A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte VI/VI ♥ Final

Em 29.12.2016   Arquivado em A Garota da Capa Escarlate, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite folks!

Com muito amor e desconsiderando todo o atraso, a última parte de Scarlet está aqui para vocês! É só clicar para quem quiser consultar a história completa no Wattpad ou as postagens aqui do blog: I, II, III, IV e V.

A Garota da Capa Escarlate – Parte VI/VI

Quando Scarlet acorda a noite já está avançando e ela percebe que sua avó está falando com alguém.

– Sim, pode entrar.

Ela se senta na cama, as horas de sono lhe fizeram bem e sua fome parece ter dobrado, ainda que ela não se sinta confiante de que conseguirá comer dessa vez.

Não demora um minuto para que Luko se aproxime dela, com a expressão de preocupação estampada em seu rosto.

– Scarlet, está tudo bem? Fiquei tão preocupado que algo pudesse ter lhe acontecido quando voltei e não a encontrei.

À distância, Rubi apenas observa com os ouvidos as palavras de Luko.

– Eu… apenas desejava ver a vovó. Não consegui dormir e acabei vindo para cá. – A expressão dele melhora, mas permanece preocupada. – E onde você foi? – Ela se recorda de perguntar. – Acordei e não o encontrei.

– Fui à feira da cidade, aproveitei que a neve deu uma pausa.

Scarlet balança a cabeça e sente o enjoo tradicional lhe assolando mais um vez.

– O jantar está pronto, espero que possa se juntar a nós, Luko. – A voz de Rubi chega ao casal sem que ela tenha que se aproximar ou direcionar-se à eles.

– Não quero incomodar.

– Imagine, quando Scarlet adormeceu deduzi que viria procura-la e já contei com sua presença.

Luko agradece a hospitalidade e os três se sentam à mesa. Scarlet encara a comida à sua frente enquanto um duelo sem precedentes se debate dentro de si: comer e ficar enjoada ou não comer e, provavelmente, não ficar enjoada, mas, obviamente, permanecer com fome.

– Não está com fome? – Luko pergunta, pegando sua mão que está pousada displicentemente à mesa.

– Não me sinto muito bem… – Scarlet começa a responder.

– Talvez queira algo mais leve, como um pedaço de pão preto? – A avó pergunta e Scarlet concorda.

Não que faça diferença e, em pouco tempo, ela já correra até o lado de fora da casa.

– Tem certeza de que deseja ficar? – Luko pergunta mais uma vez, despedindo-se de Scarlet, que está deitada a cama, pelo mal estar.

– Sim, amanhã à noite devo estar melhor e voltarei. Se não voltar, venha me ver.

Ele lhe dá um beijo suave na têmpora e parte de volta para a cabana.

Rubi coloca uma compressa fria na testa da neta, enquanto assobia a cantiga que a ensinou ainda quando era pequena. Ela a aprendera com sua mãe, que a aprendera com sua mãe, antes disso e assim sucessivamente…

– Minha neta, quando fora sua última regra?

Scarlet abre os olhos com a pergunta íntima. Sua avó nunca fora de perder tempo com animosidades e ela já se habituara a isso, ainda assim suas bochechas coram.

– Não precisa se envergonhar. Já é uma mulher, sei disso, ainda que sua mãe se negue a ver tal coisa. Agora, me responda, quando foi?

Ela tenta se lembrar a última vez, talvez há um, dois, três ciclos da lua? Não tinha certeza, a contagem do tempo não lhe parecia algo muito necessário a ser acompanhado quando seus dias e noites são tão agradáveis que poderiam muito bem ser os últimos do mundo.

– Não me lembro com certeza.

– Tente se concentrar.

– Não sei, dois ou três ciclos da lua… talvez.

– Tenho a impressão de que carrega uma criança, minha neta. Uma enfermidade desse gênero, sem nenhum outro mal, não duraria tanto tempo. O que indica não ser uma enfermidade.

