Scarlet – A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte I/VI

Em 23.11.2016   Arquivado em A Garota da Capa Escarlate, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite para todos e todas!

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O mês de novembro já está quando terminando e, finalmente a prometida história para este mês, será compartilhada aqui no blog! Esse mês foi um pouco punk, por assim dizer e, no fim das contas, levei muito mais tempo que o habitual para terminar a história que já havia sido iniciada lá pra meados de outubro.

Fugindo um pouco das princesas, já que as histórias que compartilhei até então foram Cinderella e Aurora, é a vez de uma história que não envolve a realeza. Por algumas questões filosóficas (cof* cof* ahaha) pessoais, a história não se chamará Chapeuzinho Vermelho, mas sim Scarlet – A Garota da Capa Escarlate, e, para entender a associação, especialmente no plano metafórico também, leia e acompanhe a história. O nome principal foi adicionado no título para seguir a linha das histórias anteriores, que levaram o nome de suas protagonistas.

A ideia para escrever esta história veio enquanto eu escrevia Aurora e divulgava Cinderella, da fofa Salieri, que conheci através do grupo Confraria dos Blogueiros Escritores. Valeu pelo incentivo! Foi divertido escrever essa história, ela tomou forma antes mesmo de ir pro papel e, a depender do meu humor, vai ganhar postagem extra com final alternativo… rsrsrs

É incrível como um conto pode gerar tantas especulações, teorias, confabulações. E Chapeuzinho Vermelho tem muitas vertentes, pesquisei algumas e li várias versões do conto até formar o que viria a ser esta história, ainda que com um título diferente, mas não menos clichê, admito. Sem mais ladainhas, fiquem com…

Scarlet – A Garota da Capa Escarlate – Parte I

– Tome cuidado, Scarlet.

– Eu sempre tomo, mamãe. Além disso, não sei se os ataques eram realmente, de lobo. Há algo de estranho nisso.

– Até o médico da cidade disse que foram lobos, não sei porque você insiste em outra coisa.

– Porque os lobos estão na floresta há mais tempo do que essa vila e nunca houveram ataques. Pelo menos não com as pessoas da vila, sempre ocorre de um ou outro aventureiro se meter com os bichos da floresta sem os conhecer…

– Ah, se pelo menos minha perna estivesse boa, para que eu pudesse lhe acompanhar.

– Mamãe, já fiz isso inúmeras vezes sozinha. E, temos de caçar. O pão não vai chegar a nossa mesa sozinho.

A mãe de Scarlet balança a cabeça em concordância. Apesar de saber que a filha fora bem treinada, receava que ela passasse muito tempo sozinha na floresta. Os perigos eram sempre imprevisíveis.

Scarlet veste sua longa capa preta e coloca sua faca de caça no cinto do seu vestido. Sua aljava está cheia e ela lhe ata na cintura, carregando o arco com uma de suas mãos.

Quando a jovem sai de casa a lua está alta no céu e o movimento na cidade é pequeno, apenas alguns homens entrando na taberna que acabara de abrir e um ou outro comerciante preparando suas carroças para a feira.

Adentrando na Grande Floresta, Scarlet sente o ar gelar. Se durante o dia o ar ficava abafado e morno, a noite uma brisa gélida, que penetrava qualquer tecido, estava sempre presente.

Ela já tinha seus pontos preferidos para caçar e se dirige às proximidades do lago à sudoeste. Alguns animais tinham hábitos noturnos e eram sempre presas mais fáceis quando entravam no descampado.

Sua avó certa vez lhe dissera que não se deveria caçar dessa forma, que era necessário competir com o animal, que ambas as vidas deveriam estar em jogo. Era desleal procurá-los em um momento em que vão se alimentar.

Por mais que as palavras da avó parecessem vagas, à época, Scarlet não conseguia deixar de pensar nelas toda vez que saía para caçar.

A garota estava posicionada entre as árvores e oculta por arbustos altos. O local era perfeito. Não demora para que um gamo apareça desavisado para beber água. A flecha é colocada no arco e a corda é esticada ao máximo. Com os músculos tencionados, ela faz a mira direto no coração do animal. Preparada para atirar, é impedida quando um rosnado baixo, mas que faz os pelos de sua nuca se erguerem, soa atrás de si.

Prendendo a respiração, Scarlet se vira de maneira lenta, até que consegue ver um grande lobo cinzento rosnando em posição de ataque. O animal dá pequenos passos em sua direção e ela mantém a flecha apontada para ele.

