Cabaré dos Bandidos ♥ Salomão Larêdo

Em 07.12.2018   Arquivado em Resenhas

Cabaré dos Bandidos – Guamares

Salomão Larêdo

Editora Empíreo

“Agora a situação mudara, mudara desde o momento em que Tumezão ocupou o cargo de comendador e presidente da PUC – Poderosa Universidade do Crime. Da Escalafobética Sociedade do Cabaré dos Bandidos, a única do gênero na face da Terra, produzindo bandidos para tentar distribuição de renda na sociedade na marra, dando uma liçãozinha como último recurso, mas nunca cedendo aos seus princípios do banditismo: morrer, nunca!”

Sobre o Autor

Salamão Larêdo nasceu em Vila do Carmo, Pará, em 1949, e mudou- -se para a capital Belém, com a família, aos dez anos de idade. Depois de diversos livros de poemas e contos, publicou seu primeiro romance, Sibele Mendes de amor e luta, em 1984, com o qual estreou e abriu caminho para uma estética que posteriormente viria a se concretizar em um de seus maiores clássicos: Cabaré dos Bandidos, originalmente publicado como Guamares, em 1989. De profunda relevância no cenário literário amazônico, em sua vasta obra destacam-se também: Senhora das Águas (1982), Remos de Faia (1991), Chapéu Virado (2001), Palácio dos Bares (2003), Olho de boto (2015) e As Icamiabas (2017).

Sinopse

Publicado em 1989, Salomão Larêdo traz aquele que pode ser considerado um dos pontos altos de sua narrativa ficcional: o romance Cabaré dos Bandidos (originalmente intitulado Guamares).

Com acuidade, o autor penetra na realidade desigual de um dos bairros mais pobres, violentos e tradicionais da capital paraense, o Guamá. E é a partir de suas vielas e becos alagados, da miséria e da promiscuidade, que Salomão apresenta Herma, Jeones e Tumezão, personagens que, dentre tantos outros, resumem as vivências de um povo excluído e sofrido, mas que encontra, em meio à podridão, a solidariedade necessária para seguir em frente, com esperança em dias melhores.

Nessa nova edição, o leitor encontrará toda a força narrativa que tornou conhecido um dos mais importantes escritores paraenses e verá que, mesmo depois de décadas, as periferias latino-americanas permanecem como palcos de agudas dificuldades, atenuadas apenas quando as músicas começam a entoar os bailes do Cabaré dos Bandidos

Cabaré dos Bandidos

Devidamente regida para a formação dos bandidos da cidade, temos a PUC, a Pderosa Universidade do Crime, com sede na Escalafobética Sociedade Cabaré dos Bandidos, que todos sabem onde fica, mas não se sabe o endereço. Só sabe que fica no Guamá, um bairro de Belém, no Pará.

O Cabaré dos Bandidos, pela Presidência do prestigiado Tumezão, está de volta a ativa, formando os ladrões da cidade, levando a redistribuição de renda – forçada – à comunidade carente. Porque a comunidade é exatamente assim, um cuidando do outro, para que ninguém pereça entre a lama pútrida e a miséria.

Nisso, temos o casal Jeones e Herma. Tentam engravidar, mas nada vem, bebê algum. Segue-se a vida, as tentativas, e, na hora de enfilhar, vem junto os maiores desafios do casal, exatamente como a vida costuma seguir.

“Um filho pra morar em condição subumana? Um filho pra morar num casebre do Guamá, no meio de centenas de ruelas que se lançam e entrelaçam no meio do pântano, alguma terra firme, falta d’água – com lonjura para ir buscá-la: Um filho pra passar pelas agruras por que ele mesmo passa? Mas Jeones não é feliz com toda a dificuldade que a vida lhe impõe? É, ele sabe que é, porém entende que as pessoas merecem vida melhor, merecem ter um espaço condigno.”

E, nesse meio de dias, meses e anos não contados, mas contabilizados, vemos a realidade da comunidade do Guamá, que nasce e morre todos os dias, que batalha pra sair da miséria, que luta o pão de cada dia e, entra político, sai político, continua a ouvir as mesmas ladainhas de melhorias que não levam à lugar algum.

O livro segue em principal a trama desses três personagens: Tumezão, Herma e Jeones, mas o pano de fundo da comunidade, do próprio Cabaré e dos demais personagens, não deixa a desejar em momento algum. Muito pelo contrário, são ativos, vivos na trama. Vivem suas vidas, seguem, evoluem, com subtramas que não são esquecidas pelo leitor e que, apesar de múltiplas, não causam confusão durante a leitura, tamanha a desenvoltura da narrativa.

