O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland

O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland
Raymond Buckland
Grupo Editoral Pensamento
“Faça o que quiser, mas não prejudique ninguém.”

Sobre o Autor

Raymond Buckland (1934-2017) estudou Bruxaria Tradicional Britânica com Gerald Gardner, considerado o pai da Bruxaria moderna. Depois de iniciado, apresentou a Wicca aos Estados Unidos. Uma das maiores autoridades do século XX em Bruxaria moderna, Buckland é autor de mais de sessenta livros, entre eles vários best-sellers sobre Bruxaria e temas correlatos. Ministrava cursos e palestras pelos Estados Unidos afora e era convidado regular de programas de TV e rádio do mundo todo. De Raymond Buckland, a Editora Pensamento publicou O Guia da Tradição Wicca para Bruxos Solitários.

Sinopse

O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland influenciou e orientou incontáveis bruxos do mundo todo. Mais que um livro de referência sobre o assunto, é um verdadeiro curso completo sobre Wicca, com ilustrações, fotografias, rituais, crenças, histórias e tradições, assim como informações sobre feitiços, divinação, herbalismo, cura, canalização, interpretação e sonhos, sabás e esbás, covens e prática solitária. Nesta edição especial em capa dura, você encontrará perguntas para avaliar o que absorveu de cada capítulo, de modo que possa aproveitar melhor o seu treinamento espiritual e mágico. Trata-se de uma obra clássica de valor inestimável um guia prático e fundamental para todos os que se interessam pela Bruxaria moderna.

O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland

Ao ouvir a palavra bruxaria o que vem a mente? Hocus pocus, mulheres vestidas com roupas pretas voando em vassouras ou cozinhando criancinhas em caldeirões? Talvez pense em Harry Potter. Um velho usando um cajado e vestes coloridas? Ou quem sabe em algo sobrenatural, feitiços e rituais macabros? Quem sabe na Sabrina, a Aprendiz de Feiticeiro do seriado dos anos 90. Ou quem sabe, sua versão atual com a série O Mundo Sombrio de Sabrina. Pensou em Halloween, quem sabe…

Ao olhar um livro intitulado O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland, talvez o primeiro instinto de alguns seja fazer o sinal da cruz, de outros, um revirar de outros ou pensar em tudo aquilo que já citamos acima. Talvez a curiosidade seja despertada ou mesmo um quê de ceticismo.

O que a maior parte das pessoas não sabe é que a Bruxaria é uma arte, uma Antiga Religião e remonta de tempos longínquos. A conotação atual de que bruxos e bruxas são pessoas malignas veio com a época da caça às bruxas e, com o tempo, foi sendo ressiginificada com o senso comum do que é ser bruxo e praticar bruxaria.

Na verdade, ser bruxo é bem mais como conectar-se à natureza, aos elementos que a compõe, considerando a si como parte dela, para promover o bem. E essa parte é muito importante, a primeira regra da bruxaria ou wicca, como alguns denominam, é nunca causar o mal a ninguém, e isso inclui também a própria pessoa praticante.

Em O Livro Completo de Magia de Raymond Buckland temos um manual para aqueles que já são praticantes de magia, ou para aqueles que gostariam de ser ou conhecer mais sobre o assunto. Nesse manual, teremos uma introdução histórica sobre a prática da bruxaria e, então, um conteúdo dividido por capítulos. Cada capítulo vai contar com um assunto, e, logo em seguida, são colocadas algumas atividades para fixação do conteúdo. O próprio autor recomenda que seja feito dessa forma, pois o que foi estudado em um capítulo, servirá de base para o próximo e assim por diante. E as atividades realmente ajudam a revisar o conteúdo.

Parece bem mais um livro de estudos, não é mesmo? Pois é exatamente esse o propósito, que o leitor, especialmente se praticante ou que tenha interesse na prática de bruxaria, possa aprender. O assunto é tratado com a seriedade devida e, ao mesmo tempo, com uma linguagem de claro entendimento, o que facilita muito a leitura, que flui de maneira ágil e tranquila. A edição ainda conta com ilustrações que ajudam a se conectar com o conteúdo proposto e facilita muito para quem é leigo no assunto que está sendo abordado. Conhecer esse livro foi uma imersão num novo mundo, que, sem dúvidas, quero conhecer cada vez mais.

