Um Conto de Natal ♥ Parte I/II

Em 24.12.2016   Arquivado em Contando Histórias, Contos

Bom dia, tarde e noite de véspera natalina!

Li o livro O Presente do Meu Grande Amor (Organização de Stephanie Perkins e publicado no Brasil pela Editora Intrínseca), que é uma coletânea de 12 histórias romanticamente natalinas nesse mês e fiquei muito empolgada em escrever um pequeno conto romanticamente natalino também. E sim, logo logo sai resenha desse livro aqui no blog!

Assim, hoje, véspera de Natal, sai a primeira parte do conto e, amanhã, Natal propriamente dito, sai a segunda e última parte.

Um Conto de Natal – Parte I

– Mamãe, onde estão as correspondências de hoje? – A minha gaveta está bagunçada e isso significa que ela andou colocando coisas aqui. Coisas que não me pertencem.

– Na gaveta, querida, como sempre.

– Não, não estão. Está cheia de guardanapos e panfletos do coral. – Coral idiota.

– Ah, Merry deve ter se confundido com as gavetas, veja na outra.

– Organização. Ninguém conhece essa palavra por aqui.

Reviro a outra gaveta e pego o calhamaço de contas que está, novamente, no lugar errado, junto de um monte de quinquilharias estranhas.

Pego a caneca de chocolate quente que Gwen está segurando enquanto passa saindo da cozinha e finjo que não ouvi sua reclamação.

– Ei!

– A sineta está tocando! – Eu falo e ela se dirige carrancuda para a recepção.

Nessa época do ano, é impossível que tenhamos sequer uma folga e todos do clã Nicolau tem trabalho em dobro.

Acho que é provável que nosso nome não soe tão natalino, a não ser quando se aproxima o tal espírito natalino. Ou talvez soe.

E, essa é a época em que mais trabalhamos também. O conjunto de chalés e atrativos tais como sossego, contato com a natureza, neve quase o ano inteiro, tem o condão de atrair famílias de vários lugares para passar o feriado brincando na neve ou simplesmente curtindo o nosso famoso chocolate quente. E claro, a ceia natalina. Somos especialistas nesse ponto.

Vou até a porta dos fundos e entro na pequena sala que posso chamar de meu escritório. Uma das barganhas que consegui com meus pais. Se vou trabalhar aqui, pelo resto da minha vida, pelo menos um lugar adequado para trabalhar seria necessário.

Fecho a porta com o pé e me sento na minha confortável poltrona. Outra parte da barganha, é claro.

A neve está caindo em pequenos flocos, tão pequenos que, se não fossem tantos, seria quase impossível vê-los.

Tudo branco ao redor. A cabana mais próxima, que fica a cerca de trezentos metros, parece uma pequena sujeira perto das árvores.

Meus olhos voltam para o monte compacto de cartas. Porque amarram sempre tão apertado? Um envelope amarelo se destaca e meu coração bate um pouco mais acelerado com a expectativa.

Há apenas duas opções: ou se trata de uma propaganda ou aquela é endereçada a mim. Espero muito que seja a segunda opção e, com uma tesoura, corto a corda que prende as cartas.

Ao mesmo tempo que desejo muito ver qual o destinatário da carta, fico insegura. Há dias que espero e nada. Mais tempo que o habitual, mais tempo que o correio deveria levar para fazer a entrega.

Começo a separar o monte: propagandas inúteis, contas a pagar, mais propagandas, mais contas, cartões postais de familiares que só conheço pelo nome e, então, quase no fim do monte, o envelope amarelo.

Sempre vem em envelopes coloridos. Ele diz que eu preciso ver um pouco de cor por aqui. É tudo muito branco pela neve e amadeirado, como ele escreveu certa vez.

Minhas bochechas esquentam pela lembrança e um sorriso surge assim que reconheço sua caligrafia no envelope. Depois que eu reclamei que ele colara uma etiqueta impressa com meu endereço ao invés de escrever, ele parou de usar etiquetas.

‘Etiquetas são impessoais.‘. Acho que foi isso que escrevi. Toda a correspondência que faço é com etiquetas, é muito mais prático. Mas as cartas dele sempre vão escritas a mão, inclusive o endereço, que mudou muito nos últimos anos.

