A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte V/VI

Em 22.12.2016   Arquivado em A Garota da Capa Escarlate, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite everyone!

Sempre fico empolgada com a proximidade do Natal e, deixo aqui hoje, empolgadamente, a penúltima parte do Conto da Chapeuzinho Vermelho, adaptado numa versão magic free, para Scarlet – A Garota da Capa Escarlate.

As postagens anteriores, caso esteja perdido são: parte I, II, III e IV ou, se preferir, a história está sendo compartilhada também na plataforma do Wattpad (sempre posteriormente à atualização do blog!).

Sem maiores delongas…

Scarlet – A Garota da Capa Escarlate – Parte V

O tempo está frio, ainda que seu corpo esteja quente, Scarlet consegue sentir o ar gelado em seu rosto descoberto. Mesmo antes de abrir os olhos ela se dá conta de que seu corpo está cansado, como depois de uma caminhada longa demais, para a qual não se está preparado.

Ela nota que suas mãos estão avermelhadas e, passando os dedos em seu rosto, ela percebe como a pele está sensível e os machucados ainda não se curaram.

Está escuro e a claridade tremeluzente vem pelo espaço aberto na parede aos pés da cama, indicando que a lareira está acesa. Ela se levanta, mas não vê nenhuma parte de suas roupas, com exceção de suas botas, que estão aos pés da cama. Ela calça-as e se enrola na manta de lã.

A cabana está com cheiro do chá que ela já reconhece e uma claridade opaca vem do lado de fora. Pela porta aberta, é possível ver que a neve já começara a cair de modo preguiçoso e é difícil determinar, pela claridade, se o dia começou ou está terminando.

Scarlet para encostada no marco da porta, observando os lobos. Não parecem se incomodar com os pequeninos flocos de neve que caem e, não muito longe, ela consegue ver Luko cortando lenha. Ele está usando um grosso casaco feito de lã, o que a deixa surpresa, já que nessa época, até mesmo as pessoas da vila costumam vestir peles de animais. Bem, as pessoas que possuíam este tipo de coisa, pelo menos.

Ele não demora a perceber sua presença e deixa o machado de lado, caminhando apressadamente para a cabana.

– Seria bom dia ou boa tarde? – Ela pergunta com um sorriso singelo, com seus olhos apertados pela claridade, enquanto ele se aproxima.

– Sempre será um bom dia perto de você. – Ele responde com seu sorriso sedutor.

– Bem, é provável que você tenha razão.

Luko estaca seus pés em frente à Scarlet e faz com que seus dedos deslizem por seu cabelo alaranjado, e imediatamente ela deseja com que o espaço entre os dois diminua.

– Como você está? – O tom brincalhão se fora e sua face demonstra preocupação genuína.

– Bem, parece que estive andando por dias, mas me sinto bem. Quando tempo fiquei apagada? – Ela responde, passando seus braços em volta do tronco de Luko, deixando que seu corpo nu tenha contato com suas roupas frias, segurando apenas as pontas do manto para que ele não saia de suas costas.

– Quase três dias, me admira que tenha conseguido sair da cama tão rápido.

– Estava assim tão ruim? Não consigo me lembrar de muito.

– Sim, na noite que chegou começou a delirar em febre, e tive que pedir ajuda a sua avó porque não sabia o que fazer. – Scarlet ri.

– Você pediu ajuda para vovó? – Ele solta um riso fraco.

– É, parece absurdo que eu não saiba como tratar uma febre, mas sim, eu pedi.

– E o que aconteceu, então?

– Levamos você até o riacho para que a água fria abaixasse a febre.

– E funcionou?

– Sim, aos poucos a febre foi cedendo.

– Hum, minha avó sabe das coisas.

– Com certeza. – Ele responde, encarando-a.

Eles ficam um minuto inteiro se encarando até que Scarlet sorri e se sente embaraçada.

– O que foi? – Ela pergunta.

– A ideia de perder você me deixou, bem… desesperado, na melhor definição.

– Não vou a lugar algum, Luko. – Ela fala, em tom consolador.

– Amo-te Scarlet.

A fala dele a deixa desnorteada. Luko funcionou sempre como uma escapatória aos seus problemas corriqueiros. E, por mais que ela sentisse que gostava dele de uma maneira bem mais profunda do que de todos os outros garotos da vila pelos quais se interessou, ela não sabia se era amor. Ou o que era o amor.