Lobos não atacam sozinhos, teria de haver outros por perto. “Se eu disparar a flecha, outros me atacarão.”. As mãos de Scarlet estão tremendo sob o esforço prolongado de manter o arco teso.

Sem saber exatamente a razão, ela desarma o arco e, abaixando-se lentamente, aproxima sua mão do animal, que para de rosnar, mas não deixa a posição de ataque.

– Está tudo bem. – Ela diz mais para si mesma do que para o animal.

Um uivo alto faz com o lobo se aprume e saia correndo pela imensidão da floresta, deixando o coração de Scarlet, ainda que disparado, menos pesaroso.

– É isso que acontece quando se anda sozinha pela floresta, Scarlet. – Fala a garota em tom de reprovação, lembrando do que provavelmente sua mãe lhe diria.

Alguns arbustos não muito distantes farfalham, atraindo sua atenção, de uma maneira que ela tem certeza se tratar de um animal grande. “Uma presa fácil. Talvez seja este o infeliz que irei abater hoje.”. Com um movimento rápido, ela pega arco e flecha novamente e, mesmo sem ver o alvo, dispara a flecha.

O urro alto que soa indica claramente que o alvo fora atingido, mas também que não se trata de um animal da floresta.

– Oh céus, o que fiz? – Scarlet corre na direção dos arbustos e vê um homem deitado no chão, com uma flecha cravada em seu ombro.

Ele lhe aponta uma faca de caça, com a expressão severa, fazendo com que a jovem recue alguns passos e saque sua faca também.

– Quem é você? – Ele pergunta.

– Devo lhe fazer a mesma pergunta senhor, já que está a pouca distância da única vila da região, e posso dizer, com certeza, que não veio de lá.

O homem parece se divertir com a resposta que recebe.

– Então você é uma garota da vila que sai atirando flechas para qualquer movimento que vê na floresta?

Scarlet permanece calada e encarando o homem. Sorrindo como estava não parecia tão ameaçador. Ela repara que seus traços são marcantes e a barba curta confere um ar mais sóbrio ao seu rosto. Seus olhos são escuros e profundos, bonitos. “Ele é bonito.”, ela logo pensa, enquanto repara o sangue que escorre pelo lugar em que a flecha lhe atingira e faz com que sua blusa fique grudada ao corpo, realçando os músculos bem definidos.

O homem se levanta com agilidade apesar de não usar o braço ferido e lhe estende a mão direita, mesmo sendo o lado que tivera o ombro atingido.

– Sou Luko. – O sorriso não o deixa.

Scarlet pensa por um momento, mas não conseguia ver nenhum perigo no homem ferido. Estendendo sua mão, ela responde:

– Scarlet.

– É um prazer conhecê-la Scarlet, ainda que em circunstância tão… – Ele parece não saber como completar a frase.

Estranha? – “Para dizer o mínimo.”, ela completa mentalmente, esboçando um leve sorriso.

– Sim, estranha.

– De onde veio, Luko?

– Vim do além mar, das ilhas oceânicas. Estou viajando para conhecer lugares novos. Ainda não sabia que havia uma vila na região.

– Entendo.

– Você mora lá?

– Sim.

– Sabe se há algum médico ou algum curandeiro? Preciso que alguém dê alguns pontos nisso. – Ele indica a flecha com a cabeça.

– Lamento por isso. O barulho fez com que eu pensasse que era algum animal.

– Foi tolice minha, de toda forma. Deixei cair meu cantil e, quando percebi, tinha uma flecha me acertando.

Scarlet se sente ruborizar. Poderia ter matado alguém, por pura insensatez.

– Me acompanhe, levarei você até a vila e veremos o que pode ser feito.

– Obrigado, Scarlet.

– Não precisa agradecer, é o mínimo que devo fazer.

– Ainda assim, obrigado, senhorita.

Scarlet assente com a cabeça e os dois partem em sentido à vila. Os dois caminham silenciosamente até chegarem à borda da floresta, que faz divisa com a vila, que está movimentada. Por todos os lados pessoas transitam como se fosse a metade do dia. Crianças brincam com uma bola, carroças transitam para todos os lados e feirantes andam de um lado a outro com mercadorias.

– Achei que a vila estivesse adormecida. – Ele diz.

– Bem, a vila só adormece quando o sol chega.

Depois de caminhar por mais algumas ruelas, Scarlet para em frente à uma casa simples, feita de madeira e com ripas disformes.