Um fato interessante sobre o autor é que ele foi discípulo de Gerald Gardner, que é considerado o pai da Bruxaria Moderna. Gardner foi iniciado em um coven logo antes da Segunda Grande Guerra (coven: a origem da palavra é incerta, mas é utilizada para designar um grupo de bruxos que são próximos e que se reúnem para prática de rituais religiosos) e que, desde então, passou a estudar e praticar bruxaria. Assim, Buckland repassa ensinamentos que teve com seu mestre e também aqueles que aprendeu com a prática ao longo dos anos. É interessante notar o destaque do autor para o fato de que várias coisas que são descritas, como rituais, devem ser avaliadas por quem for realizá-lo, já que algumas pessoas podem fazer adaptações. Isso destaca o quanto a prática da bruxaria é algo pessoal, interligado aos sentidos e sentimentos de cada um, à sua relação com o mundo à sua volta.

A escolha para publicação dessa resenha em pleno 31 de Outubro, o Dia das Bruxas ou Halloween, também foi proposital. Para muitos, a data se resume à crianças (e em alguns casos, adultos) fantasiadas e distribuição de doces ou travessuras. A data em questão, na verdade, tem origem bem distinta e, querendo ou não, com o viés que ganhou nos dias atuais, contribui para uma visão distorcida sobre o que a Bruxaria realmente é. De fato, o Halloween é uma data comemorativa pagã que foi utilizada pela religião cristã em celebração à véspera ao Dia de Todos os Santos. A data pagã está relacionada ao Samhain, um antigo ritual celta que marca o início do inverno e é a data em que o véu entre os mundos se torna tênue, possibilitando que os humanos tenham contato com seres mágicos ou o retorno dos entes mortos à suas casas. No Brasil, o Halloween, que não tem uma força comemorativa tão grande como outras datas, também é chamado de Dia das Bruxas e é claro notar as conotações que vêm daí: a perda de credibilidade e seriedade do assunto, que se resume à uma festa com alguma lembrança aos mortos.

O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland é um manual atemporal, realmente completo, de linguagem acessível e capaz de mostrar a verdadeira prática wicca, sem estigmas. É uma ótima forma de conhecer mais sobre a bruxaria, suas origens e, especialmente de desconstruir os pré-conceitos formados há séculos sobre o que é ser um bruxo ou praticar bruxaria. Uma leitura incrível e necessária!

Aleatoriedades
  • O Livro Completo de Bruxaria de Raimon Buckland foi recebido em parceria com o Editora Pensamento e está disponível para compra na Amazon e no site do Grupo Editorial Pensamento.
  • As fotos da vez foram inspiradas no Halloween, por óbvio… ahaha Fiquei bem feliz com o resultado, o que andava bem raro por aqui!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

A Garota que Lia as Estrelas ♥ Kiran Millwood Hargrave

A Garota que Lia as Estrelas
Kiran Millwood Hargrave
Editora Jangada
“Cada um de nós carrega o mapa de nossa vida impresso na pele, na maneira como caminhamos, até mesmo na maneira como crescemos, dizia papai.”

Sobre a Autora

Kiran Millwood Hargrave nasceu em Londres, em 1990. Estudou nas Universidades de Cambridge e Oxford, e é poetisa e dramaturga premiada. Seus escritos a levaram das florestas do Canadá às montanhas do Japão. Foi vencedora em 2017 da categoria livro infantil dos prêmios Waterstones e British Book; finalista do prêmio Jhalak de livro do ano por Writer of Colour; finalista do prêmio Branford Boase de 2017; finalista do Little Rebels de 2017 e indicada para a Carnegie Medal de 2017. A Garota que Lia as Estrelas é seu primeiro romance.

