado em 2008 e um livro de contos (Delicada uma de nós) publicado em 2015. Recebeu prêmios nacionais como Off-flip, SESC-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, e Josué Guimarães. Publicou um conto na revista do SESI/SP, e outro na revista do SESC-SP. Uma versão incipiente do romance Fadas e copos no canto da casa foi finalista e menção honrosa no Prêmio Nascente USP-2009. É Defensora Pública desde 2011 e tem dois cachorros, a Lori Lamby e o Tabu.

Sinopse

O livro nos traz a história de Bianca que, à época de seu vigésimo aniversário, narra em tempo real sua vida em uma casa de prostituição no interior, misturando o tempo da narração aos seus devaneios de infância. O universo fantástico da menina gira num sufocante ciclo de vínculos que ela ao mesmo tempo nutre e corrompe, enquanto procura disfarçar, com certa arrogância, a profunda carência que a mantém dependente dos outros.

O monólogo ágil, permeado por falas dos outros personagens em discurso livre, flui em vários ritmos, em sintonia com as ocorrências na vida de Bianca, que variam de uma lenta e digressiva tarde ao sol para graves episódios de violência. A narradora é fantasiosa, revolvendo fatos muitas vezes obscuros, ainda sob a “pseudonévoa da sua imaginação”, mas aos poucos revela os dados revoltantes da sua biografia e um passado rompido pela perversidade e moralismo masculinos. Sentimos a voz da menina amadurecer ao longo de suas tragédias atuais ou revividas, mas a contundente solidão que dá o tom de todo o romance não sucumbe.

Fadas e Copos no Canto da Casa

Bianca está prestes a completar 20 anos, com vários deles passados na casa de prostituição localizada numa pequena cidade do interior de São Paulo. Não que o foco seja o seu aniversário ou que, ao mesmo tempo, não o seja.

“Devia ter alguma coisa que proibisse a gente de olhar abajures por baixo, é a maior perversão deste lugar, as cúpulas devassadas nos seus saiotes de renda, as armações iluminadas na sua poeira secular, lâmpadas quase bruxuleantes como se fossem velas, mas não são velas porque seria um charme lúgubre que esse lugar não merece.”

Em uma linha narrativa que só pode ser descrita como o embrenhar na mente da própria personagem, segue-se o fluxo de pensamento de Bibi. Desculpando a redundância da afirmação, mas é exato, o leitor se torna a própria personagem-narradora.

A história começa num ponto sem fim, apenas mais um dos dias decorados com os abajures de renda vermelha, sobrecarregados pelo cheiro misto de sexo, cigarro e álcool. E, com a passagem dos dias, vem o despertar de Bibi para um amor, muito provavelmente fruto de sua pseudonévoa carente, que anseia por cuidados, atenção. Nesse ponto, é necessário destacar que o amor-romance em nada se aplica aqui e, tampouco, é ele quem dá marcha à história.

“No fundo, essa gente é assim, adora um mofo. Faz que não suporta o cheiro na toalha mas quer mais que todos mofem dentro de casa, acumulando os hábitos feito uma penugem de fungo, grudenta.”

Em meio à rotina sufocante, ela passa os dias com sua fada particular, Lisa, a mulher que tomou papel tão imenso em sua vida, que faz parte do seu imaginário ora como fada e da sua realidade, ora como amante, ora como amiga, ora como mãe. Lisa é tudo aquilo que Bibi precisa.

E há o amor, aquele que Lisa esconde, aquele que Bibi tenta roubar para si, e o que pensa receber de Lauro e de cada cliente que recebe. Lauro, figura esta que se faz de aparente respeito, vai se abrindo aos olhos de Bibi-narradora-leitora, num processo um tanto quanto mais longo que os demais homens que a rodeiam e preenchem sua cama, costumam levar.

“Sinto medo, é isso o que eu sinto. Medo da Loba, medo do amor que vou sentir pelo Poodle e começar a amar é sempre o começo de uma mudança trágica.”

Aos poucos, vemos surgir os fragmentos que compõem Bibi, essa que acompanhamos o respirar, abrir dos olhos e sentir: a família, o namorado, a escola. Tudo emaranhado, vindo em rastros, como os próprios pensamentos costumam fazer na mente de cada um. E, a cada descoberta, uma realidade se abre para o leitor-narrador-Bibi, que desbrava seu próprio passado enquanto o revela em memórias amargas, sofridas e sentidas. Tudo que fora construído mostrando quem fora construído.

São, de fato, tantas alegorias implantadas na vida de Bibi, que, por vezes, ela chega a quase se enganar de um sentimento ou outro, passando então a quase enganar também o leitor que adentrou sua mente.

