Aurora ♥ Parte I / V

Em 18.10.2016   Arquivado em Aurora, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite pessoal!

Setembro voou e foi mês de Cinderella aqui no blog (para quem ainda não conhece, é só clicar aqui), e, convenhamos, mais da metade de outubro já foi, mesmo parecendo que o mês começou ontem. Estive totalmente sem tempo de atualizar o blog, por isso só rolou o post do projeto 6 on 6, no dia 6.

Agora, para matar o jejum e, mantendo a vibe de recontar contos de fadas, irei compartilhar com vocês a última história que reescrevi: a Bela Adormecida! Yey! Produtividade a mil ultimamente e, adianto que estou trabalhando na próxima história (que será compartilhada no mês de dezembro! Dedos cruzados para que dê tudo certo!)!

Claro que nessa versão da princesa adormecida muitas alterações foram feitas e, nesta, em especial, com o título. Ao invés de o tradicional ‘A Bela Adormecida’ será intitulada ‘Aurora’.

Eu sempre leio o maior número de versões que consigo encontrar do conto de fadas que vou reescrever, tanto para me inspirar quanto para conhecer algumas versões mais antigas dos contos, que são cheias de diferenças para as versões Disneyísticas (leia-se, versões ‘felizes para sempre’). Além das pesquisas pela internet afora, tenho um livro intitulado ‘Contos de Fadas de Perrault, Grimm, Andersen e Outros’, da Editora Zahar. Ele contém várias versões antigas dos contos de fadas mais famosos e é ótimo como fonte de versões não Disneyísticas (não que estas também não sirvam como referência.).

Neste conto que se inicia hoje, a chave utilizada em Cinderella, que retirou o ingrediente principal dos contos de fadas – a magia -, não é diferente, é o motor principal das mudanças em relação aos contos de fadas já conhecidos. Além disso, várias outras mudanças no enredo padrão e a tentativa de escrever um ‘conto de época’, ainda que em linguagem coloquial, funcionam tanto como item de desafio à escrita quanto como inspiração para criar um conto de fadas mais ‘realista’, por assim dizer. Sem mais delongas, fiquem com a primeira parte de Aurora:

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Aurora – Parte I

O animal encara com fúria, deixando claro que lutará até o fim por sua vida. O jovem rodeia o animal, cercando-o vez por outra, até conseguir encurrala-lo entre as rochas do penhasco.

O javali dá um urro quando a lâmina do punhal é enterrada em seu pescoço. Após alguns tremores, o animal enfim jaz sem vida aos pés do príncipe.

O som de cascos de cavalo batendo no chão se aproxima e o comandante da guarda é o primeiro a aparecer, seguindo o cavalo do príncipe, que não teve dificuldades em encontrar seu dono, no meio da floresta.

– Fiquei preocupado que teria que levar o javali ao rei e dizer que o animal lutara mais bravamente do que seu filho. – Diz o comandante, rindo do príncipe.

– Talvez você subestime demais meu mentor, comandante. – Diz o príncipe, sorrindo com audácia.

Logo alguns guardas chegam onde os cavaleiros estão e são ordenados a içar e carregar o javali.

– A carne da mesa do rei hoje será regada pelo esforço do príncipe homens, se apressem! – Diz o comandante, enquanto espera que o príncipe retorne do riacho há poucos metros de distância, tentando limpar o excesso de barro e sangue que acumulara em suas roupas e botas.

– Porque veio, comandante? – Pergunta o príncipe, já montando em seu cavalo.

– Seu pai deseja vê-lo.

– E desde quando você é o criado dele? – Pergunta o príncipe, com sarcasmo.

– Às vezes eu tenho vontade de bater-lhe e quebrar esse seu sorriso, alteza. – Diz o comandante, rindo.

– Gostara de vê-lo tentar, comandante. – Responde o príncipe, no mesmo tom de brincadeira.

Assim que o príncipe retorna ao castelo, com a escolta da guarda real, dirige-se ao gabinete do rei.

Vendo sua entrada, o rei lhe dirige a atenção, fazendo com que os demais presentes se calem e rapidamente se retirem do recinto.