Scarlet se esquece de respirar por um instante. Não lhe parecia palpável a ideia de que estivesse esperando uma criança. Alguém por quem ela teria que cuidar e velar. Seus pensamentos últimos eram sempre pensando em seu próprio bem estar, em como ela gosta de ser cuidada.

– Não precisa se desesperar, minha neta.

Ferroadas fazem a cabeça da neta doer.

– Não é possível… – Ela começa a falar.

– Bem, possível nós duas sabemos que é. – A avó completa, de modo engraçado, o que faz com que Scarlet ria e relaxe um pouco.

***

Scarlet dorme o resto da noite e quase todo o dia seguinte em um estado de torpor, em que seus pensamentos vagueiam entre as acusações de sua mãe e a probabilidade de estar grávida.

– Sabe que pode ficar o quanto quiser, não sabe? – Sua avó diz, quando ela amarra sua capa escarlate como o sangue e a abraça em despedida.

– Sei disso, eu realmente sinto que aquela é minha casa agora… Eu a amo vovó, mais que a tudo! Não se esqueça disso!

– Também a amo, minha neta. Apenas me prometa uma coisa, sim. Mantenha sua mente tão aberta quanto seu coração.

Scarlet assente para a avó e parte acompanhada de Skyllar, que não se afastara das redondezas desde que ela chegara a casa da avó.

Ela se sente mais leve e contente pelo fato de que sua última refeição se mantivera em seu estômago, como se o conhecimento de sua provável gravidez fosse suficiente para que seu corpo parasse de rejeitar a comida.

Quando chega à cabana, Luko está do lado de fora com os lobos, que parecem agitados, como se tivessem acabado de chegar de uma caçada. Ele sorri de modo contente quando a vê, sem perder seu ar sensual.

– Está se sentindo melhor?

Os dois se abraçam demoradamente.

– Melhor, bem melhor. – Scarlet responde, ainda nos braços de Luko. – Porque estão tão agitados?

– Retornaram da caça há pouco. E eu estava prestes a ir até você.

Scarlet ri.

– A noite mal começou, eu disse que deveria ir me ver caso eu não viesse esta noite.

– Estava com saudades, a casa fica sem vida sem você.

– A casa fica sem vida? Eu diria que ela é sem vida, olhe bem para estas madeiras… – Ela diz, zombando.

Ele ri, mas responde mesmo assim.

– Bem, a minha vida fica sem vida, quando você não está por perto.

– Isso faz mais sentido, eu acho. Também senti sua falta.

A ideia de Scarlet era contar a novidade tão logo chegasse à cabana. Mas, sem saber a real razão, ela adia a informação, até a hora em que os dois vão se deitar, já na alvorada.

– Você sabe que pode me dizer qualquer coisa, não sabe? – Luko diz, como se soubesse que ela lhe escondia algo.

– Sei, eu só… não sei bem quais palavras usar.

– Leve o tempo que precisar. – Ele responde, aconchegando-se na cama com Scarlet aninhada a si e beijando-lhe os cabelos.

Ela deixa que seus dedos corram pelo peito dele, sentindo a textura de sua pele e de seus pelos.

– Me disseram coisas horríveis que me deixaram… triste.

Ela não levanta seu olhar para ele, focando-se em acompanhar sua respiração compassada.

– O que disseram? – A voz dele não demonstra qualquer alteração.

– Que é você quem ataca a vila junto dos lobos, que é um… – Ela não consegue repetir a palavra que soou em sua cabeça por tanto tempo.

Ela se senta na cama e o observa se sentar também, para que permaneçam próximos um do outro.

– E o que você acha? Acredita neles, Scarlet?

Eu não quero acreditar…”, ela pensa antes de responder. Ele espera a resposta, sem pressioná-la.

