A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte III/VI

Em 08.12.2016   Arquivado em A Garota da Capa Escarlate, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite pessoal!

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Terceira parte de Scarlet, A Garota da Capa Escarlate, com vocês, sem delongas nem blá blá blá hoje. Só lembrando que a parte um e dois podem ser acessadas aqui e aqui ou pelo Wattpad aqui!

Scarlet – A Garota da Capa Escarlate – Parte III

Scarlet apenas se vira, sorrindo para a avó, que acena enquanto ri para a neta.

Não demora muito para que Scarlet aviste Luko na trilha, esperando pacientemente por ela.

– Oi estranho! – Ela diz.

Ele lhe retribui com um sorriso e apenas um ‘oi’. Os dois começam a percorrer o caminho de volta para a casa de Scarlet em silêncio.

Logo ela nota que alguns lobos os acompanham, alguns mais à frente na trilha, como se soubessem qual caminho os dois seguiriam, alguns mais afastados atrás deles, e outros espalhados na mata, mas ainda assim, acompanhando o passo dos dois.

– Como você faz isso?

– Acho que precisa ser mais específica. – Ele diz, erguendo as sobrancelhas.

– Os lobos! Tudo isso! – Ela fala indicando nas direções que vários animais os seguem.

– Ah, sempre me dei bem com animais, mesmo os selvagens… mas aqui foi um caso diferente. Quando cheguei nestas terras, foi através do mar. Fui explorar a floresta e acabei me perdendo. Um dos lobos tentou me atacar…

– Minha nossa! – Interrompe Scarlet, cobrindo a boca com as mãos pela surpresa. Ela ri em seguida.

– Me desculpe, continue.

Sorrindo, Luko continua a contar. “Nós brigamos e, como está bem claro, eu venci. Como o animal não desistiu da luta, fui obrigado a lhe tirar a vida. Depois disso, todo o bando me cercou. Naquele momento tinha certeza de que era meu fim. Mas, ao invés de me atacar, um deles começou a uivar e os outros o seguiram. Todos uivando ao meu redor. Foi uma sensação diferente de qualquer coisa que já tenha vivido, foi muito bonito. Desde então eles me seguem, como se eu fizesse parte da alcateia.”.

– Eles o aceitaram como seu líder, o alfa da alcateia. – Scarlet diz. – O que é muito interessante, mas também muito inesperado. – Ela fala, sorrindo.

– Sim, é verdade. – Ele sorri em resposta.

À distância, algumas luzes tremeluzindo já podem ser vistas, indicando que a vila não está muito distante.

– Acho que seria melhor nos despedirmos. – Scarlet diz, cessando seus passos e parando de frente para Luko.

– Achei que poderia acompanha-la até a vila. – Ele diz, levantando uma de suas sobrancelhas.

– Bem, as pessoas aqui reparam demais e, de todo modo, minha mãe já deve estar do lado de fora me esperando. São só mais alguns metros, posso ir sozinha.

– Claro, não quis dizer que não poderia ir sozinha, apenas que gostaria de acompanha-la.

– Sei disso. – Ela diz, enquanto seus dedos passam delicadamente na barba rala e bem aparada de Luko, que se curva, e a beija intensamente.

– Bem, agora preciso mesmo ir. Tenho muito que fazer antes do sol nascer.

– Quando posso encontra-la novamente, Scarlet? – Seus olhos não deixam que os da jovem se desviem, são profundos e ansiosos.

– Sairei para caçar amanhã, tome cuidado para não ser espetado por uma de minhas flechas novamente. – Ela responde, dando passos para trás, se afastando em direção à vila e sorrindo de maneira travessa.

Scarlet sai da floresta e caminha até a beirada que inicia a vila. Os lampiões estão acesos e toda a rua principal está barulhenta e movimentada. Ainda faltam algumas horas para o sol nascer, o que significa que a feira ainda irá durar um bocado.