– A que devo a honra, meu pai? – Pergunta o príncipe.

– Assuntos urgentes, Phillip. Precisamos manter o reino de Diabase do nosso lado, não queremos entrar em guerra novamente. E, para evitar que algumas alianças sejam rompidas, precisamos renovar nossos laços com Diabase, antes que eles mudem de ideia. O rei de Diabase teme Arcose mais do que a nós e, se forjar aliança pelo medo e, não conosco, teremos dois inimigos poderosos.

– Teme? Por qual razão? – Pergunta o príncipe.

– Dizem que a rainha de Arcose envia assassinos aos reinos que deseja enfraquecer para matar os herdeiros. É tolice, em minha opinião, mas uma história bem alimentada vira facilmente uma lenda. E as pessoas sempre acreditam nas lendas. Além do mais, dizem que seus exércitos aumentaram em demasia nos últimos anos.

– E o que podemos fazer para que Diabase permaneça do nosso lado? Teremos que obriga-los?

– Claro que não, não conseguiremos nada a força. Recebi um mensageiro do rei de Diabase esta manhã, com uma proposta de acordo.

– Devemos aceitar? Estamos assim tão desesperados, meu pai? E nossos outros aliados?

– Phillip, Diabase e Arcose são os reinos mais fortes desta terra, junto ao nosso reino. Se não tivermos um dos dois como aliados de nada nos adianta ter os reinos menores. Você sequer acompanha os ensinamentos de seu mentor, não é mesmo?

O príncipe impaciente respira fundo, tentando não se aborrecer com o pai, já velho pelo desgaste que o trono lhe trazia em tanto tempo de vida. Seu herdeiro homem demorara por demais para vir, sendo agraciado com cinco filhas antes que Phillip enfim fosse concebido e mais uma donzela, quando o príncipe já era criança.

– Certo, meu pai, e o que precisamos fazer? Qual o acordo proposto?

– Adianto que sua mãe é totalmente contra, por mim, já sou velho demais para me preocupar com coisas tão pequenas. O reino em breve será seu e é você quem deve decidir.

A impaciência apenas aumentava e então o príncipe percebe que sua mãe também está no gabinete, o que não era, de modo algum, habitual.

– O rei deseja que você se case com a única filha dele, herdeira do trono de Diabase. – Adianta o rei.

– Antes de responder, meu filho, pense bem no que deseja para si. – Diz a rainha, de modo carinhoso para o filho.

– Ela é bonita, se o for, não vejo porque não. Pensei ser algo muito difícil, pelo discurso eterno que me fez meu pai.

A rainha solta um longo suspiro.

– Mãe, por favor, não me venha com essas histórias de que casamentos arranjados não são bons ou algo assim. Para que servem os casamentos senão para selar acordos?

– Então, está resolvido. Enviarei a resposta. – Diz o rei.

– Você não me respondeu, meu pai.

– O que, Phillip? – O rei fala, demonstrando mais cansaço doo que ausência de paciência.

– Se a princesa é bela, não desejo uma rainha feia. Afinal, terei de fazer filhos nela.

– Phillip! – Repreende a rainha. – Uma rainha não serve apenas para gerar herdeiros e lhe agradar aos olhos!

– Claro, mamãe, quais foram suas outras funções em todo esse tempo que esteve casada além de se preocupar em ter um herdeiro?

– Não fale assim com sua mãe, Phillip. – Repreende o rei.

– Desculpe-me, minha mãe. – Diz o príncipe, automaticamente.

– Você tem de pensar que sua rainha é a pessoa que lhe acompanhará por toda sua vida, meu filho, não apenas…

– Sim, compreendi. E, pelo bem do reino, aceito a princesa, seja ela como for. Poderei manter nossos costumes e ter minha amante, não poderei? – Diz o príncipe, interrompendo sua mãe.

– É impossível conversar com ele, Henrique, e a culpa é toda sua, fazendo-lhe todas as vontades. – Diz a rainha com ar contrariado e saindo do gabinete.

Assim que a rainha deixa os dois a sós o rei volta a falar.

