Once Upon an Ice Cream…

Once upon an ice cream eu queria todos os sabores juntos. Todos mesmo, de maracujá a chocolate. De beterraba a maresia. E queria também com gosto de céu e estrelas cadentes, aquelas que povoam o céu que nunca vi, mas acredito que existe, junto aos unicórnios que cavalgam as florestas repletas de tempestades de arco-íris. Mas só tinha de iogurte. E não gosto de coisas com gostos que não são delas. Iogurte tem que ter gosto de iogurte. Sorvete, de sorvete. E não venha dizer que eu queria todos os sabores, queria todos os sabores reais. Não os de iogurte. Então, não conseguindo decidir entre o sabor de água fresca e gergelim, coloquei todos eles, até mesmo iogurte. E a boca misturou todos antes que se misturassem lá dentro. Que diferença faria? Já tinha também calda de veludo com damascos, granulados de nozes e pérolas. O sabor. Esse ficou misturado-errado. Ficou do jeito, com gosto de nada. Coisa em demasia fez isso, fez nada. E de nada saboreei até o fim do pote, o preço do quilo não deixaria desperdiçar granulado algum.
Os blues do Djavan e a Luz de Tieta

Fico a divagar sobre as pessoas. Não de me preocupar se desperdiçam os blues do Djavan ou com quem se deita. Importo-me com o que fazem dentro de si, se o olhar que atravessa janela do ônibus tem sentido por causa dos fones dos ouvidos ou se o gole da cerveja do boteco de copo sujo chique na segunda-feira, é de cevada menos amarga que a de domingo. Não sei, talvez seja coisa da minha cabeça pensar porque o rapaz está entre as portas do próprio prédio, sem nem vir nem ir. Mas estranho mesmo é que sempre acabo tentando entender porque algumas casas tem duas portas, nos fazendo entrar duas vezes nelas. Tento ler o título do livro da colega ao lado e lembro da garota que me perguntou o que eu lia no ponto de ônibus. A parte boa é que ela se desprendeu pelo título, ele gastou meus minutos mesmo sem valer a passagem dos olhos. Só que dizem que tudo agrega, que tudo que se lê passa a fazer parte da gente, a nos compor. Acho que fiquei descomposta.
Lado A | Lado B

A vida tem dessas coisas, ou toca um lado ou toca o outro. Em alguns momentos nos lembramos que é impossível tocar os dois lados da mesma fita e, assim, seguir num meio termo. É como aquela pergunta corriqueira que a todos respondem afirmativamente, independente do estado de espírito, já tocando tudo no automático: ‘E aí, tudo bem?‘ ‘Tudo e contigo?‘ ‘Bem também.‘ E a música continua a soar do Lado A, enquanto você fica imaginando o Lado B. E, quando finalmente chega do Lado B, é impossível não pensar nas melodias do Lado A. E aí dá vontade de dar stop, não, stop é muito definitivo, pára tudo. Um pause, quem sabe, mais suave, ver se o som sai melhor quando voltar a tocar.
Conto ♥ Apatia

Aquela história de calmaria antes da tempestade é a maior mentira que os ditos populares já me contaram. Se existisse, marinheiro nunca seria pego de surpresa. Calmaria de verdade vem é depois da tempestade, da revolta, da depressão profunda, das ondas que viram barcos, da água salgada impossível de beber. Mas nem de longe significa que calmaria é céu limpo, sem risco de tempestade desabar, sem chance de furacão. Quando vem depois da tempestade, calmaria é apatia. É continuar sem rumo, perdido no bote salva-vidas, boiando em mar aberto, sem saber exatamente quando um barco vai passar e resgatar. Se passar. Se resgatar. Meus dedos correm pelas prateleiras extensas, algumas com camadas a mais de poeira do que outras, espaços vazios aqui e ali, o odor de papel antigo, o novo misturado ao pó e ao café que parece circular todas as fileiras. Sigo pela textura, liso demais, detalhado demais. Parece suficientemente comum. Tiro o exemplar da prateleira e retorno para a mesa, no canto, com vista para todos os pedaços do lugar decorado sem um estilo propriamente dito. Como os porta-guardanapos com estampa vintage Coca-Cola, livros de capas sem nomes espalhados nas mais diferentes disposições e os candelabros de arabescos com velas de mentira pendendo do teto.
Conto ♥ Carnis Levale – Parte II