Rasgo a beirada do envelope e retiro uma folha de lá. É isso mesmo? Apenas uma folha? Eu escrevi ao menos sete na última e não é possível que ele tenha me respondido tudo em uma única folha.

Isso só pode significar que ele não tem o que me dizer ou simplesmente se cansou de mim. Mamãe, sempre cética, ficará feliz em saber disso e não me poupará de ouvir um ‘eu te disse’.

Meu coração fica pesado como uma pedra com esse rumo que meus pensamentos tomam enquanto observo a neve cair. A folha ainda está em minha mão e parece que o papel tem o peso de uma bigorna.

Engulo as lágrimas e resolvo ver o que, afinal de contas, está escrito.

Amada Claire,

Me desculpe a demora em responder e a brevidade com que o faço. Mas queria mandar esta carta apenas quando tivesse certeza que meus planos dariam certo.

Apesar da simulação de infarto da minha mãe, do desgosto implacável que meu pai demonstrou por dias e do choro de Nana (a adolescência dela é bem mais tranquila que a minha, como você bem sabe, mas ela tem lapsos de revolta e amor extremos), não passarei o Natal com eles neste ano.

Estou indo ver você, sairei no voo do dia 23 e a previsão é chegar por volta das 22h do dia 24. Não precisa se preocupar com aeroporto nem com nada disso, já providenciei tudo.

Sabe que não faço planejamentos parciais, não é mesmo?

Eu vou encerrar por aqui porque não consigo parar de chorar nesse momento. Já estou borrando várias partes do papel e quero que ela chegue, ao menos, legível.

Creio que esta carta chegará já um pouco em cima da hora, mas talvez seja melhor, seu tempo de espera, será, de fato, diminuído, enquanto eu terei dias e dias a mais de ansiedade para apaziguar.

Eu amo você Claire, estou ansioso por vê-la, achei que esse dia jamais chegaria…

Com todo o meu amor,

Ben

ps.: não me esqueci da sua última carta, mas achei que deveria lhe responder cada uma daquelas coisas, pessoalmente.

Agradeço por estar sentada, minhas pernas simplesmente amoleceram como se um feitiço de remendar ossos tivesse dado errado. Meu coração bate ainda mais veloz e ouço seu retumbar em meus ouvidos. As lágrimas agora estão rolando e eu mancho ainda mais a carta, mais do que Ben já havia feito.

Eu não sei explicar a razão, mas meu choro de alegria se intensifica tanto que já estou soluçando, meu coração está apertado e parece que vou ficar sem ar. Isso não parece real, não pode ser. Não consigo acreditar. Meu choro não cessa, só consigo pensar que isso é uma piada de muito mau gosto. Mas é a caligrafia dele, rebato comigo mesma. Talvez ele está te pregando uma peça. Ben não brincaria com isso, rebato mais uma vez meus pensamentos.

Ouço uma batida suave na porta e o ranger indica que ela está se abrindo. Não consigo me mover. Meus braços petrificaram prendendo a carta junto ao meu peito.

– Claire, o almoço está… – Papai perde as palavras quando me vê.

Com sua calma celestial, ele termina de entrar na pequena sala e, em poucos passos, se abaixa ao meu lado. Ele retira as mechas de meu cabelo que estão prendendo em meu rosto por causa do choro.

– O que houve Claire? Está tudo bem?

É claro que papai sabia que apenas uma pessoa é capaz de me deixar assim, para o bem ou para o mal. Ele foi quem sempre melhor suportou o meu mau humor quando eu e Ben brigamos. E nossas brigas são sempre bem demoradas para se resolverem, já que tudo sempre acontece por cartas, afinal de contas. E, aqui, no fim do mundo da cidade mais fria do Alaska, de fato mais perto da Rússia do que dos Estados Unidos, tudo é mais demorado. A internet é um luxo que demora ao menos uma hora para carregar, o que faz com que a utilizemos apenas para o essencial, como pagar contas (com mérito de implantação todo meu, já que levamos de três a quatro horas, em dias bons, para chegar até o banco mais próximo, aguardar pela conexão da internet é algo muito rápido). Também não temos sinal de celular. A maior parte dos visitantes vê isso como um charme a mais para o lugar e até acrescentamos a informação em nosso site e folheto: “Desligue-se da correria do dia-a-dia!“. Foi ideia da Gwen, ela é ótima com esse tipo de coisa.