– Você acaba de me custar ao menos uma lua inteira de privação e indisposição com sua mãe, Phillip.

– Como se você não tivesse outras mulheres para isso, meu pai. – Responde o príncipe, indiferente.

– Não é essa a questão, meu filho. O povo sempre tem de gostar do rei e, a rainha é peça chave nisso tudo e em muitas outras coisas. Espero que ouça meu conselho antes que tenha de aprender por si só quando for governar.

– Sim, meu pai. – Diz o príncipe, de modo automático. Não se preocupava com quando fosse reinar. Teria conselheiros e assessores. E, de fato, sempre desejava ter um irmão mais velho ao qual o fardo tivesse recaído. Viver aventuras e uma vida sem preocupações lhe parecia muito mais convidativo do que a enfadonha vida que seu pai levava. “Se ao menos estivéssemos em guerra, tudo seria diferente.”, pensa o jovem príncipe.

– Mandarei o mensageiro retornar, para selarmos o acordo.

– Sim, meu pai. Ainda demanda minha presença?

– Não, meu filho, deixe-me tratar dos assuntos que não lhe interessam. Mas, tenho um pedido, não saia mais sem minha permissão ou cavalgue sozinho pela floresta, há rumores de bandidos e assassinos à solta e, enquanto não forem todos para a forca, não quero meu único herdeiro andando sozinho.

– Então, meu pai, também acredita nas lendas? –Phillip pergunta, com raiva.

– A rainha de Arcose é má, Phillip, não se engane facilmente. Apenas obedeça a seu pai e seu rei.

– Sim, meu rei. – Diz Phillip, a contragosto.

Saindo rancoroso do gabinete do pai, o príncipe segue para seus aposentos, onde extravasa sua raiva na mobília. Não demora, um empregado bate a porta e anuncia a chegada da rainha. “Perfeito, o sermão não terminou”, pensa o príncipe.

– Filho, preciso conversar com você.

– Sim, minha mãe. – Diz Phillip, sem se preocupar com o caos que seus aposentos refletem.

– Eu sei que não se sente preparado para governar ou mesmo inclinado a fazer isso. Não quero que pense que não sei. – Phillip faz menção de dizer algo, mas a rainha estende a mão, indicando que ele deve se manter calado. – Apenas quero que saiba que seu pai está doente e, não sei se ele irá durar até que você complete seus vinte e um anos para assumir a coroa, como é de praxe. Espero que entenda o que isso quer dizer e tente ao menos aprender o que puder com ele, enquanto lhe for permitido.

– Está dizendo que devo me preocupar com o tempo que você teria que submeter às vontades de um rei que não completara sequer a maioridade, minha mãe?

A resposta da rainha é uma bofetada em seu rosto, ao qual deixa Phillip imóvel, com o rosto virado e encarando o chão, pelo golpe não esperado.

– Quero que se torne metade do homem que seu pai é. Já será o suficiente para governar bem um reino. – Diz a rainha em tom de quem encerra a conversa, e logo deixa o príncipe sozinho novamente.

***

Alguns dias depois, o príncipe é avisado que o acordo fora feito e, um grande jantar seria dado naquela noite para toda a corte, em celebração à nova aliança.

– Você seguirá com uma escolta até o reino de Diabase, amanhã pela manhã. Será apresentado a sua noiva quando chegar lá. – Diz o rei.

– Porque minha noiva não pode vir até aqui, meu pai?

– Não torne tudo ainda mais difícil Phillip.

Phillip apenas assente contrariado e segue de volta aos festejos. Suas irmãs estão dançando e aproveitando o festejo, com exceção da mais nova delas, Elena. Exatamente a que ele era mais apegado.

– Se nenhum cavalheiro ainda lhe chamou para dançar, permita-me corrigir esse erro. – Ele diz de modo amável, para Elena, que lhe retribui com um sorriso caloroso.

– Toda essa ideia de ter de ser escolhida para poder dançar, é um pouco idiota. – Phillip gargalha com a afirmação da irmã, que mal alcançara seus treze anos, mas já se destacava pela incrível beleza, entre todas as outras, assim como por seu temperamento.