Narrativa essa que é especial, fluida e ágil como conversa de boteco. Recheada de elementos da oratória, que deixam a obra com gosto de história contada em um encontro de amigos, da história que se ouve aqui e acolá da matriarca da família. Sem dúvidas, um estilo marcante e que ressalta tanto aspectos culturais locais, quanto a presteza do autor em criar uma prosa boa, uma história marcante e sem ressalvas.

“Quando querem saber o número de filiados da Poderosa Universidade do Crime, pessoal não diz. Aqui para nós, o livro de registro é do tipo lombada, tem mais de mil folhas e, em cada folha, frente e verso, mais de duzentas linhas – se em cada linha se coloca o nome do bandido e sua especialidade, podemos ter uma aproximação do total de filiados, fora os que o Conselho dos Bandidos ainda não aprovou, inscrições faltando dados, apresentações malfeitas e os que circulam nos gabinetes, salas refrigeradas, câmaras e repartições que ainda têm vergonha de registro.”

Chegamos a ter até mesmo um açaizeiro, amigo de Herma, confidente, personagem da trama tanto quanto o próprio Guamá, a própria vida da comunidade. Das rinhas de galo aos jogos de futebol, da cachaça à solidariedade,  tudo segue em desfecho tal qual não poderia se esperar outro. É deveras realista, é claro.

Ainda temos o claro apelo político, social e cultural que a obra traz. Bem mais do que falar do dia a dia das famílias e dos personagens, fala-se em cidadania, em ajuda ao próximo, senso de comunidade, corrupção, bandidagem, senso de honra, caráter, formação de indivíduos e honestidade.

Além de tudo isso, um dos pontos que vale ressaltar é o fato de que a obra, publicada em 1989, já contando com praticamente 30 anos de seu primeiro lançamento e, de fato 30 anos de sua escrita, não perdeu, em momento algum, sua atualidade. Uma verossimilhança à realidade que seria bem melhor que não existisse, que fosse apenas objeto comparativo de um tempo que ficou no passado.

“Bandido sim, mas bandido às claras, honesto, trabalhador, que faz bem ao povo, que ama sua comunidade, que ajuda. Não é como os outros, todos bandidos também, mas que passam de gente de bem, gente honesta e, no fundo, é tudo falso, hipócrita, fingidos, ladrões do bolso do povo, não querem saber de ninguém, só querem se aproveitar, usufruir do bem comum, não sabem nem o que é, e Tumezão sabe, faz. Tumezão é um bandido, mas não é ladrão. e os outros são ladrões, você responda: quem é pior, bandido ou ladrão acobertado de paletó e gravata, que vive subornando todo mundo, fazendo corrupção?”

Um único detalhe que pode incomodar alguns leitores é o fato do livro não possuir capítulos. Ele é dividido em parte um e dois e, estas, quase não possuem separações internas de texto. Para quem não curte textos que não se interrompem pode ser um problema, mas, não foi nada que impactou minha leitura, eu marcava a parte que estava e era sempre tranquilo retomar a leitura daquele ponto.

“- Não, Herma, não se trata de ser mais forte e menos forte. Acho que, unidos, nós fomos fortes; se desunidos, não teríamos chegado até aqui…”

Uma leitura marcante, com estilo próprio e desenvoltura sem igual, que marca pela ousadia, pelo realismo e pelo trabalho incrível de construção narrativa e de personagens. Uma leitura mais que recomendada!

Aleatoriedades

  • O livro Cabaré dos Bandidos foi recebido em parceria com a Editora Empíreo. Um prazer de leitura e parceria, agradeço muito pela confiança. Outro livro também recebido da Editora e que já ganhou resenha aqui no blog foi o A Cabeça na Cama, do autor Filipe Nassar Larêdo (só clicar aqui para conferir!).
  • Confesso que esse livro deu trabalho para fotografar. Como a capa tem cores marcantes, colocar muitas coisas coloridas poderia deixar a composição descombinada e, ao mesmo tempo, incluir elementos com as mesmas cores, poderia acabar por tirar o foco da capa. Acabei optando por usar tons um pouco mais neutros, e, depois, percebi que poderia misturar um elemento marcante que o destaque do livro seria mantido. Daí usei a pashmina rosa, que deu destaque na foto, mas sem ofuscar o livro.

Que a Força esteja com vocês!

Ouvindo: o doce som da chuva que cai lá fora…


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