Aurora ♥ Parte IV/V

Em 28.10.2016   Arquivado em Aurora, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite people!

Penúltima parte de Aurora, agora para vocês apreciarem a leitura. Como já devem saber, estou reescrevendo alguns contos de fadas, o primeiro foi Cinderella e agora é a vez de Aurora, uma revisita ao conto da Bela Adormecida. Para ver as partes anteriores, é só clicar aqui, aqui e aqui, ou ver as partes já postadas, acompanhando na plataforma do Wattpad (a atualização dele é sempre posterior à do blog, preferência sempre para quem vem acompanhar as postagens aqui! ;).

Sem mais rodeios, fiquem com a quarta parte de Aurora:

4

Aurora – Parte IV

– Como assim, veneno? – Pergunta Phillip.

Briar Rose já está levantando e estendendo a mão para ajudar Phillip a se levantar. O príncipe oscila e tem dificuldades em manter-se de pé.

– Venha, podemos pegar o cavalo de Corvo e te levar até a cabana das minhas tias na metade do tempo.

– O que é isso? É o veneno? – Pergunta o príncipe. – Estou morrendo?

– Não, não está morrendo, Phillip.

– Então porque me sinto tão fraco, de repente?

– O veneno o fará dormir, em breve.

– Dormir não parece algo tão ruim. – Ele diz.

– Dormir pelo resto de seus dias Phillip.

***

Os dois caminham com Phillip apoiando-se em Briar Rose durante todo o caminho.

Quando estão novamente da cabana da Corvo, os dois montam no cavalo, com Phillip se segurando a Briar Rose, que faz o animal trotar com velocidade pela floresta.

Não demora para a noite passar e o dia tomar seu lugar, enquanto Briar Rose não dá descanso ao animal. Ao entardecer, eles chegam ao casebre das tias de Briar Rose, que logo aparecem do lado de fora sob os chamados da sobrinha.

– Mas o que há de tão urgente, Briar Rose? – Pergunta Merry, com as outras duas tias em seu encalço.

– Ele foi envenenado. – Briar Rose diz, enquanto ajuda Phillip a desmontar.

– Mal posso enxergar, Rose. – Diz o príncipe.

– Vai ficar tudo bem, Phillip. – Diz Briar Rose.

Suas tias a ajudam a leva-lo para dentro do casebre e o deitam na cama de Briar Rose.

– Briar Rose, o que houve? Você disse que ele foi envenenado! – Diz Flora.

– Isso não importa agora. O veneno o fará adormecer e logo morrerá de sede e fome se não tomar o antídoto. – Diz Briar Rose.

– Oh querida! Que coisa horrível! – Diz Fauna.

– Preciso que cuidem dele, vou conseguir o antídoto. – Diz Briar Rose às tias, enquanto coloca uma almofada por debaixo da cabeça do príncipe.

– Rose… – Diz a voz fraca do príncipe.

– Flora busque água fresca no riacho, Fauna, pegue mais madeira para a lareira, Merry, traga alguns panos limpos e cobertas. – Diz Briar Rose, em tom autoritário. As três senhoras sequer contestam suas ordens e saem apressadas do quarto.

– Não se preocupe, eu vou trazer o antídoto, Phillip. Você ficará bem.

– Não é tão ruim, já falhei de todas as maneiras que podia e não podia com minha irmã. Não faz mal ir encontra-la, eu acho.

– Não diga uma tolice assim. Tenho certeza de que essa não seria a vontade de sua irmã, Phillip.

Ele sorri em resposta.

– Mas é a sua, apesar de eu continuar sem saber a razão. – Completa o príncipe.

– Pode já ter sido, mas não é mais. Coloquei minhas vontades acima da vida de alguém e peço seu perdão por isso, Phillip.

O príncipe já está com seus olhos fechados e não emite qualquer som. Sua respiração está lenta como de alguém que está em sono profundo.

Briar Rose perde tempo apenas para encher seu cantil de água na tina do lado de fora da casa, quando Flora vem correndo ofegante e ainda com os baldes que deveria encher no riacho, vazios.