Ele dá um beijo em sua testa e diz:

– Não precisa sentir como se eu precisasse de reposta. – Os dois permanecem ainda um tempo abraçados, deixando que as palavras ditas fossem abafadas pelo frio que os circunda.

O restante do dia se resume a Luko tentando fazer com que Scarlet se alimente, tanto quanto ele julga suficiente, em relação ao tempo que ela ficara adoentada.

Ao cair da noite, o tempo fica ainda mais gélido, com a neve assentada e congelando a natureza por onde tocou.

– Não vai me contar?

– O que, exatamente? – Ela pergunta, desconfiada.

– O que aconteceu na vila. Sua avó me disse que apenas a exposição ao sol poderia ter lhe deixado daquela forma e, além disso, você também não me disse como conseguiu todos esses machucados. – Ele fala, passando os dedos levemente nos esfolados de seu rosto.

Ela tentara não pensar em tudo que ocorrera. No ataque dos lobos, na briga com Tamai. Tudo parecia tão distante e, ainda assim, tão vivo em sua mente. Como algo difícil de digerir, algo que precisava sair para que melhorasse.

– Os lobos atacaram a vila novamente. Mataram Amélia, mãe de dois garotos. – Ela diz as primeiras palavras e se aproxima ainda mais de Luko, que está sentado no chão próximo à lareira. Enquanto ela se deita em seu colo e ele afaga seus cabelos, ela toma fôlego para recomeçar. – A vila inteira ouviu os gritos… mesmo assim, quase ninguém saiu de casa. Peguei meu arco e fui na direção do barulho… A porta estava estilhaçada, como se fosse feita de gravetos e havia sangue respingado no chão e marcas de pegadas confusas. Quando entrei na casa… – Ela engole em seco lembrando-se o cheiro de sangue que impregnava o ar. – …foi então que vi o corpo mutilado. Tamai estava abraçado ao irmão e, quando me viu me mandou embora.

“Um guarda impediu que ele me atacasse, então, eu saí da casa. Mas ele me alcançou do lado de fora e me derrubou. Nós brigamos até que o guarda intervisse novamente. E, nesse meio tempo, tomei sol. Acho que… foi isso.”.

Luko não pergunta sob as falhas em sua história, como porque deixaram que brigassem já que haviam guardas lá.

– Tamai não me perdoou e, por isso, ele acha que tenho culpa pelo que aconteceu. – Ela completa, dando voz à um fragmento de seus pensamentos.

– Ei, você não tem culpa de absolutamente nada, não tem que se sentir assim porque um pequeno disse algo.

– Ele não é tão pequeno assim, deve ter um palmo a mais que eu, apesar de ser magrelo. – Ela fala, rindo sem graça.

Tamai significa pequeno, de onde venho.

– Ah, faz mais sentido assim. Não quer saber porque ele não me perdoou? – Se erguendo para poder ver seus olhos, ela pergunta, curiosa pela curiosidade dele.

– É algo que você tem de querer contar, e, se quiser, eu ouvirei.

Scarlet fica satisfeita com a resposta. Ela queria apenas deixar o passado para trás e esquecer de todos na vila, com exceção, talvez, de sua mãe. Que com certeza estava preocupada com seu sumiço prolongado.

Sem dúvidas ela sentiria falta de sua mãe, ela a amava, “É minha mãe, afinal de contas.”, ela pensa. Contudo, é provável que não sentisse falta de viver com ela, admitia para si mesma.

– Gostaria que você ficasse aqui. – Luko diz, logo complementando a frase, sob o cuidado de ser mal compreendido. – O quanto quiser, é claro.

Scarlet se levanta novamente em seu colo e observa seus olhos profundos, ela nota que são quase pretos, mas com pequenas manchinhas esverdeadas, quase imperceptíveis.

– Eu adoraria ficar, enquanto quiser, é claro. – Ela fala de modo brincalhão e se inclina sobre Luko, até que finalmente, seus lábios encontram o ardor dos dele.

***

Luko caminha até Scarlet. Ela está deitada ao lado de Skyllar, seu tronco apoiado sobre o animal, que não se incomoda com seu peso. Ela faz desenhos na neve com a ponta de um graveto. Seus cabelos alaranjados, junto de sua capa vermelha, destacam em meio à alcateia ao redor, como uma gota de sangue em um tecido branco.