As lágrimas já estão correndo livres por sua face e ela não faz esforço para contê-las. Seu coração se sentia dividido, era uma chance remota que houvesse algum outro homem que andasse com os lobos, assim como ele. Mas, eles estavam sempre juntos, o que não justificaria a acusação. E, mesmo diante da dúvida, com a ideia da gravidez, tudo que ela conseguia desejar, ofuscando qualquer razão que pudesse soar em sua mente, é que ele não fosse culpado.

– Não quero, não posso Luko, eu não acredito que faria mal àquelas pessoas. – Seu choro ganha constância e fortes soluços tomam conta dela, que abraça Luko com força, como se fosse possível que a distância entre os dois fosse dissipada.

Até que suas lágrimas se cansem de cair, eles permanecem abraçados, e, quando se soltam, Scarlet sente que o peso de sua escolha se fora, não havia mais dúvidas em seu coração.

– Tem mais uma coisa que preciso dizer… – A expressão de Luko volta a se preocupar. – Ainda não é uma certeza, mas acho que estou grávida.

O sorriso que surge em sua expressão, retira qualquer temor de que a notícia não fosse bem recebida. Correndo seus dedos pelas linhas do seu rosto, ele se aproxima a beija ternamente.

– É a melhor notícia que poderia me dar. – Ele fala.

– Mesmo?

– Sim, não está contente? – Um vinco de preocupação se forma entre as sobrancelhas de Luko e Scarlet passa a ponta de seus dedos até que o nó se desfaça.

– Não, não é isso. Eu não costumava pensar em ser mãe, em ter uma criança ou coisas assim. A ideia ainda é estranha, apesar de não ser ruim.

Ele assente, enquanto seus dedos percorrem as sardas do rosto dela, que descem e se espalham por todo seu corpo, pescoço, clavícula, ombros, peito, colo…

– Espero que ele herde isso da mãe.

– Ou ela. – Ela remenda.

– Ou ela, é claro! – Ele concorda, sorrindo, enquanto Scarlet se joga sobre ele, beijando-o e deixando que qualquer dúvida que lhe restasse, a abandone.

***

Os dias passam lentos por causa do inverno, mas Scarlet sente-se completa. Teria sua própria família, com alguém que a ama e a aceita tal como ela é.

O frio está começando a abrandar, mas uma brisa ainda gélida chega até sua cama, fazendo com que ela desperte.

Percebendo de imediato que Luko não está ao seu lado, ela se levanta e segue até a porta, que está aberta.

A claridade opaca do inverno sobre o lado de fora, onde, com exceção de Skyllar, nenhum outro lobo, ou mesmo sinal de Luko, há.

Ela se veste e coloca sua capa vermelho escarlate mais uma vez.

– Skyllar, leve-me até a alcateia. – As palavras fazem efeito imediato e o animal começa a correr.

Scarlet corre atrás do animal, que não hesita por entre a vegetação esbranquiçada pela neve.

Ela segue ofegante e seu corpo reclama de correr em demasia. Com a diminuição do ritmo de caçada por causa do inverno e por não precisar mais abastecer a vila, ela começou a perder o fôlego habitual.

Contudo, a corrida não é muito longa e Scarlet reconhece o caminho que Skyllar segue com rapidez, fazendo com que seu coração se acelere ainda mais, não apenas pela corrida.

– Não, não, não… – Ela repete insistentemente.

Se aproximando da casa de sua avó, ela uma profusão de lobos latindo e rosnando na casa. Vários estão empurrando as janelas e a porta já está aberta, destroçada em pedaços e ela pode ver vários lobos entrando.

– Não! Parem! Parem! – Scarlet começa a gritar de imediato.

Mas os animais estão em estado de furor e aparentemente sequer a ouvem.

– Vovó! – Ela grita quando escuta um grito vindo de dentro da casa, passando ilesa pelos lobos, como se fosse um deles.

Dentro da casa, Rubi, já com vários arranhões e mordidas em seu corpo, está travando uma batalha com três lobos, que tentam avançar.

– Vovó! Parem, agora!

Dois lobos cessam o ataque, mas um deles avança terminantemente na garganta da avó.

