Agora e Sempre ♥ Judith Mcnaught

Andrea Mattos
Resenha de Agora e Sempre de Judith McNaught - Bertrand Brasil

Agora e Sempre de Judith McNaught traz uma narrativa fluida para um romance de época, mas que, infelizmente, também traz a romantização de um abuso no relacionamento marital.

Agora e Sempre
Judith McNaught
Tradução Cristina Laguna Sangiuliano Boa
Bertrand Brasil
2019 / 350 páginas
Disponível em Amazon
“O amor é um sentimento usado apenas para manipular pessoas ingênuas. Não espero, nem quero seu amor, Victoria.”
Resenha de Agora e Sempre de Judith McNaught - Bertrand Brasil
Sobre a Judith McNaught

Antes de ter sucesso como escritora, McNaught teve diversos trabalhos, entre eles, foi a primeira mulher produtora executiva em uma estação de rádio da CBS. Seu primeiro manuscrito foi “Whitney, My Love“, que escreveu entre 1978 e 1982. Após ter dificuldades à hora de vendê-lo, escreveu e vendeu Tender Triumph a princípios de 1982.

Tem vivido em Saint Louis, Missouri. Posteriormente transladou-se a Texas, após conhecer Dallas, enquanto estava em uma turnê de promoção. Atualmente vive em Clear Lake, Texas.

Casou-se com Michael McNaught, que faleceu em 1983. Posteriormente casou-se com Dom Smith. Tem dois filhos, Whitney e Clayton. Além de escrever, faz obras de caridade em relação com meninos e o câncer de mama.

Resenha de Agora e Sempre de Judith McNaught - Bertrand Brasil
Sinopse

Após perder os pais em um trágico acidente, Victoria Elizabeth Seaton é enviada para a Inglaterra, onde se espera que reivindique seu lugar de direito na sociedade inglesa. Assim que chega à suntuosa propriedade de Jason Fielding, ela é vista por seu tio Charles como a mulher perfeita para o sobrinho.

Assustada com a má fama do marquês de Wakefield, Tory jamais pensaria que sob a frieza e a amargura de Jason haveria lembranças de um passado doloroso a atormentá-lo. Ele, por sua vez, acredita ser incapaz de amar de verdade, quem quer que seja. Juntos, Victoria e Jason descobrirão até que ponto se pode conter um coração que quer se entregar e todos os obstáculos que só um amor verdadeiro é capaz de vencer.

Resenha de Agora e Sempre de Judith McNaught - Bertrand Brasil
Agora e Sempre

Todo livro é fruto do seu tempo. Independentemente do período histórico em que a obra se passa, o livro vai expressar de alguma forma o tempo no qual foi escrito. Isso quer dizer que o livro publicado em 1987 por Judith McNaught, uma texana na faixa de seus 40 anos à época da publicação, pode ter uma carga das suas experiências de vida e de seu entendimento de mundo.

Dito isto, quero voltar no tempo com vocês. Há 30 anos a segunda onda do movimento feminista iniciada lá nos anos 60 chegava ao fim. Alguns dos questionamentos levantados nesse período foram: sexualidade, família, mercado de trabalho, direitos reprodutivos, desigualdades de fato e desigualdades legais, violência doméstica e problemas de estupro conjugal, além de lutar pela criação de abrigos para mulheres maltratadas e por mudanças nas leis de custódia e divórcio.

“Apesar do traje elegante da postura casual, Jason parecia irradiar um poder implacável. Havia algo de primitivo e perigoso naquele homem, e ela tinha uma sensação ruim de que as roupas caras e o ar indolente serviam apenas de disfarces para dar aos desavisados a impressão de que ele era civilizado quando, na realidade, não passava de um selvagem.”

Eu quis contextualizar a época em que a obra da Judith McNaught foi escrita do ponto de vista feminista para que possamos questionar algumas das situações abordadas no livro.

A história de Agora e Sempre se passa na Inglaterra de 1815. O enredo do livro é muito interessante e a escrita de Judith é bastante fluida e envolvente. Como todo romance histórico ela retrata o período em que se passa a narrativa como os costumes, a moda e aqui como é uma história romântica há o tratamento entre homens e mulheres desse período.

A partir daqui a resenha terá SPOILER.