Mas, como ela se sente cansada, segue direto pelo caminho da extremidade da vila, até sua casa. Como ela imaginara, sua mãe está sentada do lado de fora da casa, costurando um rasgo na bainha de seu vestido e com seu pé apoiado em um banco.

– Olá mamãe!

– Ah, graças aos céus! Porque a demora Scarlet? Achei que chegaria mais cedo! – Camélia sempre se preocupava demais com a filha. Fosse com o fato dela ainda não ter se casado e já ter chegado aos vinte anos de idade, fosse com ela andando e caçando sozinha na floresta, fosse com os namorados que ela semeava pela aldeia, fosse com sua insensatez de querer ver o sol nascer todas as madrugadas.

– Mamãe, honestamente, estou cansada e vou me deitar. Não tem porque se preocupar, já trilhei este caminho centenas de vezes e é provável que faça mais algumas centenas.

– Ainda assim, ficou fora tempo demais. Não sabe o que ocorreu hoje?

– Como assim, o que ocorreu? – A garota indaga.

– Josué, o filho mais novo do pastor Ictório, foi atacado nesta tarde. Ele disse que vários lobos acuaram o pobre menino quando ele cuidava do rebanho, mas ele não chegou a tempo.

– Como assim não chegou a tempo? – Scarlet pergunta, perplexa.

– Ele morreu Scarlet! Os lobos atacaram o pobre menino. Não havia sequer completado quinze anos… O pastor viu tudo mas não conseguiu alcança-lo a tempo.

Scarlet se senta de uma vez na cadeira da cozinha. A ideia de uma criança como Josué ser atacado por lobos. Devorado. Parece algo irreal. Lágrimas brotam instantaneamente em seus olhos. Ela costumava brincar com Josué e seus irmãos quando era pequena e as memórias agora lhe pareciam vagas e sem sentido.

– Oh Scarlet… – Camélia abraça a filha, que pranteia em silêncio. – Sinto muito, mas é por isso que me preocupo tanto com você. A floresta está se tornando perigosa demais.

Depois de algumas horas, Scarlet enfim vai para seu quarto dormir. Mas, sempre que seus olhos fechavam, tudo que ela via eram imagens de lobos ferozes atacando Josué. Como se ela tivesse presenciado o ataque, sua morte.

Não aguentando mais permanecer deitada, ela levanta da cama e sai pelos fundos da casa. O sol fraco que acabara de nascer banha a frente da casa, o que traz uma sombra acolhedora para uma pequena parte dos fundos.

Era o máximo de sol que ela pode ver. Ele toca os topos das árvores e se infiltra por lugares que somente a luz é capaz de passar, dando um colorido especial a cada tom de verde e marrom. O céu está límpido e nenhuma nuvem o cobre.

Scarlet sempre ansiava por sentir seu calor em sua pele. Deixar que ele trouxesse mais vida como fazia com a natureza. Mas, das poucas vezes que se aventurara, sempre ficava irremediavelmente doente logo em seguida. Com queimaduras e feridas onde o sol lhe tocara e sempre muita febre. Não eram sensações que desejava sentir novamente.

Ela se senta no beiral da porta e espera até que o sol comece a subir no céu e não haja mais espaço para que ela permaneça do lado de fora, sentindo seu calor vibrante.

Quando o sol já está alto suficiente para que não haja mais sombra para que ela fique, Scarlet volta para dentro de casa, fechando a porta pesada e passando a cortina que impede que a claridade e os raios de sol entrem. Ela então volta para sua cama e se deita, desta vez, caindo em um sono leve, sem sonhos.

***

– Desculpe mamãe, mas não vou voltar a discutir isso com você. – Diz Scarlet, terminando de encher seu arco de flechas e prendendo-o em sua cintura.

