BEDA #16 ♥ Para Ser Escritor Parte V

Em 16.08.2016   Arquivado em Resenhas

Bom dia tarde e noite everyone!

Décimo sexto dia de BEDA, e, como sempre, é dia de postagem literária aqui no Retipatia. Hoje vou dar prosseguimento às postagens do incrível livro Para Ser Escritor, de Charles Kiefer.

Como já contei em outras postagens (que você pode conhecer aqui, aqui e aqui), o livro de Kiefer é composto de vários pequenos capítulos, com dicas bem legais para quem deseja de tornar um escritor ou escritora.

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O capítulo que vou falar hoje se chama ‘Adjetivar ou não é uma questão?’ e nele, Kiefer fala como a questão de adjetivar costuma empobrecer uma escrita, ao passo que o autor está imprimindo no texto suas preferências e preconceitos, através destes. E que, o objetivo da escrita está sendo burlado com o uso contínuo e demasiado dos adjetivos. Salvo em alguns casos, como explica Kiefer, como quando utilizados por Jorge Luis Borges, é que “os adjetivos se convertem em poderosas armas estilísticas.”. E, concluindo, o autor afirma que o adjetivo deve parar de ser encarado como “apêndice do substantivo”, deixando de ser mero instrumento de apoio daquele.

Antes de mais nada, acho que esse é um capítulo que pode ser analisado por dois ângulos, que não necessariamente se desvinculam um do outro. Não é todo leitor que percebe ou mesmo aprecia a sutileza das escritas que não se valem apenas da mera adjetivação para descrição das coisas, sensações, objetos e seja lá o que mais estiver sendo descrito. Alguns apreciam a sutileza da descrição de Machado de Assis ao dizer os “olhos de ressaca” de Capitu em Dom Casmurro. Alguns apreciam a praticidade em dizer que alguém tem olhos bonitos, sinceros e profundos, talvez.

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Mas, o mais interessante disso tudo é que, enquanto se escreve, às vezes cedemos à esse tipo de vício. Não descrever a coisa em si, mas expressá-la pelas características que você compreende melhor e acha que se destacam. E isso, é indicar suas preferências ou, mesmo que estas não sejam suas preferências, estão de acordo dos seus preceitos e do que você acredita ou do que sabe mesmo sem acreditar. Para escrever, e em escrever, leia-se, escrever bem, é necessário desprender-se de si, porque suas próprias experiências e limitações não devem limitar e resumir as experiências dos seus personagens, da sua escrita.

Inevitavelmente, esse capítulo de Kiefer me fez lembrar de um exercício de escrita bem interessante que vi há algum tempo no site Osford Comma, intitulado “Evite os ‘verbos de pensamento’: o conselho de Chuck Palahniuk para novos escritores“. Recomendo a leitura, o texto não é grande e é excelente. Mas, em linhas bem reduzidas, o texto diz para você escrever, por seis meses, sem utilizar-se dos “verbos de pensamento”. Esses verbos são aqueles como sentir, ver, olhar, cheirar, lembrar, imaginar, pensar… Parece difícil, não é mesmo? Sem dúvidas, mas a ideia é que as ações e percepções sejam descritas de maneira mais criativa, para que o leitor tenha que descobri-las ao ler o texto e não apenas ler e saber que elas estão lá. É necessária que seja feita a interpretação não apenas pelo leitor, de cada ação que, apesar de detalhada com clareza, não está explícita no texto. Que eu saiba que um personagem admira o outro porque sempre se pega enrolando a mecha de seu cabelo quando se senta perto dele, e não porque simplesmente fora escrito: ela gosta dele.

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O esforço sem dúvidas deve ser incrível. Eu li essa matéria em dezembro do ano passado e foi ótimo ter escrito esse post e ter revisto esse capítulo, me fez lembrar deste exercício que comecei e larguei. Não intencionalmente, mas porque me deparei com uma forma de escrita que não torna a tarefa impossível, mas mais difícil. Eu tenho o hábito de escrever em primeira pessoa. Salvo uma história ou outra que sinto uma ‘necessidade’ de que seja escrita em terceira pessoa, seja através ou não de um narrador onipresente ou das formas existentes, o meu padrão é a escrita na primeira pessoa. Tenho verdadeiro fascínio pelo que se passa na mente dos meus personagens e quero que a história seja contada exatamente pelo ponto de vista unilateral deste ou daquele outro. E, quando se está dentro da mente de alguém, esta pessoa não pensa: “fulana enrola meus cabelos todos os dias quando se senta ao meu lado”. Certo, o personagem pode até mesmo pensar isto, mas, inevitavelmente, ele chegará a alguma conclusão. Pode não ser aquela de que “fulana gosta de mim”, será, ao menos, “será que fulana gosta de mim”. Claro que alguns usos podem ser substituídos e facilmente reescritos de maneira a ampliar e enriquecer o texto. Só que, neste aspecto, essa riqueza tem de ser bem feita e ponderada.

Quem tem o hábito de acompanhar minhas postagens ou mesmo já tenha lido um texto ou dois, sabe que eu, por exemplo, não sou uma pessoa que pode ser descrita como sucinta. Me deixo levar pelas palavras e sempre tenho a tendência, ora boa, ora ruim, de prolongar tudo. Então, a descrição, de acordo com a recomendação de Kiefer e o ótimo exercício proposto por Palahniuk, devem ser praticados e aprendidos e claro, sopesados dentro do tipo de escrita e de leitor que se pretende atingir. E sempre, sempre, pensar que, para escrever bem, é indispensável, escrever.

xoxo

Ouvindo: The Clash ♥ Should I Stay or Should I Go? (Thanks to Stranger Things – Série Original Netflix).

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