Sinopse

Isabella mora numa ilha cercada de lendas e sonha em visitar as terras distantes que seu pai, um cartógrafo, um dia mapeou. Quando sua melhor amiga desaparece, ela decide fazer parte da equipe de busca e, guiada por mapas antigos e o conhecimento que tem das estrelas, viaja pelos Territórios Esquecidos da ilha, repletos de perigos e criaturas horríveis. Mas sob os rios secos e florestas mortas, uma lenda está despertando de seu sono…

A Garota que Lia as Estrelas

Isabella mora na ilha de Joya cercada em sua casa pelos mapas que seu pai, Riosse, o único cartógrafo de toda a ilha, ainda preserva. Isso porque o novo Governador não quer saber de ninguém explorando outras terras, sejam elas no além-mar, sejam os territórios proibidos da própria Joya.

Os dias pacatos na vida de Isabella cessam quando um evento aterrador ocorre na ilha e um caos digno de guerra civil esgueira por cada esquina de Joya. Como se tudo isso não bastasse, eventos estranhos acontecem e sua melhor amiga, Lupe, filha do Governador, desaparece. Uma comitiva de busca é montada e Isabella usa seus conhecimentos em cartografia para conseguir fazer parte da expedição. A aventura está apenas começando.

“As estrelas são os mapas mais antigos, os mais precisos. Elas podem dizer onde você está melhor do que uma bússola – afinal, têm uma visão panorâmica. Se você aprender a ler as estrelas, jamais se perderá.”

Talvez seja difícil explicar como uma história tão pequena pode ser tão completa e que, claro, entrou para a lista de favoritos do ano. Obra da autora, sem dúvidas, que tem uma narrativa ágil, balanceada, bonita e capaz de prender o leitor em todas as páginas da trajetória de Isabella. É exatamente assim que o livro se mostra: personagens complexos, reais, um enredo fascinante, uma aventura fantástica e ensinamentos profundos e necessários.

Em A Garota que Lia as Estrelas, Isabella é nossa heroína. Não apenas por ter em suas veias o sangue de uma cartógrafa decidida a desvendar novas terras, mas por ser alguém que se preocupa com o outro e, especialmente com Joya, a ilha que é seu lar.

“Todas as coisas têm um ciclo, Isabella, um hábito de retornar ao lugar de onde vieram. As estações, a água, as vidas, talvez até mesmo as árvores. Nem sempre você precisa de um mapa para encontrar seu caminho de volta. Embora muitas vezes isso ajude. E então, no que você acredita?”

Uma das coisas mais bonitas que a personagem consegue demonstrar é a força que suas crenças podem ter. Mesmo quando criticada, questionada e desacreditada, ela sabe o que é real e pelo que vale a pena lutar. Não desiste daquilo ao qual foi ensinada e tem um espírito capaz de ver além do que está escrito nas linhas dos mapas aos quais fora ensinada a ler e confeccionar.

E, falando em mapas, o livro traz ainda uma relação pai e filha linda de se ler, o cartógrafo nutre um amor pelos mapas tão grande que foi passado para a filha, a nossa leitora de estrelas. E, sem dúvidas, é uma relação natural, cheia de nuances, que traz muita riqueza para a história, tanto quanto as relações de amizade que são apresentadas, com os personagens de Lupe e Pablo. E não podemos esquecer que a história contada tem sua própria história, com pesos do passado que reverberam nos personagens, especialmente na família de Isa e do Governador.

“Papai não acreditava no destino, mas em cada decisão afetando a próxima, como um grito iniciando um deslizamento de terra.”

É incrível como, através de Isa, desbravamos as lendas que permeiam as terras de Joya ao mesmo tempo que encontramos debates e questionamentos tão similares aos das terras menos míticas nas quais vivemos. São pontos que vão desde o papel das mulheres na sociedade à regimes totalitários. É impossível ler e ficar alheio aos dramas e dificuldades dos personagens, tanto quanto não se pegar imaginando que cada uma das lendas, são verdadeiras. Afinal, toda lenda vem de algo verdadeiro, mas que aconteceu há muito tempo…

A jornada de Isa é a jornada de Joya, é o desabrochar de uma menina e de uma ilha inteira. É aprender que forças maiores do que nós regem a terra que pisamos, mas que cada passo que damos, é capaz de definir para onde iremos a seguir. É saber que toda luta tem seu preço e que continuar em frente, é a melhor maneira de se lembrar de tudo que lhe foi cobrado.