Mas estou fugindo do foco.

– Ele está vindo, papai. – A frase que nunca acreditei ouvir meus próprios lábios formarem. – Ele está vindo. – Repito e então, todo o peso se desfaz, ele realmente está vindo. Dizer em voz alta deve ter libertado todo meu ceticismo e, agora, consigo sorrir entre um soluço e outro.

Meu pai me puxa para um abraço apertado e passa a mão em meus cabelos, como faz com todas nós quando estamos com alguma dor, seja de coração ou porque ralamos o joelho.

Quando me solta ele está sorrindo. Meu pai nunca foi muito de palavras, mas é ótimo para compreender as coisas.

– Acho melhor irmos almoçar antes que sua mãe venha nos chamar. – Ele diz, enquanto me dá uma piscadela.

– Com certeza.

Me desgrudo da carta e a deixo dentro da minha primeira gaveta. Ela quase não entra lá, já está apilhada novamente de cartas. Todas do mesmo remetente. Preciso arquivá-las.

Vou até o banheiro e jogo a água quente no rosto. Meus olhos ainda estão avermelhados, mas meu sorriso, que não sai de modo algum do rosto, agora é um disfarce bastante razoável.

A mesa já está cheia, só falta eu preencher meu lugar. É uma grande mesa redonda, provavelmente a maior mesa redonda que já vi em qualquer lugar. Não que eu já tenha ido a muitos lugares e, mesmo quando fui para faculdade, todas as famílias dos meus amigos eram bem mais compactas. Quando eu dizia que sou a mais velha de minhas irmãs e que somos, ao todo, nove, as pessoas tendiam sempre ao choque.

Mas, vivendo sempre em um quarto com pelo menos outras duas ou três garotas, faz você achar que a casa cheia ou lotada, barulhenta e sempre movimentada é o sinônimo ideal de família. Claro que aprendi que existem famílias de vários outros tipos e, inclusive, as mais legais que conheci eram completamente diferentes da minha.

Por causa de todo esses novos hábitos que adotei, inclusive com o conceito de privacidade, tive que barganhar para ficar com o chalé mais afastado de todos e que ninguém aluga nunca, por ser distante demais de tudo. Agora, quase como um ato de liberdade, tenho “minha” própria casa.

Todos estão falando ao mesmo tempo e mamãe faz um pigarro para que todos se calem e possamos orar. Não sei bem se podemos chamar isso de oração, eu acho que sequer temos uma religião. E acho que comemoramos coisas como o Natal mais pela ideia de compartilhar que a data traz. De todo modo, agradecemos a um ‘senhor regente das coisas’, por assim dizer, tudo de bom que nos aconteceu desde o almoço do dia anterior.

É um bom exercício. Mamãe não permite que ninguém coma até que todos tenham agradecido e, por alguma providência, que suponho ser divina, ela tem a incrível capacidade de reunir diariamente, para o almoço, essas 11 pessoas ao redor de uma mesa redonda muito grande.

Os agradecimentos podem variar. Pode ser algo grande, como quando agradeci por entrar na universidade ou algo trivial quando como consegui acessar o banco em tempo recorde: apenas 27 minutos.

Eu já sabia pelo que me sentia grata naquele momento, apesar de não saber se era o melhor modo de contar a novidade.

– Agradeço pela lotação dos chalés, assim tudo que precisarei responder ao telefone será: ‘sinto muito, estamos lotados’. – Diz Gwen, rindo.

– Agradeço por não ter queimado o bolo de aveia pela primeira vez para o café da manhã! – Stela tem apenas dez anos e já deve ter cozinhado o dobro ou talvez o triplo que eu cozinhei em toda a minha vida. Ela ama isso, é boa nisso. Muito boa, na verdade. Passa o dia todo na cozinha e o pessoal até já se acostumou com ela.

– Hum… agradeço pelo chocolate quente de hoje de manhã? – Diz Pilar.

– Mas você já agradeceu por isso ontem, Pilar, não vale repetir. – Diz Christie, a gêmea de Pilar.

– Certo, então, agradeço pela música, hoje tocou três canções não natalinas na rádio. – Responde Pilar.