– Não! – Scarlet grita, avançando com sua faca em direção ao animal.

Antes que ela chegue até ele, Skyllar avança em sua frente, saltando com as mandíbulas arreganhadas na garganta do outro lobo. Os animais começam uma briga feroz fazendo com que até mesmos os outros animais que estavam dentro da casa se afastem.

Scarlet consegue desviar da luta e se aproximar de sua avó, que está com um sangramento forte em seu pescoço.

– Vovó, vovó… está me ouvindo? Vai ficar tudo bem, estou aqui agora.

A avó encara a neta e lhe dá um sorriso débil. Ela começa a falar, mas o som está baixo demais para que a neta a ouça. Scarlet então se abaixa sobre a avó, mal sentindo sua respiração. As palavras soam sem sentido em seu ouvido.

– o … fie … le … fo … uko … eta…

– Shhh… vai ficar tudo bem, vovó… – Scarlet fala sem conseguir conter o tom choroso.

O último suspiro da velha faz com que Scarlet grite por seu nome, como se tivesse algum poder de cura. Ela se abraça ao corpo já inerte da avó, sentindo seu sangue ainda quente penetrar as roupas.

Um uivo dolorido chama sua atenção. O lobo que desferira o ataque mortal contra sua avó está caído, também inerte. Skyllar parece arranhado, mas inteiro. E uiva sobre o corpo do outro lobo.

Logo os demais animais estão uivando, dentro da casa e do lado de fora, como num grande lamuriar. O som reconforta Scarlet, como se fosse seu próprio grito de dor saindo dos animais.

Em sua mente, há apenas uma só questão em voga: se Luko é mesmo culpado, não deve estar muito distante. Provavelmente desejará ver o resultado de seu trabalho.

Não é preciso esperar muito para que sua teoria seja validada, enquanto ela coloca o corpo de sua avó sobre a cama e, cobrindo-lhe para que pareça que apenas adormecera, os lobos se agitam do lado de fora. O malfeitor viera sim conferir se o trabalho fora realizado com louvor e estava prestes a entrar.

Scarlet se dirige rapidamente para atrás da porta de entrada, escondendo-se do campo de visão de quem adentrar a casa.

Passos pesados entram e passam por ela, que segura a respiração, como se o menor suspiro fosse capaz de denunciá-la. Suas mãos estão suadas mas seguram com firmeza o cabo de sua faca de caça. Pela fresta da porta ela vê um vulto alto passar.

– Mas que diabos houve aqui meninos? – A voz lhe é tão familiar que lhe gela por completo. Suas pernas parecem pesadas demais para que seja possível movê-las. Seus braços enfraquecessem e suas mãos não respondem por seus movimentos, fazendo com que sua faca caía no chão.

O barulho é suficiente para fazer com que sua presença seja percebida e a madeira da porta range quando é puxada em direção ao marco, fechando-se de uma só vez e revelando Scarlet, que já não consegue conter as lágrimas novamente e se sente sem forças para sequer apanhar sua faca.

Um sorriso sarcástico passa pelo rosto dele, como se a surpresa fosse agradável.

– É muito bom vê-la aqui, Scarlet. Já me poupa o trabalho de ter de ir até você e aquele infeliz com quem você se juntou. – Diz Tamai, ainda sorrindo.

– Tamai, porquê? Isso não faz sentido… – Scarlet diz, sentindo a cabeça latejar e seu corpo fraquejar. “Não é hora de ter um enjoo…”, ela lamenta.

– Estou deixando tudo bem mais limpo… Sua avó e você sempre estiveram na conta, não precisamos desses encostos que sequer podem sair à luz do dia e agem como se a vila devesse seguir o ritmo deles! – Ele cospe as palavras na direção dela, demonstrando todo desprezo guardado.