Ela bate com força na porta principal e chama:

– Senhora Raphis! É Scarlet! Abra por favor!

Demora algum tempo até que uma senhora idosa abre uma fresta da porta, com a cara amarrada.

– Este homem precisa de ajuda, foi flechado e… – A porta bate na cara de Scarlet antes mesmo que ela ter terminado de falar.

– Hospitaleiros, hein? – Ele diz, com uma careta de dor ao mover o ombro.

– Ninguém aqui gosta de forasteiros. – “E de mim.”, acrescenta mentalmente. – Venha, daremos um jeito nisso.

Scarlet conduz Luko por mais algumas ruas, até chegar na cabana mais afastada da vila, toda feita em longas e bem aparadas ripas de madeira, iluminada por um archote dependurado ao lado da porta de entrada e pelas luzes que refletem do seu interior.

– Sente-se aqui, já volto. – Scarlet fala, indicando um largo tronco que fazia às vezes de um banco, próximo à entrada.

Ela entra na casa, pega um tecido limpo, linha, agulha e uma bebida forte. Luko está sentado exatamente da maneira que ela deixou, esperando-a. Ela colhe água do poço que fica a poucos metros da cabana e volta até onde ele está sentado.

– Bem, não há opções indolores de se retirar a flecha… – Ela começa a dizer, interrompendo-se para tomar um gole da bebida, depois oferecendo-o à Luko.

– Tudo bem, vá em frente, senhorita. – Ele diz, sem aparentar preocupação, após beber um gole demorado da bebida oferecida.

Scarlet vê que a flecha não entrado muito fundo. Não atravessou o ombro de Luko, tampouco. Segurando com força a haste da flecha, ela pergunta:

– Pronto?

– Dificilmente, senhorita.

Assim que ele responde ela puxa a flecha de só uma vez, que faz um rasgo ainda maior na pele. Luko faz um barulho abafado de dor.

– Desculpe. – Ela diz, estancando o sangramento com um pano e prometendo a si mesma que jamais atiraria novamente em um alvo que não pudesse ver. A garota começa a limpar o ferimento para então, dar pequenos pontos fechando-o.

– Você se comportou bem, lhe daria um doce se fosse uma criança. – Ela fala com o sorriso na voz.

E ele sorri em resposta. Scarlet se sente corar e o coração bater acelerado ao encarar o bonito rosto de Luko tão de perto.

– Sinto muito ter que deixá-lo, mas preciso entrar, tenho muitas tarefas a fazer antes que o sol nasça.

– É um espetáculo e tanto, porque não fica aqui fora para assisti-lo, senhorita?

– Não posso, nós não… podemos... Mas foi um prazer conhecê-lo, Luko. Espero que se recupere rápido e que nos encontremos novamente, em circunstancias mais… amistosas.

– O prazer foi meu, senhorita.

Scarlet volta apressada para dentro de casa e logo vê sua mãe observando pela fresta da porta.

– Quem era? – Camélia pergunta.

– Alguém em quem acertei uma flecha. – A jovem responde a mãe com indiferença, enquanto começa a tirar sua capa e vestido e a soltar os longos cabelos cor de fogo para dormir. – Acho que vou visitar vovó amanhã.

– O que? Não mude de assunto, filha. Como assim acertou uma flecha naquele homem?

– Uma falha minha mamãe, meu remorso já me é suficiente, poupe-me de seu sermão.

– Nunca o vi, de onde veio? Da cidade?

– Me disse que de ilhas afastadas. Agora se me permite, mamãe, vou dormir. A senhora não tem uma fornada para preparar ou algo assim? – Ela diz já se deitando em sua cama de palha e se cobrindo com um lençol fino.

A garota cai logo em um sono profundo, sonhando que visitava sua avó e, quando lá chegava, descobria que ela fora devorada por lobos.

Scarlet desperta assustada de seus sonhos, sua avó sempre lhe dissera que os sonhos, por mais estranhos que fossem, sempre trazem mensagens. Esse poderia ser assustador, mas não era difícil de ser interpretado.

O sol ainda demoraria para baixar e a garota se dirige até a cozinha, de onde o cheiro de tortas que enche seu quarto, origina.

– Já de pé?

– Não consigo dormir, tive um sonho ruim com a vovó.

– Hum… – Responde a mãe, sem dar muita atenção.

– E você, não dormiu porquê?

– Ah, não consegui pregar os olhos. –  A mãe responde, sem desviar os olhos da massa que ela abre na mesa da cozinha.