– Scarlet, tenho certeza que a vila pode resolver este problema de alguma outra forma…

– Não mamãe. – Scarlet diz baixo, mas em tom firme, parando de frente para sua mãe, que lhe encara angustiada. – Sei que está preocupada com os ataques, mas eu sei me defender na floresta. Nenhum deles ocorrera na floresta, provavelmente nem é a mesma alcateia que está realizando os ataques. E ambas sabemos que o inverno está se aproximando e que, manter a vila abastecida antes que fique impossível sair na neve densa, é indispensável.

Camélia apenas assente. Sabia que a vila dependia da caça também, já que os rebanhos não eram direcionados à alimentação do povo, mas apenas à produção da lã, que sustentava o reino como forma de pagamento dos impostos.

– Enviaram um pedido à rainha, não é mesmo? – Pergunta Scarlet.

– Sim, pediram que soldados viessem até a floresta para matarem os animais assassinos.

– Então, esperemos que a majestade traga justiça à esta terra, estamos sob os cuidados dela, afinal de contas. Enquanto isso, vou caçar. Como sempre fazemos.

Scarlet sai da casa após o debate exaustivo com a mãe. Ela entendia sua preocupação, mas, também, achava que a mãe lhe dava pouco crédito em se tratando de suas habilidades de caça.

O início da noite estava mais frio, indicando a passagem rápida dos dias. O outono já começava a se despedir e era tempo de se preparar para o inverno.

O vento gelado entra pelo tecido do vestido de Scarlet e ela se encolhe em sua capa, enrolando o tecido vermelho ainda mais próximo de seu corpo. O manto pesado da capa traz maior conforto ao evitar a entrada do vento e ela sorri ao lembrar do que dissera à sua mãe, que a capa fora um presente de sua avó, pelo aniversário passado.

Quando a jovem já está se posicionando em um dos seus pontos de caça, vê um grande lobo acinzentado, que ela identifica como Skyllar, se aproximando dela. Desta vez, o animal não emite nenhum barulho raivoso ou intenção de ataque e ela entende que isso só pode ser o sinal de que Luko está por perto.

Não demora para que ela o aviste caminhando entre a mata, também segurando seu arco e flecha e uma bolsa de couro trespassada em seu dorso.

– A garota da capa escarlate. Devo dizer que fica bem fácil encontra-la na floresta com ela. – Ele fala sorrindo, quando já está a poucos passos de distância.

– Talvez não seja muito inteligente de minha parte usá-la, mas não consigo deixar de fazê-lo, tampouco. – Com sua resposta, Luko já está parado à sua frente e coloca suas mãos em sua cintura.

– E porque seria assim?

– Acho que me faz pensar em alguém… – Ela responde, enquanto espicha seu corpo para que seus lábios alcancem os de Luko.

Scarlet sente que até mesmo o tempo se interrompe para observá-los. Como se nada mais precisasse correr, não enquanto estivessem juntos.

– Estava pensando, podemos caçar juntos, hoje?

– Acho que não seria má ideia. – Ela responde.

– Bem, digo todos nós, o que inclui eu, você e eles.

– Eles? – Um vinco se forma entre as sobrancelhas de Scarlet e Luko aproveita para passar a ponta de seus dedos sobre ele, fazendo com que sua expressão se suavize sob seu toque.

– Sim, a alcateia.

– Ah… e como exatamente seria isso?

– Eles farejam, encontram a presa e nós a abatemos.

– Interessante.

Como planejado, Luko chama os lobos que o acompanharam. Não é toda a alcateia que está presente, apenas meia dúzia de animais. Quando ele assobia, os animais partem em disparada pela mata.

Luko encara Scarlet, com um sorriso enviesado:

– Agora, nós corremos.

Ele parte em disparada atrás dos lobos e Scarlet se detém um instante para prender suas saias acima dos joelhos, lhe permitindo que corresse com maior liberdade. Ela é ágil e rápida e não demora a alcançar Luko na corrida. Quando um alto uivo é ouvido, eles chegam à um intricado de troncos, onde os lobos estão cercando um javali selvagem.

