Aurora ♥ Parte II/V

Em 21.10.2016   Arquivado em Aurora, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite people!

Mais uma parte da história da Aurora está aqui para vocês continuarem a acompanhá-la. Para quem não leu a primeira parte, é só clicar aqui e ver a postagem inicial. Ou, se preferir acompanhar a história pelo Wattpad, é só clicar aqui que a página abrirá com a parte um (a atualização do Watpad é sempre posterior à do blog!).

As postagens desse conto serão sempre às terças e sextas, acompanhem! Sem mais delongas, fiquem com a continuação de Aurora…

3

Aurora – Parte II

A espada cai com um baque abafado pela terra e pela grama. O príncipe ainda estava armado com seu punhal, mas antes que pudesse tentar pegá-lo, uma mão rápida o tira de seu cinto. Com o punhal do príncipe e a lâmina da adaga, o príncipe é empurrado para ficar de frente à sua captora.

Ele não consegue evitar um sorriso exibido frente a jovem que lhe aponta as armas de forma extremamente bem treinada. Seus olhos cor de violeta brilham mesmo na luz fraca da floresta e mechas do seu cabelo cor de palha, soltas da longa trança que prende seu cabelo, lhe emolduram a face.

– Não esperaria menos de uma donzela vestindo calças.

– Porque diz algo tão estúpido? – A garota rebate.

– A visão que tenho já me é suficiente para morrer feliz. – Diz Phillip, com um sorriso generoso. – Sou príncipe Phillip, a seu dispor, senhorita? – Diz ele, fazendo uma pequena reverência, sem se preocupar com as laminas afiadas que lhe são apontadas.

– E o que um príncipe faz na Grande Floresta, está perdido, alteza? – A seriedade dá lugar ao tom de sarcasmo na voz da jovem.

– Não estou perdido, procuro por um assassino. – É a primeira vez que o sorriso some do rosto do príncipe.

– E porque crê que esse assassino, esteja aqui? Ninguém vem à floresta. – Retruca a jovem, ainda com as pontas afiadas apontadas para o príncipe.

– Aparentemente eu e você estamos aqui, o que não poderia ser descrito como ninguém. – Diz Phillip, já achando o tom da conversa bem divertido.

A garota lança o punhal de Phillip em uma árvore, passando perigosamente perto da cabeça do príncipe e aponta sua adaga mais uma vez para ele.

– Siga sempre em direção ao norte, junto ao rio, três dias e estará na estrada a caminho de casa, alteza. Não se perca novamente.

Dizendo isto, a garota parte em direção ao cervo e começa a amarrar suas patas.

O príncipe volta sua espada para a bainha e, não sem dificuldade, tira seu punhal da árvore.

– Este cervo também me pertence. Minha flecha também o acertou. – Ele diz se aproximando da garota, que trabalha com agilidade e rapidez.Ela para por um instante e o encara.

– O que quer aqui príncipe? – Ela parece apenas cansada neste momento, sob os olhos do príncipe.

– Dividir. – Ele responde, se agachando à sua frente. – Estou com fome e só vou embora daqui quando encontrar quem eu procuro.

– Certo. Acamparemos aqui esta noite. Acenda uma fogueira. – Rapidamente diz a jovem, de modo autoritário, enquanto saca novamente sua adaga e perfura a carne do animal.

Por mais que o príncipe já tivesse participado de inúmeras caçadas, sempre voltava para casa e comia a carne devidamente assada e preparada. Fingindo não se importar, ele sai de perto da jovem e começa a recolher madeira para a fogueira e traz seu cavalo de volta consigo quando se aproxima novamente do local do abate.

Acender a fogueira era uma tarefa fácil e, mesmo sob o olhar inquisitivo da jovem, o príncipe consegue fazê-lo com presteza. Logo ambos estão sentados em volta da fogueira, um de frente para o outro, com as chamas da fogueira crepitando a carne do cervo. O príncipe não cansa de encarar a jovem, seus cabelos estão reluzindo um brilho dourado devido à luz do fogo e ela está detida afiando uma pequena lança de madeira que estava fazendo a partir de um dos galhos que ele apanhara.

– Qual o seu nome?

– Me chamam de Briar Rose.