Este conto é continuação de Carnis Levale, publicado no último Carnaval, aqui no blog. É possível a compreensão deste sem a leitura do primeiro, ainda assim, ela é recomendada de forma prévia. Se quiser ler a primeira parte primeiro, clique aqui! Talvez eu não estivesse com essa sensação de quem a maresia fez mal se meus planos de não nos falarmos a sós tivesse sido bem-sucedido. Quero dizer, quase foi. Até a noite de ontem, quando Alexandre me encontrou sozinha a bebericar o vinho do jantar. – Seria apenas impressão minha, ou você tem evitado ficar a sós comigo? Quando ouvi suas palavras, fiz questão de tomar todo o conteúdo da taça, talvez esses míseros segundos fossem capazes de me dar tempo para pensar, em exatamente o que, eu não faço ideia. – Não posso dizer que é mentira. Seu sorriso aparece, mas não se estende até seu olhar. Desvio o meu até a porta da cozinha, na esperança de que alguém entre e interrompa qualquer direcionamento infeliz que essa conversa possa tomar. Decididamente, o álcool me deixa estúpida. – Dance comigo amanhã.
Um Conto de Natal

Bom dia, tarde e noite folks! Pelo título do post pode ser que você tenha entrado aqui para ler mais um conto, como os tradicionais que aparecem aqui no blog. Mas a proposta aqui hoje é um pouco diferente, já que este é um post-convite. Um dos contos que foram compartilhados aqui no blog, escrito em especial para o Natal do ano passado, sempre me foi muito querido. Apesar de ter sido escrito e dividido em duas partes, ainda era pequeno demais para os personagens, para a própria história. Então, nesse ano, resolvi que essa história seria contada de maneira apropriada, com todos os detalhes que merece. E é por isso que Um Conto de Natal será postado em 25 pequenos capítulos lá no Wattpad. Um por dia, do dia 1º de dezembro, finalizando no dia de Natal, 25. Confere só a sinopse:
Conto ♥ Sem Título

Leia ouvindo: Aurora – Running With the Wolves Quando parece mais simples, e ainda assim, incômodo. Como chuva molhando as roupas do varal, como pés molhados dentro do sapato, como o trânsito parado, como interferência na rádio, ou como a ausência de sinal de internet. Como chiclete grudado na roupa. Como a culpa que não é sua. Como pernilongo durante a noite. Como arranhar as unhas no quadro negro. Como pessoas andando devagar na sua frente. Como o telefone chamando sem parar. Como ouvir as músicas na espera pelo atendimento do telemarketing. Como receber uma guardachuvada na rua. Como corte de papel. Como esse parágrafo: extenso. Parado. Repetitivo. Ter que ter nos ombros o peso de tudo. Ter que ser mais de um, em um. Ter que ter mais de um, em um. Dar conta do recado, e de mais um pouco. É quando me fecho no meu mundo, quando dou ouvidos apenas às melodias que surgem pelos auto-falantes, que entram pelo ouvido e ressoam pelas veias do corpo. Como se a janela fosse mais que uma construção, mais que concreto, vidro e metal. Vai além do que os olhos podem ver. É o que a mente capta, o que o espírito sente, o que cada coração palpita e anseia.
Conto ♥ Halfway

Leia ouvindo: Drink-Me – Anna Nalick Que me perdoem aqueles que detestam o estrangeirismo, mas não há palavra que melhor descreva o sentimento ou a sensação. Numa trilha que só se pode seguir para dois planos, um que habitualmente chamamos de mundo real e o outro, para o qual não há melhor denominação do que país das maravilhas, encontro-me, exatamente, halfway. Se preferir, entenda como ‘a meio caminho’, mas não é exatamente o que quero dizer, se é que você me entende. Ou talvez não entenda, exatamente porque você encontra-se, deliberadamente, em algum lugar e, não, halfway. Meus All Stars azuis param bem ao lado das roseiras e as observo com minúcia. É possível perceber as imperfeições na tinta vermelha. Pequenos pontos, descascados, ranhuras que mostram sua verdadeira cor. Não desejava nenhuma delas, ou nada delas, por isso sigo em frente. O sol do outono aquece minha pele e meus cachos volumosos fazem aquela sombra desconexa no chão de ladrilhos. Já perdi a conta dos meus passos quando ecos soam em meus ouvidos. Não são abafados e densos como o som que meus tênis produzem. São do tipo que nenhum sapato que eu conheço faria.
Conto ♥ Pessoas Café & Pessoas Chá

Existem, basicamente, dois tipos de pessoas no mundo. Não se trata daquele tipo clássico e retrógrado de divisão entre ‘pessoas de bem e pessoas do mal‘, ou tampouco de qualquer tipo de distinção que se valha de gênero, sexo, idade, etnia ou qualquer outro aspecto físico ou intelectual. A classificação se resume em dois tipos bem simples de serem elencados, mas, talvez, não tão fáceis de serem compreendidos: existem as pessoas do tipo ‘café’ e aquelas do tipo ‘chá‘. Novamente, não que haja, necessariamente, uma superioridade em qualquer destas classificações. Longe disso. A questão é mais próxima às diferenças do que similaridades, mais de qualidades do que de defeitos. Por exemplo, uma pessoa do tipo café, tem o condão de ser alguém capaz de incríveis transformações, tais como, uma reviravolta de humor após uma boa xícara de café pela manhã. Uma pessoa do tipo chá, por outro lado, tem o condão de ser extremamente pontual, especialmente no que diz respeito ao horário para se tomar chá.
Conto ♥ Vazio