– O que houve?

– A comitiva de seu pai, Briar Rose, está chegando.

– Mas que inferno! Justo agora! – Xinga Briar Rose, soltando o cavalo do príncipe da árvore ao qual fora atrelado e montando nele com pressa, já que o cavalo de Corvo estava exausto pela corrida contínua.

Contudo, a pressa de Briar Rose é em vão. Guardas surgem de todas as direções, cercando a área do casebre e impedindo sua partida.

– Estava indo a algum lugar, princesa? – Pergunta o capitão da guarda com seu habitual tom autoritário.

– Ainda que estivesse, não está mais. – Diz o rei, chegando próximo ao capitão da guarda, ainda montado em seu cavalo. – Aurora, é hora de ir para casa, minha filha.

Briar Rose encara o pai com indiferença. Não imaginava que ele se desse ao trabalho de ir busca-la e isso apenas aumentava seus problemas.

– Me dê uma semana papai, é tudo de que preciso. – Pede Aurora, com sinceridade em sua voz.

– Sem mais uma palavra, já deixei que se divertisse na floresta por tempo demais. As negociações já foram acertadas com o rei de Basalto, assim que o período de luto pela princesa passar, o casamento ocorrerá. – A voz de seu pai é incisiva, encerrando a conversa.

Aurora sente seu coração pesar. Era sua culpa que Phillip tivesse sido envenenado. Ela tentara se livrar do seu futuro marido do modo mais perverso que lhe fora ensinado, através da traição.

Mesmo à cavalo e, tendo Corvo fugido a pé, Aurora sabia que, quanto mais tempo se passasse, mais difícil seria difícil alcança-la antes que ela chegasse a Arcose. Não seria fácil alcançar Corvo e retornar antes que o príncipe falecesse em seu sono envenenado.

Aurora segue silenciosa com a comitiva de seu pai. Havia ao menos cem soldados acompanhando ao rei. Apesar dos boatos, Aurora sabia, assim como seu pai, que a Grande Floresta não era mais terrível que as outras. Provavelmente, os maiores perigos existentes consistiam, provavelmente, na sua presença e na de Corvo.

A razão, então, para tantos soldados, deveria ser o temor que ela sabia que seu pai sentia pela rainha de Arcose.

Quando a noite soa alto no céu o batalhão cessa a cavalgada e começa a montar as barracas para passarem a noite. Uma ampla tenda é armada para o rei e sua filha, mas Aurora se recusa a dividir o mesmo teto que seu pai e fica numa barraca pequena, armada próxima à do rei.

– Aurora, eu sei que ainda não me perdoou por sua mãe, mas tenho que pedir que me perdoe pelo casamento arranjado. Não tenho forças para combater Arcose e Baltase. Leah está indo longe demais e ter Baltase do nosso lado fará toda a diferença.

– Não me venha dizer que está fazendo isso pelo povo! Se o fosse, eu aceitaria de bom grado! – Diz Aurora, de modo agressivo. Seu pai a encara com a aparência cansada.

– Estou velho Aurora, estou cansado de esperar que as coisas aconteçam por si só. E quero que o reino seja governado pelo meu próprio sangue. Não poderia deixar que sua mãe tomasse conta de tudo, como fez com Arcose. Você clama pelo povo e sei que já esteve no reino de sua mãe.  Sabe como vivem na miséria, sabe como ela é rígida e dura com eles. Agora me diga se acha que sou um rei tão parecido como a rainha que sua mãe é. – A fala do rei não é zangada, mas de quem já batalhou o bastante e sabe que não verá o fim da guerra.

Aurora enxuga as lágrimas que rolam por sua face, elas sempre a faziam se sentir fraca e despreparada.

– Sua mãe ama você Aurora, assim como eu a amo. Mas ela preza outras coisas, como o poder e, isso… – Aurora interrompe as palavras de seu pai.

