Conto ♥ Devolva-me

Leia ouvindo Devolva-me da Adriana Calcanhoto São as amarras invisíveis as que mais prendem. Sufocam. São como âncoras soltas em alto-mar, que fazem naufragar em meio ao turbilhão de ondas fortes e agitadas que não cessam. E são ondas extenuantes, repetitivas. Sempre fazem voltar ao fundo, ao silêncio maciço que as águas tomam por debaixo da maré. Retornam os mesmos sentimentos. Revoltosos. A pergunta que não quer calar é sempre a mesma: as remadas são fortes o suficiente para combater a tempestade ou não? Perder todas as amarras, todos os nós cegos que fazem ver o que os outros desejam ver e não aquilo que deveria ver. O que é a realidade afinal de contas? Aquilo que se vê ou aquilo que se crê? Não há menção ou lista, guia ou manual. Nada que faça com que seja mais fácil descascar todas as camadas intangíveis que foram vestidas ao longo dos anos.
Conto ♥ Vazio

Leia ouvindo: The Scientist – Coldplay Somos exatamente como eles. Todas as diferenças possíveis, unidas. Não que se reflitam exatamente como nos dois animais que brincam e se deliciam com o sol morno do fim da tarde de outono. Não. Muito provavelmente eles não se sentem tão diferentes assim, o exterior não conta para eles. É como se fossem iguais. E não posso dizer que não o são. Os dois apenas param de brincar quando sua humana recolhe o cobertor em que estava sentada e segue para fora da grama, chamando-os. Várias pessoas estão começando a deixar o parque. O vento está ficando mais forte com a noite se aproximando e meu terno não é suficiente para espantar o frio. Cruzo meu braços e recosto no banco, não consigo pensar em voltar para casa ou para qualquer outro lugar. Não tenho mais lar, o local que comecei a sentir como tal, é exatamente aquele para o qual não posso mais retornar. A memória dela está em absolutamente tudo. Até mesmo nos lugares em que nunca esteve, em que nunca a vi, toquei ou senti seu cheiro. Talvez seja eu. Estou impregnado dela ou por ela. Não sei bem definir. O sentimento de perda, ainda que tenha sido eu quem partiu, parece um veneno que foi injetado em minhas veias. E ele é cruel. Corre lentamente, queimando e secando minhas veias, infiltrando-se no meu coração e fazendo-o secar e morrer. Lentamente. Dolorosamente.
Conto ♥ Blue Bayou

Sugestão de música: Blue Bayou – Linda Ronstadt Encarando meu reflexo no espelho, tento arrumar meus cabelos. Estão loucamente amassados em todas as direções possíveis. Meus olhos indicam o quanto não dormi, estão avermelhados e há olheiras logo abaixo deles. Talvez seja melhor mesmo que ele não esteja em casa quando eu chegar, assim não precisará me ver nesse caos. Lavo minhas mãos no lavado e encaro a água correr por alguns instantes. É engraçado como algumas coisas diminutas parecem importantes, sem o menor aviso prévio. Ele já me viu em situações bem piores do que algumas olheiras e cabelo bagunçado, afinal de contas. Volto para minha poltrona, ainda tenho mais uma hora de voo ao lado de um roncador profissional. Como ele conseguiu dormir por mais de dez horas seguidas? E, claro, roncar durante todas elas. Deixo o livro que estava lendo de lado, meus olhos muito cansados para isso, então, coloco os fones para ouvir música. O tempo acaba passando mais rápido do que eu imaginei e, quando percebo, já estou ao lado da esteira, pegando minha bagagem. Vamos eu a mala nos arrastando em direção à saída e vejo meu irmão falando ao celular. Ele está sério, provavelmente são negócios. Mas ele anda sério assim há muito tempo. Seu olhar encontra o meu e ele esboça o que ele deve imaginar ser um sorriso. É só a sombra de um, na verdade.
Conto ♥ Lucidez

Sugestão de música para ouvir enquanto lê: Skinny Love – Birdy O amor é uma distração. Uma muito boa. Uma distração muito boa para tudo que aconteceu, de tudo que você quer esconder. Ainda assim, não passa de uma distração. As pessoas costumam insistir que há algo belo e irremediavelmente apaixonante no amor. Bem, se estiverem falando em certos tipos de amor, como aquele que temos por cachorros e gatos ou aquele que a gente aprende do berço para com os parentes mais próximos… mas a questão é que nunca estão. Sempre se referem ao amor hollywoodiano, ao amor que Jane Austen descreve, ao amor de Bentinho e Capitu, até, ou mesmo àquele amor de todo dia que esperam encontrar na esquina do trajeto ao trabalho, na cafeteria, no próprio trabalho, na balada. Talvez tenha me esquecido dos amores salvadores, que aparecem logo antes de alguém morrer. Porque, obviamente, morrer sem ter amado – este tipo de amor, fique claro – é absurdo e inimaginável. Não, talvez eu não esteja sendo sincera e verdadeira. Qualquer tipo de amor é distração. Se ama muito, se vive pouco, apesar do que dizem. A questão toda é, o quanto se é capaz de fazer por amor?
Conto ♥ Porta Aberta

Sugestão de música para leitura: Good Riddance (Time of Your Life) – Green Day O sol está nascendo no horizonte no topo da colina em bonitos tons alaranjados que se fundem com o cinza enquanto coloco a água quente na caneca e depois adiciono dois sachês de camomila. A fragrância é tranquilizadora e promete que o dia será leve, apesar de tudo. Como mamãe sempre dizia, “começar com um pensamento positivo, é sempre metade do caminho”. Talvez seja, de fato. A dificuldade, porém, reside no fato de que não fomos ensinados a isso. Um minuto depois papai entra na cozinha, com certeza já alimentou todos os animais e já está carregando uma cesta pequena com alguns ovos e o leite em uma lata.
Longo, Forte e Teso

Assim como cada mecha de meu cabelo Longa, forte e tesa Assim como cada gesto e olhar seu Longo, forte e teso Assim como cada minuto ao seu lado Longo, forte e teso Assim como a vida Longa, forte e tesa
Um Conto de Halloween

Minhas mãos estão tremendo e meu coração bate acelerado. Nada, em toda minha vida, me prepararia para o que está prestes a acontecer. Ele me encara com a aparência tenebrosa, sedenta. Dou passos trêmulos para trás, mas parece que meus pés foram feitos de concreto e é difícil para meu corpo conseguir movê-los. Ele se adianta, e jogo tudo que está ao meu redor em seu caminho. Abajur, telefone, empurro a poltrona, jogo quadros. Mas ele pisa em cada uma dessas coisas como se não fossem nada, como se nada representassem em seu caminho. Minha voz se foi, não consigo emitir um som sequer e, mesmo minha boca aberta não faz diferença alguma.