– Espero que ninguém tenha ousado ser tão idiota a ponto de convidá-la, então.

– Não quero dançar, Phillip. Quero beber, mas mamãe ainda não largou do meu pé. Não pode sequer me ver com uma taça na mão.

– Tenho certeza de que você nunca lhe deu razão para tal privação, não é mesmo? – Ele diz, sorrindo.

– De modo algum, meu irmão. – Ela diz com um sorriso debochado. – Dê-me sua taça. – Completa a frase enquanto pega a taça da mão de Phillip.

– Ainda sequer provei do vinho, Elena. – O príncipe reclama, mas sorrindo para irmã. Sempre lhe fazia todas as vontades.

– Melhor que eu lhe diga se está digno de vossa futura majestade.  – Phillip apenas ri em resposta.

Elena olha ao redor para se certificar de que a atenção da rainha não estava em si e bebe de uma só vez toda a taça.

– Não precisava beber tudo de uma só vez, Elena. – A jovem sorri, mas rapidamente suas face perdem a cor e ela começa a tossir. – Eu disse que seria muito para vo… – Mas as palavras de Phillip são interrompidas quando ao acesso de tosse de Elena se intensifica e ela não consegue mais ficar de pé.

– Elena! – O príncipe diz em voz alta enquanto se abaixa para pegá-la e logo as atenção das pessoas se voltam para os dois. Elena já perdera todo seu rubor e sua tosse não se interrompe por nada. Rapidamente o sangue começa a sair de sua boca e, não demora, sua respiração cessa, deixando seu corpo inerte nos braços do irmão.

Phillip não para de chamar por Elena e a rainha já está ajoelhada ao seu lado, pegando a filha no colo, aos prantos.

O príncipe está desnorteado e olha aos inúmeros rostos à sua volta, sem compreender o que acabara de ocorrer. “Porque alguém faria mal a jovem Elena, tão boa para todos…”, a ideia não lhe saia dos pensamentos.

Phillip se levanta e nota, em meio ao tumulto, uma figura encapuzada se afastando da multidão e seguindo para a saída do grande salão. Instintivamente, Phillip começa a seguir a figura que logo começa a correr. Phillip corre em seu encalço, mas a pessoa já tinha uma boa dianteira e segue por caminhos pelos quais não há sequer guardas para impedir-lhe a passagem.

Já do lado de fora, o fugitivo monta um cavalo pegando impulso com as próprias mãos no traseiro do animal e partindo em disparada pela saída oculta que fica ao leste do castelo.

Quando Phillip nota o caminho que está sendo percorrido, corre diretamente no sentido oposto, para os estábulos, onde consegue montar rapidamente em seu cavalo e parte no encalço dos rastros deixados.

Seu cavalo bufa de tanto correr, mas era um animal conhecido por sua velocidade e não demora para que o príncipe veja o fugitivo. Já na floresta, Phillip consegue emparelhar-se com seu alvo, jogando seu corpo sobre ele, fazendo com que ambos caiam pesadamente no chão da floresta, separados em alguns metros pela queda.

Phillip se arrasta com dificuldade até o corpo caído do fugitivo, e, quando está prestes a lançar a mão em seu capuz para revelar-lhe a face, recebe um pontapé na cabeça, fazendo com que perca os sentidos.

***

– Phillip? Filho pode me ouvir? – Phillip sente sua cabeça latejar, e seus olhos ardem com a claridade. – Henrique, venha aqui! Graças aos céus ele está despertando.

O príncipe consegue enfim abrir seus olhos e percebe que está no quarto de sua mãe, deitado na cama. Ela está sentada ao seu lado, debruçada sob ele e passando um pano úmido em sua testa.

O rei logo surge em seu campo de visão e coloca a mão no ombro do filho.

– Elena, onde ela está? – Phillip logo pergunta.

– Phillip… – A mãe logo cai em lágrimas e num choro sentido. O príncipe se senta na cama e a abraça, dessa vez sem se preocupar em conter as próprias lágrimas.