Scarlet prefere não entrar no assunto, com frequência sua mãe não conseguia dormir depois que seu pai morrera. Ela não sabia se era a cama vazia ao seu lado que aumentava o peso da ausência ou simplesmente se, ao fechar os olhos, as lembranças não a deixavam em paz. Como a mãe nunca respondia quando o assunto era esse, ela resolve mudar o rumo da conversa.

– Posso levar uma destas para vovó? – Diz Scarlet, apontando para uma das tortas que a mãe acabara de retirar do forno.

– Fico preocupada que vá sozinha até lá…

– Mamãe, já completei vinte outonos! Sei me defender, sei o caminho para chegar à casa da vovó e, não sou mais criança. – As bochechas de Scarlet estão escarlates por sua súbita raiva.

– Sei disso, mas é tarefa minha me preocupar.

– Não tem com o que se preocupar, mamãe. Quando a noite cair, vou sair. Passarei a noite e o dia lá, assim você não precisa se preocupar com o tempo ser curto para ir e voltar na mesma noite, tudo bem?

– Não creio que minha negativa vá adiantar de algo e, além disso, essa minha perna não está me permitindo fazer uma longa caminhada como essa.

Scarlet dá por encerrado o assunto com sua mãe. Não havia nada que a fizesse mudar de ideia. O sonho a preocupara de um modo como nenhum outro fizera antes e, por mais que desejasse poder sair à luz do sol, sabia que isso era algo inacessível para si.

Não podia sequer abrir as janelas para apaziguar o calor que o forno trazia à cozinha, já que isso a banharia de sol. Assim como quase toda a população da Vila do Cordeiro, Scarlet nascera com uma rara doença que impedia que ela tomasse qualquer raio de sol sem que sua pele se ferisse gravemente.

Sua avó, Rubi, havia há muito optado por viver na floresta, onde, por vezes, podia se aventurar a sair de dia, já que as árvores eram tão densas e cheias que não permitiam que o sol sempre se aventurasse por lá. Rubi fora outrora uma das caçadoras que fornecia carne ao vilarejo e ensinou o ofício à sua filha, Camélia e depois à sua neta, Scarlet.

A mãe de Scarlet, Camélia, havia se casado com um dos outros poucos caçadores da vila. Quando o pai de Scarlet faleceu, no que fora descrito como um ataque de lobos, há alguns meses, a jovem e a mãe assumiram sozinhas a tarefa da caça, para continuar a fornecer carne para o vilarejo.

Na última vez que foram caçar juntas, Camélia caiu em um barranco e machucou a perna, que, no momento, lhe impedia de sair para caçar e percorrer longos trajetos.

Scarlet passa o dia entediada, pensando no estranho que flechara na noite anterior e, o que ele estaria fazendo agora. Caçando, flertando com as moças da cidade, afinal, lá, as pessoas podem, de fato, ver a luz do dia. Provavelmente a segunda opção, deduz a jovem.

Quando o sol se põe, Scarlet já está pronta para partir, vestindo seu vestido de todos os dias e botas esfoladas. Seu punhal é logo colocado em seu cinto e ela se despede da mãe com um beijo na têmpora.

– Não está esquecendo de nada Scarlet? – Diz a mãe, segurando uma cesta recheada com tortas.

– Ah claro! – Scarlet fala, sorrindo.

A jovem sai em direção à floresta. Boa parte do movimento intenso da vila já está começando, enquanto os últimos lampiões das ruas são acesos.

Ela caminha em direção à margem da vila, que vai de encontro ao começo da Grande Floresta. A lua cheia está tão clara que, mesmo que seus pés já não fizessem aquele caminho automaticamente, encontrá-lo-ia sem dificuldade. Scarlet estava habituada a andar no escuro da mata, guiando-se pelas sombras e formas que a noite fazia surgir, já que nunca andara pela floresta de dia e, todo encanto que sentia pelo lugar, fazia-se pelas cores e formas que o luar lhe permitia conhecer. Ela segue cantarolando uma antiga cantiga que sua avó lhe ensinara.

 

Pela estrada da floresta o caminho é tortuoso

Cada árvore marca seu lugar no caminho

E a estrada é sempre solitária

para aqueles que a seguem

Cuidado com os animais

Eles podem estar à espera

Eles nem sempre estão

ou são

Aqueles que se espera

 

Scarlet sempre gostara de ouvir o som da sua voz reverberando pelo silêncio noturno da floresta. Ainda que sua mãe sempre insistira que o silêncio era o melhor meio de passar por lá, com frequência, a jovem sempre se sentia enfeitiçada pelo local e não resistia a cantar durante sua caminhada.