– Algo como roseira-brava? – Ele pergunta, sorrindo, enquanto ela continua séria e calada e não responde à pergunta, começando a cortar a carne do cervo que já está a ponto de queimar.

Assim que ela dá a primeira mordida e percebe que o príncipe a observa, diz, ainda com a boca cheia de carne:

– Não espere que eu vá servi-lo, alteza. – O sarcasmo pincela suas palavras mais uma vez.

O príncipe nada diz e parte um naco de carne e começa a comer, percebendo então a fome que sentia já há mais de um dia se arrefecendo.

– De onde você é?

– Porque a pergunta, príncipe?

– Curiosidade…

– Então a guarde para si, príncipe. – Diz Briar Rose, deitando-se no chão e fazendo sua bolsa de flechas de travesseiro.

O príncipe não demora a cair no sono e, apesar dos seus planos de sair ainda durante a noite, Briar Rose acaba adormecendo perto do calor da fogueira.

Quando os primeiros raios da aurora começam a iluminar a copa das árvores, Briar Rose já está de pé, embalando em um pedaço grosso de tecido sua metade do cervo e deixando o príncipe adormecido sobre a terra e próximo às cinzas da fogueira.

***

– Não acredito! – Diz Phillip ao acordar e notar que a jovem Briar Rose lhe deixara sozinho.

Uma vez que o rastro de Briar Rose estava fresco e, ela provavelmente acreditara que ele seguiria o caminho que lhe fora indicado, não se preocupando em desfazer qualquer pista, Phillip segue facilmente cada pegada da garota e, depois de poucas horas de caminhada, avista um casebre todo de madeira e bastante antigo, colocado no meio de uma pequena clareira.

Enquanto ele se aproxima, vê a fumaça alta que sai da chaminé, indicando  claramente que há movimento dentro da casa, além dos vultos que passam atrás do tecido fino que cobre as janelas.

Não demora, Briar Rose sai pela porta do casebre distraidamente, segurando uma cesta. Ela ainda está usando as calças e seu corpete apertado por cima de uma camisa branca, mas seus longos cabelos cor de palha reluzem soltos sob o sol da manhã.

– Briar Rose! – Chama o príncipe.

Num ímpeto, a jovem atira seu punhal em direção ao local em que o príncipe esta parado. Phillip se esquiva da arma, que passa raspando por seu braço, rasgando o tecido de sua camisa e ferindo lhe superficialmente a pele.

– Você sempre atira antes de perguntar?

– Claro que não, se assim o fosse, não estaria vivo, príncipe. – Ela diz e o sarcasmo volta à sua voz, acompanhado de um sorriso que faz Phillip se esquecer até mesmo de quem é.

Phillip se contenta em rir e se aproxima com seu cavalo da jovem, que segue seu caminho até uma horta que fica não muito distante da casa.

– Olhe onde pisa. – Ela diz, ao perceber que o príncipe não a deixaria em paz.

Logo a jovem começa a colher hortaliças e vegetais frescos.

– Você mora aqui, Rose?

– Se perdeu novamente, príncipe? Precisa que eu te leve até a estrada?  – Briar Rose o encara já com a cesta cheia. – E é Briar Rose.

– Desculpe-me, Briar Rose. Não, não preciso que me leve, eu apenas…

– Oh, mas onde já se viu uma coisa dessas! – Uma voz esganiçada vem de perto da casa. O príncipe olha na direção e vê uma senhora bem baixa e magricela que seria possível que uma forte rajada de vento a levasse. Seus cabelos estão presos de forma engraçada no topo de sua cabeça. – Temos visita e Briar Rose não nos diz nada! – A última parte ela diz em tom ainda mais alto, o que faz com que outras duas senhoras saiam apressadas do casebre.

– Ora, ora! Mas o que há Merry, porque toda essa… Ah sim, tem muita razão de ser! – Diz uma senhora um pouco mais alta que a anterior e um tanto quanto mais redonda, também.

– Briar Rose, querida, não vai nos apresentar seu amigo? – Diz a terceira que, por sua vez era um intermédio de altura e circunferência em relação às outras duas e fala com uma voz melodiosa.

Phillip não consegue conter um riso, polidamente disfarçado com seu sorriso de príncipe e logo dirige seu olhar para Briar Rose, que encara carrancuda as três senhoras que o admiram impressionadas.