– É minha culpa, minha mãe, me perdoe. – Diz Phillip.

– Não diga isso filho, não diga isso. – Diz a rainha em seu ouvido. Mas o jovem se desvencilha de sua mãe.

– Não, minha mãe. É minha culpa, eu deveria estar morto agora, não entende? Elena bebeu a minha taça de vinho.

– Não foi sua culpa, filho, sabemos disso. Não deve se culpar. – Diz o rei, de modo sincero.

– Você diz isso somente porque sou uma peça mais valiosa para seu jogo meu pai! Nunca se importou com nenhuma de suas filhas! – Vocifera o príncipe, com angústia.

– Nos deixe a sós, Henrique. – Diz a rainha.

O rei não diz nada e deixa os aposentos da rainha em silêncio.

– Não é segredo que seu pai o ama mais do que às filhas que lhe dei Phillip, mas isso não significa que ele não amasse Elena. Todos nós a amamos e sei também que ela era sua preferida, filho.

O príncipe não consegue controlar seu choro e sua mãe o abraça novamente, acalmando-o como costumava fazer quando ele era apenas um menino e chorava ao cair e se machucar.

***

Durante todo o funeral de Elena, Phillip não conseguia tirar as imagens do fugitivo de sua cabeça. Repassando cada detalhe de quando lhe seguiu, derrubou do cavalo, até o momento que perdeu os sentidos. Uma única vontade crescia em seu peito, o desejo de vingar sua amada irmã.

Apesar de o rei haver proibido que ele saísse em busca do fugitivo, ele sabia bem como escapar às escondidas do castelo, isso não seria problema. O difícil é que cada minuto que sua partida era postergada, mais suas pistas esfriavam e sua memória arrefecia.

Os guardas o seguiram naquela noite e feriram o fugitivo com uma flecha, no momento em que ele ia cravar sua adaga no peito do príncipe. Já estava claro que o alvo verdadeiro, era ele. E não Elena. Não sua adorada irmã. Poderia ser tolice sair atrás daquele que queria matá-lo, mas não haveria paz em seu coração enquanto não o fizesse.

Depois do funeral, quando o grande salão ficou cheio de convidados, o príncipe saiu sorrateiramente e pegou seu cavalo, logo partindo em direção ao local em que fora nocauteado.

– Sabia que o encontraria aqui, alteza.

A voz surpreende o príncipe, mas não o suficiente para que seu corpo demonstre isso.

– E o que você faz aqui, comandante? – Pergunta o príncipe.

– Esperava por você. Sei que algumas coisas um homem não pode resolver pelo outro e, além disso, meus guardas são bem mais incompetentes do que eu gostaria de assumir.

O príncipe ouve as palavras do comandante da guarda com atenção, mas seus olhos estão analisando o local em que ele e o fugitivo caíram no chão.

– A trilha se perdeu cerca de quatro ou cinco quilômetros para o norte. Você sabe que o caminho indica duas direções, não sabe? – Diz o comandante.

– Sim, seguindo por essa direção logo terei que decidir se sigo para o reino de Diabase ou de Arcose. Há somente a Grande Floresta entre um e outro.

– Creio que a trilha seguiu exatamente pelo caminho da Grande Floresta, e por isso meus homens não ousaram continuar.

Phillip apenas balança a cabeça, concordando.

– Viu a cara do fugitivo? Alguma marca que te ajude a o reconhecer?

– Não estou certo de que era um fugitivo.

– Como assim? Alguém da própria corte, ou do reino? – Indaga o comandante, se aprumando com a novidade da informação.

– Não, apesar de conhecer um bom caminho de saída, não tenho certeza se conhecia tão bem assim. Demorou muito para escapar, não escolheu a melhor saída e tenho quase certeza de que não pegou o melhor caminho para o norte. Não acho que fosse daqui.

– Então, do que está falando?

– Não tenho certeza de que se trata de um fugitivo, comandante.

***

Sob a promessa de segredo do comandante da guarda, o príncipe Phillip segue adentrando a mata, seguindo os rastros deixados pelos guardas e por seu alvo, na esperança de ver algo que os homens deixaram passar.

