Terror, suspense sobrenatural? A única certeza é que não sabemos O que aconteceu com Annie…
O Que Aconteceu com Annie
C. J. Tudor
2019 | 288p. | Disponível em Amazon
Editora Intrínseca | Intrínsecos
“… quando minha irmã tinha oito anos, ela sumiu. Na época, achei que não poderia haver coisa pior. E então ela voltou.”
Sobre C. J. Tudor
C.J. Tudor nasceu em Salisbury e cresceu em Nottingham, Inglaterra, onde ainda mora com a família. Seu amor pela escrita, especialmente pelo estilo sombrio e macabro, surgiu logo cedo. Enquanto os colegas liam Judy Blume, ela devorava as obras de Stephen King e James Herbert. Ao longo dos anos, atuou em várias funções, como repórter, redatora, roteirista para rádio, apresentadora de televisão, dubladora, passeadora de cães e agora escritora. O Homem de Giz é seu romance de estreia.
Sinopse de O que aconteceu com Annie
Uma noite, Annie desapareceu. Desapareceu de sua própria cama. Houve buscas, apelações. Todos pensaram o pior. E então, milagrosamente, depois de quarenta e oito horas, ela voltou. Mas ela não podia ou não iria dizer o que tinha acontecido com ela.
Algo aconteceu com minha irmã. Eu não posso explicar o quê. Eu só sei que quando ela voltou, ela não era a mesma. Ela não era minha Annie.
Eu não queria admitir, nem para mim mesmo, que às vezes morria de medo da minha própria irmãzinha.

O Que Aconteceu com Annie?
A ideia de uma criança desaparecida é aterradora para qualquer um e, especialmente, para sua família. A única coisa pior do que isso é, claro, o seu retorno. Ou, deveria dizer, o retorno de Annie.
Joe está de volta ao pequeno vilarejo de Arnhill. Não que seu desejo fosse voltar para onde nascera e fora criado. O lugar é do tipo que não se retorna, nunca. Mas, o motivo que o levou até lá é bastante forte, segredos que o fizeram aceitar o cargo de professor no colégio em que já estudara e que não guarda tantas boas recordações assim.
“Nunca volte. É o que todos dizem. As coisas vão ter mudado. Elas não vão estar mais do jeito que você se lembra. Deixe o passado no passado. Mas é claro que é mais fácil dizer do que fazer. O passado tem o hábito de se repetir nas pessoas. Como um curry ruim.”

Aliás, recordações não faltam. A sua chegada em Arnhill é marcada por figuras do passado que insistem em dizer de coisas que há muito ocorreram e, claramente, desejam que o status quo, a ausência de alguém tão incômodo quanto Joe, seja restabelecido.
Não que ele tenha muita escolha, alojado em um chalé quase que amaldiçoado pelos recentes acontecimentos sangrentos que assombram a cidade, e constantemente recebendo alertas de que não é bem-vindo, uma mensagem enigmática o faz ficar. Não apenas isso, Joe sabe que seu passado está se repetindo.
“Arnhill não é um vilarejo acolhedor. É amargo, ácido, inquietante. Vive isolado e olha para os visitantes com desconfiança. É estoico, imperturbável, e enfadonho, tudo ao mesmo tempo. É o tipo de lugar que se ilumina quando você chega e cospe no chão com nojo quando o vê partir.”

E isso não é algo que ele deseja. Joe se lembra muito bem de quando sua irmã Annie, de apenas oito anos desapareceu. 48 horas. Esse foi o tempo que ela ficou desaparecida. E retornou. Mas Joe sabe que essa não foi exatamente uma boa coisa.
A trama de O Que Aconteceu com Annie se desbrava a partir do retorno de Joe, tentando encontrar uma saída para os problemas que ele deixou para trás, e que insistem em retornar para ameaça-lo. Ao mesmo tempo, viver entre as pessoas que claramente não o desejam ali mostra-se um verdadeiro desafio, já que além disso, estranhos acontecimentos em Arnhill o fazem crer que a história de sua irmã se repete e, como se atraído por um ímã, é impossível ficar alheio.
“Não acredito em fantasmas. Minha avó sempre dizia: ‘Não é dos mortos que você deve ter medo, querido. É dos vivos.’ Ela quase tinha razão. Mas acredito que seja possível sentir o eco de coisas ruins. Ele fica impresso no tecido da nossa realidade, como uma pegada no concreto. O que quer que tenha deixado a impressão desapareceu há muito tempo, mas jamais pode apagar a marca.”