– Tenho certeza que você, meu pai, valoriza o poder tanto quanto ela. Se assim não o é, me explique uma só coisa. Se sou herdeira de Arcose e Diabase, porque outra razão iria querer desposar-me ao herdeiro de Basalto? A questão é que minha mãe não aceitou tal ultraje. – Aurora diz, com o ânimo alto. – Você deseja unificar os três reinos há muito tempo e, se talvez não viva o suficiente para isso, quer se certificar que eu o faça. Mas eu vos digo papai, nem em mil anos lutarei sua causa!

– Sua mente é jovem e ainda não sabe dos perigos que um reino pode correr. Está tão preocupada com a briga desses três reinos velhos e tolos que não vê o que é melhor para todos. Pois bem, em breve não terá escolha.

– Porque diz isso?

– Estamos a caminho de encontrar o restante de nossas tropas próximo à fronteira com Arcose. Invadiremos e tomaremos o poder. Leah não espera por isso, suas guardiãs sucumbirão facilmente.

– Está anunciando guerra, meu pai? Mal acabou de fazer as pazes com Baltase e meu casamento sequer ocorreu! Não vê quão tolo é isso? – Rebate Aurora.

– O rei Henrique de Baltase é um tolo, ficará agradecido por eu ter tomado a iniciativa que ele tanto temia em realizar. E, pelo que ouvi dizer, os últimos dias de tristeza pela perda da filha lhe abateram fortemente a saúde. Não durará muito. Quando Arcose for dominada, o príncipe Phillip será rei e será ainda mais facilmente convencê-lo a cumprir a promessa de seu falecido pai.

Aurora não diz uma palavra, seu pai parece ter passado muito tempo arguindo como seus planos se desenrolariam. A jovem parte para sua barraca e aguarda acordada até que os sons do lado de fora se aquietem.

Ela coloca sua adaga e o punhal de Phillip que ainda estava com ela em seu cinto.

Se Phillip morresse, parte dos planos de seu pai seriam subjugados, contudo, o reino de Baltase seria enfraquecido pela perda do rei e do herdeiro e, assim, seria fácil sucumbir ao reino de Diabase, quando este estivesse controlando Arcose também.

Briar Rose espreita o movimento ao redor de sua barraca. Dois guardas foram deixados a postos.

Meu pai me ofende deixando apenas dois guardas para assegurar que eu não escaparia.”. A jovem não tem dificuldades em deixar ambos os guardas desacordados sem fazer qualquer ruído e, logo, ela está cavalgando em direção à Arcose.

Sua mente não para de dar voltas, ela precisa avisar a rainha do ataque iminente de seu pai e ainda precisa encontrar Corvo, nesse meio tempo.

Aurora cavalga incessantemente durante toda a madrugada e para apenas pela manhã para que ela e seu cavalo possam beber água do rio.

São pelo menos mais três dias até Arcose e, com tempo perdido, não seria possível alcançar Corvo antes de chegar a Arcose.

Aurora segue o mais rápido que pode, assegurando que estaria em boa dianteira em relação ao exército de seu pai, preocupando-se apenas em manter cavalo do príncipe alimentado e descansado o suficiente para manter o ritmo acelerado.

Ao raiar do sol do quarto dia, Aurora pôde avistar o esplendoroso reino de Arcose, erguendo-se de rochas brancas e brilhantes.

Aurora sabia que deveria torcer para que sua entrada não tivesse sido proibida no castelo e que a guarda não estivesse aguardando-a para prendê-la, depois de sua fuga estarrecedora.

Já fazia mais de três anos que não via sua mãe e o reino que fora sua casa por tanto tempo. Tudo parecia, ao mesmo tempo, mudado e exatamente da mesma maneira como ela vira pela última vez.

A princesa de aproxima dos portões do castelo e se anuncia:

– Princesa Aurora, herdeira de Arcose, preciso falar com minha mãe, a rainha Leah.

Sob seu comando, os portões são abertos e a passagem lhe é cedida de bom grado. Talvez sua mãe não estivesse mais com raiva.