Na primeira noite parecia ser impossível fazer grandes avanços, já que a mata era densa e bem possível que algum rastro passasse despercebido. Contudo, o príncipe segue avançando com rapidez, já que precisava da dianteira. Por certo seu pai logo enviaria todos os homens que dispusesse à sua procura, tão logo sua ausência fosse notada. Deveria estar bem longe a essa altura.

Após cavalgar por toda a noite até a aurora do dia, Phillip chega ao fim da Floresta do Meio, na estrada que levaria, à direita, para o reino de Arcose e, à esquerda, o reino de Diabase. Dentre elas, começava a imensa Grande Floresta, que, dizia-se ser assombrada por seres malignos. Quem entrava, nunca voltava para contar se tais seres, de fato, existiam ou não.

Phillip nunca foi dado a acreditar em tais tolices, provavelmente alguns animais ferozes viviam na floresta e, os despreparados eram tolos ao tentar enfrenta-la sozinhos. Mas o príncipe não se sentia despreparado. Havia apenas uma coisa capaz de lhe dar medo, e não seriam os animais ferozes ou a escuridão da floresta capazes de lhe acovardar.

Ele desce de seu cavalo a analisa os rastros deixados pelos guardas, sem dúvidas eles não passaram da estrada. Mas, a sutileza de observação que aprendera em anos de desafios e treinamento lhe serviam de guia e, alguns pequenos sinais, já começando a desbotar pelo tempo, são notados. O modo como os cascos de um cavalo pisoteiam o chão durante a cavalgada veloz, como os galhos mais fracos são quebrados, os rasgos nas folhas verdes.

O príncipe tem certeza que estava no caminho certo e ele e seu cavalo continuam a andar, até serem engolfados pelas largas árvores e não ser mais possível vê-los da estrada.

– Acho que podemos descansar um pouco aqui, Sansão. – Diz o príncipe, para seu cavalo, desmontando e tirando-lhe a sela.

O príncipe bebe de sua água e deixa o cavalo descansar perto da folhagem alta, para que possa se alimentar. Mesmo sabendo que, sozinho, seria uma presa fácil, a exaustão toma-lhe, fazendo com que ele se recoste sob a sombra de uma árvore para descansar.

O calor indicando o início da tarde acaba por fazer o príncipe despertar. Apesar disso, a floresta é tão densa que fraquíssimos raios de sol a penetram, fazendo com que apenas alguns rajados clareiem as altas copas das árvores. Seria difícil diferenciar o dia da noite.

Sansão, o cavalo do príncipe ainda está descansando exatamente onde fora deixado. Phillip come uma das frutas que trouxe e dá outra a Sansão.

– Precisamos encontrar água, Sansão, vamos embora daqui.

Continuando seguindo o rastro, Phillip não tem dificuldades em encontrar um largo riacho que corta a floresta, sem precisar se preocupar. Com certeza seu alvo também precisara parar para beber água no caminho e deve ter se servido da mesma fonte.

Contudo, Phillip não conseguia parar de pensar nas razões que levaram alguém a tentar mata-lo e, assim tirando a vida de sua amada irmã. Mesmo sendo o herdeiro do trono, quem seja que tivesse se arriscado a fazer tal serviço, deveria ser bem treinado e ter motivos sólidos. De repente, a ideia de assassinos treinados do reino de Arcose não lhe parece mais tão fantasiosa. Ainda assim, porque o caminho indicava a Grande Floresta e não o reino de Arcose? Talvez tenha entrado na floresta apenas para despistar os guardas e acabara de perdendo. Não, não pode ter se perdido. Os rastros eram sempre certeiros, como se não preocupasse que alguém se atrevesse a segui-los, sabia onde estava indo.

Phillip conta os dias que se estendem próximo de completar uma semana e, tem certeza de que já não havia mais rastros a serem seguidos e, de uma forma ou de outra, estava perdido. Não sabia qual caminho deveria tomar para retornar, já havia seguido o rio incontável tempo em ambas as direções e nunca saia da floresta ou em qualquer outro lugar que fosse.