– Eu agradeço pela ligação da vovó e pela notícia de que ela estará aqui no Natal. – Diz Christie. As duas têm dezesseis anos e, em geral, sempre se dão bem. Christie é um pouco mais reservada e Pilar mais aberta, mas elas possuem uma conexão que, se não fôssemos uma família tão grande e cheia, causaria inveja.

– Agradeço pelos correios, que entregaram minha carta da faculdade hoje. – Todos encaram Agatha com surpresa. Ela guardou segredo a manhã inteira.

– Ah mais que maravilha! – Mamãe exclama e se levanta para abraçá-la.

É claro que Agatha seria aceita. Ela tem as melhores notas, faz todo tipo de serviço comunitário e teve ótimas cartas de recomendação.

– Seriam estúpidos se não aceitassem! – Diz Gwen, dando um abraço em Agatha.

Eu a abraço em seguida.

– É meu passe livre! – Ela sussurra em meu ouvido e vejo as lágrimas brilhando de alegria em seus olhos.

Família. A palavra poderia facilmente ser substituída por difícil. Agatha é a definição tradicional de boa filha. Não que isso seja necessariamente bom ou ruim. Ela fez tudo o que se pede, ela não reclama e é um exemplo para as mais novas. É um exemplo para qualquer pessoa, na verdade. Mas, a escolha que me foi tão difícil, sair da faculdade e retornar para casa com a certeza de que eu permaneceria aqui até o fim de meus dias, é simplesmente inconcebível para ela. É como se seu brilho diminuísse sob essa perspectiva. Ela não gosta do clima frio, da neve, do trabalho e das tarefas indispensáveis em se gerenciar um negócio como o da família.

Ela quer ser veterinária, quer andar por fazendas quentes cheias de cavalos, vacas e estrume. Sim, estrume. E isso é algo que simplesmente ela jamais encontrará aqui. A aceitação para a universidade é só o primeiro passo que sei que ela dará para trilhar uma vida bem diferente para ela. Bem longe daqui, mais provavelmente.

Como Mandy, Ruth e Fleur mal completaram quatro anos, os agradecimentos delas são mais rápidos:

– Eu… hum… agradeço pelo pão. – Ruth adora pão e quase sempre ela agradece por algo que comeu ou que vai comer.

– Eu agradeço pela amiga nova, Fairy. – Mandy tem uma nova amiga imaginária.

– Agradeço pelos presentes! – Diz Fleur. Ela costuma falar algumas coisas legais, como quando voltei para casa após a faculdade e ela agradeceu por ter a melhor irmã de volta. Claro que rimos bastante, mas sou muito ligada a ela. Talvez mais do que a Agatha e acho que Agatha é minha melhor amiga.

– Que presentes, Fleur? – Gwen se adianta e pergunta.

– Os que estão na árvore, que vamos ganhar!

Risadas calorosas pelo espírito precoce dela passam pela mesa. E agora, é claro, é a minha vez.

– Obrigada pela… – Não sei o que formular e isso só faz com que todos apenas prestem maior atenção em mim. Talvez dizer obrigada pela carta de Ben, seria suficiente, mas não daria todo o recado. – Obrigada por permitir que Ben venha no Natal. – As palavras saem rápidas e um silêncio cobre todos. Sinto o olhar de minha mãe me perfurando, exigindo uma explicação.

– Obrigado pela primeira entrega certa do fornecedor, depois de vários meses difíceis, do contrário, não haveria uma ceia decente para ser feita.

Papai sempre sabe a hora certa para abrir a boca e sussurro um ‘obrigada’ para ele, que apenas dá uma piscada em resposta.

As meninas riem da fala dele e aguardam que mamãe, que finalmente desvia os olhos de mim, faça seu agradecimento.

– Obrigada por me dar uma filha tão tola. – Não, ela não iria deixar passar. É quase como se eu pudesse sentir sua mente maquinando as formas possíveis de me dizer que eu estou sendo enganada.

– Mamãe! – Diz Agatha, em tom exasperado.

– Nataly, meu amor, não diga uma coisa dessas. Claire está feliz e devemos estar também, será bom que os dois se encontrem depois de, bem, tanto tempo. – Diz papai, apelativamente.

É claro que as palavras de mamãe me atingem mais profundamente do que gosto de assumir. Passo os dedos nos meus olhos para que as lágrimas não escorram por meu rosto. Detesto chorar na frente dela, como se estivesse expondo todos meus sentimentos que ela tanta pensa serem absurdos.