Estamos falando do início do século XIX e, claro, a situação da mulher era bem diferente do que a autora Judith McNaught vivia nos anos 80. No entanto, sempre podemos identificar algo que remeta aos questionamentos dos anos 80 como por exemplo a violência doméstica e os problemas de estupro conjugal como mencionado acima.

E é nesse ponto da narrativa que eu quero focar. Quando a autora aborda a violência doméstica e o estupro conjugal em seu livro eu achei que a história se encaminharia para um outro lugar diferente da minha primeira impressão, pois a princípio eu pensei: okay, este é aquele típico romance em que a mocinha teve o coração partido pelo primeiro amor e encontra no segundo amor uma experiência avassaladora. Claro, depois de muitas confusões.

“Tem razão. Eu não tenho coração. Trate de se lembrar disso e não cometa o erro de acreditar que, por trás da máscara de ferocidade, sou tão manso quanto um cãozinho de estimação. Muitas mulheres pensaram assim e se arrependeram.”

Mas, quando Victoria é estuprada pelo próprio marido eu achei que a história se encaminharia para a transformação dessa personagem, ela se libertaria de Jason, de alguma forma se reergueria na vida e, talvez, retornasse aos braços de seu primeiro amor Andrew que foi tirado de sua vida injustamente.

Acontece que a autora faz exatamente a receita de bolo do meu pensamento inicial. Só que como congruir essa receita com um estupro? Ao invés de autora trazer questionamento e repúdio pela violência cometida por Jason, ela romantiza a agressão fazendo com que o personagem nem sequer peça desculpas. Ele apenas sente o pesar quando constata que Victoria era mesmo virgem, se colocando no lugar de macho alfa mal compreendido que teve uma infância conturbada. A vítima ainda correndo atrás do agressor, justificando suas ações, o desculpando e tentando o trazer para a harmonia conjugal.

É muito complicado fechar os olhos para esse tipo de literatura que romantiza o estupro quando estamos falando dos anos 80, em que essa agressão já era repudiada.

“Leonardo da Vinci disse: “Quanto mais grandiosa for a alma de um homem, mais profundamente ele amará”. Essa citação sempre me fez pensar em Jason. Ele sente as coisas com muita intensidade, mas raramente demonstra seus sentimentos.”

Na literatura da época já se questionava a agressão contra a mulher. Muito influenciada pelo livro “Against Our Will: Men, Women, and Rape” da feminista norte-americana Susan Brownmiller. A obra de 1975 se tornaria um marco na defesa pelos direitos femininos.

Até aquele momento havia (ou ainda há, infelizmente) a ideia de que a mulher poderia ter contribuído com o estupro, caso não tivesse tentado resistir. A obra de Brownmiller, contudo, abordava o estupro como sendo uma forma de violência, poder e opressão masculina e não de desejo sexual. Segundo ela, o estupro seria uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação.

O livro de Judith McNaught tinha muito potencial para ser um romance histórico envolvente e arrebatador. Mas até a página 245. Nas 105 páginas restantes foi ladeira abaixo. E, ao invés de ser uma grande e verdadeira história de amor, só conseguiu deixar um gosto amargo. O mesmo tipo de enjoo que a personagem Victoria sentiu em sua noite de núpcias.

Andrea Mattos
Resenha de Agora e Sempre de Judith McNaught - Bertrand Brasil
Aleatoriedades

Agora e Sempre de Judith McNaught foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record / Bertrand Brasil.

Dica de resenha que discute também o papel da literatura em reafirmar ideias retrógradas, em relação às mulheres: Prelúdio Sombrio (série Hades Hangmen) de Tillie Cole.

2 thoughts on “Agora e Sempre ♥ Judith Mcnaught

  1. Estou com esse livro na minhas estante mas já vi resenhas que continham algumas ressalvas sobre ele, minhas expectativas não estão altas. Não li a partir do spoiler, mas gostei da sua introdução nos fazendo refletir as questões que a autora vivenciou e que posso encontrar na leitura.

  2. Exatamente. Até esta página o livro seguia uma trajetória perfeita… Depois disso só raiva, revolta e angústia… Porém esta prática de escrever é constante em outras obras dela.

Repense, renove, rediscuta...

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