Com A Garota que Lia as Estrelas, é possível se apaixonar por cartografia, desejar poder desbravar terras desconhecidas, saber se guiar por labirintos e ter a certeza de que a garra de uma garota jamais será sobrepujada por qualquer perigo, seja ele dos homens que comandam a terra, seja ele proveniente de seres lendários.

Aleatoriedades
  • Sem palavras para descrever essa edição recebida em parceria com a Editora Jangada! Além da capa linda, temos mapas nas guardas e também, várias ilustrações e outros mapas que remetem à história, nas páginas do miolo. O papel é amarelado e de ótima gramatura e a diagramação boa para a leitura.

  • A classificação do livro é infanto-juvenil, mas esse é daqueles casos que a história sem dúvidas é sutil o suficiente para as mentes jovens e madura o suficiente para adultos. Recomendo muito para quem curte fantasia, histórias inspiradoras e que sejam leituras rápidas. Esse dá pra devorar em um dia!

A Garota que Lia as Estrelas está disponível na Amazon em versão física e e-book!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: Grow Old With Me – Tom Odell

O Assassino do Zodíaco ♥ Sam Wilson

O Assassino do Zodíaco
Sam Wilson
Editora Jangada / Grupo Editorial Pensamento
“…as estrelas não mentem.”

Sobre o Autor

Sam Wilson nasceu em Londres e foi para o Zimbábue ainda criança, estabelecendo-se depois na África do Sul. Em 2011, foi considerado um dos “Duzentos Jovens Sul-Africanos de Maior Destaque” e hoje trabalha como diretor de TV na Cidade do Cabo. O Assassino do Zodíaco é seu primeiro romance.

Sinopse

Numa sociedade corrupta e violenta, dividida pelos signos do Zodíaco, as desigualdades entre as pessoas vêm do berço e continuam por toda a vida. Assassinatos passam a ocorrer com brutalidade incomum, e as vítimas parecem não ter nada em comum. Seriam esses crimes uma rebelião contra o sistema ou obra de um serial killer? Para encontrar uma resposta, o detetive Jerome Burton se junta à astróloga forense Lindi Childs. Juntos eles percorrem uma trajetória sombria para tentar desvendar uma história tenebrosa de traição, amores perdidos, promessas quebradas e uma verdade devastadora capaz de abalar o mundo em que vivem…

O Assassino do Zodíaco

O detetive Jerome Burton tem um grande caso à sua frente, com sua reputação de policial taurino confiável, não deve ser muito difícil encontrar o culpado dos assassinatos macabros que vêm acontecendo. Mas, a mídia está na cola da investigação e, para que as pessoas se sintam seguras quantos aos passos do Departamento de Polícia de San Celeste, Burton se vê obrigado a contar com a consultoria da astróloga forense Lindi Childs, uma liberal aquariana descolada.

“Astrólogos eram uma boa maneira de impedir esse tipo de coisa. Décadas de programas de TV sobre analistas astrólogos forenses haviam convencido o público de que eles eram os agentes mais confiáveis na guerra contra o crime.”

Tudo poderia ser um caso comum de investigação policial se não estivéssemos em San Celeste. O lugar em que a divisão social se dá através dos signos do Zodíaco. Capricornianos são as estrelas mais brilhantes, que controlam a maior parte da riqueza. Aquarianos são os criativos e, apesar de úteis, não se consideram parte da sociedade. Piscianos são espíritos livres e não muito empregáveis. Arianos são o submundo: violentos por natureza. Taurinos são leiais e ocupam vários setores públicos, como a Polícia. Geminianos enriquecem com suas qualidades em vendas. Cancerianos são maioria e naturalmente confiáveis. Leoninos são conservadores e pouco numerosos. Virginianos são obsessivos e introvertidos. Já Librianos são gente do povo, um sorriso pode ser suficiente para garantir um emprego. Os Escorpianos são provavelmente a nova elite, mais agressivos que os Capricornianos. E os Sagitarianos são esquerdistas com coração de ouro.