– Tamai não houve suas próprias palavras? Está matando pessoas apenas porque…

– Cale a boca! Cale a boca, sua puta! – Ele grita, aproximando-se de Scarlet e segurando seu pescoço fortemente com uma de suas mãos. Seu tom de voz já está moderado quando ele volta a falar. – Sabe, no começo foi difícil controla-los. Mas pensei que, se aquele forasteiro metido conseguiu, eu também conseguiria. E não foi muito difícil, tive que conquistar apenas um deles para que me respeitassem, seguissem e obedecessem.

Ele solta Scarlet com força, fazendo com que ela caia no chão, mas mais próxima de sua faca de caça.

– Sabe, você se parece muito com aquela imprestável da minha mãe. – Ele continua a falar, enquanto verifica com a ponta de sua bota se o lobo caído está realmente morto. – Uma vadia que não sabia nem mesmo quem era o pai do seu segundo filho, que procurava qualquer homem que lhe prensasse devidamente na parede. Eu não fazia ideia, a princípio, de que fosse assim, Scarlet, não… achei que talvez fosse alguém decente que, infelizmente, nasceu com esse defeito. Algo que poderíamos passar por cima juntos, é claro. Mas você se mostrou tão… tão suja, o que combina bem com essa cor que está usando.

Scarlet tenta não fazer um movimento brusco em direção à sua faca de caça, enquanto Tamai continua a tagarelar sozinho.

– Isso não faz sentido Tamai, algumas pessoas mortas não possuíam a doença do sol e… isso não é motivo para matar! Porque fez isso? – Ela tenta distraí-lo com suas palavras e se aproximar mais da faca.

– Ah, as coisas são bem simples. No início, poderia dizer que eu precisava de treino, era mais fácil acertar as pessoas que ficavam sozinhas à luz do dia. Como aquele imprestável filho do pastor. Depois que me aperfeiçoei, não precisava sequer estar tão perto, para que ocorresse. Como agora. – Ele se move com rapidez e pega a faca de Scarlet. – É realmente assim tão tola, Scarlet? – Tamai começa a rir.

– Sabe… – Ele continua. – Não gosto muito de sujar minhas mãos, apesar de ter apreciado muito bater em você aquele dia, na vila. Então, vou deixar que meus fiéis seguidores façam logo o trabalho deles.

Ele assovia e o som faz com que os lobos se ericem, em alerta.

– Ataquem! – Ele diz, apontando para Scarlet.

Skyllar rosna em resposta ao comando e corre para ficar no caminho entre Scarlet e os outros lobos. Ela sabe que, ainda que ele seja o beta da alcateia, em uma luta, dificilmente se sairia bem estando em menor número.

– Parem! – Scarlet diz com a maior firmeza que consegue. Alguns animais hesitam de imediato e os outros continuam a rosnar. – Faço parte da alcateia, vocês têm de me obedecer! – Ela fala firmemente, levantando-se com dificuldade, apoiando-se na parede. – Eu sou a alfa aqui! – Ela grita e todos os lobos latem em resposta em barulhos que logo se misturam a uivos.

Tamai não acredita no que vê, os animais submissos ao comando de Scarlet, como se ela fosse sua líder.

– Bem, se eles não são capazes, abrirei uma exceção e sujarei minhas mãos, hoje. – Ele diz, se aproximando de maneira intimidadora e rápida, com a faca de sua adversária em mãos.

– Skyllar! – Scarlet chama e o animal pula em Tamai, com força suficiente para derrubá-lo, num ato que faz com que todos os outros animais partam também ao ataque.

Ela fecha seus olhos, apesar de ser impossível não ouvir os gritos de Tamai. Quando finalmente o som para, ela sai a passos trôpegos da casa de sua avó.

– Vovó… – Deixando-se cair na neve, ela pranteia a perda da amada avó. Não era justo que as pessoas pagassem pela maldade de apenas uma. Sua avó sempre fora a melhor pessoa que conhecera, a mais bondosa, gentil. Aquela que estava sempre disposta a ajudar, fosse quem fosse. Não merecia tal fim, assim como todas aquelas pessoas da vila.