Aurora é levada imediatamente ao salão principal, onde a rainha a receberia. Aparentemente, uma festa estava acontecendo no salão. Vários súditos se calam diante da entrada da princesa, que, vestida com calças e desgrenhada pela longa cavalgada, poderia ser facilmente confundida por uma simples camponesa.

Se curvando diante de sua mãe, Aurora precisa reunir toda sua coragem para proferir as palavras que precisa para sua mãe.

– Minha rainha e mãe, venho humildemente pedir seu perdão e pedir que me aceite novamente em seu reino, tenho assuntos importantes a tratar com vossa majestade.

Uma risada soa no salão, mas não se trata da risada da rainha. Aurora levanta sua face e vê Corvo não muito distante da rainha, sorrindo como se um bobo da corte estivesse se apresentando.

– A filha pródiga ao reino retorna, majestade. E ainda com a ousadia de implorar pelo perdão ao qual não merece.

Ainda que a cavalgada, somada a perda de sangue que o corte que Corvo a causara tivessem deixado-a próxima à exaustão, Aurora não hesita em se levantar de uma só vez e partir em ataque à Corvo.

A lâmina que a impede de se aproximar de Corvo, contudo, não é a de nenhum soldado, mas a da própria rainha, que a faz se afastar de Corvo.

– Minha filha, a conversa deve sempre vir primeiro. – A voz da rainha soa sem nenhuma alteração e Aurora obedece, se afastando e baixando suas armas. – Deixem-nos a sós. – A ordem da rainha surte efeito rapidamente e uma enxurrada de pessoas sai pelas altas portas do salão.

Apenas as guardas pessoais da rainha e Corvo são deixados junto à mãe e filha.

– O que a fez vir de tão longe e em tal estado, minha filha, exijo que se explique. – A rainha diz, ainda em seu tom inalterado.

– Diabase está marchando. Meu pai vem em guerra contra Arcose. – Fala Aurora, seus olhos não se afastando do olhar debochado e depois confuso de Corvo.

– Stephan não ousaria! – É a primeira vez que a voz da rainha demonstra irritação.

– Quando os deixei na Grande Floresta, cerca de mil soldados estavam indo encontrar-se ao restante do exército para marchar. Já devem estar há menos de dois dias daqui.

– E porque deveríamos acreditar em você, Malévola? Deu as costas a tudo que lhe foi ensinado e recusou tudo que lhe era de direito. Não pode mais ostentar o título de princesa de Arcose. Eu disse a rainha que você sequer merecia o nome que ela lhe deu. – Rebate Corvo.

Aurora segura com mais força os cabos das armas em suas mãos, contendo a vontade de arremessá-los e acertar o coração da jovem que por tanto tempo lhe fora como uma irmã.

– Quanto a você, Corvo, – Responde Aurora. – Ainda não terminamos nossas pendências. E à minha mãe, devo dizer que isso não é um pedido de perdão quando sei que tentou matar um inocente para falir os planos de meu pai. – Termina Aurora, apontando para sua mãe, com a ponta do punhal de Phillip.

– Do que fala, Malévola? Quais planos tentei por fim?

– Não finja que Corvo não age conforme seus caprichos, como eu o fiz muitas vezes. Ela tentou matar o príncipe herdeiro de Baltase em seu próprio reino e acabou por matar uma jovem princesa, apenas uma criança! – A raiva está clara na voz de Malévola. – E agora, conseguiu que ele caísse por um de seus venenos.

– O que Malévola fala é verdade, Corvo? Tem agido sem ordens minhas? – Indaga a rainha, olhando para a jovem.