“Essas leis se baseiam na ideia fantasiosa de que devemos tratar pessoas de signos diferentes da mesma maneira. Mas isso é impossível. Por quê? Porque elas não são iguais. Pessoas de signos diferentes se comportam de modo diferente. Leoninos e Geminianos são mais extrovertidos. Pessoas de Aquário e Sagitário não assistem ao meu programa, podem ter certeza disso. E Arianos tendem mais para a violência. Não posso dormir tranquilo à noite pensando que a polícia talvez ignore esse fato e deixe os principais suspeitos irem para casa apenas porque alguns idiotas acham que Arianos vêm sendo tratados com injustiça.”

Intercalada à investigação, acompanhamos Daniel Lapton, um Capricorniano indignado com a vida, que deseja fazer alguma diferença no mundo. Qualquer diferença. Empenhado em sair de sua zona de conforto, ele começa uma empreitada junto à Arriesville, a área marginalizada de San Celeste que reúne a população ariana. Envolvendo-se com pessoas perigosas e tramas complicadas que mostram como a sociedade funciona. Como se tudo isso não bastasse, o caso de assassinato leva a mais e mais pistas confusas, frias e que não justificam nada. A única certeza é de que o assassino não vai parar e que tudo têm relação com os signos.

“Signos verdadeiros em harmonia. Jamais haverá paz na sociedade se continuarmos negando nossa natureza autêntica.”

A história do serial killer é bem construída, temos um pano de fundo distópico que eleva o crime, a ambientação, as possibilidades. Afinal, como seria um mundo dividido por signos? É claro que ninguém precisa de grande criatividade para imaginar um mundo com dividido com base em algum critério discriminatório. Basta olhar para o nosso mundo. Mas, Wilson faz um belo trabalho na trama. As identificações seguem a todo tempo e os personagens são impelidos não apenas à andar dentro dos parâmetros de seus signos por condições socialmente impostas, como desejam que tudo seja mantido dentro dessa ideia falsa de harmonia que é pertencer à determinado grupo.

“Morrer não o preocupava. Morrer era fácil quando a pessoa não se preocupava. Era como mentir. Era tão fácil apenas se deixar levar pelo que quer que você estivesse fazendo, sem pensar muito nem atrair atenção para si.”

As problematizações mostram relacionamentos dos mais variados tipos sendo afetados pela divisão. Amores proibidos, partos prematuros. Famílias separadas porque os filhos não nasceram sob seu signo. Crianças encaminhadas à tratamentos desumanos porque não seguem o espírito do seu próprio signo. Com uma pequena ressalva quanto à confiança policial nos astrólogos forenses, que deveria ser mais forte, devido ao sistema ao qual à sociedade está inserida, a trama consegue se sustentar sobre a proposta astrológica que foi montada.

“Sabia que havia corrupção no departamento. Vez ou outra, quando um policial se via em apuros, os colegas cerravam fileiras à sua volta. Afinal, todos estavam do mesmo lado. Arriscavam a vida todos os dias. Se não pudessem contar uns com os outros, contariam com quem? Mas Burton farejava coisas maiores, mais tenebrosas, por trás dos olhares esquivos e as pequenas mentiras que pululavam no Departamento de Polícia de San Celeste.”

O crime, o serial killer, as investigações, as tramas que enveredam desmascarando muito mais da sociedade do que uma única erva daninha a ser podada, é bem trabalhada. E posso dizer que assinei um atestado de trouxa com uma das revelações da história. Aquele detalhe que está lá o tempo todo, pronto para que você note, mas só ocorre a conexão em sua mente quando as palavras são literais.

“Às vezes, perguntava-se como seria o mundo caso as divisões sociais fossem totalmente aparentes. Caso as pessoas fossem codificadas por cores, sendo seu grupo cultural identificado ao primeiro olhar – vermelho para Áries, branco para Capricórnio, azul para Virgem. Imaginava um mapa da cidade com os moradores assinalados por pontos coloridos. Poderiam se movimentar com liberdade, mas permaneceriam agrupados por cor, em virtude da própria escolha ou de pressões financeiras e sociais.”

As críticas que o livro trabalha estão por todas as linhas, desde a discriminação racial, social, política, ideológica. Não se trata apenas de investigar um serial killer, mas de expor as entranhas de uma sociedade falida em que os oprimidos clamam por justiça, por voz, por liberdade, igualdade. As situações chegam a pontos críticos, revoltosos, uma guerra civil, e o desfecho é exatamente aquele que se pode prever numa batalha de força entre opressores e oprimidos. Um viés forte com a realidade.