A medida que a história avança, vamos descobrindo sobre o que levou Joe de volta ao vilarejo, mas, especialmente, começamos a ter vislumbres do momento em que Annie desapareceu, assim como de quando ela retornou. E, aos poucos, entendemos todo os sentimentos do protagonista em relação à essa situação.
De forma envolvente, que faz querer virar as páginas para descobrir o quê, afinal de contas, aconteceu com Annie, a autora vai revelando partes do mistério e soltando migalhas que serão condensadas ao final da trama. Um detalhe aqui e ali vão revelando passado, presente e expondo a história da cidade e daqueles que lá habitam como se fossem nervos à flor da pele.
“Fiquei olhando minha irmã entrar e gostaria de dizer de dizer que tive um arrepio de premonição. Que uma nuvem atravessou o céu levada por um vento agourento. Que os pássaros se agitaram e gritaram das árvores ou que um trovão repentino quebrou a tranquilidade da noite. Mas não houve nada disso. Esse é o problema com a vida. Ela nunca dá um aviso. Nunca oferece nenhum indício, por menor que seja, de que um momento pode ser importante.”

Expostos, vemos o sangue jorrar e o mistério, o suspense e a curiosidade, vão revelando coisas que ninguém gostaria de descobrir sobre o lugar em que vive, sobre as pessoas que conhece e tampouco, de ser um passado que tenha vivido.
Arnhill é um personagem tanto quanto Annie, os Hurst, Beth, Gloria e o próprio Joe. Todos tão misteriosos e bem colocados na trama, levando suas próprias histórias e interesses de maneira a contribuir para a construção do suspense e, claro, também para a resolução do mistério.
“Jamais confie em uma pessoa cujas estantes estejam abarrotadas de livros imaculados, ou pior, em quem coloca os livros com as capas voltadas para fora. Essa pessoa não tem o hábito de leitura. Essa pessoa só gosta de se exibir. Olhe para mim e admire meu excelente gosto literário. Olhe para esses livros aclamados que provavelmente nunca li. Um leitor de verdade dobra a lombada, manuseia as páginas, absorve cada palavra, cada nuance. Não se pode julgar um livro pela capa, mas, com certeza, pode-se julgar o dono do livro.”

Joe é uma figura interessante, longe de qualquer arquétipo de bom moço, fez várias escolhas erradas na vida, permaneceu em vários erros e ainda não é do tipo que se importa muito com os outros. Como ele é, em parte, é fruto do que aconteceu com Annie. Aliás, boa parte do que todos são no tempo atual, tem forte e tênue ligação com isso.
De uma maneira surpreendente, a autora conseguiu criar um suspense inteligente, cheio de revelações e que mantém a curiosidade do leitor em alta durante todo o desenrolar. A surpresa e o choque não ficam atrás em vários momentos e é incrível perceber, ao ler a última página, em como a história forma um ciclo afiado.
“Quando éramos pequenos, antes de dormir, costumávamos bater na parede que nos separava. Depois que ela voltou, eu me deitava na cama, colocava os fones de ouvido e puxava as cobertas até as orelhas para não precisar escutá-la.”

O nome do livro, O que Aconteceu com Annie, é uma dúvida que permeia a história em todos os capítulos até a descoberta derradeira. É, realmente, o motor da trama, mas nem de longe o único mistério que será perseguido.
Mas o livro não é apenas suspense e mistério, é um jogo de personagens, um perigoso inclusive, que fala sobre a vida, sobre vícios, família, responsabilidades, lealdade e até mesmo sobre bullying. Uma miríade que será extraída pelo leitor conforme sua própria bagagem, conforme as lembranças e erros que traz junto de si e de acordo com sua sorte ao revelar as cartas do baralho, seja ele marcado ou não.
“Todo lugar, seja ele grande, médio ou pequeno, tem uma história. Muitas vezes mais de uma. Há a história oficial. A versão enxuta registrada em livros didáticos e relatórios do censo, repetida palavra por palavra na sala de aula. E há a história que é passada de geração em geração. As histórias contadas nos pubs; entre xícaras de chá e bebês esperneando no carrinho; na cantina do trabalho e nas áreas de recreação. A história secreta.”

Aleatoriedades
- O que aconteceu com Annie da autora C. J. Tudor foi publicado pelo Intrínsecos, o Clube do Livro da Editora Intrínseca (dá para conhecer mais sobre o clube neste post do blog ou direto no site da editora).
- O exemplar foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca e ainda estou apaixonada pelo capricho na edição, no cuidado com o texto, revisão e na qualidade.
- Toda caixinha do Intrínsecos vem com um livro inédito no Brasil, card e marcador de página do livro do mês e um brinde especial (nesse mês foi o baralho coberto de sangue e manchas que eu amei de montão!). Além disso vem a edição do mês da Revista Intrínsecos, que traz um conteúdo extra super especial que ajuda na imersão na obra! Eu amei a parte que fala da autora e dos filmes com bonecos e bonecas horripilantes! ehehe
- As fotos dessa vez me vieram durante a leitura, sabia que precisava de uma boneca aí e, não se enganem, ela não representa Annie, mas sim um elemento bem peculiar que aparece no livro.
Que a Força esteja com vocês!
xoxo
Retipatia