– Acho que você os domou. – Ele fala.

– De modo algum, no tempo que estive aqui, acho que foram eles que me domesticaram, ao seu modo.

Ele estende a mão e a ajuda a se levantar.

– É mesmo? – Ele diz, enquanto ela corre as mãos pelo peito dele, até que elas se entrelaçam atrás de seu pescoço, puxando-o para beijá-la. – Eles a obedecem mais do que mim, isso é alguma coisa.

– Se você o diz… – Ela sorri e começa a caminhar com suas mãos entrelaçadas à dele. – Acho que vou até a vila hoje.

Suas palavras fazem com que Luko pare.

– O que foi? – Ela pergunta.

– Tem certeza?

– Sim, quero ver minha mãe. – Ele apenas assente e volta a andar, passando seu braço em volta dela, trazendo-a pela cintura para mais perto.

– Quer que eu vá com você?

– Acho que não precisa.

– Não perguntei se precisa… – Ele fala, destacando a última palavra. Ela suspira antes de responder.

– Ficará magoado se eu disser que não?

– Ficarei se não me disser o que quer. Sei que não sou bem vindo na vila, por isso irei apenas se você quiser.

– Não, eu acho que é algo que preciso fazer sozinha. Ver como mamãe está e… é isso.

***

Na noite seguinte, Scarlet parte em direção à vila, acompanhada de seu mais novo fiel seguidor: Skyllar.

– Sabe, eu imagino que mamãe ficará primeiro contente em me ver, depois, e digo logo depois, ela ficará furiosa, por saber que eu não fui devorada por um lobo e que, mesmo assim, não voltei para casa. Afinal, eu não mandei nenhuma mensagem e, a única pessoa que visitei, fora vovó.

O lobo solta um resmungo, que ela entende como sendo concordância ao que disse.

Quando já está próxima à divisa da mata com a vila, avistando ao longe alguns guardas – mais do que esperava – cercando a mata, ela dispensa Skyllar, que volta obediente pela mata, apesar de parar uma vez para observá-la se afastar.

– De onde vem, menina? – Um dos guardas pergunta rudemente.

– Estou a caminho da minha casa. – Ela responde com petulância.

– Não sei quem a deixou sair, mas acho bom respeitar o toque de recolher, da próxima vez não serei tão condescendente.

Scarlet não entende bem a razão de um toque de recolher ou mesmo o porquê de impedir dela sair novamente, mas segue em frente, preocupar-se-ia com a volta, bem, quando retornasse.

Apesar do horário, em que costumeiramente a feira estava agitada e cheia de pessoas indo e vindo, o movimento é pequeno. Algumas poucas pessoas passam apressadas de um lado a outro. Mesmo com o inverno, a feira sempre acontecia, a não ser nos poucos dias em que a neve impedia que qualquer pessoa saísse de sua casa.

É então que Scarlet começa a notar que as casas estão com suas portas e janelas cheias de tábuas grossas, lacrando-as e reforçando-as, como se algo precisasse ser mantido do lado de fora.

Caminhando apressadamente até a casa de sua mãe, ela nota que as portas e janelas de sua casa foram reforçadas de tal maneira que é difícil sequer perceber se há luz vindo de dentro da casa.

– Mamãe, está aí? – Scarlet diz, batendo com força na porta grossa.

Ela ouve pequenos estalos dentro da casa e logo a porta range ao abrir.

– Scarlet? – A expressão de sua mãe está atônita, como se visse um fantasma.

– Mamãe…- A palavra morre em sua boca, ela não sabe bem o que dizer. Em compensação, sua mãe a puxa para um abraço apertado, que a faz começar a perder os movimentos do braço. De toda forma, ela não ousa apressar a mãe.

– Como é possível, filha? Todo esse tempo pensei que estivesse… que fora atacada pelos lobos… – Os olhos de Camélia já estão marejados.

– Ah mamãe, me perdoe… – Scarlet diz, passando a mão pelo rosto da mãe.

Ambas entram na casa e Scarlet esclarece onde esteve pelos longos meses que se passaram desde que saíra de casa.

– Mas ele é o forasteiro de que falam, como pôde Scarlet? Ele é o responsável pelas mortes da vila! Como pôde?