“A sociedade mudaria se as pessoas vissem as divisões com mais clareza? As coisas melhorariam ou piorariam? Por enquanto, reconhecer o signo de alguém era um jogo sutil que consistia em julgar roupas pelo seu preço e estilo, observar a escolha de vocabulário e os padrões de seu discurso, avaliar seus interesses e tendências políticas. Identificar signos era uma habilidade tão comum e importante, que a maioria das pessoas fazia isso de modo automático.”

A escrita do autor é simples e não necessariamente cativante, mas consegue realizar a entrega da história que, por si só, já traz elementos interessantes capazes de prender a atenção. Os capítulos do livro são curtos e contribuem para que a história siga em frente de maneira ágil, ainda que siga duas histórias que correm em paralelo, a investigação de Burton e Childs e a vida de Lapton.

“O mundo seria mesmo pior se todos fossem codificados por cores? Se as pessoas conseguissem captar a essência de alguém com um simples olhar? Se a discriminação não exigisse tanto esforço? Talvez então as pessoas deixassem de se importar tanto com isso. Talvez não perdessem tempo agindo, falando e pensando exatamente como seus vizinhos, por medo de que os outros confundisse, seu signo. E talvez compreendessem que a coisa toda era puramente arbitrária.”

O Assassino do Zodíaco é uma distopia que utiliza de uma investigação de um serial killer e dos desdobramentos de uma sociedade regida pelas estrelas, para abordar temas fortes e impactantes como as mais diversas formas de desigualdade e preconceito, assim como para falar do sistema de mantença de poder. Uma história que, além de buscar desvendar um mistério, é capaz de trazer grandes reflexões acerca da sociedade em que os personagens – e nós – estão inseridos.

“Quanto mais observava o mundo, mais tinha certeza de que os traços de caráter das pessoas eram profecias cuja realização elas mesmas provocavam.”

Aleatoriedades
  • O Assassino do Zodíaco foi recebido em parceria com a Editora Jangada / Grupo Editorial Pensamento e eu fiquei tão feliz por essa leitura que eu desejava fazer desde a bienal de SP de 2018 que nem sei dizer!
  • A edição é ótima, com papel de alta gramatura e folhas amareladas que facilitam a leitura!
  • As fotos da vez foram inspiradas no estilo do Zodíaco e por isso usei dois livros de fundo para a composição. A vela derramada aí no fim não foi proposital, mas é claro que eu aproveitei pra fazer mais um clique… ahahah Tinha que sair algo de bom dessa meleca que eu fiz aí… ehehe
  • O gênero suspense não era muito um dos meus mais queridos, mas livros como esse têm feito eu gostar cada vez mais do estilo e nunca foi tão bom sair da zona de conforto de leitura. Na verdade, já acho que nem posso chamar mais esse tipo de leitura de sair da zona de conforto!
  • A leitura foi feita em conjunto com a Kaka e é só acessar O Reino das Páginas para conferir a opinião dela também!

O Assassino do Zodíaco está disponível no site do Grupo Editorial Pensamento!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: Stubborn Love – The Luminnieers (only in my mind…)

As Regras do Amor e da Magia ♥ Alice Hoffman

As Regras do Amor e da Magia
Alice Hoffman
Editora Jangada
Grupo Editorial Pensamento
“Nada de andar ao luar, usar o tabuleiro Ouija, acender velas, calçar sapatos vermelhos ou vestir roupas pretas; nada de andar descalço, usar amuletos, cultivar flores que desabrocham à noite, ler livros de magia, criar gatos e corvos ou se aventurar muito além da esquina de casa.”

Sobre a Autora

Alice Hoffman tem mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Stanford e é autora de mais de trinta obras de ficção, muitas delas premiadas e elogiadas pelo The New York Times, Entertainment Weekly, Los Angeles Times, Library Journal e People Magazine. Seus contos de ficção e textos de não ficção foram publicados pelo The New York Times, Boston Globe Magazine, Kenyon Review, Los Angeles Times, Architectural Digest, Harvard Review, Ploughshares e por outras revistas. Alice também trabalhou como roteirista e é autora do roteiro original do filme Independence Day. Seu romance adolescente Aquamarine foi transformado num filme estrelado por Emma Roberts. Seu best-seller Da Magia à Sedução, hoje um clássico cult, foi adaptado para o cinema e deu origem ao filme homônimo, estrelado por Sandra Bullock e Nicole Kidman. Ela mora em Boston.