Skyllar se aproxima de Scarlet e se senta ao seu lado, permitindo que ela se apoie nele e a mantenha aquecida, ainda que a neve tenha recomeçado a cair.

O lobo começa a uivar e ela ouve o som colocando sua tristeza, junto do seu pranto, para fora, mais intensamente. Logo todos os outros animais estão reunidos, em coro, uivando tristemente.

Sem saber se se passaram horas, minutos ou dias, Scarlet ouve passos apressados na neve e, mesmo não se atrevendo a abrir seus olhos ou sequer mover-se, sabia a quem pertenciam tais passos.

– Scarlet! – O som de Luko ajoelhando-se a seu lado é reconfortante. – Scarlet, meu amor… o que houve? Está ferida?

Ela então olha para Luko, o já conhecido vinco entre suas sobrancelhas está acentuado e seus olhos brilham. Lágrimas. Algo que ela nunca vira naqueles profundos olhos.

– Estou bem… – Ela diz, dando conta do sangue que está por todo seu vestido. – …não é meu.

Ainda que aliviado, a expressão de Luko não se ameniza, afinal, o sangue pertencia a alguém.

– Vovó… – Dizer isso já faz um nó formar em sua garganta e ela acha difícil falar qualquer outra coisa sem que desabe novamente.

Luko a ajuda a se levantar.

– Vamos para casa? – Ele pergunta.

– Não, não, não posso deixa-la lá, com ele.

– Com quem, Scarlet? Do que está falando? O que houve?

– Tamai é quem fazia com que os lobos atacassem a vila e ele os trouxe para matar vovó… cheguei tarde demais.

– Não é sua culpa. – Ele fala, abraçando-a.

Tudo que Scarlet sabia era que sua avó merecia um enterro apropriado, e, mesmo assim, as pessoas da vila também precisavam saber a verdade.

Assim, os dois caminham por horas até a cidade, onde Scarlet conta sua história. Há muitos ‘mentirosa’, ‘falsa’, ‘impura’ no ar que não são ditos pelos cidadãos apenas porque o chefe da guarda exige silêncio.

Depois, são mais horas caminhando novamente até a casa da avó, onde todo o terror se desenrolara.

O corpo de Tamai é levado para cidade e Scarlet e sua mãe começam a preparar Rubi para o funeral. Até então ela não conseguira encarar sua mãe, como se suas acusações tivessem criado uma parede de vidro que impedia que qualquer palavra passasse entre ela.

As horas prolongadas sem dormir e com longas caminhadas deixaram Scarlet exausta, mas ela se recusa a fazer qualquer coisa que não seja preparar cuidar de sua avó.

Luko está do lado de fora da casa, montando uma modesta pira, em que o corpo seria queimado. Rubi nunca acreditara que alguém deve apodrecer na terra, a ideia sempre lhe causara arrepios.

Quando mãe e filha terminam o trabalho árduo, Scarlet retira seu vestido manchado e veste um vestido da avó. O vento frio está cortante do lado de fora, mas ainda assim o fogo continua a queimar com intensidade.

Scarlet permanece todo o tempo em silencio, abraçada a Luko. Deixando que sua mãe pranteie sozinha.

– Você precisa falar com ela… – Luko diz a Scarlet.

Ela encara Luko com descrença. Não seria possível que após as acusações de sua mãe, ele estivesse de seu lado.

– Ouça, sei que pode parecer presunção minha. Mas ela ainda é sua mãe, sua família. Já cometi erros demais que me arrependerei o resto de minha vida e, no que eu puder ajudá-la a não seguir o mesmo caminho… acho que você deveria dar a ela outra chance.

Contudo, suas palavras não são suficientes para fazer com que ela mude de ideia.

– Apenas pense nisso, tudo bem? – Ele reforça.