Mamãe respira fundo e volta suas palavras diretamente para mim.

– Como assim você ainda usa o momento de agradecimento da sua família para dizer tal coisa? Desde quando aquele infeliz vem para cá? Ela a largou no momento que botou os pés do lado de fora dessa casa há oito anos atrás! Oito anos, Claire! Como pode ser tão ingênua e acreditar que ele a ama, que tem qualquer tipo de compromisso com você? Acha que ele foi fiel a você todos esses anos como você foi?

As palavras dela saem num turbilhão, ela não respira enquanto fala e está ofegante agora que se calou. E só o fez porque papai segurou sua mão. Com delicadeza e carinho, com amor, como ele sempre faz absolutamente tudo em sua vida. Isso a desarma. Mas me desarma também, não consigo segurar mais o choro e me levanto.

Vou correndo para a porta e pego meu grosso casaco. Ouço a voz de papai me chamando, mas não paro de correr, o ignoro.

O vento e a neve fria caem por sobre mim e logo minha respiração está ofegante pelo esforço e pelo frio. Quando minhas pernas doem, já estou na metade do caminho para meu chalé, então, como se pior fosse uma opção para a situação atual, eu tropeço em um galho coberto pela neve e caio estatelada no chão.

Meu pé dói pela força com que o bati e meu corpo inteiro congela sobre a neve. Minhas mãos e meu rosto estão ardendo pelo contato direto com a neve. Não consigo me mover. Tudo que faço é chorar. Em que momento pensei que mamãe acharia isso uma boa ideia? Em que momento achei que ela seria, ao menos, indiferente? Ela vem me dizendo há oito anos que estou sendo enganada. E, mesmo que estivesse, eu estava feliz. Ela nunca percebera isso.

– Claire! Claire, querida… – Não é a voz de papai. É Agatha, é claro.

Ela se ajoelha ao meu lado e me puxa para seus braços.

– Está tudo bem? Você se machucou? – Ela soltou no chão minhas botas de neve e um cachecol lilás, da cor de minhas botas.

Balanço a cabeça em concordância.

– Não foi nada, eu só tropecei. – Falo, ainda chorando.

– Deixe-me ver… – Ela puxa meus pés para seu colo e retira as sapatilhas. Estão gelados, mal os sinto.

Ela retira as luvas e os toca. Suas mãos estão quentes e o contato faz minha pele formigar.

– Está sentindo alguma dor? – Ela parece preocupada. Ela sempre se preocupa, muito. Mas ela entende bem melhor das dores físicas.

– Estou bem. – Falo pegando as sapatilhas e recolocando-as em meus pés.

Ela se espicha e pega minhas botas e me ajuda a calçá-las. E logo passa o cachecol em meu pescoço. Em seguida, fecha o zíper e os botões do meu casaco até em cima.

– Bem melhor agora. – Ela se levanta e me ajuda a levantar. Todo meu corpo dói. Com certeza vou sentir o impacto desse tombo por dias.

Ela me puxa para um abraço. É apertado, mas não o suficiente, afinal, as roupas são grossas demais.

– Obrigada. – É tudo que consigo pensar em dizer.

Caminhamos em silêncio o restante do caminho até meu chalé e entramos. Está frio lá dentro. O aquecedor está desligado e a lareira apagada. Só costumo acendê-los a noite, quando venho para cá depois do jantar.

Tiramos as botas, mas permanecemos com os casacos, enquanto Agatha preocupa-se em ligar o aquecedor e eu apenas me sento no sofá.

– Eu evitei brigar com ela por oito anos e agora ela não pode nem ficar feliz por um mísero segundo? – As palavras fazem meu choro recomeçar, não que ele tivesse exatamente cessado.

– Own Claire… – Agatha diz meu nome junto de um resmungo e se senta ao meu lado. – Sinto muito, mas mamãe está preocupada. Ela quer o melhor para você.

– Claro e ela é uma grande especialista em me dizer que Ben não é o melhor para mim.

Vejo o conflito que minhas palavras causam nela. A opinião dela não diverge da de minha mãe, ainda que o método que ela escolha para transmitir isso seja bem mais ameno.

– Só você poderá decidir se ele é bom ou não o bastante. Acho que ficamos todos surpresos com a notícia e, mamãe não soube como reagir.