Sinopse

Em 1620, depois de ser acusada de bruxaria por amar um inquisidor, Maria Owens lança uma maldição em todas as gerações de mulheres de sua família: qualquer homem que se apaixonasse por elas estaria condenado à morte. Mais de trezentos anos depois, Susanna Owens mora na cidade de Nova York, com os três filhos adolescentes – a temperamental Franny, a doce Jet e o carismático Vincent -, e faz de tudo para protegê-los, escondendo o passado da família e criando algumas regras: é proibido andar ao luar, usar o tabuleiro Ouija, acender velas, criar gatos e corvos ou ler livros de magia. E o mais importante: é proibido se apaixonar! Mas não demora muito para que os irmãos comecem a descobrir seus poderes sobrenaturais e, junto com eles, os segredos e a maldição que assombra sua família. Agora, precisam buscar uma forma de violar as leis da magia sem sucumbir à maldição de Maria Owens. As Regras do Amor e da Magia é uma história que antecede o clássico cult Da Magia à Sedução, resgatando a história da família Owens e personagens já conhecidos. Um livro sobre magia, coragem e o desafio de aceitar a si mesmo para viver o verdadeiro amor.

As Regras do Amor e da Magia

Por favor, não se esqueça das regras: nada de andar descalço na terra ou brincar com velas, usar amuletos, vestir-se de preto ou calçar sapatos vermelhos. Nada de tentar trapacear o destino e, principalmente, nada de se apaixonar. Afinal, a maldição que corre no sangue de um Owens jamais ficará adormecida e sempre irá encontrar aqueles os quais possuem seu coração.

“O que tem de acontecer, acontecerá, quer você aprove que não. Numa manhã de junho, a vida deles mudou para sempre. Era 1960 e havia no ar a sensação de que qualquer coisa poderia acontecer, de repente e sem aviso.”

Franny, Jet e Vincet são irmãos Owens, ligados pela magia de seu sangue que a mãe, Susanna, insiste em manter sob águas calmas enquanto crescem numa mansão decadente na Nova York da década de 60. Como espíritos livres que são, o despontar para o que até então não passava de uma esquisitisse de família, vem com a visita à casa da tia Isabelle na recôndita Rua Magnólia, em Massachusetts. O convite é endereçado à Franny, a primogênita, que acaba de completar 17 anos, mas a jornada é feita em trio.

“Cuidado com o amor, Maria Owens escrevera na primeira página do diário. Saiba que, para a nossa família, o amor é uma maldição.”

A partir daí, a vida dos irmãos é entrelaçada em fios invisíveis de magia, misturada ao aroma cálido de lavanda e despertada através de ritos e passos necessários para executar feitiços e selar destinos. A maldição, parece um pequeno zumbido de um besouro que vem dizer mau agouro com o bater de suas asas e roer da madeira do chão.

“A maldição era simples, ruína para qualquer homem que se apaixonasse por uma Owens.”

A história, intercalando as três jovens vidas, segue o curso do rio, ora em seus marcantes acontecimentos, ora em doses de Chá de Cautela para acalmar os ímpetos estarrecidos. A semente do amor, necessariamente tolhida aos Owens por sua ancestral, não deixa de florescer em terreno salgado. Brota tão forte que parece ter tomado Chá de Coragem para conseguir desbravar até mesmo o coração indômito da Donzela de Espinhos.

“Faça o que quiser, mas não prejudique ninguém.
O que você fizer retornará para você triplicado.
Apaixone-se sempre que puder.” As regras da magia

Vidas se entrelaçam, com outros Owens, com aqueles que o passado está intrincado desde à época da Inquisição e se mistura nas ruas barulhentas e desordeiras de Nova York, com pinceladas do aroma de magnólia de Massachusetts. Ambos locais são tão personagens quanto Jet, Franny e Vincent. Possuem pele que recobre suas ruas, odor próprio que perambula por cada esquina, do Central Park ao Lago Leech. Passeamos por cada canto de suas paisagens e conhecemos cada marco por um acontecimento da vida daqueles aos quais nos apegamos logo nas primeiras vezes que seus nomes surgem nas páginas.