Quando ela já andara cerca de uma hora e sabia que o caminho estava por findar, ela ouve pequenos estalos não muito longe da trilha que leva à casa de sua avó. Parando de súbito, ela encara a escuridão, tentando fazer com que seus olhos vejam mais à diante.

Provavelmente, se fosse um lobo ou algum outro animal feroz, já teria avançado e se mostrado, fosse para atacar ou não.

– Quem está aí? – Ela pergunta em voz alta, segurando firmemente o punho de sua faca.

– Fico feliz em saber que agora pergunta antes de atirar. Ou seria porque não está com seu arco? – A voz de Luko faz um sorriso surgir no rosto de Scarlet.

Ele surgira da direção oposta à qual Scarlet pensara ter ouvido o barulho. ‘Provavelmente, me enganei.‘, ela pensa.

– O que faz aqui na floresta, a esta hora, senhorita? – Ele pergunta de modo polido.

– Me chame de Scarlet, por favor.

– Scarlet. – Ele repete o seu nome e tudo que ela consegue pensar é o quão suave seu nome soa na voz dele, fazendo-a querer que ele o repetisse.

– Estou indo visitar minha avó, ela vive aqui na floresta, não muito longe. E você, se perdeu? – Ela pergunta, com um tom brincalhão.

– Não, estava caçando. – Ele levanta uma de suas mãos e mostra duas pequenas lebres amarradas pelas patas.

– Ah, claro. – Scarlet se sente ruborizar, sem entender a razão. – Mas, com quem está hospedado?

– Em lugar algum, na verdade. Depois que nos despedimos, pela recepção calorosa que tive da curandeira, imaginei que provavelmente não seria uma boa ideia alugar um quarto na vila e, como já havia me instalado, voltei para a floresta.

– Nossa vila não é muito famosa por sua hospitalidade. De fato, acho que só mantemos contanto com o mundo exterior porque é necessário.

– E porque isso? Aparentemente, a vila tem tudo que precisa para se manter.

– Não é bem assim. Pagamos os impostos e a rainha nos dá proteção. E também produzimos toda a lã que vai para o castelo.

– Rainha? A vila faz parte de Arcose, ou seria outra rainha?

– Sim, estamos nas terras de Arcose e a vila tem nome, Vila do Cordeiro.

– Interessante, não sabia que produziam aqui na Vila do Cordeiro. – Ele fala sorrindo, da obviedade da observação.

– Sim, temos orgulhosamente o maior rebanho de ovelhas dos três reinos. – Ela diz isso com um sorriso quase cômico, como se tentasse indicar o orgulho da vila, mas começa a rir, o que faz com que Luko ria também e, logo, a jovem sente suas bochechas corarem. O sorriso dele a fazia estremecer por inteira, de uma maneira que não está familiarizada. – Eu preciso ir.

– Se importa se eu a acompanhar?

– Não, claro que não.

Os dois então começam a caminhar em um silêncio que deixa Sacrlet nervosa. Seu coração estava disparado pela simples proximidade de seu corpo ao de Luko e ela deseja fortemente que ele não perceba seu embaraço. Quando ele volta a falar, é a oportunidade perfeita de desviar a atenção dos seus pensamentos.

– Me pergunto porque você trilha este caminho agora a noite, quando a floresta poderia oferecer menos riscos durante o dia, Scarlet.

– Bem, eu não posso sair à luz do dia. Assim como minha avó e praticamente toda a vila. Chamam de doença do sol. Um pouco de luz do dia é capaz de trazer graves ferimentos a quem a têm.

– Sinto muito, deve ser… complicado.

– Já me habituei. – Scarlet diz, dando de ombros. – A luz da lua é o meu sol e, não tenho medo em andar pela floresta ou qualquer outro lugar à noite. Sempre fiz isso e acho que os animais estão habituados à minha presença.

Luko balança a cabeça, em concordância.

– Na vila, ouvi dizer que têm ocorrido ataques de lobos, ainda assim acredita nisso, que está segura?

– Sim, não tenho convicção de que os lobos atacariam sem razão alguma.

– Mas são animais selvagens, caçam instintivamente quando estão com fome.

– Eles não tem se alimentado das vítimas, essa não é a questão. E ainda assim, acho que eles podem ser melhores do que algumas pessoas. Não os culpo.