Não falo mais nada, não quero brigar com Agatha. É ela quem vai embora em pouco tempo, é ela quem tem um mundo inteiro a ser desbravado. Eu já tive a minha cota e acabei retornando para o status quo.

E Agatha nunca se apaixonou.

Ela me dá um beijo na testa e se levanta.

– Preciso ir, tenho muito que fazer hoje ainda. Quer que eu mande alguém trazer comida para você? – Ela fala, recolocando suas botas já na soleira da porta.

– Não, estou bem. – Respondo automaticamente.

– Mandarei assim mesmo.

Ela sai e fico vendo seus passos na neve. Está tão alta que não é possível ver as marcas do chão. Fecho a porta e vou acender a lareira. Ainda está muito frio.

***

O bater na porta me desperta. Que horas são, afinal? O relógio indica que já passa das 20h. A comida que Agatha mandou está ainda sobre a mesa, mas não sinto fome.

Reavivo o fogo da lareira e então, outra batida na porta me sobressalta. Já havia me esquecido do que me despertou.

Abro a porta e vejo que é papai. Ele traz uma vasilha grande coberta de papel alumínio. Comida. Mais comida.

– Stela fez e queria trazer para você, mas como a neve está alta, bem, eu vim trazer.

Dou espaço e ele entra. Papai é um homem muito grande. Muito alto, muito largo. Meu pequeno chalé parece pequeno demais para ele, quase como Gandalf dentro do Bolsão.

Ele coloca a vasilha na mesa e se volta para mim.

– Ela sente muito Claire, não queria ter discutido à mesa.

– Claro, em outro local teria sido mais adequado.

– Sabe que não foi o que eu quis dizer. Sua mãe só quer o melhor para você e ela acha que… – Ele não termina a frase, mas é algo que já sei.

– Pode dizer, que estou sendo enganada, que estou perdendo meu tempo, qualquer uma dessas serve. – Já estou irritada com isso. – Pai, eu amo muito você e não quero discutir isso pela milionésima vez. Estou cansada… Eu fiz exatamente tudo que ela me pediu, tirei notas boas o suficiente para ir para faculdade, fiz um curso que fosse útil para os negócios e, aqui estou. Trabalhando 24/7, sem hesitação, sem reclamar. Sabendo que farei isso pelo resto da minha vida. E ela é incapaz de me deixar me apaixonar por quem eu quiser e ficar feliz por mim! – Já estou alterada e xingando, falhei na parte de não brigar. – O que mais ela pode querer de mim se não é capaz de vir aqui sequer se desculpar!

Minhas palavras parecem navalhas em papai, sei disso pela expressão triste que ele faz.

– Sinto muito Claire, de verdade. Mas se algo a faz brigar com toda sua família, talvez seja algo que deva ser repensado. – Ele diz isso e me deixa sozinha no chalé.

E eu sempre acabo brigando com as pessoas erradas.

Quero reler a carta de Ben, mas ela ficou no meu escritório e, bem, não pretendo voltar lá tão cedo.

Eu ligo o som – o único vestígio de alta tecnologia que todo o chalé ostenta – e deixo que a música do CD de Norah Jones que as gêmeas me deram de aniversário, esquente o ar frio.

Eu não consigo acreditar que amanhã à noite Ben estará aqui, talvez nesse mesmo sofá, comigo. Ao meu lado. Ele não disse quanto tempo pretende ficar, mas também não quero me martirizar já pensando nisso. Quero pensar apenas no fato de que ele estará aqui. Em algumas horas embarcará em um avião, viajará algumas centenas de quilômetros até aqui. Para mim. Só por mim.

Agatha me disse certa vez que o amor é o sentimento mais egoísta que ela conhece. Talvez ela tenha razão. É presunção querer que alguém faça algo que não faria por mais ninguém, só por você? Querer estar nos pensamentos dessa pessoa o mesmo tanto que ela está nos seus. Se encher de expectativa para vê-la e esperar que ela sinta o mesmo. Porque amor sem retribuição não é amor, não serve para nada a não ser sofrimento.

…Continua…

Nos vemos novamente amanhã!

xoxo

  • Fernanda

    Em 24.12.2016

    Romântico, fofo e envolvente. Nada como o amor entre duas pessoas que a muito não se veem para aquecer o Natal da gente.

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