– Não havia escolha, minha rainha. O conselho buscava um meio de fortalecer o reino e desejava que a aliança entre Baltase e Diabase nunca fosse selada, sem o príncipe, a aliança seria dificilmente concretizada. Ameaçaram destituí-la caso uma providência não fosse tomada. Sugeriram que a morte fosse para ambos, Malevóla e para o príncipe Phillip. Sabendo que jamais me perdoaria por tirar a vida de sua filha, tive de convencê-los de que apenas a morte do príncipe era necessária. E assim eu o fiz. Fui até Baltase para matá-lo, coloquei veneno em seu copo, mas quem tomou o vinho foi sua jovem irmã, que logo tombou. Fugi, vendo que a oportunidade fora perdida. Quando o príncipe me perseguiu, queria que ele o fizesse até ter a vantagem da Grande Floresta ao meu redor. Contudo, ele me derrubou do cavalo e consegui desmaiá-lo. Quando estava pronta para ceifar-lhe a vida com minha espada, fui atingida por uma flecha dos guardas que nos seguiram. Ficaria cercada e precisava fugir. Contei com o fato de que o príncipe provavelmente tentaria vingar a irmã e foi exatamente o que ele fez ao ir sozinho para a Grande Floresta, atrás de mim. Foi então que convenci Malévola de que lhe seria um favor tirar o príncipe de seu caminho, e a pedi que o levasse à uma emboscada.

– Eu estava enganada, Corvo. Ele não merece morrer por isso, não pelos meus erros ou pelos seus ou pelos de nossos pais. – Diz Malévola.

– Então tenho muito mais a combater do que imaginava. – Diz a rainha, parecendo mais velha após o relato de Corvo. – Meu próprio conselho agindo em minhas costas, minhas filhas tramando uma com a outra para tirarem a vida de um príncipe e um exército chegando para atacar meu reino.

– O exército de Diabase cresceu muito, minha rainha, não temos como enfrenta-los sozinhos. Não aguentaremos mais que uma semana, como estamos. – Diz Corvo.

– Seu reino é forte em proteção, deixe-me que parta e convença Baltase a marchar em sua defesa, minha mãe. – Diz Malévola.

– E como faria isso? – Pergunta a rainha.

– Posso convencer o príncipe a marchar em seu auxílio, apenas preciso do antídoto para o veneno de Corvo.

– E como pretende fazer isso? Usando seu charme natural? – Diz Corvo, de modo sarcástico.

– Basta! Já chega dessa rivalidade inconsequente. Não temos muitas opções, as duas partirão imediatamente de volta a Grande Floresta para remediar o príncipe de Baltase. Meu exército irá se preparar para a defesa e vamos todos rezar para que Malévola consiga convencer o infeliz príncipe a vir em nosso auxílio, ou será o nosso fim.

– Sim, minha rainha. – Dizem as jovens, em uníssono.

***

As jovens partem em silêncio em direção aos estábulos, enquanto a movimentação no castelo ganha vida com o refúgio do povo às pressas atrás das muralhas do castelo e o armamento para a preparação da defesa do território.

Malévola tenta não ceder aos olhares contrariados que recebe de Corvo a todo instante. A situação há muito saíra de seu controle e não havia nada a seu alcance fora a remota chance de despertar Phillip e convencê-lo a se aliar a Arcose. Isso claro, se ela conseguisse convencê-lo, fato que ela ainda não pensara em como resolveria.

– Iremos pela estrada lateral até a borda da Grande Floresta, assim não corremos o risco de encontrar o exército de meu pai e não perderemos tempo de viagem. – Diz Malévola, recebendo um aceno de cabeça em resposta.

Os cavalos partem ligeiros e são guiados pelas amazonas com esmero e, a todo instante, são incitados a irem mais rápido.

No fim do dia, a borda da Grande Floresta é finalmente avistada e, ao fim do segundo dia, elas ingressam na floresta, já com o passo mais lento, para que os animais possam restabelecer-se.

O silêncio entre as duas era algo habitual na época em que viviam e treinavam juntas na Grande Floresta ou mesmo no reino de Arcose. Desta vez, era diferente. O peso do passado reverberava em cada movimento e nenhuma delas estava disposta a deixar as antigas mágoas para trás.

– Não vou me desculpar por nada, porque acho que não devo. Mas quero avisar que quero tanto quanto você despertar aquele príncipe insosso. Não quero ver tudo pelo que a rainha batalhou por tanto tempo cair nas mãos do seu pai asqueroso, se me permite assim julgá-lo.

– Não sou capaz de julgá-lo melhor do que isso. De toda forma, sou eu quem deve se desculpar, se você assim aceitar, é claro.

Corvo encara Malévola por um longo período.

– Desculpas aceitas, irmã. – A frase vem seguida de um sorriso sincero. – Não posso culpá-la por querer defender seu próprio pai, ainda que ele não valha sequer o chão que pisa.

Malévola sente seu coração mais leve após se desculpar com Corvo. A rivalidade que ambas nutriam vinha desde que eram pequenas, mas depois da fuga de Malévola do reino de Arcose para Diabase, a rivalidade ficara marcada pelo rancor. A princesa teve de ver por seus próprios olhos e perceber quem seu pai realmente era para acreditar em sua mãe.

Quando fugira do reino de seu pai, Malévola, ao invés de retornar para Arcose, preferira ficar na Grande Floresta, com as velhas conhecidas que sempre lhe trataram tão bem, temendo que sua mãe não mais lhe permitisse o retorno.

***

Com o raiar do dia, a cavalgada toma novamente o ar apressado e segue o ritmo pelos próximos três dias, até chegarem novamente a cabana de Corvo.

As duas desmontam e entram apressadas na pequena casa.

– Mas que diabos… – Corvo não termina a frase ao ver seus inúmeros frascos quebrados e derramados no chão.

– Não me diga que estes eram os únicos… – Malévola começa a dizer.

– Isso não foi obra de animais… Quem foi o infeliz que fez isso? – Diz Corvo, procurando entre os cacos para ver se algum vidro restara inteiro.

– Mas que inferno! – Diz Malévola, se enraivecendo e atirando uma das cadeiras na parede.

Corvo respira fundo e logo começa a procurar por novos frascos vazios em sua despensa.

– Consegue fazer outro?

– Depende.

– Exatamente do quê?

– Quanto tempo ainda temos. Seu príncipe está desacordado há o que? Cinco dias, no máximo?

– Uma semana.

– Não temos tempo para fazer o antídoto. Não tenho todos os ingredientes e tampouco o tempo, levaria ao menos mais uma semana para colhermos tudo e preparar. Ainda que ele sobrevivesse, Arcose não tem todo esse tempo.

Tudo isso? – Diz Malévola, descrente.

– Me diga, quando você prestou atenção às lições de botica da rainha? – Malévola franze o cenho e abre a boca para responder mas Corvo a impede, levando sua mão e continuando a falar. – Deixe para lá. Há algo que possamos tentar. Geralmente serve de antídoto para quase tudo, talvez também funcione desta vez.

– Talvez? Não podemos trabalhar com talvez, Corvo.

– Bem, se você não tivesse destruído tudo por aqui, talvez não tivéssemos que trabalhar desta maneira.

A ira de Malévola acende e ela tem de lutar consigo mesma para que não retome a discussão infundada com Corvo.

– Certo, onde está esse antídoto milagroso?

Corvo se dirige até uma parede da cabana e começa a soltar uma tábua da parede.

– Não fique aí olhando, me ajude, Malévola! – Ela diz, desprendendo uma comprida tira de madeira da parede. Malévola vai ao seu auxílio e ajuda a outra a terminar de soltá-la.

Há vários pergaminhos escondidos na parede e apenas um pequeno frasco, que passaria facilmente despercebido no meio de tantos papéis.

– Aqui está! – Diz Corvo, sorrindo e mostrando o pequeno frasco que não é maior que seu polegar. O líquido de seu interior tem uma aparência violeta e reflete a pouca luz que entra na cabana.

– O que é isso, exatamente?

– Isso é o nosso talvez.

Malévola segue no encalço de Corvo e ambas montam nos cavalos, prontas para partir. Apesar da curiosidade, Malévola não segue seus questionamentos em voz alta. Desde que houvesse uma chance de salvar o príncipe e, assim, o reino de sua mãe, ela lutaria.

