P & B

Em 11.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Era o ano de 1950 e a família se reunia na sala de abajures e sofá de estampa de flores outonais, enquanto o patriarca ajustava a antena até que os chuviscos do aparelho sumissem e a imagem ganhasse as devidas escalas de cinza.

Os garotos, que já passavam dos trinta, riam ao lado de suas esposas e as crianças iam de lado a outro perguntando ao avô se já estava pronto.

A única alheia a tudo aquilo, imersa na página do último romance que seu pai encomendara da livraria, era Antonella. Seguia as linhas e adentrava a floresta com a donzela, que fugia do vilão até esbarrar no lindo príncipe que cavalgava a esmo pelas terras banhadas à luz da lua. Luz essa que era da cor da leitora, tão pálida e de saúde tão débil que não lhe era permitido sair de casa. A família a tratava como se fosse feita de papel e, como tal, era proibido que se molhasse no ar das ruas da cidade.

Cerceada da vida do lado de fora, viaja pelas páginas como se adentrasse em navio pirata e velejasse até terras desconhecidas, sem se importar com as mínimas coisas que a tirariam do lugar.

– Antonella, largue esse livro. Olhe como as imagens são bonitas! É bem melhor do que um livro!

Se a irmã mais velha era enclausurada, não havia autoridade no patriarca e em sua esposa capaz de podar as asas amplas as quais já nasceram com Angelina. Os livros eram muito parados para seu espírito vivaz e a melodia das festas e o ar das praças lhe pareciam muito mais imaginativos. (mais…)