Scarlet apenas assente enquanto observa sua mãe se afastar. Quando as palavras de sua avó lhe vêm à memória, é como se ela as tivesse sussurrado em seu próprio ouvido: “Mantenha sua mente tão aberta quanto seu coração.”.

Com isso em mente, ela parte em disparada em direção à mãe, que já se afastava por entre as árvores.

– Mamãe! Espere, mamãe! – Ela chama.

As palavras não são necessárias quando Scarlet a abraça com força. As lágrimas vêm cobrir mais uma vez seu rosto, contudo, dessa vez, não são apenas de tristeza.

***

Alguns meses depois, o inverno já dá lugar aos primeiros vestígios da primavera, com a neve derretendo e deixando tudo lamacento e colorido.

– Mamãe, quantas vezes já disse que isso é exagero? – Scarlet fala contrariada, encarando a quantidade de tortas e pães que sua mãe levou para a casa que agora é sua e de Luko.

– Bem, talvez não o suficiente. – Camélia responde, sem se preocupar com a desaprovação da filha.

– Não interessa mamãe, eu ainda posso fazer muitas coisas. Eu estou grávida, não adoentada.

– Sei disso, mas chega um momento que tudo fica mais difícil.

– Bem, eu também não vivo sozinha. Ontem mesmo eu e Luko saímos para caçar.

– Você saiu para caçar, ontem? – Camélia fala, colocando a mão no coração como se a ideia lhe causasse palpitações.

– Mamãe, por favor. – Scarlet diz, respirando profundamente para não perder a paciência. – Está tudo bem, eu estou bem, Luko está bem e o bebê também está bem. Pare de se preocupar tanto, sim?

A mãe finalmente cede, assentindo.

– Mas, como poderá chamar a parteira ou mesmo a mim, quando a hora vier?

– Mamãe, já falamos sobre isso. Não se preocupe. – Scarlet diz, andando com a mãe em direção a porta e lhe vestindo a capa de viagem.

– Bem, não ficarei menos preocupada, se é o que quer saber, mas estou indo.

Luko entra pela porta, trazendo consigo feixes de lenha para a lareira.

– Senhora Camélia, achei que ficaria para o jantar. – Ele diz, de modo educado.

– Ah, acho melhor caminhar, de toda forma preciso chegar antes do sol nascer e não sei se eu e Scarlet estamos prontas para passar uma noite e um dia juntas. – Ela diz as últimas palavras sem rancor, quase se divertindo.

Luko apenas sorri e dá passagem pela porta. Ele se dirige a lareira, colocando mais madeira e aumentando o fogo.

– Acho que ela deve pensar que estou inválida, que não consigo sequer cozinhar. E, além disso, você também cozinha muito bem.

– Ela só quer ajudar. – Ele diz, apaziguador.

– É, eu sei. Mas me cansa, às vezes… Ou praticamente sempre. – Ela diz, já rindo e esticando seus braços em volta do pescoço longo de Luko e ficando na ponta de seus pés para alcançar seus lábios. – Ah! – Ela exclama.

– O que foi? Está tudo bem, sente alguma dor? – Luko já pergunta em tom desesperado.

Scarlet começa a rir em resposta.

– Não seu bobo, ainda não é hora. Me dê sua mão, o bebê está se movendo.

Ela coloca a mão dele sobre a barriga e ambos sentem os movimentos da criança em se ventre. Luko beija o topo de sua cabeça.

– Acho que será uma menina. – Ele diz.

– É, e porque acha isso?

– Não sei, eu apenas sei… – Ele responde. – De toda forma, acho que Rubi é um bom nome caso seja uma menina.

O sorriso de Scarlet poderia iluminar uma casa inteira mergulhada em breu.

– Também acho um lindo nome. – Ela responde, voltando a beijar-lhe e permitindo que o amor se estenda para todo corpo, fazendo crescer seu desejo.

… Fim…

Lembra de deixar sua opinião sobre a história! E obrigada para quem, mesmo sem opinar, sempre volta e lê os enormes capítulos que posto aqui!

xoxo

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