“Fomos tentar caber em algum lugar e acabei mesmo no mundo das pessoas que não cabem. Continuo tentando mas não adianta, eu não caibo aqui dentro de mim.”

Mas, como se propriamente a história de Bibi não falasse tanto por si só, Copos e Fadas no Canto da Casa é um manifesto. Um manifesto sobre a corrupção da infância, do desvalor da palavra do outro. Sobre o silenciar das mulheres, sobre a objetificação. Machismo. Sobre incompreensão e violência. Da física à emocional, de todas elas juntas. É sobre traição, sanidade, a perda dela. Perda da inocência. E é sobre realidade. É sobre a dureza que as pessoas ao redor impuseram a quem não compreendiam. Não há de se culpar a vida quando os agentes possuem nomes e rostos.

Esse livro me silenciou por alguns dias, tentei me expressar ao terminar a leitura e não saíram mais que meia dúzia de palavras, que não compreendiam tudo. Assim como Bibi, que costuma falar de sua pseudonévoa, que a leva aos mais tênues pensamentos, a intensidade da história não está apenas nos acontecimentos momentâneos e lembrados pela personagem, mas pela intensidade com que são descritos.

“Estou de repente tão triste. Triste por não estar triste, porque as coisas têm tão pouca importância.”

É uma leitura dura, tensa, intensa. Porque é difícil se deparar com a realidade do outro. Ler, do conforto da sua cama e ser lembrado da realidade de que existirem incontáveis Bibis, Lisas, Lobas, Lauros e Aristóteles, é mais que um mero cair da cama. Isso porque todos os personagens são ao mesmo tempo figuras enigmáticas e abertas, claras e confusas de ler, representando mais do que aparentam: são expressões e reflexos da realidade e, por isso, impressionam, assustam, marcam.

Um salve à narrativa de Carrara, nunca antes fui tão personagem quanto em Fadas e Copos. Três dias intensos de leitura e uma história que marcou mais que a pele, marcou a memória. Levarei Bibi, sua pseudonévoa e tudo o mais comigo, para a vida.

“Preciso ir que o oceano é imenso e nesse aquário vou acabar me esquecendo de respirar.”

O comentário a seguir sobre a obra contém um spoiler sobre a história, então, considere avisado, se não quiser ler, é só pular o parágrafo seguinte!

INÍCIO DA ÁREA DE SPOILER

Em dado momento, mais para o fim do livro, especificadamente, entrei na pseudonévoa de Bibi. E, não sei se por intenção da autora ou por deliberado delírio meu, Lisa se tornou exatamente como o cachorro Poodle. Se transformou em fada, puramente fruto da necessidade. O que implica uma série de questionamentos que, não pensem que não argui um por um em minha cabeça, tentando me contradizer. Mas, em contrapartida, explicaria alguns outros pontos. Então, após exatos onze dias de finalizada leitura, a fada ganhou. Lisa é fada, como Bibi afirmou.

FIM DA ÁREA DE SPOILER

Aleatoriedades

  • Essa foi uma das resenhas mais difíceis de escrever. Não sabia ao certo por onde começar a expressar todo o turbilhão de sensações, sentimentos, pensamentos, e tudo o mais que me marcou durante a leitura. Talvez, ainda não saiba… Mas, de um modo ou de outro, espero ao menos ter conseguido enaltecer a beleza, crueza, e necessidade que esse livro é. Exatamente por isso a resenha saiu daquele habitual padrão de contar a história do livro para, então, tecer meus comentários. Ficou um pouco ‘tudo junto misturado‘, sem muito a detalhar da história, mas, de toda forma, acho que mais fiel aos meus sentimentos para com o livro.
  • As fotos para a resenha foram tão complicados quanto o restante… Não estava conseguindo uma luz decente para fotografar um canto da casa e fotografar com sol pelo celular se revelou um desafio… rsrs No fim das contas, o terceiro canto foi o escolhido, mas gostei de uma das primeiras fotos, que, desfocada, disse muito em sentimento para mim, talvez ela só esteja com um filtro de pseudonévoa… É a última aqui do post…
  • Costumo sempre falar da revisão do livro, capa, edição, etc., e devo dizer que esse livro está impecável. Revisão excelente, espaçamento, folhas amareladas que não cansam a leitura, tamanho da fonte, qualidade da capa, papel e impressão. A arte da capa, antes de ler, era um pequeno enigma para mim, mas, logo logo fez o mais completo sentido e gosto de apreciar essa curiosidade que ela traz para quem a olha sem conhecer ainda seu conteúdo.

Fadas e Copos no Canto da Casa, da Mariana Salomão Carrara, está a venda na loja online da Quintal Edições. 

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

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