Leia ouvindo: The Scientist – Coldplay Somos exatamente como eles. Todas as diferenças possíveis, unidas. Não que se reflitam exatamente como nos dois animais que brincam e se deliciam com o sol morno do fim da tarde de outono. Não. Muito provavelmente eles não se sentem tão diferentes assim, o exterior não conta para eles. É como se fossem iguais. E não posso dizer que não o são. Os dois apenas param de brincar quando sua humana recolhe o cobertor em que estava sentada e segue para fora da grama, chamando-os. Várias pessoas estão começando a deixar o parque. O vento está ficando mais forte com a noite se aproximando e meu terno não é suficiente para espantar o frio. Cruzo meu braços e recosto no banco, não consigo pensar em voltar para casa ou para qualquer outro lugar. Não tenho mais lar, o local que comecei a sentir como tal, é exatamente aquele para o qual não posso mais retornar. A memória dela está em absolutamente tudo. Até mesmo nos lugares em que nunca esteve, em que nunca a vi, toquei ou senti seu cheiro. Talvez seja eu. Estou impregnado dela ou por ela. Não sei bem definir. O sentimento de perda, ainda que tenha sido eu quem partiu, parece um veneno que foi injetado em minhas veias. E ele é cruel. Corre lentamente, queimando e secando minhas veias, infiltrando-se no meu coração e fazendo-o secar e morrer. Lentamente. Dolorosamente.
Conto ♥ A Cup of Tea

Leia ouvindo Free As A Bird – The Beatles Uma caneca de chá, não. Xícara ou copo. Também não. Gosto na caneca. Então talvez fosse melhor ‘a mug of tea’. Você também pensa com frequência em uma língua que não a sua materna? Aquela que adotou em seus pensamentos como se também fosse fluida em sua mente e que, em alguns momentos, reflete muito mais do que se pode expressar? Escrevo ideias inteiras, pensamentos fragmentados ou não, misturando o melhor de cada língua e, por isso, vez por outra, elas se unem como se fossem uma coisa só. Ou, melhor assumindo, com frequência. Escrevo a cada suspiro. A cada despertar. A vida é escrita a cada passo e cada passo reflete quem eu sou. É na melodia que ressoa em meus ouvidos em ritmo lento enquanto o mundo gira sem parar ao meu redor. E se paro, ele corre e eu estagno. Se corro, ele viaja na velocidade da luz. O caminho é sempre o mesmo, ainda que, de um modo ou de outro, ele seja diferente todos os dias. Nunca estaremos no exato lugar em que já estivemos. E tudo ao redor é barulho e ruídos. Cheio de burburinhos e lamentos e bipes e sinos e palavras e mais suspiros. Muitas palavras. Palavras em demasia. – Um, por favor. – O copo está quente e queima a ponta de meus dedos, fazendo com que meus passos até a mesa mais afastada do estabelecimento sejam mais rápidos.
Conto ♥ Entremeio

Sugestão de música para durante a leitura: Hozier feat. Karen Cowley / In a Week Algo que se encontra no meio do caminho, como a pedra do poema de Drummond. Algo que fora deixado exatamente entre dois limites, apto a fazer-lhe parar bem na metade, seja lá do que for. – Tem certeza de que pegou tudo? – Eu insisto. – Claro que sim, Ian. – Detesto quando ele diz meu nome dessa forma, enfadonha, assim como minha mãe o usaria quando eu era uma criança impertinente. – Só estou perguntando, você fez sua mala em cinco minutos, Alan. – Tento imitar o tom indiferente, mas provavelmente sai algo muito mais próximo à malcriação. Ele sorri daquele jeito aberto e espaçoso e sua mão alcança meus cabelos, jogando-os para todos os lados. É claro que eu não posso bagunçar o seu topete perfeito, mas o ato é o suficiente para me acalmar e me fazer suspirar fundo. Não é por ter bagunçado meu cabelo, é óbvio, mas porque seu toque tem esse efeito quase mágico sobre mim. Acalma, quando precisa. Apago o abajur do meu lado da cama e ignoro o fato de que ele acaba de se acomodar com um livro nas mãos. – Vamos acordar em cinco horas, Alan. – Eu sei, só vou terminar um capítulo. – Claro, como se eu acreditasse em tudo que um leitor fala. – Falo, rindo e viro pro outro lado, para evitar a claridade.