– Ninguém que as senhoras precisem conhecer.

– Briar Rose, onde já se viu tais maneiras? – Diz Merry.

– Parece até mesmo que não a educamos. – Completa a outra. Com a terceira a balançar a cabeça de modo que ela provavelmente entende como severo.

Briar Rose sai de perto do príncipe e diz, de modo contrariado:

– Merry, Flora e Fauna, este é o príncipe Phillip. Alteza, esta são minhas tias, Merry, Flora e Fauna. – Destacada sua inconformidade em sua voz, Briar Rose deixa as tias e o príncipe do lado de fora e se dirige de volta ao casebre.

“Espero que elas sejam suficientes para manda-lo embora”. Pensa a jovem Briar Rose enquanto prepara os alimentos para o almoço.

Não obstante seu pensamento esperançoso, logo suas três tias adentram a casa, seguidas do príncipe insolente.

– Ele ficará para o almoço, Briar Rose, não é ótimo? – Diz Merry, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio.

As tias logo se ausentam do pequeno espaço que compunha a cozinha do casebre e vão tratar de seus próprios assuntos, como bordar e cochilar, deixando os jovens a sós.

– Não sabia que as pessoas, de fato, moram, na Grande Floresta.

– Imagino que porque nunca tenha vindo aqui, alteza. – O tom de sarcasmo novamente colore a palavra alteza.

– Não, porque há a ideia fixa de que quem se aventura aqui nunca retorna.

– Há muitos animais selvagens aqui.

– Isso não parece ser problema para uma jovem e três senhoras., apesar de eu ter visto poucos ou quase nenhum animal nesta floresta pelo tempo que estive nela.

Briar Rose respira fundo, a conversa sem sentido e monótona com o príncipe a irritava.

– Se vai mesmo ficar para o almoço, então terá de trabalhar. – Diz a jovem, segurando uma faca pelo cabo e a entregando ao príncipe. – Pode começar cortando as cenouras.

Phillip a encara primeiro com incredulidade, mas assim que percebe que ela não está brincando, pega a faca e começa a cortar os legumes.

– Então, porque…

– Consegue trabalhar em silêncio, príncipe? – Diz Briar Rose, cortando a frase do príncipe ao meio.

– Claro, Briar Rose.

As próximas palavras não passam das reprimendas de Briar Rose para o serviço mal feito do príncipe e das lições de cozinha que ela dá a todo o tempo. Tão logo o almoço é servido, com a carne de cervo e legumes e hortaliças da horta, Briar Rose chama suas tias para se reunirem à mesa.

As três conversam com o príncipe durante todo o almoço, perguntando-lhe como era a vida no castelo e o que ele fazia perambulando sozinho pela floresta.

– Estou procurando alguém.

– Ora, mas ninguém vem à floresta com frequência. Nem mesmo caçadores têm o habito de andar por aqui, alteza. – Diz Flora.

– Eu segui essa pessoa, com certeza veio para a Grande Floresta, que não me pareceu tão assustadora assim. Não encontrei sequer um animal selvagem, que pudesse apresentar perigo. – Diz o príncipe.

– A floresta tem dessas coisas, se revela apenas quando o quer, alteza. – Completa Fauna.

– Não acredito nisso, são apenas animais, minhas senhoras. E, agradeço pela hospitalidade, mas preciso realmente saber se viram algum estranho passar por aqui há cerca de uma semana atrás. É muito importante.

– Oh, alteza. Como dissemos praticamente ninguém vem à floresta, a não ser… não, isso é bobagem!

– Praticamente ninguém, não é ninguém, senhora Merry. Agora me digam, quem vem a floresta? – O tom incisivo está na voz do príncipe e ele repara que Briar Rose sequer tocou em sua comida. As três senhoras se encaram umas entre as outras e Briar Rose se retira da mesa, saindo pela porta e batendo-a com força.

– Com licença, senhoras. – Diz o príncipe, ao ir atrás de Briar Rose.

– Briar Rose! – Ele chama, ao ver a jovem se dirigindo a floresta. Phillip corre atrás dela até alcançar os passos apressados da garota.

Quando ele estende sua mão para tocar-lhe o ombro, Briar Rose lança sua adaga em direção ao pescoço do príncipe. Em reflexo ele segura o braço da jovem e saca seu punhal, fazendo com que os metais tilintem no silêncio da floresta.