“Tudo pode se quebrar, e qualquer coisa quebrada pode ser consertada novamente. Esse é o significado de Abracadabra. Eu crio o que digo.”

E seguimos nos encantando pelos personagens: somos apresentados à Isabelle Owens, que é uma força por si só. Conhecemos a bravura indômita de April Owens. E temos Levy e Haylin e William, com seus respectivos corações sob risco. Todos tão bem inseridos e apresentados, que é impossível ler e dizer desconhecer qualquer um que seja, não se apegar e afeiçoar. Não compreender e querer que a mão do destino seja mais forte que a da maldição.

“Não estávamos lá quando essas coisas terríveis aconteceram, quando as mulheres eram acusadas de se transformarem em corvos e serem mensageiras do diabo. Não éramos nem juízes nem réus, mas carregamos essas coisas conosco e temos de combatê-las. A melhor maneira de fazerem isso é sendo quem são, cada parte de vocês, o lado bom e o ruim, o triste e o alegre.”

Coroando a construção do livro, com a sutileza dos lilases que florescem e com a firmeza das estruturas da casa da Rua Magnólia, temos a narrativa de Alice Hoffman. Ela conta história como quem respira fundo e sabe dos segredos que a magia esconde, como quem vê mais do que diz as instruções do Grimório de Maria Owens e como alguém que já amou e viveu e sabe que o único remédio para qualquer coisa que seja, é amar mais, e não menos.

“- Não tomo todas as decisões, você sabe – Isabelle conseguiu dizer. Apenas faço o melhor que posso que posso para enfrentar o que a vida me apresenta. Esse é o segredo. É assim que você muda seu destino.”

Como se tudo isso não fosse motivo o bastante para se apaixonar pela trama que mistura realidade e magia como se fossem mesmo lado da moeda, a história ensina bem mais do que alguns feitiços e preparos adequados de chás. Fala sobre autoestima e auto aceitação. Sobre ser quem você é, sobre saber e compreender seu tempo, o tempo da vida, da morte e do amor.

“Se existir uma cura, procure-a até encontrá-la. Se não existir, não se incomode mais com isso.”

As principais ideias que são pinceladas de maneira verdadeira e sensível em As Regras do Amor e da Magia exalam junto às fragrâncias das flores dos jardins das Owens: um misto de liberdade, poder do feminino, das crenças, das decisões e, especialmente, da força que cada um guarda dentro de si, aquela que é capaz de realizar desejos, conjurar feitiços e escrever o próprio destino.

Aleatoriedades
  • As Regras do Amor e da Magia foi meu primeiro recebido em parceria com o Grupo Editorial Pensamento / Editora Jangada. O livro veio embalado de maneira super especial, com as cartinhas, pedrinhas e a velinha dourada que aparecem na foto. Um kit super especial repleto de magia e pronto para encantar o leitor. Agradeço pela confiança e por essa história, que já faz parte dos favoritos do ano e da vida!
  • Quando recebi esse livro, fiquei super empolgada, por causa da relação que ele tem com o filme Da Magia à Sedução, um cult com a Sandra Bullock e Nicole Kidman que eu amo! Perdi as contas de quantas vezes assisti esse filme! As Regras do Amor e da Magia é um prequel e, no fim do livro, vemos a relação com o enredo de Da Magia à Sedução (por favor, Jangada, publique esse livro também!!!)!
  • Quando fiz um clique para mostrar esse livro lindo no feed do Instagram (veja aqui), chamei minha irmã para representar a outra Owens, tecnicamente, pela idade, eu sou a Jet e ela, Franny… rsrsrs Gostei tanto da foto que, para fazer os cliques da resenha, repeti a dose e eis que somos duas Owens no fim das contas…
As Regras do Amor e da Magia está disponível no site da Editora Jangada/Grupo Editorial Pensamento e também pela Amazon!

Que a Força esteja com vocês!

Ouvindo: I Walk at Night (only in my mind…)