– Mamãe, isso é absurdo! Eu estou com ele durante todo esse tempo, acha que não saberia se ele saísse sorrateiramente para, mais absurdamente, fazer com que os lobos ataquem pessoas? – Ela entende por melhor não citar a relação de Luko com os lobos, assim como a relação que ela mesma desenvolvera com os animais.

– Scarlet, me ouça. Um homem foi visto junto aos lobos assassinos, mas ninguém conseguiu pegá-lo. Ele manda os animais como se fossem seus servos. Fazem o que ele manda, atacam onde ele manda.

– Mamãe, tem consciência de como isso é absurdo?

– Estou falando com certeza Scarlet, não deixarei que você volte para a floresta, tampouco para a companhia daquele assassino.

Scarlet não sabe como convencer sua mãe de que tudo aquilo é sem sentido. Um mal-estar súbito lhe abate, e tudo que comera antes de sair da cabana parece se revoltar em seu estômago.

“Essa discussão não está me fazendo bem.”, pensa, identificando a razão de seu súbito enjoo.

– Mamãe, sinto muito que pense assim. Luko é um bom homem e eu não estaria com ele se fosse diferente. Preciso ir…

Ela se dirige para a porta enquanto o suor lhe escorre frio pelo pescoço.

– Scarlet, por favor, me ouça pelo menos dessa vez!

A jovem sai apressada da casa, ainda com o enjoo lhe trazendo tontura e segue a passos trôpegos em direção à borda da floresta. Não demora muito para que coloque todo seu jantar para fora, saindo da última ruela, que a levaria à borda da floresta.

– Senhorita, está bem? – Uma voz preocupada se aproxima.

– Sim… – Scarlet responde, se levantando e apoiando-se à parede da última casa da rua.

Quando seus olhos encontram o dono da voz, seus joelhos tremem por um instante, apesar de sua expressão não oscilar.

– Scarlet. – Diz Tamai, com amargura. – Não sabia que retornara à vila.

– Não retornei, estava de visita à minha mãe. – Ele faz menção de dizer algo e ela o interrompe com sua mão. A raiva que ainda sente por ele deixa seus nervos à flor da pele e a faz recuperar um pouco de seu ânimo. – Já estou de partida, não precisa se preocupar.

Tamai não diz nada em resposta e apenas observa Scarlet se afastando a passos apressados. Um dos guardas que faz a ronda se aproxima, impedindo-a de seguir o caminho da floresta.

– Senhorita, a entrada na floresta está proibida.

Ela respira profundamente para acalmar sua irritação antes de responder ao guarda.

– Senhor, não se preocupe, não pretendo voltar. Eu moro na floresta, não nesta vila.

– Ainda assim, já tivemos muitos ataques…

– Eu não me importo com os ataques, está bem! – Ela grita. – Eu só quero passar, se eu for devorada ou qualquer outra coisa assim, não fará diferença para você, não é mesmo? Já que não pretendo retornar.

O guarda vacila por um instante, em dúvida se deveria deixar que a jovem petulante siga ou não para a floresta.

– Deixa-a ir, ela não pertence a vila, não é seu problema.

Scarlet não precisa se virar para saber que a voz que proferiu tais palavras é a de Tamai. O guarda parece confiar seriamente no julgamento do jovem e sai da frente de Scarlet, que solta o cabo de sua faca, que estava prontamente apontada para o guarda, por debaixo de sua capa escarlate.

– Quem entra na floresta com uma capa escarlate como sangue? – A voz do guarda soa às suas costas como se desejasse que ela ouvisse. Mas ela não morde a isca e segue em frente, não rápido o suficiente para deixar de ouvir a resposta de Tamai.

– Ela é uma garota escarlate, a capa só revela quem ela é, não faz diferença.

Scarlet segue com passos pesados e rápidos até que suas pernas reclamam da marcha. Lágrimas quentes rolam em seu rosto enquanto as palavras de sua mãe se misturam às de Tamai… “assassino”, “garota escarlate”, “ele é o responsável pelas mortes…”… “Todos injustos, só enxergam até onde desejam”, ela repete para si mesma, enquanto é obrigada a curvar-se mais uma vez, vomitando até a bile.