– O que há com você? O que está escondendo? – O príncipe pergunta, com pesar em sua voz.

– Você invade a minha floresta, a minha casa e a minha família e pergunta o que há comigo? – Briar Rose dá uma rasteira no príncipe, fazendo com que ele desabe de costas no chão e distanciando-o de seu punhal.

A jovem começa a se afastar o príncipe, mas ele segura suas pernas, fazendo com que ela também caia no chão. Ele se aproxima e Briar Rose tenta chutar-lhe a face, mas dessa vez, ele consegue desviar do golpe.

– Não dessa vez! – Ele diz, já furioso, tentando segurar a mão de Briar Rose que está com a adaga.

Briar Rose consegue acertar seu cotovelo no maxilar do príncipe, deixando-a em vantagem na luta, enquanto o príncipe segura sua mão com o punhal. Conseguindo a jovem ajoelhar-se sobre o príncipe e colocar a lâmina de sua adaga perto da garganta real.

Phillip consegue alcançar seu punhal e o projeta com o intuito de cravá-lo na perna de Briar Rose, mas a jovem percebe seu movimento, desviando-se e apenas um corte é feito na perna. Com isso, a adaga de Briar Rose se afasta do pescoço do príncipe e sua arma encontra o punhal do príncipe. Ambos disputando suas forças com as curtas lâminas tinindo.

Ambos se soltam e se afastam de uma só vez.

– Eu sei o que você fez, Briar Rose, e é imperdoável! A morte já lhe será uma pena muito nobre. – Diz o príncipe, zangado.

– Ainda ousa me acusar de algum crime que sequer sei qual foi, alteza? – O desdém está evidente em cada uma das palavras que a jovem profere.

Ambos se atacam novamente e Briar Rose é mais rápida em sua investida, desviando do ataque com o punhal do príncipe e girando seu corpo, atingindo, com sua adaga, as costas do príncipe, que grita de dor e cai afastado da jovem.

Um rasgo enorme na camisa do príncipe é logo tingido de vermelho.

– Se rende? – Pergunta Briar Rose, em tom mais ameno, enquanto limpa sua adaga na manga de sua camisa.

O príncipe solta um riso frio enquanto se levanta.

– Não… não haverá rendições hoje. Ou minha irmã será vingada ou a encontrarei do outro lado.

– Do que está falando? – Pergunta Briar Rose, demonstrando confusão, pela primeira vez.

Contudo, o príncipe não se deixa afetar pela aparente confusão da jovem e a ataca novamente, desferindo um golpe que teria lhe acertado o coração caso Briar Rose não tivesse conseguido afastar-se. O punhal do príncipe termina agarrado a uma árvore, à qual Briar Rose agora se vê presa pelo corpo do príncipe. Ele perdera seu punhal, mas seu antebraço prende o pescoço da jovem contra a árvore, enquanto uma das mãos delas tenta afastá-lo, a outra aproxima cada vez mais sua adaga do pescoço do príncipe.

Os dois ficam enorme tempo nesta batalha de forças, até que Briar Rose consegue escorregar seu corpo pela árvore.

– Se pretende me matar, deve ao menos me dizer a razão. – Ela soa séria dessa vez e Phillip a encara.

– Pelo assassinato de Elena, minha irmã e princesa de Basalto.

– Saiba que, seja lá como isso termine, eu não matei sua irmã, príncipe. Mas se é uma morte em luta a qual veio buscar, posso lhe oferecer isso. – A seriedade das palavras de Briar Rose deixam Phillip satisfeito. Nunca esperara encontrar em uma mulher um desafio à sua altura, mas, se era para vingar a morte de sua irmã, isso não mais tinha importância.

Apesar de ambos já estarem cansados e ofegantes, os dois jovens chegam ao acordo de que um deles cairia naquela floresta. Briar Rose se arma em posição de ataque e começa a andar na direção de Phillip, que se coloca em guarda e se aproxima da jovem. Suas pequenas espadas se chocam, deslizando o metal até o tinido que indica sua separação.

A dupla avança novamente e Phillip consegue cortar o antebraço de Briar Rose, dando a ele uma vantagem e a derrubando no chão ao socar seu estômago.