Luko coloca a flecha em seu arco e se prepara para disparar, mas antes disso, uma flecha passa zunindo por ele e acerta o animal com precisão.

– Rápida…

– Você que é muito lento! – Ela se gaba.

Os lobos não demoram a se afastar do animal abatido e saem em disparada pela floresta.

– Onde eles vão?

– Caçar, para eles, é claro.

Scarlet assente. É claro, são animais carnívoros.

– Isso é roubar. – Ela diz.

– O que? – Ele fala, enquanto ambos se aproximam e começam a amarrar as patas do animal abatido para ser carregado até a vila.

– Eles fizeram a parte mais difícil, encontrar o animal. – Luko ri.

– É mesmo?

– Acho que sim.

– Então porque disparou a flecha?

– Porque queria fazê-lo antes de você. – Ela responde, sorrindo de maneira travessa novamente.

Os dois caminham juntos em retorno à vila, carregando o javali, cada um pela madeira que segura suas patas amarradas.

– Luko, você já viu outras alcateias por aqui?

– Bem, desde que cheguei só tive contanto com essa. Mas como geralmente uma não entra no território da outra, acho difícil que eu venha a ver.

– Hum…

– Porque a pergunta?

– Bem, lobos têm atacado as pessoas, na vila e nos arredores. Isso nunca ocorria, mas, ultimamente… não sabemos o que fazer ou o que pensar. A floresta sempre respeitou seus limites e os animais estão simplesmente atacando as pessoas, não estão caçando para se alimentar ou qualquer outra coisa assim.

– Isso é… estranho. Você acha que os lobos da minha alcateia estão fazendo isso?

– Eu não sei, você acha?

– Dificilmente um comportamento assim me passaria despercebido.

– Imaginei isso. Minha mãe nem queria que eu saísse para caçar, ela teme que eu seja atacada também.

– E você?

– O que tem eu?

– Também teme por isso?

– Não, não com você aqui.

As palavras de Scarlet põe fim à questão. Ela se sentia segura e, os lobos pareciam muito menos selvagens quando se era possível vê-los assim tão de perto.

Depois que eles deixam o animal abatido no açougue da vila, eles partem para a feira, que está movimentada.

– É sempre assim, a vila ganha vida durante a noite? – Luko pergunta.

– Sim, quase todos aqui sofrem da doença do sol. São poucos os que podem sair ao sol e, mesmo estes, acabam se adaptando à rotina noturna.

– E foi sempre assim?

– Desde antes de minha avó nascer, pelo que minha avó conta.

Scarlet compra duas garrafas de sidra no balcão da estalagem e Luko e ela se sentam em uma das mesas. Algumas pessoas encaram de maneira desconfiada o casal.

– Não ligue para eles. – Scarlet diz.

– Sequer havia notado. – Luko fala com graça, fazendo Scarlet rir.

– Bem, não é uma questão apenas de falta de hospitalidade. Minha família não é muito bem vista por aqui, ou talvez seja algo comigo.

– E porque isso, se me permite a pergunta. – O assunto jamais fora tabu para Scarlet, que responde prontamente.

– Bem, digamos que parti alguns corações, mas não foi intencional. Eu apenas não via razão para flertar com apenas um dos garotos, sendo que mais de um deles mostrava interesse. – Luko ri da resposta.

– Realmente, também não vejo porque flertar com apenas um de cada vez. – Ele responde, ainda rindo.

– Sim, totalmente descabida esta inimizade. – Ela diz, batendo a garrafa na mesa com um estalo, depois de um longo gole.

Quando os dois terminam de beber, saem da estalagem. O ar já está frio, indicando que a cada dia, mais o outono se afasta e deixa o inverno se aproximar. As árvores já estão, em sua maioria, desfolhadas e apenas um tapete de folhas amareladas e avermelhadas cobrem o chão.

– Vamos andar um pouco. – Diz Scarlet, lhe estendendo a mão.