Ela caminha com as vistas embaçadas pelas lágrimas que insistem em cair até que Skyllar a encontra na trilha. Ela senta-se no chão e abraça o dorso do animal, que também se senta, deixando que toda sua raiva e rancor extravasem através do choro.

Nunca mais voltaria a vila, nunca mais veria sua mãe ou qualquer uma daquelas pessoas ingênuas. Não precisa delas, de toda forma, viveu muito bem e muito feliz durante o tempo que esteve fora, com Luko.

Skyllar começa a uivar e o som faz com que Scarlet se sinta em casa, finalmente recuperada de seu mal-estar. Eles voltam a caminhar no sentido de volta a cabana e não demora para que Luko surja na trilha, seguindo alguns outros lobos da alcateia. Ele veio correndo por todo o trajeto, e está com a expressão preocupada.

– Scarlet! – Ele se aproxima e segura seu rosto em suas mãos, como se quisesse perceber se sequer um fio de cabelo seu fora danificado.

– Estou bem, porque veio? – Ela pergunta.

– Skyllar nos chamou, achei que havia acontecido algo com você.

Ela apenas assente e o abraça. Seu calor e cheiro são reconfortantes, tudo que ela precisava naquele momento: se sentir em casa, como se tivesse um lugar no mundo. Como se ela não fosse incorreta, ou impura ou escarlate.

Os dois caminham abraçados e em silêncio de volta a cabana e, quando lá chegam, ele decide pôr fim ao silêncio.

– O que houve, Scarlet? Algum problema com sua mãe?

– Não… ela está bem. A vila ainda está sofrendo ataques, mas ela está bem.

– Está abatida, o que houve?

Scarlet o encara. A expressão dele é de preocupação, não há um traço sequer que a faça duvidar dele, um traço que demonstre qualquer razão para desconfiar. E, neste momento, ela percebe o que o seu coração vem dizendo e lhe revelando aos poucos.

– Não foi nada, acho que talvez esteja ficando resfriada ou algo assim.

Ele sorri fracamente para ela, um sorriso que não se prolonga e ela sabe que ele não acredita em suas palavras, mesmo que não as contradiga ou cobre a verdade.

– Pode me preparar um chá? – Ela pergunta, em resposta.

– Sempre. – Ele responde, indo colocar a água para ferver e despejando ervas numa caneca.

– Luko?

– Hum… – Ele responde automaticamente, sem encará-la, concentrado na preparação do chá.

– Eu amo você.

As palavras são suficientes para lhe despertar a atenção. Scarlet se aproxima e o abraça com força, sendo retribuída com o mesmo afeto.

– Também amo você, Scarlet.

Seus olhos se encontram e ela percebe que não há com o que se preocupar, as pessoas tendem a repudiar tudo que é desconhecido, livre e diferente. Luko representa tudo isso e deu a ela sua liberdade. “Não é um assassino”, ela pensa, logo antes dele beijá-la e ambos deixarem que a paixão os incendeie.

***

Scarlet acorda no meio do dia, a sensação de enjoo retornara e ela, mesmo com o sol fraco de inverno que é incapaz de derreter a neve, sai às pressas da cabana para colocar tudo que comera para fora.

Uma tontura lhe acomete e ela volta lentamente para dentro. É então que ela percebe que Luko não estava deitado ao seu lado e não está na cabana.

– Luko? – Ela chama, parada à porta.

Mesmo chamando repetidas vezes, não há resposta ou sinal dele. Os lobos também não estão aglomerados ao redor da cabana, como de costume, com exceção de Skyllar, que a olha interessado.

– Onde todos foram, Skyllar? – Ela diz com a voz ainda trêmula, o que faz com que o lobo se aproxime.

Scarlet se senta no chão e acaricia o pelo grosso, mas também macio, do lobo.

As horas parecem passar com lentidão, como se alguém arrastasse o sol em sentido contrário para que ele se demorasse mais no céu.

Cansada e entediada, sem conseguir dormir ou comer sem que outro vômito lhe acometa, Scarlet veste sua capa escarlate, admirando o tecido vivo e brilhoso, que tanto lhe agrada.

O manto lhe cai cobrindo-a completamente e ela julga que, com ele, estaria suficientemente coberta do sol fraco que ainda toca a floresta.

Ela parte em direção a trilha, seguida por Skyllar de perto, e, sem dúvidas não desejando retornar a vila, segue a direção da casa de sua avó.