A adaga de Briar Rose cai distante e Phillip ajoelha em cima dela, imobilizando suas pernas, enquanto a ataca com seu punhal, diretamente no seu coração. A jovem segura as mãos do príncipe, unidas no punhal, impedindo que o golpe lhe acerte.

As respirações ofegantes são o único ruído que reverbera, até soarem as palavras de Briar Rose:

– Não vou morrer por algo que não cometi! – Dizendo isso, a jovem reúne suas forças e consegue fazer com que o punhal do príncipe se afaste mais do seu corpo, soltando rapidamente uma das mãos que o segura e batendo com força no punhal, fazendo com que um grande corte surja em sua mão e com que o ataque do príncipe cesse.

Em seguida, ela joga o peso do seu corpo sobre o príncipe, fazendo com que ele caía sobre a terra e largando o punhal, que Briar Rose logo pega, colocando a lâmina afiada no pescoço do príncipe.

Ele não segura as mãos de Briar Rose ou tenta se defender dessa vez, fazendo com que Briar Rose hesite em tirar-lhe a vida. Ela nota pela primeira vez a expressão confusa e triste do príncipe, com lágrimas escorrendo por seu rosto.

– Vá embora príncipe, não há nada aqui para você. – Diz Briar Rose de maneira fria. Largando o punhal do príncipe no chão e saindo de cima dele, caminhando em direção de volta ao casebre.

– Você não entende, não é? – Diz Phillip, ainda com a voz marcada pelo choro. As palavras fazem com que Briar Rose se detenha, mas ainda sem se virar para encarar novamente o príncipe, que agora se sentou no chão. – Não posso voltar, prefiro morrer aqui do que saber que minha irmã sequer teve a morte vingada. Ela não merecia…

Briar Rose se vira na direção do príncipe.

– E porque crê que eu a matei, príncipe? – Sua pergunta é simples mas não soa cruel como de costume.

– Era uma mulher, tenho certeza disso. Eu a segui e a desmontei do cavalo e fui nocauteado.

– E simplesmente decidiu que essa mulher seria eu. – Completa Briar Rose.

– Você tem de assumir que não existem muitas mulheres bem treinadas como você, o que já é um forte indício.

– Talvez seja assim em seu reino, príncipe. Não estamos em Basalto. – Responde Briar Rose.

– O que isso quer dizer?

– Que talvez eu não seja a única mulher que saiba lutar.

– Talvez?

Briar Rose solta um suspiro. Não havia conseguido se livrar, de nenhuma maneira, do príncipe.

– Existem outras como eu, em Arcose.

– Então, as lendas sobre assassinos que vão atrás de herdeiros são verdadeiras?

– Não sei nada sobre lendas, mas a guarda pessoal da rainha é formada apenas por mulheres e dizem que são as melhores de todo o reino. – Diz Briar Rose, se aproximando de Phillip e estendendo-lhe a mão para que ele se levante.

Phillip caminha atrás de Briar Rose até um riacho, vendo a jovem ajoelhar-se na beirada e começar a limpar o sangue de suas mãos. Ele a imita e enfim quebra o silêncio.

– Qual o caminho daqui para Arcose?

– Não está pensando em ir até lá sozinho, está? – Briar Rose o encara com incredulidade.

– E porque não estaria?

– Porque se eu fui capaz de derrota-lo, você será reduzido a nada pela guarda da rainha.

– Não tenho muitas opções.

– Você é príncipe, volte para casa e leve seu exército com você.

– Meu pai jamais permitiria que seu único herdeiro cavalgasse em direção à batalha. Não quando ele próprio está doente.

– És o único herdeiro e está aqui arriscando deixar seu reino à mercê da sorte, príncipe? Não me parece muito sensato de sua parte.

– Minha mãe governa o reino há muito mais tempo e muito melhor que meu pai. E há também todas minhas outras irmãs.

– Claro, como se respeitassem um reino regido por mulheres.

– O que quer dizer?

– Nada príncipe, esqueça.

– Agora diga, Briar Rose.

– Certo. Seja-me sincero. Se fosse um poderoso rei governando Arcose e uma famosa guarda real composta por homens, estaria tão engajado em seu plano solo de vingança? – Diz Briar Rose, se levantando e deixando o príncipe na margem do rio.