Os dois caminham sem rumo até parar num canto afastado da cidade, longe dos barulhos e tumulto das pessoas, beirando novamente com a floresta.

– O povo da cidade chama esta floresta de Grande Floresta, porque divide as terras de três reinos e alguns temem adentrá-la.

– Isso é ridículo. É só uma floresta, como qualquer outra… apesar de que eu não conheço outras florestas, de fato. – Ela diz, sorrindo, ainda o calor da bebida em suas bochechas.

Os dois param abraçados um ao outro, próximos às sombras das árvores da borda da floresta, nenhuma outra alma ao redor deles para os incomodar, Luko repara.

– Já quis deixar a vila?

– O tempo todo, mas é um pouco impossível quando não se pode caminhar à luz do dia.

– Difícil, não impossível. Acho que você gostaria de conhecer minhas terras. De onde venho, as coisas são bastante diferentes.

– Diferentes, como?

– Apenas diferentes… – Ele responde, curvando-se sobre ela e beijando-a com ardor.
Scarlet responde ao seu toque e sente-se como se fosse fluida, sem saber ao certo onde começava seu corpo e onde terminava o dele. As mãos de Luko habilidosamente sobem a saia do vestido de Scarlet, fazendo com que ela estremeça com o toque da brisa fria e da pele na pele. Sem que seus lábios desgrudem uns dos outros, ele a suspende em seu colo com as costas apoiadas em uma árvore para então dar vasão ao êxtase.

Um barulho sutil surge nos arredores, mas apenas Luko percebe. Olhando na direção que surgira, ele vê a sombra de um rapaz magricela, esgueirando para longe do casal.

– Algo errado? – Pergunta Scarlet, com a voz preocupada.

– Não, está tudo bem. – Ele responde, sorrindo de modo sedutor para Scarlet e voltando a beijá-la e a desfrutar de seu corpo.

Luko não se aborrecera com o rapaz enxerido, uma vez que Scarlet não notara sua presença para que se interrompessem. Na verdade, se tratava mais do fato dele gostar de ser observado do que realmente se importar.

***

– Onde esteve? – A mãe de Scarlet está sentada na poltrona velha perto da lareira, com os pés para cima em um banquinho e costurando um tecido puído.

– Caçando mamãe, como sempre. Depois levando a caça até o açougue, como sempre, também. – Scarlet responde, impaciente, enquanto dependura sua capa escarlate ao lado da porta.

– Você demorou muito, o sol já vai nascer. – A mãe não desvia os olhos da agulha para falar.

– Agora preciso marcar a hora para voltar para casa? Ou combinar com os animais que devem ser presas mais fáceis para que eu possa voltar para casa mais cedo?

– Não foi o que quis dizer, Scarlet, sabe disso.
– Não mamãe, não sei! O que é? – A garota já responde em tom alto, com as bochechas queimando de nervoso, perdendo a paciência com a mãe, que continua a costura, indiferente à raiva da filha.

Antes que Camélia pudesse responder, contudo, soam duas batidas fortes na porta.

– Está esperando alguém? – Scarlet pergunta para a mãe, de modo mais brando.

– A esta hora, de maneira alguma, filha.

Scarlet vai até a porta e abre uma pequena fresta.

– Tamai, o que faz aqui? – Fala Scarlet, abrindo um pouco mais a porta quando reconhece o rapaz franzino que está à porta.

– Ah, Scarlet! Posso falar com você um instante?

Scarlet não responde de imediato, encarando o jovem, que parecia estar apressado para alguma coisa, com os braços cruzados e os pés inquietos.

– O sol já vai nascer, Tamai, não posso me dar ao luxo de andar por aí agora, como você. – Ela responde, de maneira ríspida.

– Ah… sim, é rápido, prometo. Só um minuto. – Ele fala as palavras tão rapidamente que parecem atropelar umas às outras.

Scarlet empurra a porta para fechá-la e Tamai coloca a ponta de sua bota para impedir que a porta se feche.