Não demora para que elas cheguem à cabana que Malévola vivia com as três velhas senhoras, e vê que Merry está do lado de fora, chegando com um balde cheio de água.

– Oh! Já não era hora de você chegar, não sei se ele aguentaria mais um dia, Briar Rose. – Diz Merry, de modo tristonho.

Briar Rose e Corvo seguem apressadas para dentro do casebre e se dirigem ao quarto da princesa. Phillip está exatamente do modo como ela o deixara, deitado na cama como se em um sono profundo. Mas suas feições estão abatidas e seu rosto extremamente pálido. Até mesmo seus cabelos caramelo estão opacos e debotados.

– Faça as honras, Malévola. – Diz Corvo, entregando-lhe o pequeno frasco.

Briar Rose encara o conteúdo do frasco, o líquido violeta é ralo e exala um odor suave e doce quando destampado.

– Ou podemos sempre tentar o beijo de amor verdadeiro, caso esteja em dúvidas, Malévola. – Diz Corvo, zombeteira. – Apesar de eu acreditar que amor de apenas uma das partes não servirá de nada.

Malévola lhe lança um olhar carrancudo e se dirige ao príncipe. Ela desliza seu queixo para que seus lábios de separem. – Tudo? – Ela pergunta, encarando fixamente Phillip.

 – Tudo. – Responde Corvo, no que Briar Rose despeja todo o líquido na boca do príncipe.

As três senhoras e as duas jovens prendem a respiração por um instante, aguardando qualquer sinal do despertar do príncipe. Os minutos parecem lentos demais e sequer um movimento é notado.

– É um jeito horrível de morrer, sabendo de tudo que o cerca e não poder fazer nada. – Fala Merry, rompendo o longo silêncio.

– Ainda pode dar certo, talvez só precise de mais tempo. – Diz Briar Rose, esperançosa.

– Malévola, já deveria ter surtido efeito a esta altura, já faz quase uma hora que você lhe deu a poção.

– O que era? – Pergunta Primavera.

– Flor de Aurora. – Responde Corvo.

– Oh, se isso não resolveu, nada mais pode! – Diz a terceira tia, já com lágrimas nos olhos.

– Venha meninas, vamos buscar mais água fresca antes do anoitecer. – Diz Merry, enxugando o canto dos olhos e saindo do quarto seguida das outras velhas.

Briar Rose anda impaciente de um lado para o outro até parar do lado da cama.

– Mas que diabos, Phillip! Onde está toda aquela sua insistência inconveniente agora? – Ela faz força para não chorar. Tomara as piores decisões de sua vida desde que fugira de sua mãe. Não apenas era culpada pela morte do príncipe, como o traíra e quebrara sua palavra. Ela disse que o salvaria e fora incapaz disso também. E agora, todo um reino pagaria por sua arrogância.

– Voltarei para Arcose, assim posso ao menos morrer lutando. Aqui não sou de valia alguma para a rainha. Você vem Malévola?

A princesa continua parada e encarando Phillip. Ele iria voltar, ele tinha que voltar. Ela não poderia desistir dele assim tão facilmente.

Corvo não espera uma resposta de Malévola e parte novamente em direção a Arcose. Apenas quando os barulhos dos cascos do cavalos não estão mais audíveis de dentro do casebre, Briar Rose permite que suas lágrimas escorram incessantemente e o choro que ela engolira sair de seu peito.

Ela se senta no chão ao lado da cama, o peso que sente puxa-a para baixo enquanto seu choro se intensifica. “Preciso de coragem para retornar para Arcose como Corvo fez.”. Mas, ela simplesmente falhara com sua mãe e com todo o reino. Como poderia encará-la novamente?

… Continua…

Não perca a última parte da história da nossa princesa na próxima segunda, último dia do mês e, mantendo a ‘tradição’ de postar a história dentro de um mês específico. E me conta o que está achando, hein?!

xoxo

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