– Não diga tolices! O que você sabe sobre perder alguém, Briar Rose? Ver uma alma jovem perder a vida em seus braços e não poder fazer absolutamente nada! – A raiva está misturada à dor na expressão do príncipe.

Briar Rose fica em silêncio por um tempo, até que a raiva de Phillip se abrandasse.

– Posso lhe mostrar parte do caminho, mas preciso que seja sincero comigo e responda a verdade para o que vou lhe perguntar. – Diz a jovem.

– Certo, serei. – Diz Phillip, sem pestanejar.

– Porque a rainha iria querer assassinar sua irmã sendo que você é o herdeiro do trono?

– Ela não queria assassinar minha irmã. O vinho que fora envenenado fora o meu e… Elena acabou por toma-lo.

– Ela fora envenenada, sua irmã? – Repete, Briar Rose.

– Sim, foi o que acabei de dizer.

– Não estamos falando da guarda da rainha, príncipe. De nada adiantará levar-lhe para Arcose. Deve voltar para casa.

– Porque diz isso? O que não está me contando novamente, Briar Rose?

– Não interessa, apenas confie em mim e vá embora se preza sua vida e seu reino.

– Confiar em você? Sempre que possível você tentou me matar e agora só me dá verdades incompletas, como confiar? Eu vou para Arcose, com ou sem sua ajuda.

– Não se trata da guarda pessoal da rainha, Phillip! As histórias da rainha de Arcose não chegam até Basalto?

– Lendas que você mesma disse não saber nada a respeito e agora quer me afugentar com histórias para amedrontar crianças. – Debocha o príncipe.

– A rainha comanda assassinas, que fazem o trabalho que não deve ser sabido por outros. Como matar herdeiros de reinos inimigos, meu caro príncipe. – O desdém retorna à suas palavras.

– E como sabe disso? – Phillip questiona, de modo desconfiado.

– Isso não faz diferença. A questão é que sei que ainda existe ao menos uma dessas assassinas e que, provavelmente, fora ela quem tentou contra sua vida.

– E como a encontro?

– Você não a encontra príncipe, ela encontra você. – Diz Briar Rose, com um sorriso enviesado.

– Claro, porque é uma ótima opção ficar aqui aguardando que ela, me encontre. Ela tem um nome?

– Chamam-na de Corvo.

– Corvo? – Briar Rose assente. – E como Briar Rose, eu encontro a Corvo? – Diz Phillip, se aproximando da jovem.

– Não é um caminho que eu gostaria de percorrer novamente.

– Novamente, Rose?

– Isso não importa. Não conseguirá sua vingança, aceite isso e retorne para casa. – Diz Briar Rose, caminhando de volta em direção a casa.

Phillip deixa que ela se afaste, enquanto tenta compreender tudo que descobrira. A rainha de Arcose realmente usava de métodos indignos para lesar os demais reinos, afinal.

Ainda que sua vingança pessoal com a assassina fosse feita, ele sabia que o reino de Basalto, sua casa, teria de enfrentar Arcose. Mas a ideia de voltar para casa e declarar guerra com base nas palavras de uma jovem que vivia na Grande Floresta, que todos entendiam ser inabitável, era por demais absurda. Seus pais jamais concordariam com isso. Talvez se ele pudesse levar a assassina de sua irmã, como prisioneira, seria possível que uma confissão mudasse a perspectiva de seus pais.

Briar Rose está pegando água no rio quando Phillip a encontra novamente.

– Preciso de sua ajuda Briar Rose, sei que não quer me contar boa parte do que sabe e da verdade, mas não me importo. Quero encontrar Corvo e leva-la como prisioneira até o reino de meu pai. Assim poderemos acertar as contas com a assassina de minha irmã e com o reino de Arcose.

A jovem o encara por um tempo e Phillip não consegue desvendar o que seus belos traços escondem.

– Certo príncipe. Eu o ajudarei a encontra-la e prendê-la, mas apenas até chegarmos à divisa de seu reino, depois voltarei para floresta e você deverá agir como se eu sequer existisse.

– Temos um acordo? – Diz Phillip, estendendo sua mão.

Briar Rose aperta a mão do príncipe e assente em positivo.

…Continua…

E então, o que será que vem pela frente? Não esquece de contar o que está achando da história!

xoxo

%d blogueiros gostam disto: