Alice Through the Looking Glass

Em 16.06.2016   Arquivado em Reassistindo por Aí

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Alice Através do Espelho
Alice Through The Looking Glass
Walt Disney
Direção James Bobin

Sinopse*: Alice, logo após as aventuras de no País das Maravilhas, viaja no navio de seu pai, como Capitã, durante três anos. A vida toma o preço de sua ausência e, quando Alice retorna para casa, após uma viagem repleta de aventuras marítimas, seu navio precisa ser vendido para pagar a hipoteca de sua casa. Ela agora não será mais capitã de um navio e é redirecionada ao cargo de escrevente, por seu ex pretendente a noivo, não tendo sequer os 10% da Companhia que seu pai deixou como herança. Após descobrir essa reviravolta em seus planos de continuar a velejar, Alice encontra Absolem, voando e lhe guiando até um espelho, pelo qual Alice atravessa e retorna a Wonderland. Chegando lá, Alice descobre que seu amigo Chapeleiro está em apuros (a.k.a. crise existencial) e precisará voltar no tempo e mudar o passado para salvar seu amigo e sua família. Nessa aventura, Alice conhece o Tempo, um homem-máquina que não está disposto a facilitar a viagem de Alice ao passado, dando-lhe a cronosfera. Alice então, rouba o item precioso e viaja pelo tempo!

*Breve anedota: as sinopses são feitas por mim, então não espere uma versão sem spoilers, contextualizada e organizada. Essa mesmo ficou bem caótica, para ser sincera.

O mundo de Alice, eternizado pelas palavras de Lewis Carroll marcou, marca e ouso dizer que marcará (ainda muitas mais) gerações. É muito mais do que um conto de fadas ou um conto infantil (duvidando muito de que se enquadre na definição Tolkieniana, ao menos, de conto de fadas – Para quem quiser saber sobre a definição de Tolkien sobre Contos de Fadas, recomendo ler Árvore e Folha – Editora WMF Martins Fontes), é uma história repleta de filosofia, sociologia e muito mais (sonhei um dia em fazer minha monografia de conclusão de curso sobre literatura e Direito e, claro, este foi um dos livros que pensei). Esse mundo de maravilhas, em que Alice passeia vez por outra, seja fisicamente ou mentalmente, conforme o credo de cada um, é capaz de encantar e fazer pensar, trazer ideias muito interessantes sobre o certo e o errado e especialmente sobre a percepção de realidade.

Mas não estou aqui para falar das obras de Carroll, e sim do filme Alice Através do Espelho. Antes de mais nada esclareço que comecei falando da obra de LC, não para compará-la ao filme, mas para ressaltar a riqueza da obra e do mundo criado. Gosto muito dos livros, não muito da animação da Disney de 1951.

Sobre o primeiro filme de Tim Burton (que ele também dirigiu), eu adorei. Mesmo que as histórias de Alice no País das Maravilhas tenham ultrapassado o enredo do livro e pego várias ideias do próprio Através do Espelho, a história foi capaz de fascinar e encantar. Deixou tudo “acreditável” com o retorno de Alice ao País das Maravilhas, em uma história rica em detalhes e bem pontuada.

Assim, o segundo filme de Wonderland tinha trabalho duro a ser feito: superar ou ao menos manter o nível do primeiro e manter a magia do mundo de Alice viva, ainda que em uma história que não seguisse os roteiros dos filmes. Tarefa completamente viável quando se pensa no primeiro filme, que bebeu de duas obras sem se afogar e ainda assim trouxe algo novo para história. Contudo, Através do Espelho não conseguiu alcançar esse feito.

O filme em si já perdeu uma parte da vibe “Tim Burton” com a nova direção e é bem mais rico em cores e menos apagado do que sua primeira versão. Não achei esse um fato desabonador, o visual de muitas coisas do filme são ótimas e adoro o contraste de Wonderland com algumas cenas passadas em Londres, como quando Alice desperta em um sanatório. O contraste é bem vindo e representa um pouco da identidade dos dois locais bem distintos. A própria Alice, quando vai até a festa do seu ex pretendente a noivo, Hamish, com um traje oriental super colorido, quebrando a monotonia do local e trajes da época, e representando o próprio país das Maravilhas em Londres.

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Contudo, alguns personagens ficaram muito caricatos em suas representações. O personagem vivido por Sacha Baron Cohen, o Tempo, é uma versão completamente caricata do que deveria ser um personagem intrigante e interessante. O figurino é elaborado, mas o conjunto da obra me fez lembrar de um vilão cafona do filme Pequenos Espiões (Spy Kids), sim a comparação é péssima, mas foi uma associação imediata que me ocorreu enquanto assitia ao filme. Além disso, o Tempo me pareceu muito mais manipulável e “embromável” do que deveria ser. Muito menos poderoso do que deveria ser. Apenas uma de suas cenas foi verdadeiramente elaborada. Quando ele parte em busca de Alice, que roubou sua cronosfera, ele acaba encontrando o Chapeleiro e seus amigos reunidos na famosa mesa da hora do chá. Depois que o Tempo descobre estar sendo enrolado por eles, e que Alice não tem previsão de aparecer para o chá, acaba determinando que para eles, sempre faltará um minuto para o chá, até que Alice compareça. O momento poderia te dar um nó na cabeça se não fosse o fato de que ocorre no passado, explicando assim o fato dos mesmos viverem enclausurados na hora do chá, por assim dizer. Este foi um dos pontos altos do filme.

Outro personagem que perdeu muito de sua essência fora o próprio Chapeleiro Maluco. Neste filme temos a possibilidade de conhecer mais da história de seu personagem e, no fim, é ele o responsável, não só pela volta de Alice ao mundo das Maravilhas como também pelo caos que Alice causa ao furtar a cronosfera do Tempo e desencadear o evento que pode parar todo o tempo, em toda Wonderland. Apesar do foco na história do Chapeleiro Maluco, os motivos que levam Alice a roubar a cronosfera, para salvar seu amigo, tentando mudar o passado e salvar a família do Chapeleiro Maluco. A ideia em si é bem construída, junto ao passado da própria Rainha de Copas, explicando a razão do tamanho exagerado de sua cabeça, as desavenças com sua irmã, a Rainha Branca.

O enredo em si, desta parte é bem elaborado, mas ficou confuso ao deixar o personagem do tempo muito renegado à busca infrutífera atrás de Alice, ao deixar o Chapeleiro morrendo acamado e sem saber se estava, de fato, ficando mau ou triste. É como se os personagens tivessem ciência, dessa vez, que fazem parte do mundo mágico de Alice e não de que Alice é quem está em Wonderland. A junção do mundo mágico com a Londres em que Alice vive, deixou a sensação de que se trata não de um filme com uma viagem mágica ao um local real onde tudo é possível, mas apenas uma história em que uma garota se perde em seu próprio mundo de fantasia. Convenhamos que os problemas que Alice enfrenta ao retornar de sua viagem ao Oriente são bem mais aflitivos do que apenas conseguir dizer não à um casamento arranjado, como no primeiro filme. E, no caso de Através do Espelho, Alice tem de encarar a realidade de que, ou aceita vender seu navio ou sua mãe irá perder a única casa que possui. É o paralelo entre viver seus sonhos e optar por aquilo que importa. E a jornada de Wonderland, não passa da escapatória ideal para ajudar Alice a enfrentar seus problemas no mundo real. Claro, isso também acontece no outro filme, mas de maneira singela e reflexiva. Alice, naquela época, precisava confiar em si e é isso que ela aprende. Em Através do Espelho, ela precisa parar de se apegar ao passado e valorizar a família que ainda possui e a viajem para salvar a família do Chapeleiro permite a ela exatamente isso.

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O problema não foi a lição, o problema foi que a jornada pareceu, ao fim das contas apenas mais um delírio de uma garota perturbada. Talvez porque alguns personagens precisavam ser melhor aproveitados ou melhor trabalhados, talvez porque simplesmente a história não foi forte o suficiente para compor sequer a lista de seis coisas impossíveis a se pensar antes do café da manhã.

Até mesmo a jornada revela alguns detalhes do passado das rainhas Branca e Vermelha, mostrando que a desavença surgiu quando elas eram ainda crianças. Disso tudo, Alice percebe que não é possível mudar o passado e as duas irmãs, por fim, superam as desavenças, quando enfim a Rainha Branca se desculpa pelo que fez com a irmã, no passado.

A jornada alcança objetivo: Alice devolve a cronosfera, descobre onde a família do Chapeleiro está, fazendo com que ele recupere sua saúde ou sanidade (em termos) e Wonderland volta a viver em paz. E, ao retornar para casa, Alice sabe que o certo e necessário nem sempre é o método mais fácil de perseguir seus sonhos.

Contudo, a jornada acaba, o letreiro sobe e a sensação é de que este não passou de um filme em que uma garota com distúrbios mentais viajou, em sua mente, através do tempo. E isso, é contra a visão que Wonderland deve gerar. O País das Maravilhas deve fazer crer em pelo menos seis coisas impossíveis antes do café da manhã, em encontrar sentido no sem sentido. E o filme se esqueceu disso. Deixou que a linha tênue da dúvida entre realidade e mundo encantado fosse desfeita e tendesse para o mundo real. Mas o mundo de Alice está aí justamente para criticar esse visão unilateral da realidade e sanidade.

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Pôster de Alice Através do Espelho, em que aparece a cronosfera na sua versão “máquina do tempo”.

Um último ponto, bem aleatório, é sobre a cronosfera que, quando é retirada do local em que alimentava o relógio do Tempo, Alice descobre que a mesma vira uma máquina do tempo, que, perdões a parte, me fez lembrar o a máquina do tempo do filme também chamado Máquina do Tempo. Colocando uma ao lado da outra é até forçado dizer que se parecem, mas quando a pequena cronosfera virou uma máquina de voo através do tempo, a associação foi imediata.

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Cena do filme A Máquina do Tempo (2002)

Ouvindo: White Rabbit – Pink – Música Tema de Alice Através do Espelho (não tinha ouvido até hoje, salvo o início que toca no letreiro do filme…).

  • Luly

    Em 16.06.2016

    Eu estava meio bipolar em relação a esse filme, se deveria ir assistir ou não. O que me fazia cogitar ir era o fato de que vi o primeiro e gosto sempre de insistir e assistir as continuações, mas por outro lado esse “insistir” seria literalmente porque eu já não gostei do outro filme, então não fazia muito sentido, hahahaha!
    Mas aí li sua resenha e decidi oficialmente preservar meu rico dinheirinho e deixar pra, quem sabe, ver um dia emq ue eu estiver a toa e ele estiver na tv…

  • Retipatia

    Em 16.06.2016

    ahahaha Confesso que não encorajei ninguém a assistir esse filme no post, mas algumas pessoas que não curtiram o primeiro gostaram do segundo, então pode ser que o caso se aplique a você também. De toda forma é sempre válido preservar a grana e ver coisas mais importantes, esse eu diria que pode esperar!

  • Kelly Mathies

    Em 16.06.2016

    Eu ainda não sei se devo ou não assisti-lo. Já ouvi tantas coisas sobre ele e, inclusive, tirei conclusões que me desanimaram. Um ponto importante que me incomodou muito nesse filme foi o fato de terem criado um “senhor do tempo”. Na história ele não existe de fato, é algo imaginável, e criá-lo tirou o encanto. Mas ainda pretendo dar uma chance ao filme, quem sabe para entender melhor e ter uma crítica construtiva.

  • Luana Souza

    Em 16.06.2016

    Assisti ao filme assim que foi lançado e sou suspeita para falar porque Alice no País das Maravilhas é meu livro favorito <3
    Confesso que gostei do filme, mas acho que o primeiro filme foi mais legal :/ concordo com algumas coisas que você disse, mas, independente de tudo, ainda gostei MUITO do filme e da trilha sonora *_*
    Beijos.

  • Retipatia

    Em 16.06.2016

    O mundo de Alice é realmente encantador! Eu tive muitas impressões ruins depois de ver no cinema, que relatei aqui no post, mas compreendo quem gostou do filme porque ele tem seus bons momentos e a trilha sonora é uma delas também! <3

  • Isabel Santos

    Em 16.06.2016

    Eu não gosto muito do filme de Alice, mas estou disposta a dar uma segunda chance porque fiquei curiosa pelo segundo.

  • Retipatia

    Em 16.06.2016

    Super recomendo que assista para ver se te agrada Isabel! 🙂

  • Fernanda

    Em 16.06.2016

    Parceira de cinema e parceira nas ideias… concordo com você quando compara esse filme ao primeiro de Alice, acho que o primeiro além de nos apresentar o mundo de Wonderland, ao estilo do que já conhecíamos através do desenho da Disney, ele de toda forma, não deixa a desejar. O primeiro consegue nos passar uma mensagem e é fácil perceber o aprendizado de Alice no decorrer do mesmo, já esse, achei que ela ficou mais como uma louca (como você disse), que usa de suas loucuras para fugir da realidade e das atuais necessidades de sua família. Esse ponto não foi muito bem interpretado, tanto que achei que o final ficou forçado, a mãe dela mudar de assunto, assim do nada, sendo que ela sempre viu Alice como errada, ou mesmo louca, ok, ela a ajudou no manicômio, mas ainda assim achei que foi forçado. E devo dizer que também pensei de cara no filme da Máquina do Tempo quando a cronosfera se transformou, acho que era uma associação inevitável! =D

  • Retipatia

    Em 16.06.2016

    Acho que inclusive eu falei com você, enquanto assistíamos ao filme que a cronosfera me lembrou demais a máquina do tempo! rsrsrs As impressões do filme foram as mesmas, né?! Para variar… rsrsrs

  • Andressa Silva

    Em 16.06.2016

    Já li tantas críticas sobre esse filme, tantas pessoas que gostaram, mas tantas que ficaram decepcionadas. Eu não sou tão conhecedora do universo da Alice, mas pretendo assistir este logo para poder tirar minhas próprias conclusões. Estou curiosa depois de tantas opiniões distintasdistintas.

  • Retipatia

    Em 16.06.2016

    Mesmo quando eu não curto muito algum filme sempre recomendo que as demais pessoas assistam, assim cada um pode tirar suas próprias conclusões. E realmente, este filme tem tido opiniões bem divergentes! 🙂

  • Thaís Regina

    Em 16.06.2016

    Eu gostei da sua análise do filme, sendo sincera e fiel a sua opinião. Confesso que ainda não assisti, mas já tinha lido outras críticas sobre o filme e isso me desencorajou a que eu assistisse no cinema e gastasse o dinheiro que às vezes não tenho! hahahah Vou provavelmente procurar para baixar na internet e assistir para então dar minha opinião, mas não estou colocando muitas expectativas…
    Um beijo!
    http://www.janeladesorrisos.com

  • Tais Alice

    Em 16.06.2016

    Criatura!!! Que resenha mais louca foi essa??? Tô babando aqui, porque achei que ficou realmente incrível! Diferenciou-se completamente de todo tipo de resenha de filme que já vi, buscou referências, fez comparações, não se preocupou em não se prolongar… e ficou um espetáculo!
    Elogiou, criticou e ainda encerrou com a imagem comparativa. Amei!
    Não sou muito de “Alice” apesar de carregá-la no nome… hahahaha
    Mas adorei teu trabalho!

    Um beijo.

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