Luko para de andar e Scarlet faz o mesmo, girando para encarar-lhe.

– O que foi? – Ela diz.

– Acha mesmo isso? Gosta dos lobos?

– Sim, o que há de errado nisso? – Scarlet pergunta com um sorriso amarelo.

– Gostaria de te mostrar uma coisa, se é assim. Mas tem que me jurar de que não contará para ninguém, nem para sua mãe ou para sua avó.

– O que é?

– Você tem de ver, não é algo que eu possa simplesmente explicar.

Scarlet vê sua curiosidade despertada. Ela não estava muito distante da casa de sua avó, mas, de toda maneira, talvez haveria tempo suficiente… ou seria imprudente de sua parte, também.

– É muito longe? – Ela diz, indecisa.

– A menos de dez minutos de caminhada. A trarei de volta para a trilha da casa de sua avó em pouco tempo.

– Combinado, então! – Ela fala, sem conter um sorriso de excitação.

Os dois saem da trilha e caminham por entre a mata da floresta. Scarlet se lembra então do ferimento que sua flecha causara em Luko e percebe que sequer perguntara como ele está.

– Por favor, aceite minhas desculpas, Luko! – Ela fala preocupada e Luko a encara sem compreender a razão para as desculpas. – Primeiro lhe acerto uma flecha e, agora, sequer pergunto como está seu ombro. Está se recuperando bem? Digo, de ontem para hoje? – Ela fala, preocupada com a impressão que pudesse ter passado.

– De modo algum precisa de desculpar Scarlet. – Novamente, o som do seu nome dito por Luko faz com que os pelos de todo seu corpo arrepiem. – Logo estará como novo em folha, graças aos seus cuidados.

– Imagine. Eu só tentava reparar a mazela que causei e não sou prendada sequer em bordados e coisas do tipo, não deveria ter eu mesma feito os pontos.

– Não deve se preocupar com isso, estou bem, realmente. E tenho certeza que você tem muitas prendas, não deve preocupar-se com o que não consegue fazer. – Scarlet sente suas bochechas esquentando mais uma vez.

– É mesmo? Então deve pensar bem diferente da maior parte das pessoas que conheço. – Luko a encara, sorrindo enviesado.

– Porque diz isso?

– Bem, uma garota deve ser prendada, em tudo que for possível, para conseguir um marido. E, de preferência, não deve saber caçar. – Scarlet fala, como se imitasse alguém que ouvira dizendo tal coisa. Luko ri da imitação.

– Tenho certeza de que cada um deve fazer o que bem quiser, Scarlet. – Nesse momento Luko diminui o ritmo dos seus passos. – Bem, chegamos.

– Chegamos? – Scarlet olha ao seu redor. Não havia nada de diferente nas flores, folhas ou árvores ao seu redor que indicasse algo mais interessante do que as que já vira antes e seu coração se acelera com a constatação.

– Sim, quando eu lhe mostrar, tente apenas não gritar, certo?

– Porque eu gritaria…

… Continua…

Não esqueçam de contar o que acharam desse começo e acompanhar as próximas postagens da história!

xoxo

  • Fernanda

    Em 23.11.2016

    OMG!!!!! Estou adorando sua versão de Chapeuzinho Vermelho… já aguardo ansiosa pela continuação… o que, ou quem será que Luko vai mostrar a Scarlet?! Porque eu sinto que não devo confiar nesse Luko kit lenhador saradão?! Aguardando cenas dos próximos capítulos.. ahahahahah

  • Retipatia

    Em 23.11.2016

    ahahaha Eu tô só morta de rir com a expressão ‘Luko kit lenhador saradão’ ahahahaha

  • A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte III/VI | Retipatia

    Em 23.11.2016

    […] vocês, sem delongas nem blabllabla hoje. Só lembrando que a parte um e dois podem ser acessadas aqui e aqui ou pelo Wattpad […]

  • A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte V/VI | Retipatia

    Em 23.11.2016

    […] postagens anteriores, caso esteja perdido são: parte I, II, III e IV ou, se preferir, a história está sendo compartilhada também na plataforma do […]

  • A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte IV/VI ◂ Retipatia

    Em 23.11.2016

    […] Chapeuzinho Vermelho já chega a todo vapor! Para quem ainda não viu as partes anteriores: parte I, II e III já postadas. Você pode consultar também na aba no topo do blog ‘Recontando […]

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