Rubi está do lado de fora, recoberta dos pés à cabeça, carregando um feixe de lenha para dentro de sua casa. A avó a vê à distância e para em seu trajeto. Mesmo com o grande animal que acompanha Scarlet, ela não parece se abalar, esperando que a neta se aproxime.

– Olá vovó. – Scarlet diz, a poucos metros da avó.

– Ele deve ficar do lado de fora, se não se importa. – As palavras não são duras, mas a ordem é verdadeira.

Scarlet assente com a cabeça e dá uma ordem para que Skyllar não a siga para dentro da casa, ainda que já imaginasse que ele não a seguiria de tal maneira. Fechando a porta atrás de si, ela segue com os olhos os movimentos ágeis da avó para colocar mais lenha na lareira e atiçar o fogo, que deixa o ambiente com um calor acolhedor.

A avó não se dá o trabalho de se sentar e chamar Scarlet, que parte para abraça-la antes mesmo de retirar sua capa fria pela temperatura exterior.

– O que houve, minha neta? Me conte.

– Ah vovó! Tanto…

Embalando a neta como costumava fazer quando ela era pequena, lhe trançando os longos cabelos ruivos, Rubi deixa que ela leve o tempo que precisa para falar.

– Estive na vila na noite passada, fui ver mamãe. Não tinha ideia de como as coisas lá estavam… ruins. A feira sequer funciona mais e todos ficam trancados dentro de suas casas temendo um ataque…

Scarlet percebe que suas mãos estão trêmulas, sem saber ao certo se seria por causa do frio que não queria abandonar seu corpo, pela falta de alimento ou pelas lembranças. Ela aperta suas mãos junto ao corpo para disfarçar.

– E mamãe me disse que há um culpado, além dos animais… – Sua voz começa a falhar e ela para por um instante. – … ela o chamou de assassino, vovó! Assassino! – A raiva agora toma o lugar da tristeza. – Como se eu não soubesse… como se não pudesse saber…

A avó permanece em silêncio, esperando que todas as palavras desejadas fossem ditas. Quando Scarlet termina, ela se senta à sua frente, enxugando com um lenço o rosto banhado da neta.

– O amor às vezes nos deixa confusos, sem saber no que acreditar.

– Mas vovó… – Apenas o olhar sincero da avó é o bastante para que ela se cale.

– Não digo apenas em relação à Luko, minha neta amada. Ficamos sempre com os sentimento alterados quando se trata de qualquer um a quem amamos. Se tem certeza de que ele não é culpado, não se recrimine por amá-lo. O amor é o único sentimento que é impossível sempre escolher a quem dar.

– Você acredita em mim?

– Acredito que você deve tomar suas próprias conclusões e decisões. Faz parte do crescer, minha neta. E escolher confiar em seu amado é uma opção unicamente sua.

Scarlet conhecia a avó bem demais para querer exprimir-lhe qualquer resposta mais direta do que essa, não insistindo no assunto. Rubi percebe quando o nó que a neta sentia em seus pensamentos começa a se desatar.

– Acho que está muito pálida e provavelmente com fome, por estar acordada a esta hora do dia, estou certa?

– Sim vovó… apesar que, toda vez que como, parece que meu corpo se revolta com a ideia e não consigo digerir coisa alguma.

– Hum… veremos o que posso fazer.

Rubi logo prepara uma sopa que, apenas pelo cheiro, abre o apetite de Scarlet, que devora duas tigelas cheias em pouco tempo.

– Bem, talvez não tenha sido uma boa ideia comer tanto assim… – Diz Scarlet, correndo para fora da casa tão logo percebe que não conseguirá reter a comida. Já está se sentindo fraca e tonta novamente.

– Acho melhor você se deitar um pouco. – A avó recomenda, já levando-a em direção à sua cama e fazendo-a se sentar para que retire suas botas.

– Não posso vovó, Luko ficará preocupado quando retornar… – Ela fala sem muito ardor e se recorda que não sabe onde Luko fora, sem tampouco avisá-la.

Assim que deita na cama ela deixa seu corpo descansar e todo o mal estar se dissipar no sono.

… Continua…

Não esquece de contar o que está achou da história até aqui e me dizer o que espera da parte final!!! Nos vemos em breve!

xoxo

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