Ainda assim, seu coração estava pesado de remorso pela irmã que não fora vingada e não desejava retornar para casa acompanhado apenas do fracasso.

Em certa tarde, Phillip deixa seu cavalo preso próximo do rio, onde havia se estabelecido, por ora, e parte para caçar. Apesar de inicialmente ter imaginado que a Grande Floresta era repleta de animais ferozes, passou dias e mais dias sem ver ou ouvir nada ou quase nada. “Talvez este seja exatamente o mal que há na Grande Floresta, nada para caçar e caminho algum para se livrar dela!”.

Porém, com a escassez de suas provisões, era indispensável que conseguisse encontrar algum animal, e com urgência. Ele parte carregado com seu punhal, espada e arco e flecha. Não queria ser pego desprevenido por qualquer tipo de animal que viesse a encontrar.

Depois de andar silenciosamente pela floresta por quase todo o dia, já com o estômago lhe indicando a fome que sentia, o príncipe enfim avista, não muito distante de si, um bonito cervo, alimentando-se calmamente de cascas de uma árvore.

Com toda cautela, Phillip coloca seu arco em posição e retira uma flecha da aljava. Segurando a respiração, ele dispara a flecha, que vai certeira em direção ao coração do animal, ao mesmo tempo em que outra flecha certeira atingiu o animal em seu outro flanco. O cervo sequer tem tempo de urrar pelas flechadas que lhe atingem no mesmo átimo.

O príncipe fica estático, até então, não havia sequer um sinal de que havia mais alguém na floresta, além dele próprio. Ele tenta fazer com que seus olhos vejam mais adiante, contudo, tudo é árvore e mato do lado oposto ao que se encontra. Sabia que fazer barulho ou se mover poderia levar-lhe à morte, então, partindo de sua direita, ele começa a avançar em direção ao lado que a flecha fora disparada.

Um som de galho quebrando surge à pequena distancia de onde o príncipe está e seu coração bate acelerado de euforia:

– Revele-se e talvez eu mostre misericórdia! – Diz o príncipe em tom claro e alto. – Sua espada segue precedente aos seus passos, até que o toque de um metal frio em sua garganta faz seus passos estacarem.

– Largue a espada e talvez eu mostre misericórdia. – Diz uma voz feminina, próxima demais de seu ouvido.

…Continua…

Não esquece de contar o que está achando da minha versão de Aurora, que, como não ficou tão grande como Cinderella, será postada em cinco partes, até o fim desse mês! Acompanhem!

xoxo

  • sweetluly

    Em 18.10.2016

    Por causa do setembro voador eu nem li a Cinderela ainda, mas vou ler!
    Simplesmente AMEI a rainha, achei sensacional! E amei também ter começado pelo ponto de vista do Phillip porque é meu príncipe favorito das versões da Disney, então rola um amorzinho quando falam dele, hihihi!

  • Retipatia

    Em 18.10.2016

    Ahaha compartilho de seu amor pelo Phillip! Acho que deveria inclusive ter escrito uma história SÓ para ele! rsrsrs

  • Aurora ♥ Parte III/V | Retipatia

    Em 18.10.2016

    […] de Aurora??? Para quem ainda não começou a ler a história, pode conferir a primeira parte aqui e a segunda aqui! E claro, depois tem que voltar aqui e ler a terceira parte toda né?! rsrsrs Ou […]

  • Lila Martins

    Em 18.10.2016

    Não li a Cinderela ainda, mas to curtindo a Aurora! Gostei da tensão =D

  • Aurora ♥ Parte IV/V | Retipatia

    Em 18.10.2016

    […] de Aurora, uma revisita ao conto da Bela Adormecida. Para ver as partes anteriores, é só clicar aqui, aqui e aqui, ou ver as partes já postadas, acompanhando na plataforma do Wattpad (a atualização […]

  • Aurora ♥ Parte V/V | Retipatia

    Em 18.10.2016

    […] muitas voltas mais, aquele esquema básico para quem não viu as outras partes da história: parte I, II, III e […]

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