A distância, Scarlet ouve a mãe perguntar quem está à porta.

– É sobre o forasteiro. – Ele fala, de maneira firme, a encarando com ansiedade, apesar da palavra forasteiro parecer um palavrão em sua boca.

– Sim, estou aqui, o que é? – Scarlet pergunta, fechando a porta de casa atrás de si e se encolhe pelo frio da madrugada que ainda não fora espantado pelo sol, cruzando os braços ao seu redor.

A memória de Scarlet não deixaria que ela se aquecesse, de toda forma. Há algum tempo, sua maior distração era flertar com vários rapazes da aldeia. Às vezes dava esperança suficiente à um ou outro para que eles pensassem que ela desejava namorá-los. Bastava que um pedido fosse feito para que ela fugisse e se interessasse por outro. Tamai fora um deles e, quando Scarlet pensou que talvez pudesse aceitar seu pedido, ele descobrira que ela se encontrava com mais dois outros jovens da vila.

Então, Tamai contou não apenas para os outros dois garotos, mas durante a feira noturna, para todos que quisessem ouvir, de maneira a ridicularizá-la, em público. A notícia de que ela se enamorava com vários rapazes logo foi suficiente para que todos a olhassem com maus olhos e para que o desprezo fosse o único sentimento que qualquer pessoa demonstrasse por ela e por sua mãe, apesar de não com tanta intensidade, em consequência.

– O que tem ele? – Ela pergunta, tentando afastar as lembranças.

– Se afaste dele, Scarlet. É melhor que ele vá embora, não é bem-vindo aqui na vila.

– Claro, porque a vila é muito hospitaleira. Me chamou apenas para dizer tais bobagens? Honestamente, tenho mais o que fazer. – Ela fala, voltando-se para a porta de sua casa. Ele ri forçadamente e segura o ombro de Scarlet.

– Não me toque! – Scarlet fala alto, a raiva lhe tomando de uma só vez.

– Desculpe, não quis… – Ele parece desconsertado por um instante e, muda de ideia. – Sabe, não dou a mínima para o que você faz da sua vida ou do seu corpo Scarlet, mas aquele homem é perigoso e não queremos ele aqui. Já o vi andando com os lobos e são esses animais que estão atacando e matando as pessoas.

Scarlet leva um instante até processar as palavras que lhe foram ditas.

– Como assim o que faço de minha vida e de meu corpo? Está pensando…

– Ah, não me venha com falsas ofensas! – Tamai a interrompe. – Eu os vi na borda da floresta, copulando como se fossem animais no cio! – Ele cospe cada palavra na face de Scarlet.

Em retribuição, ela lhe dá um forte soco em seu olho esquerdo. O impacto é tão forte que ele desequilibra e dá vários passos para trás, colocando suas mãos no rosto.

– Você me enoja, Tamai. – Suas palavras saem baixas, mas claras o suficiente para que ele sinta cada uma delas.

Scarlet segura com firmeza as lágrimas que tentam brotar de seus olhos e cospe no chão, em direção à Tamai, que a encara com raiva e incredulidade. Ela segue para dentro de casa pisando forte no chão, como se a madeira também tivesse culpa de sua raiva.

Ela bate a porta da casa com força e se deixa encostar nela, com as lágrimas agora escorrendo livremente de seus olhos, sua mão latejando pelo golpe e seu peito arfando pela raiva que queima suas bochechas.

– Scarlet, o que é? – Sua mãe pergunta, claramente ainda costurando perto da lareira.

– Nada mamãe. – Ela responde tão baixo que é provável que a mãe não tenha lhe escutado.

Ela corre suas mãos por seu rosto, para afastar as lágrimas e se dirige para seu quarto, onde se joga na cama, deixando que toda raiva se esvaia por suas lágrimas até adormecer.

…Continua…

E então, o que está achando da história?? Não esquece de me contar e voltar para ler a próxima parte que logo logo sai!

xoxo

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